Lula
3 – equilíbrio precário, democracia travada
O
objetivo deste dossiê é fazer um balanço provisório do terceiro período de Luiz
Inácio Lula da Silva à frente da presidência da República. Busca-se entender
aspectos do governo, bem como de outros atores que marcaram esta etapa da vida
nacional. Como os artigos foram entregues em maio de 2026, nenhum juízo
definitivo pôde ser emitido, faltando sete meses para o mandato ser concluído.
Até o
ponto que nos foi dado acompanhar, para além de manter o apoio de um terço do
eleitorado, sendo competitivo para o pleito de outubro próximo, o presidente
logrou manter à tona a combalida democracia brasileira, alvejada, porém, pelo
projeto bolsonarista e um ambiente internacional cada vez mais autoritário.
As
dificuldades institucionais, em meio à distorção causada pelas emendas
parlamentares impositivas e a um escândalo (Banco Master) que envolve meia
República, inclusive ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), se juntaram a
outros fatores para manter um segundo terço dos votantes numa renitente
oposição ao terceiro governo Lula. Em termos eleitorais, o elemento decisivo do
embate é a percepção oscilante a respeito da economia dos brasileiros in
between.
Estes,
cujo critério de escolha é pragmático, se encontram divididos entre os empregos
e a renda gerados pelo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e a
frustração ocasionada pelo aumento do custo de vida e do endividamento das
famílias, temas centrais desta coletânea. Diga-se, desde logo, que os vínculos
entre política e economia ocupam lugar privilegiado nas reflexões a seguir, sem
prejuízo de que outras dimensões possam esclarecer áreas que ficaram fora do
nosso foco.
A
síntese que alcançamos aponta para um equilíbrio precário, sob a ameaça de, a
qualquer momento, observar as forças que pugnam em favor do retrocesso
autocrático se tornarem outra vez dominantes. O quadro reproduz, com fortes
tintas locais, o que se observa nos regimes democráticos espalhados pelo mundo.
Uma aguda divisão da sociedade, travando a democracia em um ponto no qual não
consegue traduzir em medidas efetivas as aspirações das grandes maiorias. Ao
mesmo tempo, mecanismos como a realização de eleições periódicas ainda resistem
à ameaça representada pela autocratização somada a elementos que lembram o
fascismo do século XX.
O
reformismo fraco, opção estratégica desenvolvida pelo lulismo desde o começo
dos 2000, mostrou-se menos eficiente diante dos constrangimentos que se
apresentaram nesta paisagem radicalizada. Até o momento em que encerramos este
relato, falta marca distintiva, como foi a seu tempo o Bolsa Família, ao
mandato que se encerra em primeiro de janeiro de 2027.
Quiçá,
iniciativas como a isenção do Imposto de Renda para os que ganham até R$ 5 mil
ou a mudança da jornada semanal de trabalho tenham, no futuro, um peso
simbólico análogo ao da transferência de renda que favoreceu os mais
vulneráveis. Chama a atenção, entretanto, que sigam em estágio probatório às
vésperas da campanha de 2026. Convém recordar que o Bolsa Família foi lançado
no segundo ano do primeiro mandato Lula, ganhando projeção crescente ao longo
do terceiro ano de governo.
Os
problemas postos para as coalizões democráticas, como foi o caso daquela
encabeçada por Joe Biden, têm confundido os analistas e os próprios
governantes. A Casa Branca, por exemplo, parece ter subestimado os efeitos do
pico inflacionário de 2022, que corroeu o poder de compra das camadas
populares.
No
Brasil, a panela de pressão representada pelo custo dos alimentos apitou no
primeiro semestre de 2025 e o Planalto resolveu apostar, sobretudo, na
supersafra para conter a queda de popularidade. Naquele momento deu certo, mas
diante da onda altista desencadeada pela guerra dos Estados Unidos contra o Irã
em 2026, talvez apenas o controle de preços da cesta básica tivesse a mesma
efetividade. O tempo dirá o que agora é impossível prever.
Os
artigos que serão lidos a seguir buscam iluminar aspectos específicos deste
equilíbrio precário. Adotamos um ponto de vista que enfatiza a relação entre
política e economia, perspectiva que julgamos decisiva, mas que, devido à
especialização acadêmica, tem sido subestimada. Não obstante, há no dossiê e,
mesmo na apresentação, ampla variedade teórica e até mesmo avaliações
diferentes a respeito do mandato de Lula.
Acreditamos
que o pluralismo disciplinar e metodológico dá riqueza ao trabalho, abrindo
caminho para lançar luz sobre elementos contrastantes da experiência que
buscamos avaliar. Os autores, com os quais tivemos o privilégio de colaborar,
são economistas, juristas, filósofos, sociólogos e cientistas políticos, que
tiveram ampla liberdade para expressar pontos de vista particulares.
De modo
a contextualizar as contribuições que compõem o dossiê, dividimos a
apresentação em quatro partes. Na primeira, resumimos o agravamento do quadro
internacional a partir de 2023, indicando o sentido autoritário para o qual
aponta. Na segunda, sugerimos uma abordagem teórica capaz de colocar em
perspectiva o processo, no qual a precariedade democrática convive com a
catástrofe anunciada. Na terceira e quarta partes, destacamos alguns aspectos
específicos do terceiro governo Lula e, em seguida, apresentamos os trabalhos
que compõem o dossiê.
<><>
Um mundo em chamas
Na
coletânea O segundo círculo, publicada dois anos atrás, escrevemos o
seguinte: “O acirramento da disputa pela direção geopolítica, no plano
internacional, assim como nos seus desdobramentos regionais, implica a
intensificação da violência estatal, para fora e, potencialmente, para dentro,
o que poderá vir a fazer parte do panorama trazido pela militarização” (Singer,
Ricupero, Araujo e Rugitsky, p. 26). A tendência se confirmou, trazendo
implicações para o assunto que nos ocupa agora.
Em
vista do óbvio poder de influência do Estado que voltaria a governar (Estados
Unidos), o retorno de Donald Trump à Casa Branca significava uma onda de abalos
sísmicos para os países regidos por democracias. Endurecido pela experiência do
mandato anterior, Donald Trump reassumiu o cargo sem disposição conciliadora e,
bem ao contrário, com ímpeto de completar a tarefa autocrática que abraçou.
Embora
seu discurso de campanha fizesse supor um governo centrado nos assuntos
domésticos, desde o início o presidente eleito acabou voltando-se especialmente
para as relações exteriores, indicando que estas seriam objeto de força bruta,
sem escrúpulos de se intrometer nos assuntos internos de outras nações. Mesmo o
tarifaço, que lançou às favas um sistema de trocas comerciais longamente
estabelecido, em princípio consistente com a orientação protecionista anunciada
na campanha, converteu-se em mero instrumento de abuso de povos e um meio de
proteger lideranças aliadas ao movimento Make America Great Again (MAGA).
Ato
contínuo, o autocrata lançou-se às vias de fato. Desde meados de 2025, a
máquina de guerra norte-americana, montada num cortejo de porta-aviões e barcos
flutuantes e submersos, armados até os dentes, gira ao redor do planeta à caça
de inimigos. Como sabemos, testou o Irã, ainda em 2025, submetendo-o a um
bombardeio articulado com Israel, supostamente para destruir o programa nuclear
dos aiatolás. Em seguida, ordenou o bloqueio naval da Venezuela, que culminou,
terminado o réveillon, numa operação espetacular de sequestro de Nicolás Maduro
e Cília Flores. Balançando o porrete diante dos demais governantes
latino-americanos, de modo a fazê-los tremer pelo exemplo, Donald Trump
concluía um quarto de seu segundo mandato como o valentão saído dos filmes do Velho
Oeste.
Talvez
animado pelo êxito, e sem ter sido provocado para tanto, o mandatário decidiu
retomar o ataque contra o Irã, novamente apoiado por Israel e desta vez com o
objetivo de derrubar o regime, tentando colocar ponto final num entrevero de
quase meio século. Se antes havia alguma margem para dúvidas, este passo deixou
claro que a conquista militar passou a orientar o trumpismo. A investida
colocou uma região inteira sob chamas e, dada sua posição estratégica, abalou o
fornecimento global de energia e outras mercadorias.
Até
aqui, pelo menos, o novo sucesso está longe de ser alcançado. Ironicamente, a
razão principal disso não é de ordem técnica-militar, mas um assunto de âmbito
doméstico, que se intrometeu na guerra como que pela porta dos fundos,
voltando-se contra um Executivo que havia prometido lhe dar a máxima atenção.
Perturba o chefe, mesmo desejando governar autocraticamente a eleição
parlamentar de novembro, a qual deverá ocorrer sob a influência da elevação dos
preços causada pelo ataque ao Irã.
Neste
ponto, cabem duas observações. A primeira é que a possibilidade de uma guerra
generalizada retornou ao centro dos acontecimentos. Donald Trump sequer
disfarça a intenção de lidar com as questões globais pura e simplesmente pela
força, ao arrepio de qualquer direito comum entre as nações. Faz o que faz
porque o Estado que preside, falto da vantagem que antes detinha no plano
econômico, pode se valer da que ainda dispõe na dimensão militar.
A
China, pelas mesmas razões de fundo, por ora faz o inverso: busca assumir ares
de potência responsável, comprando, por exemplo, direitos de exploração em
terras alheias. Prepara o terreno para uma nova hegemonia. Já os países
situados na linha média da escala global – entre os quais, o Brasil – se
encontram cada vez mais pressionados a tomar partido entre os dois contendores.
A
segunda observação é relativa às democracias. A recorrência da guerra faz par
com a quebra dos consensos internos, esteio dos regimes democráticos, em
particular daqueles que, até há pouco, a ciência política considerava
consolidados. Uma parte das sociedades não aposta mais no consenso democrático,
dispondo-se a romper com as regras e práticas que possibilitam a alternância do
poder e a existência de uma oposição pública, não sujeita à represália dos
poderosos de plantão.
Como
resultado, segmentos expressivos da direita tradicional se deslocam para
posições que têm como desaguadouro a extrema direita ascendente. Fazem-no
percebendo que essas posições encontram respaldo na cidadania e no eleitorado.
O travamento democrático, resultante da dinâmica de confronto, agrava a
descrença, em um circuito que se retroalimenta. É curioso que esse quadro
ultrapasse a história particular de cada regime democrático – do contrário,
seria plausível que, derivado de lugares diferentes, ocorresse em tempos
diferentes. O despedaçamento das democracias vem se dando de forma sincrônica,
como que formando um sistema de vasos comunicantes.
<><>
Teoria em meio a varetas
Até o
momento, salvo poucas exceções, a situação permanece travada, não quebrando em
definitivo as democracias, embora as desgastem até perto do limite, como se
pode observar na Turquia sob o domínio de Recep Erdoğan. As chances de
alternância, embora débeis, continuam disponíveis, como se verificou na Hungria
em abril de 2026. O pendor autoritário de parcela da sociedade e o campo de
extrema-direita que nela cresce ainda foram incapazes de sobrepujar de uma vez
por todas o campo adversário.
Do
outro lado, as forças democráticas, identificadas de maneira imprecisa com
posições progressistas, não conseguem oferecer uma alternativa que dissolva a
crise. Nas nações em que a situação persiste – no Brasil, inclusive –, vive-se
um quadro de equilíbrio precário, uma espécie de “mau equilíbrio”, digamos
assim, no qual, como em um jogo de varetas, ao se retirar uma, pode-se derrubar
todas as demais.
Nas
eleições presidenciais da Coreia do Sul, de março de 2022, o candidato Yoon Suk
Yeol venceu Lee Jae-myung por 0,7%. No segundo turno do pleito brasileiro, em
outubro do mesmo ano, Luiz Inácio Lula da Silva ganhou de Jair Bolsonaro por
1,8% dos votos válidos. Dois anos depois, Donald Trump bateu Kamala Harris por
1,5%. Mais uma vez, no segundo turno colombiano, ocorrido em junho de 2026, a
diferença foi mínima, Abelardo de la Espriella superando Iván Cepeda por 0,96%.
Em
todas, candidatos de extrema direita disputaram contra concorrentes que
mobilizaram forças bastante variadas, identificadas com a democracia, em
disputas decididas milimetricamente (na Coreia do Sul, nos Estados Unidos e na
Colômbia, a extrema-direita ganhou; no Brasil, foi derrotada). O quadro vem se
repetindo no planeta: um bloco em torno da extrema direita; outro, de tamanho
equivalente, representa a resistência democrática. Um delicado equilíbrio
produz coalizões que se repetem.
Sobre
isso, vale tecer algumas considerações de ordem teórica, dialogando com a noção
de equilíbrio catastrófico, elaborada por Antonio Gramsci há quase um século. O
revolucionário sardo falava de “uma situação em que as forças em luta se
equilibram de modo catastrófico, isto é, se equilibram de tal forma que a
continuação da luta só pode terminar com a destruição recíproca”.
É
verdade que, pouco antes, os Cadernos do cárcere associaram o equilíbrio
catastrófico ao chamado cesarismo; possível solução (provisória) para o impasse
por meio do recurso a uma terceira força, no caso, um homem providencial e
carismático: o César. No entanto, mais importante é a estrutura do equilíbrio
catastrófico, podendo “haver soluções cesaristas sem um César, sem uma grande
personalidade ‘heroica’ e representativa”.
A
catástrofe é associada por Gramsci a uma “crise orgânica”, que ameaçaria a
sobrevivência dos grupos em pugna, até porque não estaria claro se algum deles
seria capaz de ganhar, tornando-se hegemônico. Trata-se de uma polarização,
acompanhada de aparente imobilismo. Em tal quadro subsiste uma espécie de nó
que, no limite, pode evoluir para a eliminação mútua dos que se enfrentam.
Pode-se, contudo, imaginar diferentes soluções para a crise de hegemonia. Em
sentido positivo, a transição de uma época para outra. No sentido negativo, o
desmoronamento de certo bloco histórico, ocasionando uma espécie de interregno
que não se resolve, prolongando-se quase indeterminadamente.
Antonio
Gramsci afirma que a hegemonia se perde quando as classes dirigentes fracassam
e dá como exemplo a guerra, “para a qual pediu ou impôs pela força o consenso
das grandes massas”. Antes, no Caderno 3, §34, o autor notou que depois da
Primeira Guerra Mundial houve um afastamento das massas da ideologia dominante.
É bastante provável que estivesse pensando na situação que conduziu a Itália ao
fascismo, solução cesarista para a crise de hegemonia que boa parte da Europa
viveu depois do conflito, quando a revolução socialista esteve no horizonte de
possibilidades. No equilíbrio catastrófico entre classes dominantes e grupos
subalternos, garantiu-se, recorrendo a uma figura cesarista, o Duce, a
preservação dos interesses das primeiras.
Pode o
quadro atual ser interpretado como equivalendo a uma situação de equilíbrio
catastrófico? As diferenças do momento presente com os anos 1920 chamam a
atenção. Não nos encontramos certamente em situação pré-revolucionária. Na
realidade, desde 1989, talvez lidemos com o seu oposto, não havendo perspectiva
de superação do capitalismo. Além do que, a luta não se apresenta, de maneira
geral, entre burguesia e proletariado, mas entre a extrema-direita e uma
heterogênea frente de defesa da democracia, ambas com apoio tanto nas classes
dominantes quanto nas subalternas – em graus diferentes, a depender do país.
Em
outras palavras, a crise ou, talvez seja melhor dizer, crises precisa(m) ser
interpretada(s) de acordo com sua(s) especificidade(s). Gramsci notara que “em
cada país o processo é variado, apesar do conteúdo ser o mesmo”. Pode-se
acrescentar que cada época tem diversas maneiras de viver sua crise. Mesmo
assim, o conteúdo da “crise de hegemonia da classe dirigente” seria semelhante,
porque “fracassou em algum grande empreendimento político” no qual precisava do
“consenso das grandes massas”.
No caso
brasileiro, seria possível pensar em um fracasso da classe dirigente com a Nova
República, empreendimento cujos marcos foram estabelecidos pela Constituição de
1988 e que foi encontrando seus limites no decorrer dos anos 2010, quando se
inicia uma regressão de tipo 1964. Esse é, porém, um problema que transcende ao
Brasil. A partir do crash financeiro de 2008, a ordem neoliberal – que
se impôs em todo o mundo, inclusive em Pindorama, paralelamente e se
confundindo com a Nova República – deixou de ter o “consenso das grandes
massas”, o que abriu caminho para a emergência do que tem sido chamado de
populismo – tanto nas suas versões de esquerda como, principalmente, de
direita.
