Ecos
do antissemitismo e a vida psíquica na Palestina ocupada
Existe
um problema intelectual nas denúncias sobre os crimes do Estado de Israel
contra o povo palestino que raramente é enfrentado com honestidade.
Ao
longo da história, os judeus foram vítimas de inúmeras acusações falsas que
alimentaram perseguições, expulsões e massacres. Foram acusados de envenenar
poços, matar crianças para rituais, controlar governos, dominar bancos,
manipular a imprensa e conspirar para dominar o mundo. Essas narrativas
serviram para justificar séculos de antissemitismo. Mas isso nos coloca diante
de uma pergunta inevitável: O que devemos fazer quando uma ação praticada pelo
Estado de Israel, por seus agentes ou por colonos israelenses se assemelha a um
ou mais desses antigos estereótipos?
Muitas
pessoas parecem acreditar que a resposta é simples: não falar sobre o assunto.
Afinal, qualquer denúncia que lembre uma antiga narrativa antissemita seria,
por definição, suspeita. Esse raciocínio, porém, leva a uma consequência
absurda.
Tomemos
um exemplo. Durante a Idade Média, judeus foram falsamente acusados de
envenenar poços para provocar epidemias. A acusação, particularmente associada
às perseguições durante a Peste Negra, contribuiu para massacres de comunidades
judaicas em diferentes regiões da Europa. Trata-se de um dos exemplos
históricos mais conhecidos de como uma fantasia antissemita podia transformar
uma população inteira em bode expiatório.
Séculos
depois, existem registros documentados de ataques de colonos israelenses contra
fontes de água palestinas. Relatórios sobre a situação hídrica
na Cisjordânia registram
episódios de contaminação de cisternas e fontes, inclusive com o lançamento de
animais mortos, fraldas usadas e outros materiais, além do uso de substâncias
tóxicas em áreas próximas a reservatórios. Há também registros
jornalísticos de casos específicos de contaminação de poços palestinos por
colonos.
Isso
exige uma distinção fundamental. O fato de existir uma mentira medieval segundo
a qual “os judeus” envenenariam poços não significa que um episódio
contemporâneo de contaminação de uma fonte palestina deixe de poder ser
investigado, documentado e denunciado. Mas tampouco significa que qualquer
alegação contemporânea deva ser aceita sem prova apenas porque encontra algum
paralelo histórico.
A
analogia não prova nem refuta o fato. A evidência é que deve fazê-lo. É
justamente essa precisão que impede que uma denúncia legítima seja transformada
em repetição de um estereótipo antissemita.
O mesmo
problema aparece em outro tema. Durante séculos, antissemitas difundiram a
fantasia de que existiria um suposto “judeu internacional” controlando
governos, bancos, meios de comunicação e a política mundial. Essa teoria
conspiratória foi utilizada para justificar perseguições e nunca teve
fundamento. A ideia de uma conspiração judaica mundial, de fato, constitui uma
das formas históricas mais persistentes da fantasia antissemita sobre um poder
judaico secreto.
Contudo,
há quem derive daí a conclusão de que é proibido discutir a atuação de redes
organizadas de influência que operam publicamente em favor dos interesses
políticos de Israel. Alega-se, erroneamente, que admitir a existência de
organizações, grupos de pressão ou redes políticas atuando em defesa de
determinado Estado equivaleria a validar a antiga fantasia do “judeu
internacional”.
Essa
conclusão simplesmente não faz sentido. A falsidade de uma teoria conspiratória
sobre um povo inteiro não demonstra que toda e qualquer articulação política
de organizações e indivíduos seja imaginária.
Da mesma forma, reconhecer a existência de grupos e organizações que atuam
publicamente em defesa de Israel não transforma em verdadeira a antiga fantasia
antissemita do “judeu internacional”. As afirmações são completamente diferentes:
uma atribui intenções e poder oculto a um povo inteiro, a outra diz respeito à
atuação política de organizações, grupos e indivíduos concretos em defesa de
interesses específicos.
Em
ambos os exemplos, o erro é exatamente o mesmo: concluir que um fato não pode
ser verdadeiro apenas porque lembra uma mentira histórica.
