Tempos
de decidir: qual democracia queremos?
Vivemos
sob a égide da democracia liberal. Aos leitores críticos desse modelo,
esclareço que me refiro ao sistema democrático predominante no Brasil e em
grande parte do mundo contemporâneo. Outras concepções e experiências de
democracia existem e podem continuar a surgir, mas, até o presente, nenhuma
delas se afirmou como alternativa global capaz de substituir, de forma
consistente, o modelo liberal-democrático. É, portanto, sobre essa democracia —
imperfeita, contraditória e permanentemente inacabada — que pretendo refletir
neste artigo. Construída historicamente, ela ganhou força a partir do século
XIX e adquiriu nova dimensão no pós-Segunda Guerra Mundial, sobretudo com a
derrota do nazifascismo, a expansão dos regimes constitucionais e a afirmação
internacional dos direitos humanos.
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Em
linhas gerais, a democracia liberal combina sufrágio universal, representação
política, eleições periódicas, direitos fundamentais, Estado de Direito e
mecanismos de limitação do poder. Nela, o governo retira sua legitimidade da
vontade expressa pelos cidadãos por meio do voto, mas os representantes eleitos
não recebem, com a vitória nas urnas, um poder absoluto. O exercício do poder
encontra limites na Constituição, na separação entre os Poderes, no sistema de
freios e contrapesos — checks and balances — e na proteção dos direitos
fundamentais e das minorias. A vontade da maioria legitima o governo, mas não
autoriza a supressão de direitos nem afasta os limites impostos pela ordem
constitucional.
Esse é
um ponto fundamental. Democracia não pode significar simplesmente o governo da
maioria. Se assim fosse, bastaria contar votos para conferir legitimidade a
qualquer decisão. A maioria governa, mas não pode suprimir direitos
fundamentais, eliminar a pluralidade ou impedir que as minorias disputem
democraticamente a possibilidade de, amanhã, tornarem-se maioria. A democracia
pressupõe maioria, mas também limites ao poder da própria maioria.
Talvez,
entretanto, ao falarmos em democracia liberal, seja mais adequado utilizar o
plural: democracias liberais. Não existe uma experiência única. Há diferentes
arranjos institucionais, tradições políticas e concepções sobre a relação entre
indivíduo, sociedade, mercado e Estado.
A
experiência norte-americana, por exemplo, historicamente atribui grande
centralidade às liberdades individuais, à propriedade privada, à livre
iniciativa e à limitação do poder estatal diante do indivíduo. Isso não
significa afirmar que os Estados Unidos tenham constituído, em todos os
momentos de sua história, um modelo puramente ultraliberal. Significa
reconhecer o peso que a autonomia individual, a propriedade e o mercado
adquiriram naquela tradição política.
Em sua
expressão mais radical, essa concepção aproxima-se do libertarianismo
econômico: a liberdade individual e a propriedade ocupam posição central,
enquanto a atuação do Estado deve ser reduzida ao indispensável. Nessa
perspectiva, a democracia não teria como finalidade principal produzir
igualdade material, mas assegurar direitos individuais, contratos, propriedade
e liberdade de escolha.
Na
Europa Ocidental do pós-guerra desenvolveram-se experiências diferentes. Países
como França e Alemanha, entre outros, por caminhos próprios, buscaram
compatibilizar as instituições da democracia liberal com direitos sociais e
sistemas de proteção coletiva. As liberdades civis e políticas passaram a
conviver com políticas públicas de educação, saúde, previdência, proteção ao
trabalho e redução das desigualdades.
É dessa
experiência histórica que emerge uma questão que considero central para
qualquer reflexão sobre o futuro da democracia: diferenças e desigualdades não
são sinônimos.
As
diferenças são constitutivas da condição humana. Somos diferentes em nossas
histórias, identidades, culturas, crenças, opiniões, capacidades, projetos de
vida e maneiras de compreender o mundo. Uma sociedade democrática não deve
eliminar essas diferenças. Ao contrário: deve reconhecê-las, protegê-las e
criar condições para que convivam no espaço público.
