quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Como as bets se apossaram e capturaram o desejo no futebol

Houve um tempo em que o futebol ensinava a esperar.

Esperar o domingo, o clássico, os noventa minutos, o gol improvável. Parte da beleza estava justamente aí: ninguém sabia o que aconteceria. A indústria das apostas descobriu que essa incerteza também poderia ser transformada em mercadoria.

E não acrescentou simplesmente uma atividade comercial ao futebol. Mudou a maneira de olhar para ele. O apostador não precisa esperar o jogo terminar. Há o escanteio, o cartão, o próximo gol, o primeiro tempo, o jogador que marcará. A partida, antes vivida como narrativa coletiva, fragmenta-se em dezenas de acontecimentos monetizáveis. Pode-se assistir ao próprio time vencer e terminar a noite sentindo que perdeu. Porque a aposta perdeu.

Talvez esteja aí uma das transformações mais profundas produzidas pelas bets: o futebol deixou de disputar apenas nossa paixão e passou a disputar nossa expectativa. E expectativa é matéria-prima extraordinariamente lucrativa.

“Não foi dessa vez.” Faltou um gol. Um cartão. Um escanteio. Quase. E justamente porque foi quase, tenta-se novamente. A derrota deixa de ser encerramento e passa a alimentar a repetição.

A questão, portanto, ultrapassa a velha oposição moral entre virtude e vício. É preciso perguntar o que acontece quando uma estrutura econômica aprende a transformar desejo, expectativa, frustração e repetição em fontes permanentes de receita.

Loïc Wacquant recupera de Max Weber a expressão “capitalismo de pilhagem” para pensar formas predatórias de acumulação em outro contexto. Talvez possamos deslocar a imagem. Porque não se extrai apenas dinheiro. Extrai-se tempo, atenção, expectativa e desejo. Quanto mais alguém permanece dentro do circuito, mais valioso se torna. O produto não é simplesmente a aposta. O produto é a permanência do apostador no circuito.

Por isso talvez tenhamos feito durante anos a pergunta errada sobre o futebol. Perguntamos se partidas estavam sendo manipuladas. Existem casos comprovados de corrupção e manipulação esportiva, assim como suspeitas nunca demonstradas. Mas não precisamos transformar suspeitas em certezas para compreender o que aconteceu.

A engrenagem não depende de todos os jogos serem fraudados. Basta transformar a imprevisibilidade do futebol em oportunidade permanente de apostar. O problema nunca foi apenas descobrir se o jogo estava sendo manipulado. Era perceber que o desejo de quem assistia já estava.

No dia 25 de setembro o governo federal proibiu no Brasil as apostas de quota fixa. A medida pode interromper juridicamente um ciclo. Mas uma lei não desfaz imediatamente aquilo que esse ciclo produziu. As plataformas podem sair do ar, as marcas podem desaparecer das camisas e os anúncios podem deixar as transmissões. O hábito não desaparece por decreto. Nem a compulsão. Nem a forma de olhar.

É aqui que a discussão precisa ultrapassar a própria proibição. Toda compulsão tende a estreitar o mundo: existe a próxima aposta, a próxima rodada, a próxima tentativa de recuperar aquilo que se perdeu. O horizonte vai diminuindo até que a repetição pareça ocupar tudo.

Romper esse circuito exige mais do que impedir o próximo clique. Exige reconstruir aquilo que a compulsão empobrece: relações, encontros, pertencimento, tempo compartilhado, outras formas de desejar. Talvez seja esse o desafio que permanece depois das bets: não apenas retirar uma máquina de captura, mas reconstruir os vínculos que ela ajudou a substituir.

Não se trata de idealizar o futebol. Ele nunca foi puro. Sempre conviveu com dinheiro, interesses, corrupção e desigualdade. Mas há diferença entre um esporte atravessado pelo mercado e um esporte cuja própria incerteza se transforma em mercado.

Walter Benjamin dizia que era preciso ‘escovar a história a contrapelo’. Talvez isso também signifique olhar para aquilo que uma época considerou absolutamente normal e perguntar: quando começamos a achar isso normal? Quando se tornou normal transformar um escanteio em acontecimento financeiro? Quando a expectativa deixou de ser apenas parte do jogo e tornou-se oportunidade de extração?

Enquanto discutíamos se alguém estava manipulando aquilo que acontecia dentro das quatro linhas, uma transformação muito maior ocorria fora delas. Transformaram a expectativa em produto. O “quase” em estímulo para tentar novamente. A espera em oportunidade de extração.

Agora talvez seja preciso fazer o movimento contrário: devolver ao desejo aquilo que nenhuma plataforma pode oferecer — relação, encontro e pertencimento.

Porque nunca foi apenas aposta. Assim como nunca foi apenas futebol.

 

Fonte: Por Douglas Oliveira, em Outras Palavras

 

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