terça-feira, 1 de setembro de 2026

Sabatinas na TV: fiasco total que se desenha ainda mais lamentável no começo da campanha eleitoral

Confesso, caros(as) leitores(as), que encerro agosto frustrado. Imaginava que, nas sabatinas das grandes redes de TV, os candidatos mais destacados nas pesquisas viessem a trazer propostas para o Brasil que respondessem aos desafios dos tempos modernos. Um fiasco total, que se desenha ainda mais lamentável no começo da campanha eleitoral gratuita (para os candidatos que já contam com gordas verbas dos fundos partidários), mas remunerada para as emissoras de rádio e TV, com o fundo eleitoral.

Acuado em contradições, nas acusações sobre suas relações com o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, a quem pediu R$ 134 milhões e recebeu R$ 61 milhões para bancar o filme “Dark horse”, sobre o pai, Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro não esclareceu quanto efetivamente foi gasto na produção e se ele e o irmão Eduardo tiveram proveito. O senador saiu pela tangente. Disse que quem tem de explicar sobre o Master (autorizado a operar em 2019, no governo do pai), “é o presidente Lula”!?

Os candidatos Zema e Caiado, embora governadores reeleitos, por Minas Gerais e Goiás, em vez de apresentarem projetos para o futuro, querem resgatar o passado, com anistia aos golpistas que não aceitaram a derrota para Lula em 2022 e foram condenados pelo Supremo Tribunal Federal por tramar o golpe de Estado e insuflar os manifestantes que fizeram a depredação das sedes dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023. No mais, consideram a segurança pública o maior problema do país. A zona Sul do Rio fez isso, há décadas, quando se cercou de grades. Vício do noticiário “Boletim de Ocorrência”.

O novato Renan Santos, um dos fundadores do Movimento Brasil Livre, que insuflou as revoltas populares em 2013, concorrendo pelo Missão, não tem acesso ao horário gratuito. Poupa o grande público de ouvir, outra vez, a estapafúrdia proposta de pôr o Brasil (há 150 anos um país pacifista e conciliador) na corrida nuclear, com a produção de bomba atômica para “impor respeito aos vizinhos”. Seu exemplo é a isolada Coreia do Norte. O risco pode durar até 2030, pois tem forte influência nas redes sociais.

O presidente Lula foi muito fustigado no começo da entrevista à TV Globo, na quinta-feira, pelas acusações de tráfico de influência de seu filho, Fábio Luís da Silva, ao abrir contatos ministeriais para a lobista Roberta Luchsinger, sua amiga. Reiterou que até aqui “são só ilações”, mas se o filho tiver feito algo irregular “deve ser punido”.

Depois de defender seu legado de restabelecer o processo de inclusão social dos mais pobres – abandonado por Jair Bolsonaro -, Lula destacou os avanços na educação, com o incentivo à matemática e o recorde de novas universidades.

<><> Um projeto de futuro

Nas considerações finais, Lula apresentou uma ideia brilhante (seria mais valorizada se fizesse o “link” com a importância da educação qualificada): quer preparar o Brasil para avançar na alta tecnologia, incorporar mão de obra mais qualificada e deixar de ser exportador de matérias-primas (petróleo, minérios e alimentos sem beneficiamento, o que se arrasta desde 1500), passando a exportar aviões (a Embraer está negociando com a Índia a venda de aviões KC-390), artefatos bélicos, máquinas e minerais estratégicos, com o domínio da exploração, separação e industrialização dos 17 tipos de minérios das terras raras.

O Brasil crescerá mais e melhor com população e produção mais qualificadas.

<><> Negação terraplanista

Enquanto isso, quando conseguiu se desvencilhar da teia do Banco Master e responder, sexta-feira, às perguntas dos apresentadores Cesar Tralli e Renata Vasconcelos, Flávio Bolsonaro derrapou feio. Encampou o discurso terraplanista que nega o aquecimento global (justo na semana em que o mundo foi abalado pela tragédia no Nepal, causado pelo derretimento de mega geleira do Himalaia). Ao falar de proteção ambiental, reduziu o compromisso a projetos de água e esgoto para a população.