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A verdade dos fatos não é determinada por analogias, mas pelas evidências
É aqui
que as reflexões de Lara Sheehi e Stephen Sheehi ajudam a aprofundar o
problema. Em Psicanálise sob ocupação: praticando a resistência na
Palestin, os autores propõem uma leitura da vida psíquica palestina que não
separa artificialmente sofrimento, subjetividade e condições políticas. A
partir de uma perspectiva fortemente influenciada por Frantz Fanon e pelo
pensamento decolonial, eles analisam o colonialismo de povoamento como um
processo também psicologicamente extrativo e discutem como discursos de
“normalização”, “trauma”, “resiliência” e direitos humanos podem, em
determinadas circunstâncias, obscurecer as condições estruturais nas quais a
vida palestina se desenvolve.
Essa
contribuição permite deslocar a pergunta. Não basta perguntar se determinada
denúncia “se parece” com um antigo estereótipo antissemita. É preciso perguntar
também em que condições políticas, históricas e psíquicas determinadas
realidades se tornam difíceis de reconhecer, nomear e elaborar.
A
violência colonial não se limita ao que acontece materialmente aos corpos e aos
territórios. Ela também produz efeitos sobre a vida psíquica, sobre a memória,
sobre a linguagem e sobre aquilo que pode ou não ser reconhecido como
realidade. Isso acrescenta uma dimensão importante à discussão proposta aqui:
não devemos apenas perguntar se uma denúncia reproduz um estereótipo
antissemita; devemos perguntar também se o medo de reproduzir esse estereótipo
não está sendo mobilizado para impedir que determinados fatos sejam
reconhecidos, investigados e nomeados.
Em vez
de perguntar apenas “o que aconteceu?”, passamos também a
questionar: Quem está autorizado a dizer o que aconteceu?
Quando
criticamos Israel, falamos do Estado, de seu governo, de seu aparato militar,
de seus colonos, de seus soldados e de organizações concretas que atuam em
defesa de seus interesses políticos. Não dos judeus enquanto povo, comunidade
religiosa ou grupo étnico.
Aliás,
confundir deliberadamente essas categorias produz um efeito profundamente
perverso. Ao afirmar que determinadas ações do Estado de Israel não podem
sequer ser discutidas porque lembram antigos estereótipos antissemitas,
acaba-se reforçando justamente a ideia de que Israel e os judeus são uma única
entidade política e moral. E essa é precisamente a confusão que deveria ser
combatida.
A
psicanálise dos Sheehi permite ir ainda mais longe: a própria disputa sobre
quem pode falar, o que pode ser nomeado e qual sofrimento será considerado
legítimo faz parte da realidade política da ocupação. A linguagem não é apenas
um instrumento neutro utilizado para descrever acontecimentos que já estão
dados. Ela também é um campo de poder.
Isso se
torna particularmente importante quando a experiência palestina é reduzida a
categorias psicológicas abstratas. “Trauma”, “resiliência” e “normalização”,
quando empregados sem considerar as estruturas políticas que produzem o
sofrimento, podem transformar uma experiência histórica e coletiva em um
problema individual. Os Sheehi justamente questionam esse tipo de redução,
defendendo uma prática psicanalítica capaz de considerar as condições políticas
e materiais nas quais a subjetividade se constitui.
Há uma
diferença fundamental entre reconhecer o sofrimento psíquico de alguém e
transformar a estrutura que produz esse sofrimento em algo invisível. Se uma
população vive sob condições políticas permanentes de violência, deslocamento,
ocupação e insegurança, tratar suas consequências apenas como “trauma” pode,
paradoxalmente, despolitizar aquilo que as produziu.
É nesse
ponto que a contribuição dos Sheehi se torna especialmente relevante:
compreender o sofrimento palestino não apenas como consequência de
acontecimentos traumáticos isolados, mas em relação às estruturas permanentes
nas quais a vida cotidiana se desenvolve.
Isso
produz uma consequência ética importante para a discussão sobre antissemitismo.
Combater o antissemitismo não significa retirar Israel da esfera da crítica.
Significa, justamente, tornar a crítica mais precisa.
