A
volta dos 'números malditos' do crime organizado às camisas de futebol em El
Salvador
O
atacante colombiano Edgar Medrano tem 31 anos de idade e três filhos. Os três
nasceram em um dia 13: o mais velho, em 13 de outubro, a do meio em 13 de
novembro e o caçula, em 13 de junho.
"Gosto
desse número por essa grande coincidência", diz ele.
Desde
que foi integrado ao elenco, em janeiro de 2025, Medrano joga com a camisa 13
do Club Deportivo FAS, um time histórico do futebol de El Salvador, antes
conhecido como o país das gangues. E é por este motivo que sua "grande
coincidência" virou notícia.
O
número 13 que Medrano ostenta hoje nas costas teria sido inaceitável há apenas
quatro anos, quando a gangue Mara Salvatrucha (MS-13) impunha tamanho terror no
país que todos os clubes salvadorenhos, de todas as categorias, deixaram de
utilizá-lo.
O mesmo
aconteceu com a camisa 18, devido à gangue arqui-inimiga da MS-13, chamada
Barrio 18, desde a década de 1990.
Importadas
na época da região de Los Angeles, no Estado americano da Califórnia, as duas
organizações criminosas prosperaram como em nenhum outro país na desgastada
sociedade salvadorenha após a guerra civil (1980-1992).
Durante
décadas, elas mataram, extorquiram e dominaram territórios, estendendo-se pelos
países vizinhos.
Mas,
agora, faltando cerca de 20 minutos para as sete horas da noite de sábado, 11
de outubro, o camisa 13 do FAS está pronto para entrar em campo no Estádio
Óscar Alberto Quiteño, na cidade salvadorenha de Santa Ana, onde a equipe local
enfrentará o Municipal Limeño.
O
número 13 do FAS se adianta ao restante dos jogadores e brinca no túnel com o
menino que não largará sua mão até o campo por nada deste mundo.
"Quando
cheguei da Colômbia, não sabia que era proibido usar as camisas 13 e 18",
conta Medrano.
"Mas
este país mudou, agora é seguro e, por isso, me animei a pedir; e, graças a
Deus, não tive nenhum problema."
Medrano
foi para El Salvador para ganhar a vida como jogador de futebol em 2019. Ele
passou por diversas equipes da Segunda e da Primeira Divisão, mas nunca havia
conseguido jogar com a camisa 13, em homenagem aos seus três filhos.
No ano
passado, ele jogou no Club Deportivo Águila com o número 20 às costas.
<><>
Nem 13, nem 18
Até
três anos atrás, os números 13 e 18 eram "malditos" em El Salvador,
devido à sua imediata relação com as gangues criminosas.
Nos
estádios, nas ruas e nos bairros, levar estes números nas costas poderia ser
interpretado como provocação.
Por
isso, eles desapareceram por completo das escalações e dos uniformes por quase
uma década. Os jogadores não pediam os números, nem os técnicos os designavam.
Mas, em
questão de segurança, El Salvador se transformou. E o futebol, inevitável
espelho da sociedade, começa a refletir isso.
O país
estabeleceu sua polêmica regime de exceção em março de 2022, como eixo da
política de segurança do governo do presidente salvadorenho Nayib Bukele e seu
combate às gangues criminosas.
Naquele
momento, estava em disputa o Torneio Clausura (uma espécie de segundo turno) da
Primeira Divisão de El Salvador e nenhuma equipe tinha esses números nas suas
camisas.
Atualmente,
três clubes utilizam os números 13 ou 18: o FAS, o Fuerte San Francisco e o CD
Hércules.
Em um
país que chegou a ter o índice de homicídios mais alto do mundo (106 a cada 100
mil habitantes, em 2015) e hoje registra um índice inferior a 2, o
ressurgimento paulatino desses números não é uma simples história do esporte. É
um termômetro da confiança coletiva.
"Se
você usasse o 13, a outra gangue não gostava; se usasse o 18, acontecia o
inverso; e poderia haver conflitos com o jogador ou com o clube", declarou
o presidente do Fuerte San Francisco, Paúl Guzmán.
Seu
clube é o único que, atualmente, usa os dois números nas suas escalações.
Cristian
Belucci também não é salvadorenho. O zagueiro argentino nasceu em La Plata, tem
26 anos e chegou ao Fuerte San Francisco em junho de 2025, sem a carga da
história local.
Exceto
na Primeira Divisão nacional, como explica Belucci, a Argentina adota a
numeração das camisas baseada na posição de cada jogador. Eles são atribuídos
de forma diferente a cada jogo.
