terça-feira, 1 de setembro de 2026

O ator diagnosticado com Alzheimer e que agora está à frente de um espetáculo solo

Durante quatro dias seguidos, Peter Marinker chegou para ensaios que nem sequer estavam acontecendo. A demência havia confundido as datas em sua mente.

Ainda assim, ele agora se prepara para fazer algo que a maioria dos atores consideraria intimidador mesmo com a memória em perfeito estado: interpretar sozinho, em um palco de Londres, no Reino Unido, uma peça muito apreciada do dramaturgo irlandês Samuel Beckett.

Marinker, de 85 anos, é mais conhecido por seus trabalhos de voz, que vão de peças de rádio e videogames a filmes de grande orçamento como Labirinto: A Magia do Tempo (1986) e Paddington: Uma Aventura na Floresta (2025).

No cinema, interpretou o assessor do presidente dos Estados Unidos em Simplesmente Amor (2003) e um dos passageiros do avião no drama Vôo United 93 (2006).

Em 2023, Marinker interpretava Gandalf em uma versão teatral de O Senhor dos Anéis quando sentiu que estava "se desligando", e um ator substituto teve de assumir o papel pelo restante da temporada.

Marinker então passou por exames de ressonância magnética e outros testes de saúde. Há dois anos, recebeu o diagnóstico de doença de Alzheimer.

A América Latina é a região mais afetada pela demência no mundo. Mais da metade dos casos pode ser evitada com o controle de fatores de risco como baixa escolaridade, perda auditiva, hipertensão, obesidade, tabagismo, depressão, isolamento, sedentarismo, diabetes, consumo excessivo de álcool, poluição e traumas na cabeça.

"Eu simplesmente tive que aceitar", diz Marinker. "Isso explicou por que eu vivia perdendo coisas, e comecei a rir de mim mesmo, de todas as outras bobagens que faço repetidamente."

Naquele momento, alguns atores talvez tivessem decidido se afastar da pressão de se apresentar diante de uma plateia ao vivo.

Mas, "do nada", Marinker recebeu uma ligação de alguém com quem havia trabalhado de perto no passado: Dave Wybrow, diretor do Cockpit Theatre, em Londres.

A ideia era encenar um monólogo de Beckett, A Última Gravação de Krapp, em que um escritor idoso ouve gravações de quando era mais jovem e relembra uma vida de arrependimentos e oportunidades perdidas.

"É um espetáculo explosivo e um texto explosivo", diz Wybrow, cuja mãe também teve problemas de memória no fim da vida.

Os ensaios acontecem desde o fim de junho para que Marinker tenha mais tempo para praticar, e uma equipe inteira foi reunida para tornar a montagem possível.

Um diretor de palco ficará ao lado do cenário durante as apresentações, haverá telas de teleprompter em diferentes pontos do teatro, e Marinker usará um pequeno ponto eletrônico para receber uma ajuda rapidamente caso se esqueça de alguma fala.

Wybrow é categórico ao dizer que a ideia não é "esconder" a doença de Marinker, mas mostrar que o trabalho criativo e colaborativo continua perfeitamente possível depois de um diagnóstico de demência.

Desde o primeiro dia, Marinker diz que não teve nenhuma preocupação.

"Dave [Wybrow] perguntou se eu gostaria de fazer, e eu só respondi: 'Sim. Ah, sim, sim, sim, sim!'", diz Marinker.

"Vou ficar nervoso [na noite de estreia], mas sei lidar com isso. É só a adrenalina."

<><> Ecos do passado

Esta não é a primeira vez que Marinker interpreta a peça. Ele assumiu o mesmo papel pela primeira vez em 1983.

A equipe da produção encontrou gravações em fita daquela montagem, feita há mais de 40 anos, e elas serão incorporadas ao novo espetáculo enquanto o personagem ouve ecos de seu eu mais jovem.

Uma das características do Alzheimer é que a perda de memória pode ser seletiva, e não uniforme.

No início da doença, regiões ao redor do hipocampo, localizado nos lobos temporais do cérebro, estão entre as primeiras a ser afetadas.

Essa região desempenha um papel fundamental na formação e na recuperação do que os cientistas chamam de memórias episódicas: lembranças de acontecimentos e experiências específicas da vida de uma pessoa.

É por isso que pessoas com Alzheimer podem ter dificuldade, por exemplo, para se lembrar de férias em família, de uma conversa com um amigo ou do nome de alguém.

Mas outras memórias ligadas a habilidades e rotinas praticadas muitas vezes, podem permanecer preservadas por mais tempo.

"Algo armazenado na memória consolidada de longo prazo costuma ser mais fácil de acessar do que memórias novas, que acabaram de ser formadas", diz Tara Spires-Jones, professora de Neurodegeneração da Universidade de Edimburgo, no Reino Unido, e autora do livro Fighting for Our Minds (Lutando por nossas mentes, em tradução livre).

Isso ajuda a explicar por que algumas pessoas com Alzheimer ainda conseguem preparar uma xícara de chá, lembrar letras de músicas ou até tocar uma música ou interpretar um texto teatral ensaiado muitas vezes depois que outras memórias já começaram a desaparecer.

<><> Enfrentando o estigma

Todo o lucro da temporada de quatro dias será destinado à Alzheimer's Society, organização que ajudou Marinker após o diagnóstico.

Uma pesquisa realizada para a organização em 2025 indicou que 42% das pessoas que vivem com demência sentiam vergonha de seus sintomas.

Uma em cada cinco pessoas com problemas de memória afirmou não ter procurado um médico para obter um diagnóstico por receio da reação de amigos e familiares.

O estigma "ainda é muito presente", diz Taiyaba Zeria, que coordena serviços de apoio a pessoas com demência da Alzheimer's Society em Londres.

"O que Peter [Marinker] está fazendo mostra claramente que um diagnóstico não é o fim e que uma pessoa que vive com demência ainda pode fazer muitas coisas de que gosta e pelas quais é apaixonada."

Marinker, por sua vez, descreve o projeto como seu "maravilhoso canto do cisne".

"Estou no estágio inicial [da doença], então preciso aproveitar ao máximo essa fase e me preparar da melhor maneira possível para o estágio intermediário", diz Marinker, com uma risada irônica.

"Talvez eu consiga chegar ao fim desta [apresentação], ou talvez simplesmente caia duro!"

 

Fonte: Por Jim Reed, repórter de Saúde da BBC News

 

Uma em cada seis pessoas no mundo vive algum grau de solidão

Pessoas aguardam atendimento numa clínica, esperam o elevador, percorrem uma fila, ocupam um ônibus ou dividem uma mesa num aeroporto, enquanto os olhos permanecem voltados para pequenas telas. A proximidade física continua intacta; a disponibilidade para o contato sofreu uma mudança profunda. O telefone ampliou como poucas invenções a comunicação entre pessoas distantes e, ao mesmo tempo, ocupou aqueles intervalos em que desconhecidos costumavam reconhecer a presença uns dos outros. O fenômeno parece pequeno diante das grandes crises contemporâneas, mas toca uma dimensão decisiva da vida urbana: a convivência com quem não escolhemos previamente encontrar.

Em 2025, a Organização Mundial da Saúde divulgou o relatório de sua Comissão sobre Conexão Social e estimou que uma em cada seis pessoas no mundo vive algum grau de solidão. Entre adolescentes e jovens, a proporção é ainda maior. O documento relaciona isolamento e fragilidade de vínculos a consequências sobre saúde, educação, trabalho e vida comunitária, além de chamar atenção para ambientes que dificultam relações presenciais. A dimensão do problema ajuda a perceber o valor de interações que raramente aparecem nas estatísticas: uma conversa de cinco minutos numa fila, um comentário no transporte coletivo, a troca de informações entre pessoas que provavelmente jamais voltarão a se encontrar.

