Fernando
Nogueira da Costa: Ordem de acesso fechado versus aberto
Utilizarei
conceitos divulgados no livro de Daron Acemoglu e James A. Robinson (The
Narrow Corridor), publicado em 2019, para avaliação do governo sob
paramilitares-milicianos. Naquele primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro – e
após o governo golpista de Michel Temer (2016-2028) –, um dos coautores
enquadrou o Brasil na categoria de Leviatã de papel com sociedade fraca e
Estado fraco. O país possuía toda a fachada formal de uma democracia
(Constituição, tribunais, eleições e tributos), mas aquele governo carecia de
competência técnica e administrativa, para fornecer serviços públicos de
qualidade e aplicar as leis de forma impessoal.
O
Brasil sofria de um duplo desequilíbrio ao se comportar como fosse um Leviatã
despótico, ao sufocar a sociedade e o empreendedorismo com burocracia,
intervenção predatória e carga tributária elevada, mas revelava-se um Leviatã
de papel, ao falhar na garantia da segurança pública e da infraestrutura
básica. Possuía um duplo gargalo institucional.
A
preservação do modelo neoliberal, extrativista de rendas apenas pelas elites,
foi até 2002. A abertura democrática e a Constituição de 1988 não foram
suficientes para conduzir o Brasil para dentro do “corredor estreito” de
liberdade e prosperidade inclusiva até o início dos governos
social-desenvolvimentistas, liderados pelo Partido dos Trabalhadores.
Sob
liderança de Luiz Inácio Lula da Silva, as históricas greves de 1978 e 1979, no
ABC paulista, deram o impulso principal para a criação de um instrumento
político próprio dos trabalhadores, rompendo com o sindicalismo atrelado ao
Estado da época do regime militar. Reuniu sindicalistas de outras categorias:
trabalhadores urbanos, bancários, gráficos e professores em busca de autonomia
diante do Estado e dos patrões.
Associações
de moradores de periferias de grandes centros (como a Grande São Paulo) lutavam
por saneamento básico, transporte, moradia digna, creches e contra o custo de
vida elevado. Esses movimentos de base social foram coletivos populares urbanos
surgidos de baixo para cima nas comunidades. Apoiaram o PT.
Católicos
engajados na Teologia da Libertação, juntos com padres, bispos e leigos
atuantes nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), faziam trabalho de
conscientização e organização política nos bairros pobres e rurais. A igreja
católica progressista apoiou a fundação do PT.
Somaram-se
aos militantes de esquerda os exilados políticos com retorno ao país, devido à
Anistia, intelectuais, jornalistas, artistas e grupos socialistas clandestinos
ou dissidentes da resistência armada. Todos decidiram apostar em uma legenda de
massa legalizada. Ativistas dos direitos humanos, feministas, do movimento
negro e estudantil viram no novo partido um canal de representação das minorias
e classes subalternas.
Porém,
quatro mandatos (intercalados por alternância de poder) não foram suficientes
para alcançar a “ordem de acesso aberto”: o país ainda possui um profundo fosso
de desigualdade social, sustentado por uma estrutura tributária regressiva e
pelo corporativismo do estamento burocrático e político. Os deputados e
senadores de direita cooptam o orçamento estatal, em benefício de privilégios
privados, e a mídia neoliberal propaga a ilusão da austeridade fiscal.
Em vez
de promover uma coevolução na qual a sociedade civil se fortalece, para
controlar o Estado de maneira a lhe servir, a redemocratização consolidou um
Estado centralizador e cartorial, mantendo a sociedade civil fragmentada e
dependente da tutela estatal. A emergência política do PT é a tentativa de a
sociedade dominar o Estado brasileiro de maneira democrática.
Daron
Acemoglu ressalta os programas de transferência direta como o Bolsa Família
serem cruciais, para aliviar a extrema pobreza, mas insuficientes para gerar
instituições inclusivas sustentáveis, se não forem acompanhados pela criação de
oportunidades reais de trabalho e inclusão produtiva no mercado. Isso depende
de parcerias público-privadas em projetos de construção de infraestrutura
urbana, energética e logística.
