Brasil
seguir nacionalismo de Trump seria ruim para o mundo, diz Piketty
Cinco
anos atrás, uma percepção do economista francês Thomas Piketty, 55 anos, rodou
o planeta. Ela defendia que o mundo estava em condições parecidas às que
desaguaram na Revolução
Francesa, no fim do século 18: uma desigualdade extrema em que
elites riquíssimas (a nobreza daquela França) viviam às custas de uma multidão
de pessoas em situações precárias.
Era
mais um alerta do que uma comparação, porque, sempre que isso aconteceu na
história, o resultado foi uma grave crise política capaz de mudar o rumo das
coisas.
"Em
muitos sentidos, [a situação] piorou" nesse intervalo de meia década,
sentencia ele agora à BBC News Brasil.
"Estamos
em um período repleto de distopias. Os tecnobilionários, os tecnonacionalistas
estão elaborando visões malucas sobre o futuro", diz ele, alertando para
"uma visão trumpista do futuro que não está funcionando, que não resolve
problemas de desenvolvimento, de meio ambiente, que precisamos resolver".
Piketty
retornou à cena global em junho com um conjunto audacioso de propostas reunidas
no Relatório de Justiça Global. É o resultado do esforço conjunto de uma equipe
liderada por ele, no World Inequality Lab, da Paris School of Economics, na
capital francesa, que se debruçou sobre dados sociais e econômicos de vários
países ao longo dos últimos anos.
No
total, cerca de 50 pessoas trabalharam no estudo, que elaborou propostas como
criar uma moeda única internacional, gerida pela Organização das Nações Unidas
(ONU), em substituição ao dólar, e impulsionar políticas globais que nivelem a
renda per capita global em 5 mil euros (cerca de R$ 29 mil, na cotação
do final de setembro) até 2100.
O
relatório também propõe que, até lá, o total de horas de trabalho, na média
internacional, cairia para menos da metade, com um deslocamento das funções
ligadas à produção de alimentos para os setores de educação e saúde.
Além
disso, há propostas historicamente ligadas às pesquisas de Piketty — que se
tornou famoso, nos anos 2010, com seu O capital no século XXI
(Intrínseca, 2013) – como a criação de um imposto global sobre a riqueza e,
especialmente, sobre fortunas dos bilionários.
E aí
que, para ele, o Brasil exerce um papel central. Em 2024, durante a reunião do
G20, no Rio de Janeiro, o país conseguiu incluir uma menção inédita à
importância de tributar os super-ricos no comunicado final da Cúpula, apesar da
dura resistência argentina.
Nos
fóruns que se seguiram, a diplomacia brasileira seguiu reforçando o projeto,
como nas rodadas de negociação, no âmbito da ONU, por um sistema tributário
internacional. A próxima reunião do grupo será realizada entre novembro e
dezembro, no Quênia.
"Será
muito triste para o próprio país tanto quanto para o mundo se o Brasil seguir
na direção desse nacionalismo trumpista em algumas semanas [nas eleições].
Precisamos do Brasil contribuindo para reconstruir o sistema monetário,
econômico internacional em um sentido mais inclusivo, igualitário, democrático
e consciente sobre o clima", diz.
LEIA A
ENTREVISTA:
·
Como acomodar pretensões globais tão robustas em um mundo
atravessado por conflitos e por Estados nacionais mais voltados aos seus
interesses particulares?
Thomas
Piketty - Estamos
em um período repleto de distopias. Os tecnobilionários, os tecnonacionalistas
estão elaborando visões malucas sobre o futuro, como instalar data centers
em todos os lugares possíveis — no planeta Terra ou em Marte — e estão
fazendo guerras para extrair ainda mais combustíveis fósseis pelo mundo. É uma
visão trumpista do futuro que não está funcionando, que não resolve problemas
de desenvolvimento, de meio ambiente, que precisamos resolver. É hora de
discutir uma outra perspectiva. Não podemos ficar só assistindo a isso,
pessimistas, esperando para ver o que acontecerá.
Além do
mais, a agenda tecnonacionalista, tecnocapitalista, sequer durará para sempre.
Não vai entregar o que promete, embora tenha um longo caminho pela frente.
Vamos ver o que acontece nas eleições (de meio de mandato) nos Estados Unidos
[em novembro] e no Brasil.
·
Alguns anos atrás, o senhor disse que a situação do mundo
era semelhante àquela que culminou na Revolução Francesa. Algo mudou desde
então?
Piketty
- Eu
diria que, em muitos sentidos, ela piorou. Mas sejamos otimistas: a longo
prazo, as forças democráticas e as lutas sociais estarão prontas para
transformar as instituições e fazer do mundo um lugar mais igualitário e
próspero. É perfeitamente possível seguir nessa direção.