A
pluralidade não é um problema a ser resolvido pela democracia. É uma das razões
de sua existência.
A
desigualdade é outra coisa. Ela surge quando as condições econômicas e sociais
estabelecem distâncias tão profundas entre os indivíduos que a igualdade formal
perante a lei passa a conviver com uma realidade de profunda exclusão social.
Quando alguns concentram riqueza, informação, oportunidades e poder em
proporções extraordinariamente superiores às de muitos, não estamos mais
falando simplesmente de pessoas diferentes. Estamos falando de cidadãos que
chegam à arena democrática em condições profundamente desiguais.
Por
isso, tenho insistido em uma ideia que considero essencial: a democracia é o
regime das diferenças, mas não pode se conformar em ser o regime das
desigualdades.
Respeitar
as diferenças significa reconhecer o outro como sujeito de direitos, mesmo
quando pensa, vive, acredita ou faz escolhas diferentes das nossas. Combater as
desigualdades significa assegurar que o lugar onde alguém nasceu, a cor de sua
pele, sua orientação sexual, sua renda ou sua condição social não determinem,
de antemão, o grau de liberdade que poderá exercer, as oportunidades que
encontrará, a força de sua voz ou a possibilidade de participar efetivamente
das decisões que moldam a vida em sociedade.
Liberdade
e igualdade, portanto, não devem ser compreendidas como valores antagônicos,
mas como dimensões complementares de uma democracia substantiva. Uma sociedade
pode assegurar formalmente a liberdade e, ao mesmo tempo, manter milhões de
pessoas excluídas das condições materiais indispensáveis ao seu pleno
exercício. Afinal, a liberdade inscrita na lei perde parte de seu significado
quando as desigualdades econômicas e sociais impedem que todos tenham condições
efetivas de exercê-la.
É nesse
ponto que a democracia liberal precisa avançar.
Não se
trata de negar suas conquistas históricas. O Estado de Direito, as liberdades
individuais, a liberdade de expressão, o pluralismo político, as eleições
livres, a separação entre os Poderes e a proteção das minorias são conquistas
civilizatórias que precisam ser preservadas.
Mas
preservá-las não significa considerar concluída a construção democrática.
Para
aqueles que, ao longo da história, buscaram uma distribuição mais justa das
riquezas produzidas pela sociedade, permanece uma questão incontornável: como
compatibilizar liberdade política com justiça social? Como impedir que a
desigualdade econômica termine convertendo-se em desigualdade política? Como
assegurar que a democracia não seja apenas o direito formal de votar, mas
também a possibilidade concreta de participar das decisões que determinam o
destino coletivo?
Esse
talvez seja um dos grandes desafios democráticos do nosso tempo.
A
concentração econômica produz consequências que vão muito além da economia. O
dinheiro também gera influência, capacidade de organização, acesso aos meios de
comunicação, financiamento político e poder para interferir no debate público.
Quando a força econômica passa a determinar, de maneira desproporcional, quem
consegue fazer sua voz ser ouvida, a própria igualdade política começa a ser
comprometida.
Por
isso, aperfeiçoar a democracia exige também enfrentar a concentração excessiva
de renda e de riqueza. Não para produzir uma sociedade artificialmente
homogênea, mas justamente para assegurar que nossas legítimas diferenças possam
se manifestar sem serem aprisionadas pela força do dinheiro.
No
Brasil, essa discussão encontra fundamento na própria Constituição de 1988.
Nosso pacto constitucional não escolheu entre liberdade e justiça social.
Escolheu as duas.
O
artigo 1º da Constituição Federal estabelece, entre os fundamentos da
República, a cidadania, a dignidade da pessoa humana, os valores sociais do
trabalho e da livre iniciativa e o pluralismo político. Já o artigo 3º
estabelece, entre seus objetivos fundamentais, construir uma sociedade livre,
justa e solidária, erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as
desigualdades sociais e regionais.
Há aí
um projeto de país ainda inconcluso.
