Sabatinas
na TV: fiasco total que se desenha ainda mais lamentável no começo da campanha
eleitoral
Confesso,
caros(as) leitores(as), que encerro agosto frustrado. Imaginava que, nas
sabatinas das grandes redes de TV, os candidatos mais destacados nas pesquisas
viessem a trazer propostas para o Brasil que respondessem aos desafios dos
tempos modernos. Um fiasco total, que se desenha ainda mais lamentável no
começo da campanha eleitoral gratuita (para os candidatos que já contam com
gordas verbas dos fundos partidários), mas remunerada para as emissoras de
rádio e TV, com o fundo eleitoral.
Acuado
em contradições, nas acusações sobre suas relações com o dono do Banco Master,
Daniel Vorcaro, a quem pediu R$ 134 milhões e recebeu R$ 61 milhões para bancar
o filme “Dark horse”, sobre o pai, Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro não
esclareceu quanto efetivamente foi gasto na produção e se ele e o irmão Eduardo
tiveram proveito. O senador saiu pela tangente. Disse que quem tem de explicar
sobre o Master (autorizado a operar em 2019, no governo do pai), “é o
presidente Lula”!?
Os
candidatos Zema e Caiado, embora governadores reeleitos, por Minas Gerais e
Goiás, em vez de apresentarem projetos para o futuro, querem resgatar o
passado, com anistia aos golpistas que não aceitaram a derrota para Lula em
2022 e foram condenados pelo Supremo Tribunal Federal por tramar o golpe de
Estado e insuflar os manifestantes que fizeram a depredação das sedes dos Três
Poderes, em 8 de janeiro de 2023. No mais, consideram a segurança pública o
maior problema do país. A zona Sul do Rio fez isso, há décadas, quando se
cercou de grades. Vício do noticiário “Boletim de Ocorrência”.
O
novato Renan Santos, um dos fundadores do Movimento Brasil Livre, que insuflou
as revoltas populares em 2013, concorrendo pelo Missão, não tem acesso ao
horário gratuito. Poupa o grande público de ouvir, outra vez, a estapafúrdia
proposta de pôr o Brasil (há 150 anos um país pacifista e conciliador) na
corrida nuclear, com a produção de bomba atômica para “impor respeito aos
vizinhos”. Seu exemplo é a isolada Coreia do Norte. O risco pode durar até
2030, pois tem forte influência nas redes sociais.
O
presidente Lula foi muito fustigado no começo da entrevista à TV Globo, na
quinta-feira, pelas acusações de tráfico de influência de seu filho, Fábio Luís
da Silva, ao abrir contatos ministeriais para a lobista Roberta Luchsinger, sua
amiga. Reiterou que até aqui “são só ilações”, mas se o filho tiver feito algo
irregular “deve ser punido”.
Depois
de defender seu legado de restabelecer o processo de inclusão social dos mais
pobres – abandonado por Jair Bolsonaro -, Lula destacou os avanços na educação,
com o incentivo à matemática e o recorde de novas universidades.
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Um projeto de futuro
Nas
considerações finais, Lula apresentou uma ideia brilhante (seria mais
valorizada se fizesse o “link” com a importância da educação qualificada): quer
preparar o Brasil para avançar na alta tecnologia, incorporar mão de obra mais
qualificada e deixar de ser exportador de matérias-primas (petróleo, minérios e
alimentos sem beneficiamento, o que se arrasta desde 1500), passando a exportar
aviões (a Embraer está negociando com a Índia a venda de aviões KC-390),
artefatos bélicos, máquinas e minerais estratégicos, com o domínio da
exploração, separação e industrialização dos 17 tipos de minérios das terras
raras.
O
Brasil crescerá mais e melhor com população e produção mais qualificadas.