·
Entre todas as propostas, há alguma que o senhor
considera mais urgente?
Piketty
- A
ideia do relatório é pensar em que tipo de prosperidade compartilhada nós
podemos ter em um planeta finito. Se todos os países alcançassem um alto nível
de prosperidade no futuro, como o mundo seria? Essa é a questão que estamos
fazendo ali. Mas depende de muitas condições. A transformação do sistema
energético é uma delas. Outra é uma mudança estrutural nos modelos de produção.
É preciso ainda diminuir a desigualdade global para conseguirmos arcar com
investimentos climáticos, educacionais e de acesso à saúde.
Essas
propostas estão alinhadas ao que países do Sul global têm dito nos últimos
anos. Basta lembrarmos que, na reunião do G20, em 2024, o presidente Lula
propôs o imposto global sobre as fortunas dos bilionários que foi apoiada pela
África do Sul e por vários outros países. Claro que não é suficiente. Era
difícil convencer os 20 países que estavam ali, mas o fato de ter sido
discutido no âmbito do G20 foi interessante. Mostra que essa demanda por
justiça econômica e climática está presente.
·
O senhor acha que
a proposta de taxar fortunas tem possibilidade de se concretizar?
Piketty
- Está
claro, para mim, que, em um futuro relativamente próximo, haverá um grupo de
países se movendo juntos para taxar os bilionários e para criar um sistema
monetário internacional, porque eles sabem que o modelo atual não está
funcionando.
·
Por quê?
Piketty
- A
economia do Estados Unidos está ficando pequena em comparação ao tamanho da
economia global. Ela era maior no contexto do pós-Segunda Guerra Mundial, mas
vem diminuindo gradativamente — e ficará cada vez menor. Logo, não é mais
possível ter o dólar operando como moeda internacional em um mundo em que a
economia dos EUA é apenas uma pequena fração do PIB global. Essa não é uma
notícia tão boa ao mundo, mas tampouco é para os Estados Unidos, porque esse
sistema está sobrevalorizando o dólar e contribuindo para o enorme déficit
comercial deles.
E,
então, sabemos: se há desequilíbrios internacionais, vem consequências
geopolíticas. As políticas atuais de Donald Trump são só uma reação que não
estão resolvendo esse problema.
·
Por serem políticas bélicas?
Piketty
- A
mensagem dele é basicamente a seguinte: "Eu vou colocar as minhas armas na
mesa, pegar petróleo na Venezuela, no Irã ou na Groelândia e reduzir o meu
déficit interno". Mas nós acreditamos em uma mudança estrutural no sistema
monetário internacional.
Em uma
economia mundial multipolar, isto é, em que não há um país com hegemonia sobre
o PIB global, temos que ter uma moeda internacional baseada em uma cesta de
moedas — dos EUA, da China, da Índia, do Brasil, seja lá de quem for — que
colabore para financiar o desenvolvimento dos países e para fazer investimentos
climáticos. Isso não será possível com o sistema de hoje. E eu acredito que
isso acontecerá mais cedo do que as pessoas imaginam.
·
O senhor mencionou a proposta de criar uma moeda
internacional administrada pela ONU, mas vários líderes mundiais, como o
próprio Lula, acabaram de criticar toda a estrutura da instituição na
Assembleia Geral, em Nova York. Eles dizem que ela tem sido incapaz de
"manter o mundo em ordem". Para esse objetivo, prosperar, seria
necessário criar uma entidade global nova ou bastaria reformar a ONU?
Piketty
- Seria
melhor se houvesse um consenso, entre membros da ONU, de transformá-la — e
também o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. Como não é
viável, seria necessário, pelo menos durante um período intermediário, criar o
que chamamos de "coalizão incompleta", isto é, uma coalizão de países
que não cubra o mundo inteiro — em alguns casos não cubra mesmo os Estados
Unidos —, mas que consiga ir na direção certa.
·
Teria um exemplo de como isso funcionaria?
Piketty
- Está
acontecendo agora uma convenção, no âmbito da ONU, de cooperação global para um
imposto sobre os ricos. Haverá uma sessão de negociações entre representantes
dos governos em Nairóbi, no Quênia, em novembro, em que o Brasil participará ao
lado de outros países que já se mostraram favoráveis.
A
agenda existe para incluir mais atores no sistema tributário internacional — em
especial países do Sul global que não querem ver as riquezas serem extraída dos
mais pobres em benefício de interesses econômicos das economias do Norte. É uma
questão de soberania. Essa é apenas uma das questões.
Nós já
sabemos que alguns países, em particular os Estados Unidos, vão votar contra a
convenção, mas ela está sendo construída para adotar a fórmula da maioria, o
que será muito importante em comparação a outras convenções, como a do clima,
que se baseia na unanimidade.
·
As convenções do clima (COPs), então, não funcionam mais?
Piketty
- Eu
não diria que são um fracasso, mas tampouco são um tremendo sucesso: ainda que
ocorram anualmente, elas não conseguem tomar decisões, porque se baseiam nesse
modelo de unanimidade.
Esse
desenho do projeto da convenção tributária da ONU será definido no ano que vem,
mas já está claro que as decisões serão tomadas com base na maioria
qualificada, porque é importante levar em conta os tamanhos das populações
nacionais. Não dá para ter países pequenos, por exemplo, com os direitos de
voto iguais a um Brasil, mas tampouco queremos ver os países ricos capturando
esse processo.
·
Mas e se países ricos e grandes, como os EUA, não
quiserem participar?
Piketty
- Nós
sabemos que os EUA não vão querer participar, tanto quanto sabemos que, para a
reforma do sistema monetário internacional, eles seriam necessários. Mas a
proporção da população norte-americana em relação à global, ou mesmo a
participação deles no PIB mundial, já está começando a cair. Eles podem perder
seu poder de veto.
Aliás,
sabe uma coisa que ninguém fala e nós destacamos no relatório? O FMI tem uma
regra de que, se um país reúne 15% dos direitos de voto, seja pela população
que tem ou pelo tamanho da economia, pode vetar qualquer decisão importante,
como a criação de "direitos especiais de saque" (Special Drawing
Rights, SDRs em inglês), que são, nada mais nada menos, que o embrião de
uma... moeda internacional. Mas, como os EUA têm esses 15% de direitos de voto,
eles vetam. Os governos republicanos sempre o fizeram.
Mas,
após a crise financeira de 2008 e da pandemia, governos democratas permitiram
ao FMI criar alguns SDRs distribuídos pelo PIB do país ou pela proporção dos
direitos de votos. Não foi um grande avanço, porque eu entendo que é melhor
distribuí-los pelo tamanho da população de cada país ou os danos climáticos que
ele gera.
·
Isso mudará, então, quando os EUA perderem o poder de
veto?
Piketty
- Eles
vão perder esse poder de veto muito em breve, porque, se hoje os EUA detêm
cerca de 15% do PIB mundial e, por consequência, dos direitos de voto no FMI,
logo eles vão cair para perto de 10%. Eu diria que isso vai acontecer pelos
próximos 10 ou 20 anos. Poderemos ver uma mudança na estrutura do fundo.
Então,
para responder à pergunta lá do início: precisamos ser muito pragmáticos. Em
alguns casos, será necessário criar novas instituições com aquela
"coalizão incompleta", como para cooperação tributária internacional
ou, talvez, para criar um imposto global sobre a riqueza para custear as
reparações climáticas, por exemplo.
Esse
nervosismo que vemos, hoje, em Washington, para dizer o mínimo, tem a ver com o
fato de os EUA estarem perdendo o controle sobre o mundo. Daí, os
nacionalistas, como Trump, reagem desesperados, colocando as armas na mesa.
Elas são mais um sinal de fraqueza do que de força.
·
Qual é o papel do Brasil em tudo isso?
Piketty
- Países
como o Brasil têm o papel de remoldar o balanço global de poder, de colocar
essa conversa global na direção certa. O Brasil contribuiu muito com isso no
passado, e será muito triste para o próprio país tanto quanto para o mundo se o
Brasil seguir na direção do nacionalismo trumpista daqui algumas semanas.
Precisamos
do Brasil contribuindo para reconstruir o sistema monetário, econômico
internacional em um sentido muito mais inclusivo, igualitário, democrático e
consciente sobre o clima. Sob o governo Lula, houve um papel importante de
propor um imposto a bilionários na agenda do G20. Ela quase foi adiante. Eu
acredito que, se houvesse um apoio mais firme da Índia ali, em particular,
teria se criado uma coalizão do Sul global que tornaria a resistência do Norte
a ficar muito mais difícil. Mesmo sem esse apoio, muitos países europeus já
ficaram constrangidos em negar a proposta. Não apoiaram, mas não souberam dizer
"não".
·
Por quê?
Piketty
- Porque
é uma situação difícil para eles. De um lado, eles não querem pagar pela
reparação climática, mas, de outro, eles sabem que carregam a responsabilidade
histórica enorme das suas emissões de carbono. É impossível negá-la. Mais do
que isso: eles sabem que não podem cobrar mais impostos — para pagar reparação
— de suas classes trabalhadores ou das suas classes médias. Logo, em algum
momento, terão que aceitar que são os mais ricos, em especial bilionários, os
que deverão arcar com essa conta. Isso vale, é importante dizer, tanto para
bilionários do Norte quanto do Sul. Se um país tal como o Brasil — ou como uma
África do Sul, uma Índia, uma Indonésia — coloca pressão sobre as questões
climáticas ou de justiça econômica, fica impossível resistir.