<><> O acaso perde espaço

Esses contatos tiveram durante séculos um papel silencioso na formação das cidades. Esperar o ônibus, procurar um endereço, dividir um banco de praça, comentar uma demora ou perguntar as horas ofereciam pequenas aberturas para a conversa. A maioria delas desaparecia no mesmo instante, sem produzir amizade, compromisso ou qualquer continuidade. Ainda assim, fazia circular experiências entre pessoas de idades, profissões, origens e visões de mundo diferentes. As grandes cidades construíram parte de sua vitalidade sobre essa convivência imprevista, porque obrigavam indivíduos a dividir espaços com gente que nenhuma rede de afinidade havia selecionado.

Pesquisas experimentais recentes ajudam a medir o que mudou. Em estudos realizados com pessoas que ainda não se conheciam, participantes com acesso imediato ao telefone tenderam a interagir menos e a avaliar de maneira menos positiva a experiência de espera. Outro conjunto de pesquisas, conduzido com passageiros de transporte público, encontrou resultado igualmente significativo: pessoas orientadas a conversar com desconhecidos relataram uma experiência melhor do que aquelas que permaneceram isoladas, embora antes do contato tivessem imaginado que a conversa seria menos agradável. Existe, portanto, uma diferença entre aquilo que antecipamos sobre o encontro e aquilo que efetivamente sentimos depois de conversar.

O smartphone modifica esse cenário porque funciona como um endereço portátil para onde a atenção pode se transferir a qualquer instante. O corpo permanece na praça, no metrô ou no café, enquanto a consciência se desloca para uma conversa familiar, uma notícia, um vídeo ou uma rede de pessoas conhecidas. Aos poucos, a cidade começa a reunir multidões presentes pela metade. Essa transformação lembra os antigos portos depois da construção de grandes canais privados: as embarcações continuam diante da mesma costa, mas parte crescente do tráfego passa por rotas que evitam o cais comum. O espaço público permanece cheio, porém uma parcela considerável da circulação humana acontece fora dele.

<><> Olhos que já não se cruzam

A literatura percebeu muito cedo o valor desses instantes. Baudelaire, observando a multidão parisiense do século XIX, transformou o encontro com uma desconhecida em “A uma passante”. A mulher cruza a rua, os olhares se encontram e o poeta resume a violência daquele instante: “Um relâmpago… depois a noite!”. Toda a força do poema depende de uma condição simples e cada vez menos garantida: duas pessoas levantam os olhos no mesmo momento. Walt Whitman escreveu experiência semelhante em “A um estranho”, dirigindo-se a alguém que passa pela rua e sugerindo que, por segundos, uma vida inteira poderia caber naquele reconhecimento. O desconhecido aparece na literatura porque a cidade lhe dava espaço para existir.

Uma pesquisa etnográfica publicada em 2025, realizada em espaços públicos de Oslo, estudou exatamente as condições que favorecem conversas casuais. O trabalho identificou aquilo que o pesquisador chamou de abertura mútua: sinais corporais, posições no espaço, disponibilidade do olhar e situações compartilhadas capazes de permitir que um contato comece. A conclusão possui consequências para a arquitetura urbana e também para os hábitos individuais. Bancos voltados uns para os outros, calçadas agradáveis, mercados, cafés, transporte público e praças podem criar oportunidades; ainda assim, o encontro depende de pessoas suficientemente presentes para reconhecer essas oportunidades.

É nesse ponto que a perda da conversa casual ultrapassa a nostalgia. O ambiente digital permite escolher com extraordinária precisão quem acompanhamos, quais grupos frequentamos, quais assuntos consumimos e de quais pessoas desejamos distância. O espaço público sempre funcionou segundo outra lógica: nele, a sociedade aparece sem filtro prévio. O vizinho de idade diferente, a trabalhadora que pega o mesmo ônibus, o turista perdido, o adolescente no elevador, o vendedor da esquina e a senhora que pergunta sobre uma rua fazem parte de uma convivência que obriga cada pessoa a lidar com a variedade humana sem recorrer imediatamente a mecanismos de seleção.

<><> A cidade fora dos filtros

Essa característica possui importância democrática. Uma sociedade formada apenas por círculos de afinidade tende a conhecer muito bem suas próprias razões e muito pouco a vida concreta de quem permanece fora deles. As conversas entre desconhecidos jamais resolveram conflitos políticos, mas introduziam pequenas fraturas na tendência de imaginar o mundo apenas a partir do grupo ao qual pertencemos. Uma frase escutada num táxi, numa fila ou numa sala de espera podia revelar uma dificuldade social que nunca havia atravessado nossa experiência. A cidade ensinava por contato lateral, sem currículo, sem mediação e sem promessa de continuidade.

O desaparecimento desses encontros também altera a percepção de segurança social. Pessoas que trocam algumas palavras reconhecem-se mutuamente como indivíduos e deixam de ser apenas figuras anônimas no mesmo espaço. Um bairro no qual comerciantes, passageiros, vizinhos e frequentadores de uma praça estabelecem contatos mínimos acumula uma espécie de conhecimento compartilhado que ajuda a transformar território em comunidade. Esse tecido depende de gestos quase invisíveis, construídos pouco a pouco, e pode enfraquecer sem que nenhuma estatística urbana registre imediatamente a perda.

<><> O valor do inesperado

Seria absurdo responsabilizar o telefone por uma transformação que envolve desenho das cidades, jornadas de trabalho, medo, desigualdade, transporte, hábitos familiares e mudanças culturais profundas. Também seria ingênuo ignorar que o aparelho ocupa hoje justamente os segundos em que o acaso costumava trabalhar. Uma espera de três minutos já oferece conteúdo suficiente para impedir qualquer silêncio. E certas formas de sociabilidade nasciam porque existia silêncio, demora e alguma disponibilidade para perceber o que acontecia ao redor.

As cidades continuarão cheias de desconhecidos, mas a simples presença deles já não garante encontro. O desafio consiste em preservar espaços e hábitos nos quais a convivência possa surgir sem finalidade definida, sem inscrição prévia e sem algoritmo de compatibilidade. Ninguém precisa conversar o tempo inteiro; o direito ao silêncio permanece tão legítimo quanto o desejo de interação. O que merece ser protegido é a possibilidade de que alguma coisa inesperada atravesse a rotina. Durante séculos, a cidade ofereceu diariamente milhões dessas pequenas colisões entre trajetórias humanas. Ainda continuamos próximos o bastante para que aconteçam. Falta apenas saber quantas vezes levantaremos os olhos a tempo.

 

Fonte: Por Washington Araújo, em Brasil 247

 

Presos, generais do golpe resenham livros, fazem fisioterapia e estudam à distância

Numa última investida para manterem a patente, os generais de quatro estrelas condenados por tentativa de golpe de Estado mostraram como veem a si próprios nas defesas apresentadas ao STM (Superior Tribunal Militar), que julgará ações de expulsão definitiva da vida militar. É um passo seguinte à condenação no STF (Supremo Tribunal Federal).

Walter Braga Netto, que chefiou o Estado-Maior do Exército, o Comando Militar do Leste e o Ministério da Defesa, é descrito pelos advogados como alguém que tem a admiração dos colegas e “enorme respeito” na Força. Paulo Sérgio de Oliveira, ex-comandante do Exército e ex-titular da Defesa, teria um histórico “impecável e distinto” como militar.

Almir Garnier, ex-comandante da Marinha, ingressou na Força ainda criança, aos 10 anos, como aluno de uma escola industrial, e sempre se destacou, segundo seus advogados.

Os três militares da reserva, da mais alta patente, cumprem pena em regime fechado após terem sido condenados por crimes de tentativa de golpe de Estado, de abolição violenta do Estado democrático de Direito, organização criminosa armada, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado.

As penas definidas pelo STF variam de 19 a 26 anos de prisão –inferior apenas à do militar apontado como chefe do esquema, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), sentenciado a 27 anos e três meses de prisão. A condenação completa um ano no dia 11 de setembro. Os generais estão em celas improvisadas em unidades militares, desde o fim de novembro.