Nesse
processo, entretanto, não houve alternativa teórica à doxa do livre
mercado nem real questionamento político ao capitalismo. Tal quadro contrasta
com a reação à grande depressão de 1929, que abriu caminho para alternativas,
mesmo dentro do capitalismo – o keynesianismo e movimentos políticos dos mais
variados que se opunham ao liberalismo dominante, da “Casa do Povo”
social-democrata sueca ao nazismo alemão, passando pelo New Deal norte-americano.
O atual
descrédito do neoliberalismo dá a sensação de que se pode passar do capitalismo
não para o socialismo ou para uma alguma ordem alternativa, mas para o que tem
sido caracterizado como “um longo interregno […] um longo período de
entropia social, ou desordem (e precisamente por essa razão um período de
incerteza social e indeterminação)” (Streeck, 2016, p. 18).
Talvez
seja a diferença crucial: enquanto o confronto dos anos 1920 refletia a força
do proletariado e colocava em questão a dominação do capital, um século mais
tarde estamos diante de classes fragmentas e fragilizadas pela avalanche
neoliberal. O resultado é um travamento que não se resolve, uma vez que nenhum
dos grupos “equilibrados” oferece horizonte para além do neoliberalismo.
Embora
essa virtual longa deriva possa se revelar, ao fim e ao cabo, “catastrófica”,
preferimos o termo “equilíbrio precário” por ressaltar melhor a peculiaridade
da situação em curso. Primeiro, o equilíbrio em questão não expressa um embate
entre dois grupos ou classes sociais antagônicas, nem se trata de um “empate”
que ameaça aniquilar mutuamente essas classes. Na verdade, no que se costumava
chamar de nações capitalistas centrais, existe hoje uma profunda divisão que
atravessa praticamente todas as classes, ricos e pobres, alta burguesia e
classes trabalhadoras.
Mesmo
que separe também os ricos e a alta burguesia, o elemento dinâmico da cisão –
por sua força numérica e relevância eleitoral – ocorre principalmente na metade
inferior da pirâmide social: parte dela se deslocou para a extrema direita,
enquanto a outra permaneceu fiel às opções democráticas.
No caso
brasileiro, vale notar uma peculiaridade. A divisão das classes populares
parece respeitar certa hierarquia, com o subproletariado e parte do
proletariado pendendo para a opção democrática, enquanto as fileiras da extrema
direita são compostas por outra parte do proletariado e pelas camadas
intermediárias; mas há também uma forte divisão regional, particularmente entre
o Nordeste e o interior continental do país, a Oeste.
Em
segundo lugar, o que explica a precariedade do equilíbrio é que a maioria da
cidadania e do eleitorado está firmemente fixada num dos campos antagônicos,
enquanto uma terceira camada, minoritária, mas de tamanho variado, permanece
“flutuante”, agregando resíduos de quase todas as classes e fazendo um
movimento pendular a cada eleição, às vezes inclinando-se para um lado, às
vezes, para o outro. Em consequência, os resultados são frágeis – obtidos por
pequena margem – e provisórios. Disputa-se, em particular, o apoio dessa camada
minoritária, cada lado enfatizando aspectos de seu programa com mais chances de
seduzi-la.
A
provisoriedade dos resultados deriva também de que nenhum dos campos
adversários, mesmo quando vitorioso, consegue superar o desarranjo
socioeconômico que alimenta a anomia. Ambos mantêm uma relação ambígua com um
regime neoliberal à deriva – provavelmente porque certas frações burguesas que
se entrincheiram em cada lado, inteiramente financeirizadas, bloqueiam qualquer
tentativa de superá-lo.
A
consequência é o “mau equilíbrio”, em que um lado cimenta vínculos na agressão
aos marcos normativos e institucionais da democracia, ao mesmo tempo que o
outro se une apenas na resistência a essas agressões. Até aqui, o campo
agressor, ofensivo, não reúne força suficiente para romper o “empate”, enquanto
o campo resistente, mesmo no governo, não consegue sair da posição defensiva e
mover o respectivo regime democrático do “mau equilíbrio” em que está para um
“bom equilíbrio”. Não logra colocar em operação medidas que restabeleçam o
consenso mínimo na base da sociedade.
Fonte:
Por André Singer, Bernardo Ricupero, Cicero Araujo e Fernando Rugitsky,
para A Terra é Redonda