Eu vejo
o Brasil pronto para articular isso, não só como parte do Sul, mas também por
ser um país grande. Será triste se ele perder a dimensão internacionalista,
progressista e colocar, no lugar, uma visão estreita, tecnocapitalista e
tecnonacionalista. Ela não vai resolver os problemas do mundo nem os do Brasil.
Eu acho, inclusive, que essa agenda já vai ser derrotada na eleição que se
aproxima nos EUA e nos próximos anos também. Assim, vai ser estranho o Brasil
se mover em uma direção errada no momento errado.
·
Ao mesmo tempo, as agendas das direitas radicais globais
se baseiam no mérito individual como verdadeiro produtor de justiça econômica,
e não a redistribuição de renda (defendida pela esquerda). Essas agendas são
populares – como se vê no Brasil, por exemplo. (Para a esquerda), não seria
necessário fazer a agenda da redistribuição voltar a ter apelo popular?
Piketty
- A
esquerda perdeu suas ambições de fazer propostas para reduzir desigualdades,
para redistribuir a riqueza. Veio um consenso em torno da liberalização dos
mercados e de diminuir a progressividade dos impostos, o que prejudicou muito
as classes com renda baixa tanto quanto as médias. Em muitos casos, esquerdas e
centro-esquerdas estão se associando a políticas pró-corporações. É uma
abertura para retóricas nacionalistas. Às vezes, elas são mais pró-capitalismo
que os próprios partidos centristas. Elas fazem isso para atrair eleitores das
classes baixas, médias, e enfatizando a dimensão nacionalista que, como eu
disse, não vai resolver os problemas.
Inclusive,
nem os eleitores estão tão confiantes na agenda trumpista. Eles sabem que os
partidos estão propondo um mesmo modelo de desenvolvimento que não integra a
desigualdade, mas não veem alternativa. Essa é a principal explicação.
·
É uma questão de repetição das propostas, portanto?
Piketty
- Se
você passa anos a fio dizendo para a opinião pública que não há políticas
econômicas alternativas, que os governos precisam todos seguir a mesma agenda
pró-corporações e que a única coisa que eles podem realmente fazer é controlar
suas fronteiras, depois de 20, 30 anos, o resultado é um debate político que se
resume em controle fronteiriço e identidade.
Abandonamos
as discussões sobre políticas econômicas, sobre a estrutura de classes, sobre
as desigualdades socioeconômicos. Mas, se a gente reabri-las, as coisas vão
começar a mudar, porque, na prática, se você olhar para os governos
nacionalistas no poder hoje, depois de alguns anos a opinião pública já não
estará tão satisfeita com eles. Basta olhar para as taxas de popularidade de
Trump nos EUA. É isso que me deixa otimista, a longo prazo, com a volta de
soluções internacionalistas, democráticas e mais igualitárias — como as que
apresentamos no relatório. Não será fácil.
·
Mas haverá algum ponto de ruptura, na sua opinião?
Piketty
- Não
dá para prever que tipo de catástrofe política, que tipo de crise levará à
transição, mas é importante discutir como queremos nos reorganizar antes que
aconteça. Temos que estar prontos para, no momento, apresentar uma alternativa.
Eu
escrevi um livro sobre história da desigualdade (Uma breve história da
igualdade, Intrínseca, 2022) e, uma coisa que eu aprendi é que, em períodos
críticos, em que as sociedades precisam mudar o sistema, fazer mudanças
institucionais, elas devem estar prontas para fazê-lo. Foi assim que surgiram a
seguridade social, os serviços públicos, a educação universal e gratuita, o
sufrágio, os direitos trabalhistas, a decolonização, todas coisas que criaram
mais prosperidade junto a mais igualdade. Não será fácil. Passaremos por mais
crises, catástrofes, batalhas pelo poder, mas, no fim do dia, o caminho em
direção à igualdade, democracia e prosperidade vai prevalecer.
·
Em um cenário em que nada disso aconteça, em que as
propostas do relatório nunca sejam implementadas, como o senhor vê o mundo
daqui a 50 anos?
Piketty
- Se
o curso não mudar, o mundo ficará mais desigual e mais quente. Por
consequência, mais instável que o atual. Mas esse futuro distópico não vai
acontecer, eu acredito nisso. As forças tecnonacionalistas até podem ganhar
algumas eleições, mas, como elas não sabem como resolver os problemas
estruturais do mundo, o futuro será multipolar com uma prevalência das forças
democráticas. E isso, principalmente, pela pressão que sairá do Sul global.
Fonte:
BBC News Brasil

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