É a primeira vez que a democracia brasileira pune e encarcera militares que alcançaram as quatro estrelas por tentativa de golpe. Entre os condenados está o general Augusto Heleno, 78, que cumpre a pena em casa por sofrer da doença de Alzheimer.

<><> Motivos das condenações

Braga Netto foi condenado por coordenar um “gabinete” golpista após a derrota na eleição e por ter apoiado um plano que incluía o assassinato do presidente Lula (PT) e do vice, Geraldo Alckmin (PSB). A condenação de Garnier foi por ter colocado tropas da Marinha à disposição de um golpe. Paulo Sérgio teria pressionado comandantes a aderirem ao impedimento da posse de eleitos. Heleno foi condenado por chefiar um “gabinete de crise” e orientado discurso contra as urnas.

Os quatro militares encaram as penas com irresignação, segundo o ex-vice de Bolsonaro e senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS). Ele visitou Braga Netto e Paulo Sérgio. “Eles manifestam um sentimento de revolta”, diz Mourão, que também é general de Exército.

A cela improvisada de Paulo Sérgio, 68, tem quarto, sala e banheiro privativo, segundo quem o visita, e está anexa a gabinetes de generais do Comando Militar do Planalto, em Brasília.

A rotina do general é extensa: ele cadastrou 35 visitantes, todos autorizados pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, responsável pelos processos de execução penal e por definir as condições das prisões. Em pelo menos três dias da semana, o militar recebe visitas da mulher, dos filhos oficiais do Exército, de noras, netos ou de amigos de farda.

Para presos comuns no Complexo da Papuda, no Distrito Federal, são permitidos 11 cadastros de visitantes. As visitas regulares devem ocorrer às quartas e quintas-feiras.

Nos banhos de sol, Paulo Sérgio, 68, faz fisioterapia e atividades físicas. Uma vez por semana, recebe atendimento psicológico.

Um plano de trabalho foi desenvolvido pelo comando para o general, de forma a garantir a remição da pena. Ele revisa, cataloga e faz análise de obras da biblioteca do Exército.

À distância, com acesso a computador, Paulo Sérgio cursa administração hospitalar. Moraes atendeu a um pedido do general e permitiu ainda que ele faça o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio).

Garnier, 65, que cumpre pena nas dependências do gabinete do comandante de Operações Navais, na Estação Rádio da Marinha em Brasília, recebe visitas semanais de dois médicos da Força, faz exames e recebe atendimento odontológico no Hospital Naval.

A Garnier foi permitido ler os livros que já existiam na biblioteca da unidade militar. Ele prefere livros religiosos: resenhou “O agir invisível de Deus” e “Como Deus transforma tristeza em alegria”. Os capitães que avaliaram suas resenhas descontaram poucos décimos das resenhas do almirante que já comandou a Marinha, por erros de ortografia.

<><> Negativas de Moraes

O comando do lugar queria que um soldado fosse autorizado a cortar o cabelo do general, mas Moraes negou. A Força também quis emplacar uma atividade nobre para o almirante, com análises sobre a capacidade defensiva do país diante do “mutante cenário geopolítico”. O ministro negou esse tipo de trabalho. Garnier passou, então, a fazer revisão gramatical e tradução.

Já com a pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência em curso, o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha, pediu autorização para visitar o almirante. Esses pedidos se deram em julho e agosto. Marinho não respondeu aos questionamentos da reportagem sobre o teor das visitas.

Na 1ª Divisão do Exército, na Vila Militar, no Rio, Braga Netto — ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro e ex-candidato a vice na chapa derrotada em 2022 — também recebeu visitas de bolsonaristas, ex-colegas de Esplanada. Foram autorizados os ex-ministros da Saúde Marcelo Queiroga e Eduardo Pazuello (general da reserva e deputado federal) e a senadora Damares Alves (Republicanos-DF).

Braga Netto, 70, passou praticamente o primeiro semestre inteiro sem trabalhar, sem ler e sem estudar. Fez pouca atividade física, recebeu alguma assistência religiosa e não teve atendimento psicológico.

Em nota, o Exército disse que as condições de custódia são definidas e fiscalizadas conforme orientação do STF, em respeito a “parâmetros de segurança, salubridade e dignidade da pessoa humana”.

“Eventuais visitas e atendimentos de saúde, ressalvados os casos emergenciais, dependem de prévia autorização judicial”, disse a Força. “A assistência religiosa, o acesso à leitura, as atividades laborais e as demais medidas observam estritamente a legislação e as decisões do juízo da execução penal, sendo aplicadas a todos sob custódia.”

A Marinha e as defesas dos quatro militares não responderam aos questionamentos. A reportagem pediu às defesas para entrevistar os quatro generais. O advogado de Garnier disse que não há interesse. O de Heleno afirmou que o general não está disponível para entrevistas. Os demais não responderam.

“Em termos de localização, Braga Netto é o que está em pior condição. É longe e o deslocamento da esposa, que vive em Copacabana, e da família, em Niterói, é inseguro”, diz o senador Mourão. O general afirma, no entanto, que as instalações oferecidas aos dois generais de Exército são boas, com quarto e sala e direito a horário de sol.

“Em algum momento, esse processo vai ser anulado, com ou sem anistia”, diz o ex-vice-presidente. “Isso vai se dar por revisão no STF ou lei de anistia no Congresso. E diante de um Congresso mais à direita, o próprio presidente da República não vai bloquear isso.”

Sem anistia, generais terão direito ao regime semiaberto a partir de 2031 ou 2032.

       Ex-comandante da FAB rebate Flávio Bolsonaro após acusação de pedir votos para Lula. Por Cleber Lourenço

O ex-comandante da Aeronáutica Carlos de Almeida Baptista Jr. rebateu Flávio Bolsonaro após o candidato à Presidência afirmar, durante sabatina no Jornal Nacional, que o brigadeiro estaria pedindo votos para a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Baptista Jr. classificou a acusação como uma “leviandade” e afirmou não saber de onde Flávio tirou a informação.

A declaração de Flávio ocorreu quando ele foi confrontado com o depoimento de Baptista Jr. sobre as articulações golpistas ocorridas após a derrota de Jair Bolsonaro nas eleições de 2022. O senador tentou desqualificar o relato do ex-comandante ao afirmar que ele seria “completamente parcial” por supostamente fazer campanha para Lula.

Baptista Jr. respondeu neste sábado (29) por meio das redes sociais. Segundo ele, a acusação não apenas carece de fundamento como teria sido usada por Flávio para evitar o mérito da pergunta feita durante a sabatina.

“A leviandade de dizer que faço campanha para a reeleição do presidente Lula […] é antes de tudo uma ferramenta para fugir da responsabilidade de respondê-la — algo entendido na figura de filho, mas não de alguém que se proponha a nos presidir”, escreveu.

O brigadeiro comandou a Aeronáutica entre abril de 2021 e janeiro de 2023 e se tornou uma das principais testemunhas militares das articulações ocorridas no Palácio do Planalto após a derrota de Bolsonaro. Seu depoimento ajudou a reconstruir as discussões mantidas pela cúpula do governo sobre medidas que poderiam impedir a posse de Lula.

Na resposta a Flávio, Baptista Jr. afirmou não saber se a acusação de que estaria fazendo campanha para Lula teria surgido de seu depoimento na ação penal sobre a tentativa de golpe ou de seu livro, Eu Disse Não! Uma trincheira antigolpista.

O ex-comandante aproveitou o fato de a obra ainda não ter chegado às livrarias para ironizar Flávio. Caso o candidato tenha feito uma “viagem” sobre o conteúdo do livro, escreveu Baptista Jr., deveria esperar mais dez dias para “ler o livro e refletir, antes de outra entrevista”.

A publicação também trouxe um recado a Rogério Marinho, coordenador-geral da campanha de Flávio. Baptista Jr. reagiu à declaração do senador de que “a tal direita consentida vai ter que nos engolir”.

O brigadeiro chamou Marinho de “outrora ponderado” e recomendou que ele não incorporasse o “espírito do nosso querido Zagallo”, em referência à célebre frase “vocês vão ter que me engolir”, eternizada pelo ex-técnico da seleção brasileira.

Baptista Jr. encerrou o recado com uma referência a Fernando Collor. “Lembre-se do chamamento de Fernando Collor aos ‘Caras-Pintadas’: menos”, escreveu.

A referência é à reação popular ocorrida em 1992, quando Collor convocou a população a vestir verde e amarelo em apoio ao governo. O chamado acabou produzindo o efeito contrário: manifestantes foram às ruas de preto em protestos que ganharam força durante a crise política que culminaria no impeachment do então presidente.

 

Fonte: Por Vinicius Sassine, em ICL Notícias

 

Ecos do antissemitismo e a vida psíquica na Palestina ocupada

Existe um problema intelectual nas denúncias sobre os crimes do Estado de Israel contra o povo palestino que raramente é enfrentado com honestidade.

Ao longo da história, os judeus foram vítimas de inúmeras acusações falsas que alimentaram perseguições, expulsões e massacres. Foram acusados de envenenar poços, matar crianças para rituais, controlar governos, dominar bancos, manipular a imprensa e conspirar para dominar o mundo. Essas narrativas serviram para justificar séculos de antissemitismo. Mas isso nos coloca diante de uma pergunta inevitável: O que devemos fazer quando uma ação praticada pelo Estado de Israel, por seus agentes ou por colonos israelenses se assemelha a um ou mais desses antigos estereótipos?

Muitas pessoas parecem acreditar que a resposta é simples: não falar sobre o assunto. Afinal, qualquer denúncia que lembre uma antiga narrativa antissemita seria, por definição, suspeita. Esse raciocínio, porém, leva a uma consequência absurda.

Tomemos um exemplo. Durante a Idade Média, judeus foram falsamente acusados de envenenar poços para provocar epidemias. A acusação, particularmente associada às perseguições durante a Peste Negra, contribuiu para massacres de comunidades judaicas em diferentes regiões da Europa. Trata-se de um dos exemplos históricos mais conhecidos de como uma fantasia antissemita podia transformar uma população inteira em bode expiatório.

Séculos depois, existem registros documentados de ataques de colonos israelenses contra fontes de água palestinas. Relatórios sobre a situação hídrica na Cisjordânia registram episódios de contaminação de cisternas e fontes, inclusive com o lançamento de animais mortos, fraldas usadas e outros materiais, além do uso de substâncias tóxicas em áreas próximas a reservatórios. Há também registros jornalísticos de casos específicos de contaminação de poços palestinos por colonos.

Isso exige uma distinção fundamental. O fato de existir uma mentira medieval segundo a qual “os judeus” envenenariam poços não significa que um episódio contemporâneo de contaminação de uma fonte palestina deixe de poder ser investigado, documentado e denunciado. Mas tampouco significa que qualquer alegação contemporânea deva ser aceita sem prova apenas porque encontra algum paralelo histórico.

A analogia não prova nem refuta o fato. A evidência é que deve fazê-lo. É justamente essa precisão que impede que uma denúncia legítima seja transformada em repetição de um estereótipo antissemita.

O mesmo problema aparece em outro tema. Durante séculos, antissemitas difundiram a fantasia de que existiria um suposto “judeu internacional” controlando governos, bancos, meios de comunicação e a política mundial. Essa teoria conspiratória foi utilizada para justificar perseguições e nunca teve fundamento. A ideia de uma conspiração judaica mundial, de fato, constitui uma das formas históricas mais persistentes da fantasia antissemita sobre um poder judaico secreto.

Contudo, há quem derive daí a conclusão de que é proibido discutir a atuação de redes organizadas de influência que operam publicamente em favor dos interesses políticos de Israel. Alega-se, erroneamente, que admitir a existência de organizações, grupos de pressão ou redes políticas atuando em defesa de determinado Estado equivaleria a validar a antiga fantasia do “judeu internacional”.

Essa conclusão simplesmente não faz sentido. A falsidade de uma teoria conspiratória sobre um povo inteiro não demonstra que toda e qualquer articulação política de organizações e indivíduos seja imaginária. Da mesma forma, reconhecer a existência de grupos e organizações que atuam publicamente em defesa de Israel não transforma em verdadeira a antiga fantasia antissemita do “judeu internacional”. As afirmações são completamente diferentes: uma atribui intenções e poder oculto a um povo inteiro, a outra diz respeito à atuação política de organizações, grupos e indivíduos concretos em defesa de interesses específicos.

Em ambos os exemplos, o erro é exatamente o mesmo: concluir que um fato não pode ser verdadeiro apenas porque lembra uma mentira histórica.

<><> A verdade dos fatos não é determinada por analogias, mas pelas evidências

É aqui que as reflexões de Lara Sheehi e Stephen Sheehi ajudam a aprofundar o problema. Em Psicanálise sob ocupação: praticando a resistência na Palestin, os autores propõem uma leitura da vida psíquica palestina que não separa artificialmente sofrimento, subjetividade e condições políticas. A partir de uma perspectiva fortemente influenciada por Frantz Fanon e pelo pensamento decolonial, eles analisam o colonialismo de povoamento como um processo também psicologicamente extrativo e discutem como discursos de “normalização”, “trauma”, “resiliência” e direitos humanos podem, em determinadas circunstâncias, obscurecer as condições estruturais nas quais a vida palestina se desenvolve.

Essa contribuição permite deslocar a pergunta. Não basta perguntar se determinada denúncia “se parece” com um antigo estereótipo antissemita. É preciso perguntar também em que condições políticas, históricas e psíquicas determinadas realidades se tornam difíceis de reconhecer, nomear e elaborar.

A violência colonial não se limita ao que acontece materialmente aos corpos e aos territórios. Ela também produz efeitos sobre a vida psíquica, sobre a memória, sobre a linguagem e sobre aquilo que pode ou não ser reconhecido como realidade. Isso acrescenta uma dimensão importante à discussão proposta aqui: não devemos apenas perguntar se uma denúncia reproduz um estereótipo antissemita; devemos perguntar também se o medo de reproduzir esse estereótipo não está sendo mobilizado para impedir que determinados fatos sejam reconhecidos, investigados e nomeados.

Em vez de perguntar apenas “o que aconteceu?”, passamos também a questionar: Quem está autorizado a dizer o que aconteceu?

Quando criticamos Israel, falamos do Estado, de seu governo, de seu aparato militar, de seus colonos, de seus soldados e de organizações concretas que atuam em defesa de seus interesses políticos. Não dos judeus enquanto povo, comunidade religiosa ou grupo étnico.

Aliás, confundir deliberadamente essas categorias produz um efeito profundamente perverso. Ao afirmar que determinadas ações do Estado de Israel não podem sequer ser discutidas porque lembram antigos estereótipos antissemitas, acaba-se reforçando justamente a ideia de que Israel e os judeus são uma única entidade política e moral. E essa é precisamente a confusão que deveria ser combatida.

A psicanálise dos Sheehi permite ir ainda mais longe: a própria disputa sobre quem pode falar, o que pode ser nomeado e qual sofrimento será considerado legítimo faz parte da realidade política da ocupação. A linguagem não é apenas um instrumento neutro utilizado para descrever acontecimentos que já estão dados. Ela também é um campo de poder.

Isso se torna particularmente importante quando a experiência palestina é reduzida a categorias psicológicas abstratas. “Trauma”, “resiliência” e “normalização”, quando empregados sem considerar as estruturas políticas que produzem o sofrimento, podem transformar uma experiência histórica e coletiva em um problema individual. Os Sheehi justamente questionam esse tipo de redução, defendendo uma prática psicanalítica capaz de considerar as condições políticas e materiais nas quais a subjetividade se constitui.

Há uma diferença fundamental entre reconhecer o sofrimento psíquico de alguém e transformar a estrutura que produz esse sofrimento em algo invisível. Se uma população vive sob condições políticas permanentes de violência, deslocamento, ocupação e insegurança, tratar suas consequências apenas como “trauma” pode, paradoxalmente, despolitizar aquilo que as produziu.

