Os
candidatos das Big Techs nas eleições 2026
Para
que regular Inteligência Artificial? Essa fala não saiu da boca de lobistas de
corporações de Big Techs dos Estados Unidos, mas de uma parlamentar do Brasil.
Enquanto o presidente Donald Trump apoia sem restrições o avanço da IA – que
ele passou a chamar de “superinteligência” -, políticos brasileiros têm atuado
alinhados às grandes empresas de tecnologia, indo contra regulamentações
nacionais que afetam diretamente os seus modelos de negócios.
Um
levantamento feito a partir do painel “O meu candidato é da bancada das big
techs?”, da organização sem fins lucrativos Ctrl Z, mostra quais candidatos nas
eleições de 2026 têm esse tipo de atuação.
A
análise foi feita a partir da atuação dos parlamentares em projetos de lei,
decretos, requerimentos, emendas e outras tramitações no Congresso que podem
afetar o funcionamento e o modelo de negócios das big techs. Entre as matérias
analisadas estão o PL 2630/2020, conhecido como PL das Fake News, que tinha
como objetivo estabelecer mecanismos de responsabilização das plataformas
digitais; o PL 2338/2023, sobre regulação da inteligência artificial; o PL
2628/2022, que deu origem ao Estatuto Digital da Criança e do Adolescente; o PL
896/2023, , que altera a Lei nº 7.716/1989 para incluir crimes praticados em
razão de misoginia, incluindo condutas como injúria e incitação ao ódio contra
mulheres na internet; o PL 4675/2023, que estabelece novas regras de defesa da
concorrência nos mercados digitais; e o REDATA, regime especial de tributação
para serviços de data centers.
Além da
atuação individual, o levantamento mostra que vários políticos têm atuado em
conjunto em projetos que beneficiam ou reduzem a fiscalização sobre as Big
Techs. Caroline de Toni, Bia Kicis, Marcel Van Hatten, Kim Kataguiri e Gilson
Marques, por exemplo, fazem parte do grupo que apresentou cerca de 13 Projetos
de Decreto Legislativo (PDLs) para sustar os decretos nº 12.975 e nº 12.976
relacionados ao Marco Civil da Internet, que estabelece medidas para
responsabilizar plataformas e proteger mulheres contra assédio, perseguição,
ataques coordenados e divulgação de imagens íntimas sem consentimento, alegando
que o governo teria extrapolado seu poder regulamentar.
Já
Gilson Marques, Kim Kataguiri, Gustavo Gayer, Bia Kicis votaram contra a Emenda
de Plenário nº 68 ao REDATA, que defendia a aplicação de salvaguardas
ambientais mais rígidas, como exigências de fontes de energia 100% renováveis
para habilitação, e o direcionamento de contrapartidas fiscais para fundos
públicos ou programas socioambientais.
A
reportagem pediu o posicionamento a todos os políticos citados. O espaço segue
aberto para manifestações.
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Veja a atuação de cada político abaixo.
>>>> Adriana Ventura (NOVO-SP)
Candidata
à reeleição para a Câmara, foi vice-presidente da Comissão Especial de
Inteligência Artificial da Câmara e integrou duas comitivas de parlamentares
que visitaram o Vale do Silício. No retorno da viagem, a política voltou com
discurso alinhado ao das empresas de tecnologia em relação à regulação das IAs:
“Para que estamos fazendo isso? Por que a gente precisa ter pressa? Países
estão discutindo isso dois, três, quatro, cinco anos!”, declarou durante
palestra em maio de 2024 sobre a aplicação da IA no setor de saúde, mencionando
também que a pressa poderia “matar a inovação”.
Também
apresentou a emenda n° 34/2025 ao texto do ECA Digital, propondo mudanças no
artigo 11 do projeto em relação às ferramentas de inteligência artificial
destinadas a crianças e adolescentes. A proposta estabelecia que esses recursos
fossem revisados regularmente em colaboração com especialistas e órgãos
competentes e previa a possibilidade de desabilitar funcionalidades
consideradas não essenciais ao funcionamento básico dos sistemas. Votou contra
a urgência do PL 2630/2020.
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Caroline de Toni (PL-SC)
Candidata
ao senado pelo PL em Santa Catarina, está na liderança por uma das vagas do
estado, de acordo com a última pesquisa da Quaest. Também votou contra a
urgência de regulação das plataformas digitais e apresentou requerimento para a
criação de uma nova Comissão Especial para analisar o PL 4675, proposta que não
foi aprovada.
Na
discussão do REDATA, Caroline de Toni apresentou as emendas n° 110 e 111,
propondo mudanças que ampliavam a abrangência dos benefícios tributários e
flexibilizavam condições para que empresas de data centers tivessem acesso ao
regime. A proposta permitia, por exemplo, que empresas do setor anteriormente
habilitadas no Regime Especial de Tributação para a Plataforma de Exportação de
Serviços de Tecnologia da Informação (REPES) continuassem utilizando as regras
anteriores até a aprovação de sua habilitação no REDATA. Também dispensava
essas empresas da exigência de apresentar um novo projeto de instalação ou
ampliação para aderir ao regime.