A
corrupção sistêmica, exposta no domínio do Poder Legislativo sobre o orçamento
da União, e até mesmo na promiscuidade de familiares de membros do Poder
Judiciário com corruptores, corroeu a confiança da população nas instituições
democráticas. Esse colapso de credibilidade alimentou a ascensão de lideranças
populistas com retórica autoritária (como Jair Bolsonaro e herdeiro), gerando
uma polarização política de soma zero. Essa erosão da confiança e reação
populista de direita ameaça empurrar o país para fora do corredor democrático.
O
“efeito rainha vermelha” exige o crescimento do poder do Estado ser
continuamente acompanhado e limitado por uma sociedade civil organizada e
vigilante para manter o “Leviatã agrilhoado”. Falta uma corrida equilibrada.
No
Brasil, esse equilíbrio é truncado quando ascende representantes das castas dos
militares ditatoriais e dos negociantes neoliberais. A sociedade civil é
cooptada pelo corporativismo estatal ou dividida por guerras culturais. Além
disso, a direita demonstra preocupação com a atuação do STF, órgão punitivo da
tentativa de golpe contra a democracia, em 8 de janeiro de 2023, gerando uma
judicialização da política. Critica suas decisões sem a devida accountability
perante os cidadãos.
Para o
Brasil conseguir adentrar o corredor da liberdade democrática perpétua, é
necessário um esforço contínuo de reformas incrementais. Envolve combater o
clientelismo, aumentar a transparência pública, promover a inclusão produtiva
e, sobretudo, cultivar uma sociedade civil ativa, corajosa e institucionalmente
autônoma para conter os abusos do poder estatal sob o domínio das citadas
castas de natureza ocupacional.
Nem
todo Estado nasce com o monopólio da violência. Nos Estados naturais, os meios
de coerção estão dispersos entre os membros da coalizão dominante. O Estado
funciona como uma “organização de organizações”, capaz de pactuar a paz com a
distribuição de privilégios econômicos para as elites dessa coalizão. O risco é
o pacto com milicianos chegar ao Planalto Central, isto é, ao Poder Executivo.
Nas
“ordens de acesso aberto”, o monopólio da violência é atingido com a
consolidação da força sob controle social. As organizações civis e econômicas
de elite tornam-se fortes o suficiente para disciplinar as Forças Armadas por
meios não militares, como via verbas do orçamento público e previdência, e
subordiná-las ao sistema político.
Os
Estados naturais não são “doentes” ou defeituosos, mas possuem uma lógica
própria para conter a violência. Contudo, como a abertura de mercados e a livre
entrada destroem as rendas capazes de manterem a coalizão unida, esses Estados
barram a competição e a inovação tecnológica. Esta é a armadilha do acesso
limitado aos direitos da cidadania.
As
“ordens de acesso aberto” possuem alta eficiência adaptativa. Diante de
incertezas e choques externos, o livre acesso à criação de organizações civis
permite testar múltiplas soluções por tentativa e erro, eliminando falhas e
retendo inovações. É a destruição criativa e adaptativa na política, isto é, na
ação coletiva.
Outra
advertência é quanto à falácia do “eleitoralismo”: o mero transplante de
eleições para um Estado natural não gera uma democracia real. Sem acesso aberto
dos cidadãos às organizações estatais e sem uma justiça imparcial, os eventuais
governantes de direita usam a máquina pública de forma pessoal para cooptar
eleitores e perseguir oponentes.
Os
citados autores contestam a visão econômica de a democracia ser apenas um
mecanismo de “espoliação dos ricos” com redistribuição de soma zero. Nas ordens
de acesso aberto, a democracia atua de forma complementar ao mercado: ao
fornecer educação universal, infraestrutura e seguridade social de forma
impessoal, o Estado reduz riscos individuais, aumenta o capital humano e
expande a produtividade de toda a sociedade em um jogo de soma positiva.