O
zagueiro central que conte com a confiança do treinador será o número 2, por
exemplo. Por isso, é muito provável que diferentes jogadores usem o mesmo
número, em uma mesma temporada.
Mas a
linguagem futebolística de El Salvador é diferente. E, quando pediram a Belucci
que escolhesse um número para jogar, ele optou pelo 18, também por uma razão
sentimental, como Medrano, o camisa 13 do FAS. Seu pai faz aniversário no dia
18.
"Na
verdade, eu não sabia que não podíamos usar o 13 e o 18", contou ele.
Mas
houve algum inconveniente, algum grito pejorativo por ser o número 18 do
Fuerte? Não, nenhum.
Belucci
mora em San Miguel (a cerca de 30 km de San Francisco Gotera, sede do Fuerte
San Francisco). Ele se movimenta pela cidade sem medo e sua família está
satisfeita com o país.
"El
Salvador está muito bem agora, e este é o momento de virar a página",
afirma ele.
<><>
E, com o número 13...
"...
Nelson Bonilla com a 9 e complementa Edgar Medrano, com o número 13. Edgar
Medrano, com o número 13. É o onze inicial que manda a campo o técnico
principal...", ouve-se pelo megafone do Estádio Óscar Alberto Quinteño, a
casa do FAS.
O
público presente ao Quinteño aplaude. Não há silêncio, nem tensões. Apenas
normalidade.
O jogo
começou há alguns minutos. O 13 do FAS se movimenta pelo setor direito do
ataque.
Somos
cerca de 2,5 mil espectadores no estádio e o público está concentrado na
partida. Cantos de "FAS, você pode!" soam do alambrado.
"Antes
de Medrano, o último a usar a 13 foi Moscoso", conta Jaime Alfaro, um
senhor de 79 anos que, aqui, todos conhecem como Payino. Ele dedicou metade da
vida ao clube e cumpre a função de fiscal de campo.
"Depois
de Moscoso, ninguém se atreveu, mas, agora, não há mais medo. E tomara que
continue assim, pelo bem do futebol e do povo", exclama Alfaro.
O
Moscoso a que ele se refere é Juan Carlos Moscoso, jogador que veio da base e
símbolo do FAS. Ele dominou o futebol salvadorenho na primeira década do século
21.
Os
torcedores mais antigos ainda se lembram do gol de Moscoso na final do Torneio
Apertura do campeonato salvadorenho de 2009, quando o FAS venceu o Águila por
3x2 na prorrogação, conquistando o título.
"O
número 13 sempre foi meu número porque comecei na Segunda Divisão com essa
camisa, em 1999", conta Moscoso. "E, em 2005, quando Neto Góchez saiu
do FAS e a 13 ficou livre, eu pedi a camisa. Eram outros tempos."
Moscoso
foi o número 13 do FAS por toda uma década, até que se transferiu para a
Universidad de El Salvador, em 2015.
"Na
UES, usei o 21 porque não quiseram que ninguém jogasse com a 13, nem com a
18", recorda ele.
Na
época, as gangues já não eram apenas um problema de segurança pública. Elas
haviam se transformado em uma questão de segurança nacional.
"A
época difícil das gangues", relembra Payino, o fiscal de campo.
O FAS
marcou o primeiro gol do jogo aos 43 minutos do primeiro tempo. Um tirambaço de
direita do zagueiro José Guevara de fora da área impossibilitou a defesa do
goleiro.
O
camisa 13 não participou da jogada, mas lá está ele, comemorando o triunfo
momentâneo, abraçado aos seus companheiros.
Os
gandulas (ou boleros, como são chamados em El Salvador) são meninos que jogam
nas categorias inferiores do clube. Eles também comemoram o gol.
"Antes,
ninguém usava a 13, nem a 18... porque não — e não havia discussão. Era
assim", conta um dos gandulas, Gerson Portales, de 16 anos. Ele joga no
sub-17 do FAS e cresceu em um bairro dominado pelas gangues, chamado América.
Ele ainda mora ali.
"A
gente já sabia e nem perguntava. Nós agarrávamos os números como quiséssemos,
desde que não fossem aqueles dois", confirma o meio-campista Óscar
Menéndez, de 16 anos. Ele mora no bairro Río Zarco, que passou décadas sendo
feudo da MS-13, na zona norte de Santa Ana.
<><>
Nem o 'Loco' Abreu
O
abandono dos dois números foi um processo que afetou primeiramente as equipes
dos bairros e o futebol regional.
Em
2011, a renúncia às camisas 13 e 18 já era normal na Terceira Divisão
profissional e atingia a grande maioria da Segunda.