A
Constituição também foi além da concepção segundo a qual democracia se resume
ao comparecimento periódico às urnas. Ao afirmar que todo poder emana do povo,
estabeleceu que ele será exercido por meio de representantes eleitos ou
diretamente. E previu instrumentos como plebiscito, referendo e iniciativa
popular.
Portanto,
votar é indispensável, mas não suficiente.
Uma
democracia mais desenvolvida precisa criar mecanismos permanentes de
participação social. Conselhos, audiências públicas, consultas populares,
orçamento participativo, conferências, iniciativas legislativas populares e
novas formas de participação proporcionadas pelas tecnologias podem aproximar
os cidadãos das decisões públicas. A representação política continua
necessária, mas pode e deve conviver com instrumentos de democracia
participativa.
É
justamente aí que se apresenta uma escolha sobre os rumos da democracia
brasileira.
Nunca
foi tão fácil compreender os diferentes rumos que podemos escolher para o
Brasil. De um lado, há concepções que atribuem maior centralidade ao mercado, à
autonomia individual e à redução da intervenção estatal, inclusive nas
políticas de distribuição de renda e poder. Seus defensores argumentam que uma
menor intervenção favorece a liberdade econômica, a eficiência e a iniciativa
privada. É a supremacia daquilo que conceituo como “individualismo
competitivo”.
De
outro, há a tradição social-democrática aperfeiçoada, que procura preservar as
liberdades políticas, a propriedade privada e a economia de mercado, mas
entende que o Estado democrático possui responsabilidade ativa na redução das
desigualdades, na universalização dos direitos sociais e na construção de
condições materiais que permitam o exercício efetivo da cidadania.
É nessa
segunda tradição que situo a democracia que considero necessário aperfeiçoar.
Não uma
democracia em que o Estado substitua a sociedade. Tampouco uma democracia em
que o mercado substitua o Estado. Mas uma democracia na qual Estado, sociedade
e mercado estejam submetidos ao interesse público e às regras da inclusão
social plena.
Uma
social-democracia renovada para os desafios do século XXI precisa ir além do
Estado de bem-estar construído no pós-guerra. Precisa enfrentar novas formas de
concentração de riqueza e poder; democratizar oportunidades; promover
distribuição de renda; proteger direitos sociais; regular democraticamente os
novos poderes econômicos e tecnológicos; e ampliar os espaços em que a
população participa das decisões públicas.
Precisa,
sobretudo, relativizar a ideia de que a vontade circunstancial da maioria é
suficiente para legitimar todas as decisões. A democracia necessita da maioria
para governar, mas precisa das regras, dos direitos fundamentais e da
participação social para continuar sendo democracia.
Não
basta perguntar quem venceu a eleição. É necessário perguntar como o poder será
exercido entre uma eleição e outra.
É essa
democracia que precisamos continuar construindo: representativa, porque a
complexidade das sociedades modernas exige representação; participativa, porque
o cidadão não pode ser convocado apenas no dia da eleição; plural, porque as
diferenças são constitutivas da humanidade; social, porque a liberdade sem
condições materiais mínimas corre o risco de se transformar em promessa
abstrata; e constitucional, porque nem mesmo a maioria pode tudo.
A
democracia não estará concluída enquanto a riqueza de poucos puder significar
poder político desproporcional e enquanto a pobreza de muitos significar menos
oportunidades, menos voz e menos liberdade.
Nosso
desafio não é superar a democracia para buscar outra coisa. É aprofundá-la.
Fazer com que seja cada vez mais democrática. Uma democracia capaz de respeitar
as diferenças, enfrentar as desigualdades, distribuir melhor a riqueza
socialmente produzida e devolver ao cidadão uma parcela cada vez maior das
decisões sobre seu próprio destino.
Afinal,
democracia não é apenas escolher quem governa. É participar, permanentemente,
da construção da sociedade em que queremos viver.
No
próximo dia 4 de outubro, o que se espera é que os brasileiros façam suas
escolhas pensando no presente, mas também no futuro das novas gerações. Esse
futuro só será bom com mais cidadania, ou seja, com maior inclusão social.
Fonte:
Por João Antonio da Silva Filho, em Brasil 247

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