A
democracia é diferente em Estado natural (ou ordem de acesso limitado).
Eleições podem existir, mas funcionam sem acesso aberto. Recursos e bens
públicos são distribuídos de forma pessoal ou discricionária para manipular
eleitores. Tende ao populismo e ao jogo redistributivo de soma zero.
Na
democracia na ordem de acesso aberto, eleições são ancoradas em uma sociedade
civil vibrante, imprensa livre e partidos competitivos. O Estado fornece bens
públicos e seguridade de forma universal e impessoal, funcionando como um jogo
de soma positiva. É o caso de governo social-desenvolvimentista sob hegemonia
do Partido dos Trabalhadores.
¨ Lula nos Estados
Unidos. Por Daniel Aarão Reis
A 81a.
Assembleia Geral da ONU, realizada entre 22 e 28 de setembro na cidade de Nova
York, como de costume, abriu-se com uma intervenção do representante do Brasil.
Lula, evidentemente, não podia perder a oportunidade de falar para o mundo e,
sobretudo, considerando a conjuntura eleitoral, para o Brasil. Foi o seu décimo
discurso proferido naquela assembleia e ele apareceu em grande forma.
Na
análise da situação internacional não evitou temas polêmicos e acertou em quase
todos. Criticou os “desmandos das superpotências”, a tentativa de dividir o
mundo em “áreas de influência e investidas neocoloniais”, as guerras
infindáveis, consumindo recursos descomunais (“trilhões de dólares”) que
deveriam estar direcionados à saúde, à educação, à crise climática, à
diminuição das desigualdades sociais e ao combate à pobreza. Em determinado
momento, o presidente brasileiro citou expressamente a Aliança Global contra a
Fome e a Pobreza e o Painel Internacional sobre Desigualdades como instâncias a
merecerem atenção prioritária.
A
crítica às guerras foi perfeita. Ao contrário do que dizia um general e teórico
prussiano da guerra, Claus Von Clausewitz, a guerra não é a política conduzida
por outros meios (os partidários da guerra, à direita e à esquerda gostam muito
da fórmula). Inspirando-se em diferentes pensadores, em particular Hanna
Arendt, que sustentava que a guerra é a negação ou o fracasso da política, Lula
acertou o alvo quando disse: “A guerra não é a continuação da política por
outros meios. É a falência total da política”. E defendeu o exercício da
diplomacia como método para resolver conflitos de qualquer natureza.
Em
seguida permitiu-se criticar a ONU. Trata-se de uma tendência geral e
equivocada. Porque a ONU só faz (ou não faz) o que as lideranças de todo o
mundo, em particular, as das grandes potências, querem (ou não querem). É
verdade que a credibilidade da instituição está em baixa, talvez nunca esteve
tão em baixa. Mas a que se deve isso senão aos “desmandos das grandes
potências”? Que querem restabelecer “áreas de influência”?
Em vez
das lideranças se dedicarem a identificar “químicas” que as aproximem, deveriam
dirigir-se com mais frequência à ONU, discutir suas diferenças e fazer votar
suas resoluções nos recintos internacionais, exercitando o diálogo e a arte das
concessões mútuas, indispensáveis ao fazer política. De pouco adiantam críticas
à ONU, pois a ONU, para recorrer a uma antiga palavra de ordem do movimento
estudantil referindo-se à UNE, a ONU somos nós, nós todos, que habitamos este
planeta cada vez mais desgovernado.
Prosseguindo
suas observações sobre o mundo, Lula fez críticas pertinentes ao “genocídio
praticado pelo governo de Benjamin Netanyahu” e aos “atos terroristas do
Hamas”, evitando a cilada de certas direitas que só lembram do “terrorismo” do
Hamas e de certas esquerdas que só discutem o “genocídio” do governo
israelense.
Também
foi certeiro ao se referir à guerra em curso no Oriente Médio: “ameaçar
civilizações de extinção não trará estabilidade para a região”, uma alusão
clara aos “desmandos” de Donald Trump. Faltou, entretanto, uma referência à
tirania brutal dos ayatollahs. Infelizmente, não apareceram críticas à
invasão da Ucrânia pela Rússia e à destruição impiedosa deste país por Moscou.