Uma
crítica rigorosa não precisa recorrer a imagens sobre “os judeus”, a teorias
conspiratórias ou a supostas características coletivas. Ela pode falar de
decisões governamentais, operações militares, legislação, ocupação,
assentamentos, expulsões, bloqueios, organizações políticas, grupos de colonos
e indivíduos concretos. Quanto mais precisa for a linguagem, menos espaço
haverá para generalizações antissemitas.
Mas o
inverso também é verdadeiro: quanto mais uma crítica concreta é automaticamente
convertida em suposto antissemitismo, apenas porque provoca desconforto, mais
difícil se torna distinguir uma acusação racista de uma denúncia legítima.
É aqui
que aparece aquilo que poderíamos chamar de uma segunda violência: não apenas a
violência exercida sobre a população submetida à ocupação, mas também a disputa
sobre a possibilidade de testemunhar essa violência, descrevê-la e atribuir-lhe
responsabilidade.
Os
Sheehi ajudam a pensar justamente essa dimensão. Em seu trabalho, aparece a
ideia de colonial reality-bending — que podemos traduzir como
a produção de uma “realidade colonial distorcida” ou uma distorção da realidade
promovida pelas potências coloniais —, isto é, mecanismos pelos quais a própria
realidade colonial pode ser distorcida, obscurecida ou tornada difícil de
reconhecer. Em entrevista sobre o livro, os autores relacionam essa questão à
recusa, em determinados espaços, de reconhecer a intencionalidade da violência
política e psicológica exercida sobre palestinos.
Essa
questão é profundamente psicanalítica, porque, como dito anteriormente, a
pergunta não é apenas pelo fato — o que aconteceu? É
também: Quem está autorizado a dizer o que aconteceu? Quem será
considerado testemunha confiável? Quem terá sua dor reconhecida como
sofrimento? Quem será acusado de exagerar? E quem terá sua fala
transformada imediatamente em patologia, preconceito ou ameaça?
A
experiência palestina, nessa perspectiva, não pode ser compreendida apenas pela
contagem dos mortos ou pela descrição das operações militares. É preciso
observar também a produção de um regime discursivo no qual determinadas formas
de sofrimento são continuamente relativizadas, individualizadas ou deslocadas,
tornando mais difícil reconhecer suas dimensões históricas, políticas e
estruturais.
É
justamente por isso que precisamos sustentar, simultaneamente, duas afirmações
que não são contraditórias: o antissemitismo é uma forma histórica e
contemporânea de racismo que deve ser combatida com firmeza; e o Estado de
Israel, assim como qualquer outro Estado, suas instituições, governos, forças
militares e agentes devem estar sujeitos à investigação, à crítica e à
responsabilização sempre que houver evidências de violações.
Uma
afirmação não anula a outra. Ao contrário, é precisamente a distinção entre
essas esferas que nos permite combater o antissemitismo sem transformar a
identidade judaica em sinônimo de Estado, governo ou projeto político, ao mesmo
tempo que defendemos os direitos palestinos sem reproduzir imagens e
estereótipos historicamente utilizados para desumanizar judeus.
Nesse
sentido, uma das contribuições mais importantes de Lara Sheehi e Stephen Sheehi
é nos lembrar de que a luta contra a desumanização não pode estabelecer, de
antemão, quem terá sua dor reconhecida, aqueles cuja palavra será considerada
legítima, e quem poderá ser responsabilizado por seus atos. Reconhecer a
humanidade de todos não significa apagar as assimetrias de poder; significa
justamente recusarmo-nos a naturalizá-las, silenciá-las ou transformá-las em
algo que não possa ser nomeado.
A
tarefa ética é mais difícil: reconhecer a humanidade de todos sem apagar as
assimetrias de poder; combater o racismo sem transformar a crítica política em
tabu; e produzir uma linguagem suficientemente precisa para que nenhum povo
seja transformado em caricatura e nenhum Estado seja colocado acima da
possibilidade de ser responsabilizado. Afinal, combater o antissemitismo exige
recusar a ideia de que os judeus sejam coletivamente responsáveis pelos atos de
um Estado. Mas essa mesma recusa exige também não transformar o Estado de
Israel em uma entidade que não possa ser responsabilizada por seus próprios
atos.
Precisão
não é uma concessão à violência. É a condição para combatê-la.
Fonte:
Por Rima Awada e Tiago Guilherme Faria, no Blog da Boitempo

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