Mas a
situação chegou às manchetes internacionais em julho de 2016, quando o uruguaio
Sebastián "El Loco" Abreu chegou a El Salvador aos 39 anos, para
jogar no Santa Tecla, da Primeira Divisão do país.
Ele se
gabava da sua paixão pela 13 desde o início da carreira e quis usar o número em
El Salvador. Chegou a ser presenteado com a camisa 13.
Mas
"Loco" Abreu, que também passou por vários times brasileiros,
ganharia o Torneio Apertura de 2016 com a 22 "por segurança", segundo
lhe disseram.
Uma
década depois, esta história está mudando, pouco a pouco.
Alex
"el Cacho" Larín, de 33 anos, da seleção nacional salvadorenha, foi o
primeiro a se atrever a colocar o 13 nas costas na Primeira Divisão do país,
nesta nova fase.
"Para
mim, o 13 sempre foi um número de sorte, desde que me saí bem com ele na
seleção sub-20", ele conta.
Quando
jogou no FAS, aos 20 anos de idade, Larín não pôde usar a 13, que ainda era de
Moscoso.
"Nestas
questões, é preciso respeitar os mais velhos, o status", declarou ele.
Ele
conseguiu finalmente usar a 13 em 2023, jogando pelo Alianza FC no Torneio
Clausura de El Salvador. Larín estava de volta ao país, depois de uma bem
sucedida carreira no México, Costa Rica e Guatemala.
Seu
gesto foi mais simbólico que ele imaginava. O próprio presidente Nayib Bukele
mencionou o caso.
Desde
então, Larín passou pelo Águila e, em junho deste ano, foi apresentado ao
elenco do CD Hércules. Em todos estes clubes salvadorenhos, ele usou a camisa
13.
"Convido
os demais jogadores, se gostarem do número e lhes cair bem, que o
procurem", incentiva ele. "Agora, graças a Deus, o país está
superseguro."
Sua
decisão quebrou o gelo, por assim dizer, fazendo com que os números 13 e 18
voltassem a marcar presença nos principais estádios de El Salvador.
<><>
Satisfação e prudência no alambrado
Luis
Mario Moreno, de 64 anos, morador da vizinha San Antonio, é torcedor do FAS por
toda a vida e presença habitual no alambrado do estádio.
"Tudo
mudou", ele conta. "Hoje, saímos do Quiteño sem medo, até quando
jogamos à noite, como agora."
"Antes,
as partidas eram geralmente de dia, já que alguns dos bairros vizinhos são
muito perigosos."
Ele não
menciona especificamente, mas, de fato, a sudeste do estádio, fica a comunidade
Emanuel, que foi por anos um bastião quase inexpugnável da MS-13 em Santa Ana.
Hoje,
ela é mais uma comunidade. "Realmente, o problema diminuiu", afirma
Moreno.
Pergunto
por que, então, ainda existem nove clubes na Primeira Divisão do país que
resistem a usar as camisas "malditas".
Moreno
acredita que "ainda é muito recente". Ele se refere à época em que a
MS-13 e o Barrio 18 dividiam o controle de grande parte do território
salvadorenho.
"Colocar
a camisa do time com o número 13 ou 18 ainda amedronta os torcedores",
admite Moreno.
Em
outros tempos, era notória a presença de membros ativos das gangues criminosas
entre os torcedores mais violentos das equipes de futebol.
Salvador
Alberto Jovel é morador de Santa Ana e pertence à célula Western Locos da
MS-13. Em entrevista à BBC News Mundo no Centro de Confinamento do Terrorismo
(Cecot) em 2023, ele declarou ser torcedor fanático do FAS e presença habitual
no Estádio Quiteño.
Com
isso, Moreno afirma que a rejeição às camisas 13 e 18 acabarão desaparecendo.
"Mas talvez seja preciso esperar mais dois anos", calcula ele.
Suas
palavras trazem um certo diagnóstico social, embora não venham de um
profissional. É a impressão de alguém que avalia a segurança no dia a dia.
Luis
Ramírez é outro torcedor do FAS da vida inteira. Ele assiste à partida com sua
esposa.
Nascido
em Cutumay Camones, localidade vizinha a Santa Ana, hoje ele mora em Orlando,
na Flórida (Estados Unidos), mas tenta comparecer ao Quiteño sempre que viaja
para El Salvador.
Ramírez
tem 51 anos e conta outra história que demonstra o impacto brutal das gangues
no futebol e na sociedade salvadorenha.
O FAS
foi campeão pela 17ª vez no Torneio Apertura de 2009. Seguiu-se um período de
11 anos sem títulos, até o clube vencer o Clausura, em 2021 — sua 18ª
conquista.