É nesse ponto que a contribuição dos Sheehi se torna especialmente relevante: compreender o sofrimento palestino não apenas como consequência de acontecimentos traumáticos isolados, mas em relação às estruturas permanentes nas quais a vida cotidiana se desenvolve.

Isso produz uma consequência ética importante para a discussão sobre antissemitismo. Combater o antissemitismo não significa retirar Israel da esfera da crítica. Significa, justamente, tornar a crítica mais precisa.

Uma crítica rigorosa não precisa recorrer a imagens sobre “os judeus”, a teorias conspiratórias ou a supostas características coletivas. Ela pode falar de decisões governamentais, operações militares, legislação, ocupação, assentamentos, expulsões, bloqueios, organizações políticas, grupos de colonos e indivíduos concretos. Quanto mais precisa for a linguagem, menos espaço haverá para generalizações antissemitas.

Mas o inverso também é verdadeiro: quanto mais uma crítica concreta é automaticamente convertida em suposto antissemitismo, apenas porque provoca desconforto, mais difícil se torna distinguir uma acusação racista de uma denúncia legítima.

É aqui que aparece aquilo que poderíamos chamar de uma segunda violência: não apenas a violência exercida sobre a população submetida à ocupação, mas também a disputa sobre a possibilidade de testemunhar essa violência, descrevê-la e atribuir-lhe responsabilidade.

Os Sheehi ajudam a pensar justamente essa dimensão. Em seu trabalho, aparece a ideia de colonial reality-bending — que podemos traduzir como a produção de uma “realidade colonial distorcida” ou uma distorção da realidade promovida pelas potências coloniais —, isto é, mecanismos pelos quais a própria realidade colonial pode ser distorcida, obscurecida ou tornada difícil de reconhecer. Em entrevista sobre o livro, os autores relacionam essa questão à recusa, em determinados espaços, de reconhecer a intencionalidade da violência política e psicológica exercida sobre palestinos.

Essa questão é profundamente psicanalítica, porque, como dito anteriormente, a pergunta não é apenas pelo fato — o que aconteceu? É também: Quem está autorizado a dizer o que aconteceu? Quem será considerado testemunha confiável? Quem terá sua dor reconhecida como sofrimento? Quem será acusado de exagerar? E quem terá sua fala transformada imediatamente em patologia, preconceito ou ameaça?

A experiência palestina, nessa perspectiva, não pode ser compreendida apenas pela contagem dos mortos ou pela descrição das operações militares. É preciso observar também a produção de um regime discursivo no qual determinadas formas de sofrimento são continuamente relativizadas, individualizadas ou deslocadas, tornando mais difícil reconhecer suas dimensões históricas, políticas e estruturais.

É justamente por isso que precisamos sustentar, simultaneamente, duas afirmações que não são contraditórias: o antissemitismo é uma forma histórica e contemporânea de racismo que deve ser combatida com firmeza; e o Estado de Israel, assim como qualquer outro Estado, suas instituições, governos, forças militares e agentes devem estar sujeitos à investigação, à crítica e à responsabilização sempre que houver evidências de violações.

Uma afirmação não anula a outra. Ao contrário, é precisamente a distinção entre essas esferas que nos permite combater o antissemitismo sem transformar a identidade judaica em sinônimo de Estado, governo ou projeto político, ao mesmo tempo que defendemos os direitos palestinos sem reproduzir imagens e estereótipos historicamente utilizados para desumanizar judeus.

Nesse sentido, uma das contribuições mais importantes de Lara Sheehi e Stephen Sheehi é nos lembrar de que a luta contra a desumanização não pode estabelecer, de antemão, quem terá sua dor reconhecida, aqueles cuja palavra será considerada legítima, e quem poderá ser responsabilizado por seus atos. Reconhecer a humanidade de todos não significa apagar as assimetrias de poder; significa justamente recusarmo-nos a naturalizá-las, silenciá-las ou transformá-las em algo que não possa ser nomeado.

A tarefa ética é mais difícil: reconhecer a humanidade de todos sem apagar as assimetrias de poder; combater o racismo sem transformar a crítica política em tabu; e produzir uma linguagem suficientemente precisa para que nenhum povo seja transformado em caricatura e nenhum Estado seja colocado acima da possibilidade de ser responsabilizado. Afinal, combater o antissemitismo exige recusar a ideia de que os judeus sejam coletivamente responsáveis pelos atos de um Estado. Mas essa mesma recusa exige também não transformar o Estado de Israel em uma entidade que não possa ser responsabilizada por seus próprios atos.

Precisão não é uma concessão à violência. É a condição para combatê-la.

 

Fonte: Por Rima Awada e Tiago Guilherme Faria, no Blog da Boitempo

 

Liderança de Moro no Paraná combina Lava Jato, polarização e dificuldade de Ratinho Junior em emplacar sucessor

A pesquisa Quaest mais recente para o Governo do Paraná mostra o senador Sergio Moro (PL) na liderança, com vantagem de 16 pontos percentuais para o segundo colocado, Requião Filho (PDT).

Ex-juiz da Operação Lava Jato e ex-ministro da Justiça e Segurança Pública do governo Bolsonaro, Moro teria pouco mais de 49% dos votos válidos, se a eleição fosse realizada no dia em que a pesquisa coletou as respostas. Considerando a margem de erro, o candidato teria chance de se eleger ainda no primeiro turno.

A disputa no Paraná chama atenção de analistas pelas dificuldades que o atual governador Ratinho Junior (PSD) tem tido em traduzir a aprovação do seu governo em votos para o candidato que apoia.

Mesmo tendo uma avaliação positiva de 68% dos eleitores do Estado, o governador vê seu candidato à sucessão no Palácio Iguaçu, Sandro Alex (PSD), 22 pontos percentuais atrás de Sergio Moro (PL).

Sandro Alex aparece como o 3º colocado em intenção de votos no primeiro turno, segundo a última pesquisa, 6 pontos atrás de Requião Filho (PDT).

Porém, quando a Quaest perguntou aos eleitores se Ratinho Junior (PSD) merece eleger o sucessor que indicasse, a resposta foi "sim" para 65% dos entrevistados. Mesmo assim, apenas 15% dos eleitores declaram voto no candidato apoiado pelo governador.

•        🤔❓A soma de indecisos e eleitores que disseram que ainda podem mudar de ideia sobre o voto representa mais de 60% do eleitorado paranaense, o que torna a disputa bastante aberta.

O g1 ouviu especialistas para entender os motivos para a liderança de Moro, as dificuldades de Ratinho Junior em transformar a popularidade em votos, as chances de Requião Filho, além das estratégias dos candidatos nesta campanha.

📅Atraso do grupo de Ratinho Junior

Ratinho Junior chegou ao último ano do 2º mandato como governador do Estado com um índice de aprovação considerado alto. Ele estava bem cotado na disputa interna do seu partido, o PSD, para ser lançado como candidato à Presidência da República em 2026. A candidatura acabou ficando com Ronaldo Caiado.

Em março deste ano, Ratinho desistiu da pré-candidatura para focar na eleição de um aliado para governar o Paraná. O nome desse aliado, no entanto, ainda não estava definido. A essa altura, Moro já despontava nas pesquisas de intenções de voto.

•        🏁Para comparação, Moro já era pré-candidato ao Governo do Paraná em março e seu nome já era ventilado para a disputa desde pelo menos o fim de 2024.

Os nomes mais especulados no grupo de Ratinho Junior foram os de Guto Silva, ex-secretário de Cidades; Rafael Greca, ex-secretário de Desenvolvimento Sustentável; e Alexandre Curi, deputado estadual e presidente da Assembleia Legislativa do Paraná.

As negociações internas do partido só terminaram em 13 de abril, quando Ratinho anunciou o ex-secretário de Infraestrutura e Logística, Sandro Alex, como candidato do partido. Enquanto as articulações para definir o candidato ao governo não eram concluídas, dois aliados deixaram o PSD e se colocaram como pré-candidatos ao governo por outros partidos: Rafael Greca se filiou ao MDB e Alexandre Curi foi para o Republicanos.

O "racha" do grupo político forçou o governador a trabalhar nos bastidores para refazer as alianças. A poucos dias do fim do prazo para as convenções partidárias, Greca foi anunciado como vice de Sandro Alex. Curi foi lançado candidato ao Senado.

"Dentro desse trio que estava ali beirando a disputa para o governo, os três nomes são fortes. Mas, sem dúvida, o Rafael Greca tem uma história, uma trajetória consolidada e é um nome com capital político muito mais forte que o Sandro Alex. E o Alexandre Curi também, além da presidência da Assembleia, vem de uma família muito tradicional de políticos", analisa Nilton Sainz, doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).

A escolha de Sandro Alex, um nome 'desconhecido' do eleitor, pode ter sido fruto de um clima de "já ganhou" dentro do grupo político do governador, segundo a doutora em Ciência Política pela UFPR e professora da Uninter, Karolina Roeder.

"Essa soberba do Ratinho Junior fica aparente nessa dificuldade do Sandro Alex em aparecer como candidato. Em vários momentos, inclusive do debate, e também durante a campanha, ele sempre tenta colar ali com o Ratinho Junior. Só que isso acaba deixando ele sem uma cara, sem identidade própria. E o eleitor precisa conhecer ele, não o Ratinho Junior", avalia Roeder.

A consequência de Ratinho Junior ter "perdido a largada" fica evidente na última pesquisa de intenção de voto, segundo Felipe Nunes, diretor da Quaest e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

"Os dados mostram que Ratinho Junior tem capital político para transferir, mas essa transferência ainda não aconteceu. O governador tem 79% de aprovação, 68% de avaliação positiva e 65% dos eleitores consideram que ele merece eleger seu sucessor. O 'problema', portanto, não é rejeição ao governo, mas a falta de associação entre esse legado e Sandro Alex", aponta.

De acordo com a Quaest, 62% dos eleitores ainda não conhecem Sandro Alex e somente 21% sabem que ele é o candidato apoiado por Ratinho. Nunes aponta que "em uma campanha curta, esse atraso tem peso porque o candidato precisa primeiro ser reconhecido como o sucessor para depois tentar transformar a aprovação do governador em intenção de voto".

"Sandro tem um perfil eleitoral relativamente transversal, mas ainda pouco definido. Ele registra percentuais semelhantes entre homens e mulheres, nas diferentes idades, faixas de renda e posições ideológicas. Seu potencial de voto também varia pouco: fica entre 20% e 23% nos diferentes grupos políticos. Isso significa que ele não enfrenta uma resistência concentrada, mas também ainda não conquistou um segmento que o reconheça claramente como seu candidato", diz o diretor da Quaest.

Infográfico: candidatos do Paraná têm trunfos para explorar na campanha ao governo

<><> Moro aposta em polarização nacional

Com pouco tempo para tentar conquistar os votos em disputa, o grupo de Ratinho enfrenta em 2026 um candidato de projeção nacional e cujo discurso enfatiza a polarização das eleições presidenciais entre esquerda e direita.

Enquanto o partido do governador vivia a indefinição sobre seu candidato, Sergio Moro "correu sozinho" à direita, fazendo questão de enfatizar o discurso antipetista.

O ex-juiz da Lava Jato foi um dos responsáveis pela centralidade que a capital do Estado ganhou durante a operação. Moro era responsável pela 13ª Vara Criminal da Justiça Federal, em Curitiba, que julgava os processos decorrentes da Lava Jato. Hoje, reivindica o legado da operação e fala em "transformar o Paraná em uma fortaleza contra o PT".

Essa estratégia, aliada ao fato de já ser uma figura conhecida e ao apoio da família Bolsonaro, garantiu ao senador uma base sólida, já que Flávio Bolsonaro tem 42% das intenções de voto no Paraná, enquanto Lula registra 24%.

Segundo os especialistas, não é possível mensurar quanto do sentimento antipetista do eleitor paranaense está ligado à Lava Jato e quanto é apenas reflexo do desgaste que o PT e a figura de Lula tiveram com o eleitorado brasileiro, como um todo, nos últimos anos.

Segundo o cientista político Nilton Sainz, a narrativa sobre o que seria a "identidade" do eleitor do estado está em disputa.

"É difícil a gente conseguir ter essa noção do que é uma identidade paranaense na política ideológica e o que é polarização política no Brasil. [...] Não é que o eleitorado seja esmagadoramente de direita. É que o eleitorado, nesse momento, quando se ativa o nome e a marca do Lula, vai rejeitar", destaca.

O cenário nacional polarizado também contribui para limitar o crescimento do segundo colocado nas pesquisas. Filho de Roberto Requião, que foi governador por três mandatos, Requião Filho, do PDT, é apoiado por Lula e reuniu em torno de si uma coligação ampla da centro-esquerda, já que, pela primeira vez na história, o PT não lançou uma candidatura própria ao governo do Paraná.

Requião Filho domina as intenções de voto do eleitorado que se identifica como "lulista" ou como "esquerda não-lulista". No entanto, herda parte da rejeição a Lula.

•        Quando perguntados em qual dos candidatos jamais votariam, 44% dos eleitores apontam Requião Filho. Moro é o segundo mais rejeitado, com 33%.

O apoio de Lula aumenta as chances de voto para 16% dos eleitores do Paraná e não tem efeito sobre a decisão para 41%. Mas 40% responderam que um candidato apoiado pelo presidente tem menos chances. "É um saldo bastante negativo", ressalta Nilton Sainz.

Segundo Felipe Nunes, da Quaest, a aliança ampla não elimina a dificuldade de expansão para fora da esquerda, já que Requião tem apenas 17% entre eleitores que se declaram independentes e 5% na direita.

"A coligação fortalece sua possibilidade de chegar ao segundo turno, mas não garante crescimento posterior. Ela organiza um polo competitivo, mas ainda precisa ampliar suas fronteiras eleitorais", aponta.

Para Karolina Roeder, as chances de Requião para ampliar essas fronteiras estão justamente em adotar a estratégia oposta à de Sergio Moro, trazendo o debate para as questões específicas do Paraná. "Para ele, fazer palanque para o Lula é um tiro no pé", diz.

A cientista política pondera ainda que a nacionalização dos debates na campanha, apesar de agradar à base eleitoral de Moro, também tem limitações. "Porque tem uma boa parcela do eleitorado que não quer nacionalizar, que está mais preocupada com as questões locais e não nacionais", afirma, destacando que há um certo cansaço do eleitor com a polarização da disputa para a presidência.

📈Candidatos têm fôlego para mudar o cenário?

Felipe Nunes, da Quaest, afirma que, apesar de a pesquisa colocar uma vitória de Moro em primeiro turno no campo das possibilidades, não é possível tratá-la como uma previsão de eleição em votação única.

Isso porque 18% dos eleitores se disseram indecisos e, dentre os eleitores que escolheram um candidato, 44% dizem que ainda podem mudar de ideia.

"A percepção de que a eleição pode terminar no primeiro turno produz efeitos em direções diferentes. Pode haver um movimento de adesão a Moro por parte de eleitores que enxerguem sua vitória como inevitável. Mas também pode ocorrer voto útil no candidato mais bem posicionado para forçar o segundo turno — hoje, Requião Filho. Sandro tende a ser o mais pressionado por essa dinâmica, porque aparece numericamente em terceiro e precisa demonstrar rapidamente viabilidade", comenta Nunes.

Com a campanha iniciada oficialmente em 16 de agosto, os candidatos terão tempo de TV, entrevistas, debates e agendas públicas para tentar convencer a grande massa de paranaenses indecisos. Os especialistas destacam que o caminho até o dia 4 de outubro, quando os eleitores vão às urnas, ainda pode trazer um cenário diferente do retratado na pesquisa.

Segundo a última Quaest, as mulheres são a maior parte do eleitorado indeciso no estado, seguidas pelos jovens de 16 a 34 anos. "Nisso, o eleitorado do Moro replica aquilo que acontece com o Flávio Bolsonaro: mais homens do que mulheres, um 'gap' de gênero muito claro, com mais de 10 pontos percentuais de diferença", comenta Karolina Roeder.

Neste ano, a única candidatura feminina ao Governo do Paraná é a de Tayná Miessa, do Unidade Popular, que tem apenas 1% das intenções de voto. Entre os três principais nomes, o único candidato que tem mais mulheres do que homens entre seus eleitores é Requião Filho.

Roeder destaca ainda um outro eleitorado que está em disputa: "O eleitor que recebe até 2 salários mínimos, tem menor renda, menor escolaridade. Esse eleitorado também é aquele que tem menos informação, muitas vezes trabalha num emprego mais precarizado e não tem tempo para se informar", comenta.

Nilton Sainz lembra que, em 2022, quando Ratinho Junior era candidato à reeleição, o período oficial da campanha rendeu um impulso nas intenções de voto. "Ele conseguiu crescer durante esse período da campanha eleitoral, conseguiu mobilizar, talvez até pela força do PSD nos municípios e da própria máquina pública e estrutura partidária no Estado", diz.

Sainz aponta ainda que uma repetição desse cenário é a principal esperança da campanha de Sandro Alex. Para Moro, que não tem uma coalizão ampla, o foco deve ser em cristalizar as intenções de voto já detectadas nas pesquisas e evitar desgastes. O candidato já apontou nesta direção ao desistir de participar do primeiro debate eleitoral na TV aberta.

 

Fonte: g1

 

RS: de uma primavera progressista a um rigoroso inverno ultraliberal

A trajetória política do Rio Grande do Sul (RS) demonstra um significativo contraste sociopolítico na história brasileira. O Estado que, durante os governos petistas, projetou sua capital internacionalmente como referência em democracia participativa, inovação social e experiências de gestão pública voltadas à inclusão e ao desenvolvimento sustentável, passou, sob a orientação de projetos políticos pautados pelo liberalismo econômico, a avançar na privatização de empresas estatais, na redução do papel do Estado e no desmonte de políticas públicas, abrindo espaço para o fortalecimento de forças conservadoras e reacionárias.

Agora, em 2026, esse processo chega a um ponto de inflexão diante da possibilidade de o Palácio Piratini ser ocupado por uma das principais expressões do bolsonarismo, embora as pesquisas oscilem e uma delas aponte um avanço promissor da intenção de voto na esquerda progressista, impulsionado pela resistência democrática de parte significativa do povo gaúcho. Enquanto o levantamento da Quaest, divulgado em 24 de agosto de 2026, registrou o candidato Luciano Zucco (PL) com 26% das intenções de voto, em empate técnico com a candidata Juliana Brizola (PDT), que alcançou 23%, outro levantamento, divulgado no dia seguinte pelo instituto Real Time Big Data, apontou Juliana com 38% e Zucco com 32%. Os números não permitem antecipar o resultado eleitoral, mas demonstram os riscos que cercam a candidatura progressista de esquerda de Juliana Brizola.

Para compreender a dimensão dessa oscilação política, é preciso voltar ao período em que a capital do RS ocupava o polo oposto desse percurso e era reconhecida internacionalmente pela prática genuína da democracia participativa e pela inovação na gestão pública. Porto Alegre viveu, a partir do final dos anos 1980, uma experiência política que ultrapassou as fronteiras do país. O Orçamento Participativo, implantado em 1989, durante a administração do então prefeito Olívio Dutra (PT), transferiu para a população parte das decisões sobre a aplicação dos recursos públicos e tornou-se referência internacional de participação cidadã. A ONU-Habitat reconheceu a experiência como uma prática de referência em gestão urbana, enquanto o Banco Mundial a apontou como exemplo bem-sucedido de ação conjunta entre governo e sociedade civil. A experiência do Orçamento Participativo não se limitava a uma forma inovadora de consulta popular. Ela expressava uma concepção de Estado em que a definição das prioridades públicas incorporava aqueles que historicamente permaneciam à margem das decisões orçamentárias. A lógica era inverter prioridades, fazendo com que investimentos em saneamento, pavimentação, habitação, educação e outros serviços alcançassem também, e prioritariamente, regiões socialmente vulneráveis.

Foi no ambiente político progressista de esquerda que a capital gaúcha se transformou também em espaço de uma das mais expressivas manifestações internacionais de contestação ao neoliberalismo. Em janeiro de 2001, sob a administração de Tarso Genro (PT) na Prefeitura de Porto Alegre e de Olívio Dutra (PT) no governo do Rio Grande do Sul, a capital sediou a primeira edição do Fórum Social Mundial, concebido como contraponto ao Fórum Econômico Mundial de Davos e consagrado pelo lema “Um outro mundo é possível”. Mais de 20 mil pessoas de 117 países participaram do evento. Em 2002, o público ultrapassou 50 mil e, em 2003, chegou a cerca de 100 mil participantes. Porto Alegre havia deixado de ser apenas uma capital regional para ocupar, por alguns anos, uma posição central no debate mundial sobre democracia, desigualdade, direitos sociais e alternativas à ordem econômica dominante.

Essa trajetória, entretanto, começou a ser progressivamente substituída por outra concepção de administração pública. No âmbito estadual, especialmente a partir de 2019, durante o governo de Eduardo Leite, filiado nesse período ao PSDB e franco apoiador de Jair Bolsonaro, consolidou-se uma política de desestatização que atingiu empresas estratégicas. A Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE), responsável pela distribuição de energia foi arrematada pela Equatorial pela bagatela de R$ 100 mil em 2021. Meses depois, a Companhia de Gás do Estado do Rio Grande do Sul (Sulgás) seguiu o mesmo caminho.

Vale ressaltar que o caso da CEEE se tornou um dos exemplos mais impactante do modelo privatista adotado. O valor nominal pago pelo controle acionário impressionou, quando comparado à importância estratégica de uma empresa que atendia cerca de 1,6 milhão de consumidores. Essa venda representou um dos casos mais contundentes da retirado do Estado do controle direto de um serviço público fundamental à sociedade. Sob a gestão da Equatorial, a população passou a sentir o impacto dessa privatização, marcada pela precariedade no atendimento e pelo encarecimento do serviço. A questão central, portanto, não se resume aos baixos valores arrecadados pelo Estado em cada privatização, mas sim à concepção liberal de poder público que passou a orientar a administração gaúcha. A sucessão de desestatizações CEEE, Sulgás, Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan) expressa a preferência por transferir à iniciativa privada parcelas relevantes da prestação de serviços essenciais e da exploração de ativos públicos, em lugar de ampliar a capacidade estatal de investimento e planejamento. Vender os serviços públicos para entregar o lucro e socializar o prejuízo é uma marca contumaz da direita oportunista e da extrema-direita. Qualquer semelhança do governo de Eduardo Leite no RS com o governo de São Paulo do bolsonarista Tarcísio de Freitas (Republicanos) não é mera coincidência. Tarcísio proferiu uma aula magna dessa prática. A privatização da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) revelou-se um desastre, pela transformação de um bem essencial de saneamento em um expediente para usurpar o bolso do contribuinte e sucatear o atendimento à população.

A mudança na administração de Porto Alegre para um modelo ultra liberal também apareceu por outros caminhos. O Orçamento Participativo, por exemplo, perdeu a centralidade política que teve no período em que cidade era apresentada internacionalmente como laboratório da democracia participativa. Sob a administração da direita avançaram mecanismos de concessão e parcerias com o setor privado. O movimento alcançou diretamente a educação municipal. Em 2025, sob a gestão de Sebastião Melo (MDB) a prefeitura lançou o programa Escola Bem-Cuidada, posteriormente transferido à iniciativa privada. Na educação infantil, o município passou a recorrer à contratação de instituições privadas com fins lucrativos para ofertar vagas a crianças que não conseguiram atendimento na rede municipal ou comunitária. A medida pode ser apresentada administrativamente como solução para ampliar a oferta, mas, do ponto de vista político, revela a crescente presença da lógica de contratação privada na execução de serviços que antes ocupavam lugar mais central na estrutura pública.