Sobre o tarifaço do governo Trump às exportações brasileiras (que elogiou em agosto de 2025), reconheceu que o irmão Eduardo, que abandonou o mandato de deputado federal (PL-SP) em fevereiro de 2025 para tramar contra o Brasil e tentar parar o processo contra o pai e os golpistas, errou (o tarifaço também foi apoiado pelo governador Tarcísio de Freitas).

Uma das alegações feitas por Eduardo e o parceiro Paulo Figueiredo (neto do último ditador, general João Figueiredo) ao Departamento de Estado para os EUA impor sanções foi o aumento do desmatamento. Que cresceu no governo Bolsonaro por desaparelhar o Ibama e “deixar passar a boiada”. A redução do conceito ambiental explica tudo.

<><> Sofismas na economia

Ao enveredar pela economia, repetiu (em escala menor) as bravatas do ex-ministro da Economia, Paulo Guedes. O “posto Ipiranga” de seu pai garantia rápido ajuste fiscal com R$ 1 trilhão em privatizações e R$ 1 trilhão em venda de imóveis da União. A primeira etapa rendeu menos de R$ 400 bilhões; a segunda etapa nem saiu do papel. Com medidas eleitoreiras visando a reeleição, em 2022, além do calote nos precatórios, Guedes cortou impostos federais e o ICMS (de estados e municípios) de combustíveis, energia elétrica e comunicações. E deixou rombo de mais de R$ 180 bilhões nas finanças da União e dos estados.

O senador prometeu tesourar gastos e, “com credibilidade na área fiscal”, reduzir os juros da dívida pública (a Selic, de 14%, cairia para 7%) e os juros anuais de R$ 1 trilhão para R$ 500 bilhões. Errou ao dizer que a baixa de um ponto na Selic economizaria “R$ 90 bilhões em um ano”. Dados do Banco Central de junho informam que isso custava/ economizava R$ 66,1 bilhões ao fim de 12 meses. Os dados de julho saem amanhã e devem ficar em R$ 68 bilhões.

O discurso de que o governo Lula criou mais de 30 impostos busca confundir o eleitor. Todos sabem que os assalariados que ganham até cinco salários-mínimos (R$ 8.105) foram isentos, este ano, do Imposto de Renda na fonte. A reforma tributária, que começa em 2027, reduz drasticamente o número de impostos e a carga ao consumidor.

Os impostos que aumentaram recaíram sobre fundos individuais de bilionários e de aplicações “off-shore”, às altas rendas, engordadas pelos juros elevados (a tabela aumentou para ganhos mensais acima de R$ 50 mil), sobre as instituições financeiras que estão lucrando como nunca com os altos juros reais (descontada a inflação) e as “bets”.

Autorizadas no governo Temer, esses “cassinos eletrônicos”, instalados em paraísos fiscais, onde lavam dinheiro, passaram o governo Bolsonaro sem regulamentação e tributação. O governo Lula deu um mínimo de organização e controle à jogatina, mas os lobbies no Congressos evitaram que a tributação chegasse a 18% (ficou em 12%).

•        Os juros não são os únicos culpados

Culpar juros altos pelo endividamento que levou grandes empresas, como Casas Bahia, Raízen e Braskem, a pedir Recuperação Judicial ou Extrajudicial (quando há dívidas concentradas em poucos credores), tem sido o argumento dos advogados de causas comerciais para convencer juízes de Varas Cíveis. Parte da imprensa passa recibo. Mas, nem sempre a crise decorre 100% de juros altos, que oneram, sim, famílias, médias, pequenas e microempresas. Em muitos casos, juros salgam uma ferida já aberta.

Lojas Americanas, o caso mais escandaloso, é anterior à escalada das taxas de juros. Em janeiro de 2023, a empresa informou, em “Fato Relevante”, ter descoberto dívidas não contabilizadas (de risco sacado e de criação fictícia de verba de propaganda cooperada).

De início, a companhia disse que o rombo era de R$ 40 bilhões. Na Recuperação Judicial, chegou a R$ 54 bilhões (os acionistas controladores injetaram bilhões; a empresa renegociou dívidas, transformadas em participação no capital, fechou unidades e demitiu muito pessoal). Mas voltou a ter prejuízos este ano. Agora, a Polícia Federal investiga a responsabilidade dos gestores nas fraudes contábeis.