Talvez chegue o dia em que a diplomacia brasileira venha a se arrepender desta
conciliação com a invasão de uma nação soberana por uma superpotência.
No giro
pela América Latina, lamentou a indiferença sobre o Haiti, conclamou a
Nicarágua a “respeitar a oposição” (uma alusão quase caridosa, considerando-se
a ditadura violenta exercida pelo ex-revolucionário, Daniel Ortega), sustentou
que o “povo venezuelano deve decidir o seu destino”, passando como gato sobre
brasas sobre o inominável sequestro do presidente-ditador Nicolás Maduro, mas
denunciou acertadamente o “cerco estratégico e embargo ilegais” exercidos pelos
EUA contra Cuba.
Mas o
prato de resistência foi quando Lula se estendeu sobre a defesa da soberania
brasileira face às “ingerências externas” (leia-se: do atual governo dos
Estados Unidos). O presidente brasileiro não teve meias palavras: “O Brasil não
cabe no quintal de ninguém”. E batendo na cabeça do prego: “não queremos
porta-aviões, mas cooperação”. E ainda deixou claro que o Brasil não aceitará
“tarifas como armas de coerção e chantagem”. Na mosca.
Referindo-se
à articulação liderada por Donald Trump com governos de direita no continente
para viabilizar intervenções armadas sob pretexto de aniquilar facções
criminosas, Lula foi claro: “não vamos terceirizar a responsabilidade de
garantir à população o direito de viver sem medo”. E reafirmou, em grande
estilo, o controle brasileiro sobre as riquezas naturais do país e sobre
dispositivos financeiros (pix) considerados positivos pelos brasileiros, embora
contrários aos interesses de corporações financeiras estadunidenses.
Na
questão da corrupção, convenhamos, o autoelogio soou um pouco falso: “o combate
à corrupção continuará implacável”. Considerando a gangrena que tritura a ilha
da fantasia (Brasília), seria talvez mais razoável dizer que “o combate vai
começar”, pois não pode continuar algo que ainda mal começou.
Na
afirmação da soberania nacional, Lula enalteceu a democracia (“democracia
pertence aos brasileiros”) e a orientação favorável a medidas para reduzir as
desigualdades sociais. O presidente brasileiro tem toda a razão. O perigo ronda
e como ele disse, a “democracia está em xeque”, ameaçada pelo retorno do
“negacionismo”e, dizemos todos nós, pela volta da extrema-direita. Em grande
medida, é um “retorno dos que não foram”, haja vista a força remanescente de
lideranças e de forças de extrema-direita que continuam bem vivas e sonhando,
nostálgicas, com o advento de uma nova ditadura.
Por
outro lado, reduzir as desigualdades sociais é um imperativo no processo de
democratização da democracia. Os governos Lula fizeram muito a respeito disso.
Mas poderiam ter feito muito mais e a ausência de autocrítica sobre este ponto
sensível (“fazer os ricos pagarem a conta e cortar privilégios”) está custando
caro. Contudo, alguém conhece algum dirigente político que seja chegado a uma
autocrítica? E, ainda por cima, no contexto de uma campanha eleitoral? Se
souberem, não esqueçam de me avisar para que eu possa efetuar o respectivo
registro.
No
final, Lula foi novamente assertivo: “Ninguém nos afastará desse caminho” (o
caminho de uma democracia soberana e social). E enfático: “essas escolhas
demandam coragem, vontade política e clareza de objetivos”. E completou: “é o
que se espera de um estadista”.
É
verdade, é isto mesmo que se espera de um estadista.
Quanto
aos objetivos, estão claros. Ele mesmo não deixou de esclarecê-los. A ver se
não faltarão coragem e vontade política, duas virtudes para lá de escassas
entre nossas lideranças. Talvez por isso seja tão difícil distinguir hoje em
dia um estadista.
Fonte:
A Terra é Redonda

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