Os efeitos da lógica liberal no RS revelam um cenário de degradação dos indicadores educacionais. Segundo dados do Censo Escolar analisados pelo DIEESE, entre 2019 e 2024 as redes públicas de ensino do Rio Grande do Sul perderam 6,6% das matrículas, enquanto a rede privada cresceu 12,7% evidenciando uma transformação relevante na composição da oferta educacional gaúcha.

A enchente de 2024 tornou ainda mais visível o custo da concepção ultraliberal de gestão do RS. Pesquisas e mapeamentos do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e do Serviço Geológico do Brasil apontavam áreas vulneráveis e ofereciam subsídios para orientar planos de contingência, sistemas de alerta e obras de prevenção e contenção. O problema não era, portanto, a ausência de informação sobre os riscos, mas a insuficiência das medidas adotadas para enfrentá-los. A auditoria do Tribunal de Contas do Estado identificou falhas acumuladas na concepção, manutenção e gestão do Sistema de Proteção Contra Cheias de Porto Alegre. O relatório apontou, entre outras inadequações, a extrema fragilidade da estrutura responsável pela proteção contra as cheias. Vale lembrar que antes da ocorrência da enchente Eduardo Leite sancionou um novo Código Estadual do Meio Ambiente, em janeiro de 2020, que alterou centenas de dispositivos da legislação anterior e flexibilizou regras de proteção ambiental, inclusive as relativas às Áreas de Preservação Permanente e ao licenciamento de empreendimentos como barragens.

Contudo, apesar do desastre causado pela enchente de 2024, os porto-alegrenses reincidiram no erro ao reeleger o prefeito Sebastião Melo (MDB), com 61,53% dos votos válidos, apenas alguns meses após a maior inundação da capital. Vale destacar que a candidatura de Melo articulou um amplo apoio empresarial, financeiro e do setor imobiliário, o que se traduziu em um volume desproporcional de recursos de campanha, tempo de rádio e TV, além do apoio decisivo de grandes grupos de comunicação, a exemplo da afilhada da Rede Globo, a Rede Brasil Sul (RBS). A vitória mostrou que o trauma da tragédia não foi suficiente para produzir uma ruptura eleitoral com o campo político de uma direita fisiologista ultra liberal que governava a cidade. O eleitorado acabou tragado pelo rolo compressor de uma campanha profundamente desigual, na qual o poder econômico financiou um populismo barato e enganoso para sufocar as propostas progressistas representadas pela deputada federal Maria do Rosário pelo PT, e pela deputada estadual, Juliana Brizola pelo PDT, que concorriam à prefeitura com projetos estruturantes de reconstrução dos serviços públicos em oposição à hegemonia liberal conservadora instalada na cidade.

Nesse horizonte, fica difícil ignorar o contraste histórico. O mesmo território que, recebeu multidões do mundo inteiro para discutir justiça social, democracia e alternativas ao neoliberalismo hoje debate a possibilidade de entregar o governo estadual a uma força política alinhada ao bolsonarismo. A prioridade deixou de estar concentrada na participação popular e na expansão direta das políticas públicas e passou, progressivamente, a privilegiar a desestatização, as concessões e a ampliação do espaço privado na prestação de serviços.

Faltam menos de dois meses para o pleito de 4 de outubro, quando os gaúchos terão de escolher, a julgar pelas pesquisas, entre projetos políticos profundamente distintos. No polo progressista de esquerda, Juliana Brizola como candidata à governadora e Edegar Preto do PT como vice. Neta de Leonel Brizola, advogada, mestre em Direito, Juliana figura como a principal expressão do trabalhismo de centro-esquerda no Estado. Apoiada por uma coligação composta por oito partidos PDT, PT, Psol, PCdoB, PSB, PV, Rede e Avante, tem sua trajetória política vinculada ao resgate do brizolismo e à defesa da educação pública em tempo integral como instrumento de emancipação social. Vereadora de Porto Alegre e deputada estadual por três mandatos consecutivos, construiu sua atuação na oposição às privatizações e ao enfraquecimento do ensino público.  No polo da extrema direita, o candidato Luciano Zucco a governador, tendo como vice Silvana Covatti (PP). Zucco é da extrema direita, alinhada visceralmente ao bolsonarismo. O empate técnico entre Juliana e Zucco, apontado por uma das pesquisas mais recentes, revela a dimensão da disputa e o risco de uma guinada ainda mais à direita no Palácio Piratini.

É importante ressaltar que essa configuração eleitoral não surgiu de repente. Ela se insere em uma trajetória política na qual o Rio Grande do Sul, historicamente marcado pela alternância entre forças progressistas e setores conservadores, vem fazendo escolhas cada vez mais distantes da tradição trabalhista e social-democrata que também ajudou a configurar sua identidade. Esse movimento alcançou igualmente o Congresso Nacional. Na onda bolsonarista de 2022, uma parcela expressiva do eleitorado gaúcho intensificou a escolha por uma bancada federal majoritariamente identificada com a direita conservadora, a exemplo de Osmar Terra (MDB), conhecido por defender teorias negacionistas da Covid-19, e com a extrema direita bolsonarista, representada por Zucco e Marcel van Hattem (Novo), político reacionário e adepto ferrenho do bolsonarismo, em rota de colisão com as agendas ambiental e de saúde pública. Neste ano, Van Hattem concorre ao mandato de senador, juntamente com a ex-deputada Manuela D’Ávila (PSOL) e o deputado Paulo Pimenta (PT), duas grandes lideranças da esquerda.

Já Zucco, eleito originalmente pelo Republicanos, acabou migrando para o Partido Liberal, de Jair Bolsonaro, no final de 2023. A mudança partidária não representou uma ruptura, mas a explicitação de um alinhamento que sua atuação parlamentar já vinha tornando evidente. Desde sua chegada à Câmara, sua atuação esteve fortemente associada às pautas punitivistas, ao armamentismo e ao confronto político com movimentos sociais. À frente da CPI do MST, em 2023, transformou a comissão em uma das principais vitrines de sua atuação política, explorando o conflito no campo e a criminalização dos movimentos sociais como instrumentos de mobilização ideológica e de comunicação nas redes. O encerramento da CPI do MST, em de setembro de 2023, sem sequer votar o relatório de Ricardo Salles (PL), expôs a derrota da extrema direita bolsonarista na Câmara e o fracasso da ofensiva contra o movimento.

O avanço desse campo político, entretanto, não pode ser explicado apenas pela ascensão de figuras declaradamente bolsonaristas da região Sul, como Zucco e Marcel van Hattem. Ele resulta de uma transformação mais ampla no espectro político do país, na qual a agenda progressista vem perdendo espaço para diferentes vertentes da direita liberal e da extrema direita bolsonarista desde o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

Nesse horizonte obscurantista e ultraliberal, o Rio Grande do Sul já experimentou primaveras de potentes políticas públicas que colocaram a participação popular, a inclusão social e a presença do Estado no centro da administração. Hoje, vive sob um inverno político marcado pelo ultraliberalismo econômico, pelo enfraquecimento dos serviços públicos e pelo avanço conservador. Nessa perspectiva, a eleição de 2026 será uma escolha sobre qual concepção de Estado os gaúchos querem para os próximos anos, se um Estado condenado a prolongar um rigoroso inverno submetido à lógica do mercado ou um Estado capaz de fazer florescer novas primaveras na vida pública, recuperar sua capacidade de planejar, reconstruir serviços essenciais e devolver ao povo o protagonismo nas decisões que afetam sua própria vida.

 

Fonte: Por Elisabeth Lopes, em Brasil 247