"Eles
diziam '17+1', para não pronunciar o número 18", ele conta.
"Eles,
quem?"
"Os
torcedores, diretores, até a Turba Roja [a torcida organizada do FAS]. Todos
nós dizíamos 17+1!"
"Começaram
até a dizer que a MS-13 teria dito que o time não poderia ganhar pela 18ª vez,
porque era o número da outra gangue."
Enquanto
Ramírez me conta sua história, o árbitro marca pênalti contra o FAS.
Suspendemos a conversa para acompanhar a cobrança.
O chute
bem colocado do atacante adversário (o também colombiano Erik Correa) engana
por completo o arqueiro do FAS, empatando a partida para o Municipal Limeño.
"O
goleiro não pôde fazer nada", lamenta Ramírez. E a conversa prossegue.
"Bukele
resolveu o problema da segurança, é preciso reconhecer", admite ele.
Especialistas
e analistas concordam que, com suas controversas políticas de segurança, o
governo Bukele conseguiu praticamente desarticular as gangues criminosas.
Mas
seus críticos, bem como organizações nacionais e internacionais, acusam o
presidente de atingir este objetivo transformando El Salvador em um dos países
com o maior índice de presidiários do mundo. São centenas de pessoas
encaminhadas à prisão, com julgamentos em massa e sem respeitar o processo
devido.
Mais de
85 mil pessoas foram detidas nos três anos que se passaram desde que Bukele
declarou estado de emergência em El Salvador. Este número corresponde a cerca
de 1,4% da população do país.
Investigações
jornalísticas também indicam que o governo do presidente Bukele, antes de
iniciar a guerra contra as gangues, teria mantido negociações e acordos com a
MS-13 e o Barrio 18. O presidente nega as acusações.
<><>
A resposta do governo
"Ficamos
satisfeitos ao observar que os estigmas relacionados a capítulos da nossa
história, pouco a pouco, vão sendo rompidos e erradicados", declarou o
presidente do Instituto Salvadorenho dos Esportes (Indes) Yamil Bukele, irmão
do presidente de El Salvador, Nayib Bukele.
Questionado
por que nove das 12 equipes de futebol da Primeira Divisão nacional continuam
jogando sem as camisas 13 e 18, ele demonstra sua esperança de que a situação
"irá se normalizando".
"Existem
diferentes realidades e formas de viver toda esta etapa obscura da nossa
história", prossegue ele, "e confiamos que, mais cedo do que se
espera, esses detalhes deixarão de ser tema de discussões."
Outro
jogador da Primeira Divisão salvadorenha está rompendo o tabu dos números
proscritos. Trata-se de Eduardo Luna, o camisa 13 da equipe Fuerte San
Francisco.
"É
um menino de San Francisco Gotera, criado em um bairro problemático, com
presença da MS-13", conta o presidente do clube, Paúl Guzmán.
"E
veja a coragem deste jovem, que nunca esteve envolvido nas gangues, sempre quis
se destacar como jogador de futebol, conseguiu e, quando saiu da reserva e nos
pediu a camisa 13, nós a concedemos com muito prazer."
Guzmán
convoca outras equipes a também voltar a ter o 13 e o 18 nas suas camisas.
"Afinal,
são números. O passado é passado."
Aqui no
Quiteño, chegamos aos 50 minutos do segundo tempo. O jogo continua 1x1 e o FAS
segue no ataque.
Christopher
Ortiz, um dos jovens que entraram aos 38 do segundo tempo para renovar o
ataque, chuta de 40 metros de distância. O chute sai mal e é desviado por um
zagueiro.
Mas a
bola cai fora da área nos pés de Roberto Melgar, que também entrou no segundo
tempo. Ele se dirige à baliza e faz um belo passe para Medrano, o camisa 13 do
FAS.
O
colombiano alcança a bola com dificuldade para devolvê-la. Ela cai de volta
para Melgar, que chuta forte de canhota. Gol!
O
estádio explode aos 51 minutos do segundo tempo. "FAS, você pode!"
A
vitória no apagar das luzes consolida o FAS na parte superior da tabela e o
coloca próximo da liderança.
Mas,
além da conjuntura da partida, do torneio e da temporada, o mais importante
talvez seja que, depois de muito tempo, podemos escrever crônicas narrando que
o passe que levou ao gol da vitória veio de um certo Medrano, camisa 13 do FAS.
El
Salvador é hoje, um país que começa finalmente a se reconciliar com seus
próprios números.
Fonte:
BBC News Mundo

Nenhum comentário:
Postar um comentário