Com rombo de R$ 10 bilhões, Casas Bahia repetem crises internas de gestão de gigantes do varejo. Com estoques sem saída, devido ao endividamento dos compradores, ficam apertados pelos altos custos do capital de giro. Mas, nas suas quebras, Casas Pernambucanas, Coroa-Brastel, Ricardo Eletro e Casa&Vídeo (que se recuperou) não tinham a forte concorrência das vendas diretas ou parceladas (via cartão de crédito) dos sites estrangeiros e gigantes nacionais como o Mercado Livre. Eram só os juros.

O grupo Marabraz, com uma centena de lojas em São Paulo, até que tinha uma dívida pequena (R$ 140 milhões). Mas houve cisão entre os sócios e um deles retirou as garantias à dívida, o que motivou o pedido de RJ, para evitar o pior.

<><> Braskem afundou bairros

A Braskem, braço petroquímico do grupo Odebrecht, é culpada pelo afundamento de seis bairros de Maceió, capital de Alagoas, devido às atividades imprudentes de exploração de sal-gema. Parte dos túneis de perfuração, às margens da lagoa de Mundaú, cedeu, tragando quarteirões inteiros. Há sete anos, a holandesa LyondellBasell, uma das maiores petroquímicas do mundo, desistiu de comprar a Braskem (era controlada pela Odebrecht, que cedeu o controle à Shine, e tinha 47% das ações PN detidas pela Petrobras) por avaliar que as indenizações judiciais tornariam a empresa inviável. A dívida é de US$ 11 bilhões (RS$ 57 bilhões).

<><> Uma crise de alavancagem

O grupo Raízen, parceria do grupo Cosan, de Rubens Ometto, com a Shell, pediu RJ por dívidas de R$ 65 bilhões, devido a problemas administrativos e apostas malfeitas. Maior produtor de açúcar e álcool do mundo, Ometto investiu, financiado, em 2022, quase R$ 10 bilhões para ser grande acionista da Vale. Deu-se mal. Os preços do minério de ferro caíram após a Rússia invadir a Ucrânia, em fevereiro de 2022. Perdeu quase R$ 5 bilhões ao revender as ações da Vale entre o fim de 2024 e começo de 2025.

Neste meio tempo, os preços do mercado doméstico de combustíveis viraram montanha russa. E a concorrência da produção de álcool de milho no Centro-Oeste ganhou escala. As usinas no Planalto Central contam com duas safras anuais de milho, enquanto há enorme empate de capital nas usinas de açúcar e álcool de São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul, que operam uma única safra.

Outro fato apertou o grupo Cosan. Enquanto vigorava (desde 2017) o sistema de paridade de preços internacionais (PPI), os preços da gasolina seguiam a alta internacional, ajustada pelo câmbio. E, como a gasolina comum tinha mistura de 27% de álcool anidro, a cada subida da gasolina nas refinarias da Petrobras a Cosan e a Raízen eram bafejadas por repasse de 27%.

A partir de maio de 2023, o governo Lula cumpriu a promessa de acabar com o PPI e “abrasileirar” os preços dos combustíveis, usando mais o petróleo do pré-sal nas refinarias da Petrobras, retiradas da lista de privatização, e que passaram a operar à plena carga.

O fim do PPI, combinado à política de subsídios temporários à gasolina, diesel e GLP, mostrou utilidade na guerra dos Estados Unidos-Israel contra o Irã: os preços dos derivados evitaram que a inflação passasse de 5% (estava em 4,24% nos 12 meses terminados em julho). A gasolina subiu só 4,97% no ano e evitou escalada ainda maior dos juros.

Com seis meses de guerra, o governo está elevando a 30% a mistura do álcool à gasolina comum. Ou seja, sem RJ, a situação de liquidez podia ainda ser pior para a Raízen e o grupo Cosan, que está vendendo empresas e terras no CO para abater dívidas e reduzir o excesso de alavancagem.

 

Fonte: Por Gilberto Menezes Côrtes, no JB

 

Nenhum comentário: