Como
as bets se apossaram e capturaram o desejo no futebol
Houve
um tempo em que o futebol ensinava a esperar.
Esperar
o domingo, o clássico, os noventa minutos, o gol improvável. Parte da beleza
estava justamente aí: ninguém sabia o que aconteceria. A indústria das apostas
descobriu que essa incerteza também poderia ser transformada em mercadoria.
E não
acrescentou simplesmente uma atividade comercial ao futebol. Mudou a maneira de
olhar para ele. O apostador não precisa esperar o jogo terminar. Há o
escanteio, o cartão, o próximo gol, o primeiro tempo, o jogador que marcará. A
partida, antes vivida como narrativa coletiva, fragmenta-se em dezenas de
acontecimentos monetizáveis. Pode-se assistir ao próprio time vencer e terminar
a noite sentindo que perdeu. Porque a aposta perdeu.
Talvez
esteja aí uma das transformações mais profundas produzidas pelas bets: o
futebol deixou de disputar apenas nossa paixão e passou a disputar nossa
expectativa. E expectativa é matéria-prima extraordinariamente lucrativa.
“Não
foi dessa vez.” Faltou um gol. Um cartão. Um escanteio. Quase. E justamente
porque foi quase, tenta-se novamente. A derrota deixa de ser encerramento e
passa a alimentar a repetição.
A
questão, portanto, ultrapassa a velha oposição moral entre virtude e vício. É
preciso perguntar o que acontece quando uma estrutura econômica aprende a
transformar desejo, expectativa, frustração e repetição em fontes permanentes
de receita.
Loïc
Wacquant recupera de Max Weber a expressão “capitalismo de pilhagem” para
pensar formas predatórias de acumulação em outro contexto. Talvez possamos
deslocar a imagem. Porque não se extrai apenas dinheiro. Extrai-se tempo,
atenção, expectativa e desejo. Quanto mais alguém permanece dentro do circuito,
mais valioso se torna. O produto não é simplesmente a aposta. O produto é a
permanência do apostador no circuito.
Por
isso talvez tenhamos feito durante anos a pergunta errada sobre o futebol.
Perguntamos se partidas estavam sendo manipuladas. Existem casos comprovados de
corrupção e manipulação esportiva, assim como suspeitas nunca demonstradas. Mas
não precisamos transformar suspeitas em certezas para compreender o que
aconteceu.
A
engrenagem não depende de todos os jogos serem fraudados. Basta transformar a
imprevisibilidade do futebol em oportunidade permanente de apostar. O problema
nunca foi apenas descobrir se o jogo estava sendo manipulado. Era perceber que
o desejo de quem assistia já estava.
No dia
25 de setembro o governo federal proibiu no Brasil as apostas de quota fixa. A
medida pode interromper juridicamente um ciclo. Mas uma lei não desfaz
imediatamente aquilo que esse ciclo produziu. As plataformas podem sair do ar,
as marcas podem desaparecer das camisas e os anúncios podem deixar as
transmissões. O hábito não desaparece por decreto. Nem a compulsão. Nem a forma
de olhar.
É aqui
que a discussão precisa ultrapassar a própria proibição. Toda compulsão tende a
estreitar o mundo: existe a próxima aposta, a próxima rodada, a próxima
tentativa de recuperar aquilo que se perdeu. O horizonte vai diminuindo até que
a repetição pareça ocupar tudo.
Romper
esse circuito exige mais do que impedir o próximo clique. Exige reconstruir
aquilo que a compulsão empobrece: relações, encontros, pertencimento, tempo
compartilhado, outras formas de desejar. Talvez seja esse o desafio que
permanece depois das bets: não apenas retirar uma máquina de captura, mas
reconstruir os vínculos que ela ajudou a substituir.
Não se
trata de idealizar o futebol. Ele nunca foi puro. Sempre conviveu com dinheiro,
interesses, corrupção e desigualdade. Mas há diferença entre um esporte
atravessado pelo mercado e um esporte cuja própria incerteza se transforma em
mercado.
Walter
Benjamin dizia que era preciso ‘escovar a história a contrapelo’. Talvez isso
também signifique olhar para aquilo que uma época considerou absolutamente
normal e perguntar: quando começamos a achar isso normal? Quando se tornou
normal transformar um escanteio em acontecimento financeiro? Quando a
expectativa deixou de ser apenas parte do jogo e tornou-se oportunidade de
extração?
Enquanto
discutíamos se alguém estava manipulando aquilo que acontecia dentro das quatro
linhas, uma transformação muito maior ocorria fora delas. Transformaram a
expectativa em produto. O “quase” em estímulo para tentar novamente. A espera
em oportunidade de extração.
Agora
talvez seja preciso fazer o movimento contrário: devolver ao desejo aquilo que
nenhuma plataforma pode oferecer — relação, encontro e pertencimento.
Porque
nunca foi apenas aposta. Assim como nunca foi apenas futebol.
Fonte:
Por Douglas Oliveira, em Outras Palavras

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