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Gilson Marques (NOVO-SC)
Candidato
à reeleição para a Câmara, gabaritou contra a regulação digital: votou “não” à
urgência de regular as plataformas digitais, à regulação da inteligência
artificial e ainda ao ECA Digital.
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Júlia Zanatta (PL-SC)
Candidata
à reeleição para a Câmara, votou contra o requerimento de urgência para regular
as plataformas digitais e se manifestou contra o PL da misoginia, argumentando
que o projeto poderia representar risco à liberdade de expressão e à liberdade
religiosa. Também se posicionou contra o PL 4675, que trata de mercados
digitais. Como vice-líder do PL na Câmara, apresentou pedidos para retirar o
projeto de pauta em diferentes ocasiões, além de requerimentos de votação
nominal, em uma articulação de obstrução que também envolveu o então líder do
partido, Sóstenes Cavalcante.
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Marcel van Hattem (NOVO-RS)
Candidato
à reeleição para a Câmara, apresentou cinco emendas de alteração ECA Digital,
defendeu a realização de audiência pública sobre denúncias de exploração
infantil, mas também apresentou emendas ao PL 2628 que alteravam obrigações das
plataformas relacionadas ao gerenciamento de riscos por faixa etária e ao
acesso de menores a conteúdos ilegais ou nocivos.
Van
Hattem também se posicionou contra o PL 4675 e apresentou requerimento de
votação nominal. No caso do REDATA, apresentou duas emendas à MP 1.318/2025,
que originalmente criava o regime. Posteriormente, o conteúdo da medida
provisória foi incorporado ao PL 278/2026, que deu origem à Lei nº 15.504/2026.
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Bia Kicis (PL-DF)
Candidata
à reeleição para a Câmara, durante a tramitação do ECA Digital, apresentou
emendas ao ECA Digital que alteravam obrigações impostas às plataformas. Também
esteve entre as deputadas do PL que apresentaram PDLs contra decretos
relacionados ao Marco Civil da Internet e à misoginia online.
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Eduardo Girão (NOVO-CE)
Membro
do Senado pelo NOVO-CE e candidato à vice-presidência ao lado de Zema
(NOVO-MG), também gabaritou contra a regulação digital: não aprovou o texto do
PL 2630 no Senado, se posicionou contra a regulação da inteligência artificial
e foi um dos quatro votos contrários ao ECA Digital no Senado, confirmados na
ata oficial da sessão de 27/08/2025, junto com Carlos Portinho, Luiz Carlos
Heinze e Jaime Bagattoli.
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Fernando Máximo (PL-RO)
Na
liderança da disputa por uma das vagas no senado, Máximo apresentou quatro
emendas ao PL 2628: duas delas o Intercept Brasil revelou que foram criadas
diretamente por Marconi Borges Machado, gerente de políticas públicas da Meta
no Brasil desde 2017. Uma das propostas retirava das plataformas a obrigação de
apresentar determinados relatórios de moderação; outra alterava previsões
relacionadas a multas e sanções criminais. As duas foram rejeitadas pelo
relator. Outra emenda apresentada por Máximo, sem a identificação de Machado
nos metadados, contribuiu para a retirada do chamado “dever de cuidado” do
texto final. Votou contra a urgência de regulação das plataformas digitais
No caso
do REDATA, Máximo apresentou emendas à MP 1.318/2025, que originalmente criou o
regime. A medida provisória perdeu eficácia, mas seu conteúdo foi
posteriormente incorporado ao PL 278/2026, aprovado pelo Congresso e sancionado
como a Lei nº 15.504/2026.
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Gustavo Gayer (PL-GO)
Também
na disputa pelo senado pelo PL em Goiás, votou contra o requerimento de
urgência do PL 2630/2020. Os cinco requerimentos apresentados por ele durante a
tramitação da regulação da inteligência artificial, trataram de impactos da
regulação sobre a concorrência e envolveram discussões sobre as grandes
empresas do setor. Gayer também esteve entre os deputados do PL que
apresentaram emendas ao PL 2628 que alteravam obrigações das plataformas.
Durante
o debate sobre o ECA Digital, afirmou que “a esquerda está usando a denúncia do
Felca como arma ideológica”. Também é autor de PDL que questiona decretos do
governo relacionados ao tema.
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Kim Kataguiri (MISSÃO-SP)
Candidato
à reeleição para a Câmara, votou contra o requerimento de urgência do PL
2630/2020. Sobre o PL 2338/2023, afirmou que uma regulação excessiva poderia
frear o avanço do setor, mesmo argumento de Adriana Ventura. Kataguiri também
esteve na primeira comitiva da Frente Digital a visitar as big techs no Vale do
Silício em 2022, viagem bancada com dinheiro da Câmara. Além disso, criticou
publicamente o ECA Digital em seu perfil no X.
Fonte:
Por Aline Melo, em Agencia Pública

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