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Negação terraplanista
Enquanto
isso, quando conseguiu se desvencilhar da teia do Banco Master e responder,
sexta-feira, às perguntas dos apresentadores Cesar Tralli e Renata Vasconcelos,
Flávio Bolsonaro derrapou feio. Encampou o discurso terraplanista que nega o
aquecimento global (justo na semana em que o mundo foi abalado pela tragédia no
Nepal, causado pelo derretimento de mega geleira do Himalaia). Ao falar de
proteção ambiental, reduziu o compromisso a projetos de água e esgoto para a
população.
Sobre o
tarifaço do governo Trump às exportações brasileiras (que elogiou em agosto de
2025), reconheceu que o irmão Eduardo, que abandonou o mandato de deputado
federal (PL-SP) em fevereiro de 2025 para tramar contra o Brasil e tentar parar
o processo contra o pai e os golpistas, errou (o tarifaço também foi apoiado
pelo governador Tarcísio de Freitas).
Uma das
alegações feitas por Eduardo e o parceiro Paulo Figueiredo (neto do último
ditador, general João Figueiredo) ao Departamento de Estado para os EUA impor
sanções foi o aumento do desmatamento. Que cresceu no governo Bolsonaro por
desaparelhar o Ibama e “deixar passar a boiada”. A redução do conceito
ambiental explica tudo.
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Sofismas na economia
Ao
enveredar pela economia, repetiu (em escala menor) as bravatas do ex-ministro
da Economia, Paulo Guedes. O “posto Ipiranga” de seu pai garantia rápido ajuste
fiscal com R$ 1 trilhão em privatizações e R$ 1 trilhão em venda de imóveis da
União. A primeira etapa rendeu menos de R$ 400 bilhões; a segunda etapa nem
saiu do papel. Com medidas eleitoreiras visando a reeleição, em 2022, além do
calote nos precatórios, Guedes cortou impostos federais e o ICMS (de estados e
municípios) de combustíveis, energia elétrica e comunicações. E deixou rombo de
mais de R$ 180 bilhões nas finanças da União e dos estados.
O
senador prometeu tesourar gastos e, “com credibilidade na área fiscal”, reduzir
os juros da dívida pública (a Selic, de 14%, cairia para 7%) e os juros anuais
de R$ 1 trilhão para R$ 500 bilhões. Errou ao dizer que a baixa de um ponto na
Selic economizaria “R$ 90 bilhões em um ano”. Dados do Banco Central de junho
informam que isso custava/ economizava R$ 66,1 bilhões ao fim de 12 meses. Os
dados de julho saem amanhã e devem ficar em R$ 68 bilhões.
O
discurso de que o governo Lula criou mais de 30 impostos busca confundir o
eleitor. Todos sabem que os assalariados que ganham até cinco salários-mínimos
(R$ 8.105) foram isentos, este ano, do Imposto de Renda na fonte. A reforma
tributária, que começa em 2027, reduz drasticamente o número de impostos e a
carga ao consumidor.
Os
impostos que aumentaram recaíram sobre fundos individuais de bilionários e de
aplicações “off-shore”, às altas rendas, engordadas pelos juros elevados (a
tabela aumentou para ganhos mensais acima de R$ 50 mil), sobre as instituições
financeiras que estão lucrando como nunca com os altos juros reais (descontada
a inflação) e as “bets”.
Autorizadas
no governo Temer, esses “cassinos eletrônicos”, instalados em paraísos fiscais,
onde lavam dinheiro, passaram o governo Bolsonaro sem regulamentação e
tributação. O governo Lula deu um mínimo de organização e controle à jogatina,
mas os lobbies no Congressos evitaram que a tributação chegasse a 18% (ficou em
12%).
• Os juros não são os únicos culpados
Culpar
juros altos pelo endividamento que levou grandes empresas, como Casas Bahia,
Raízen e Braskem, a pedir Recuperação Judicial ou Extrajudicial (quando há
dívidas concentradas em poucos credores), tem sido o argumento dos advogados de
causas comerciais para convencer juízes de Varas Cíveis. Parte da imprensa
passa recibo. Mas, nem sempre a crise decorre 100% de juros altos, que oneram,
sim, famílias, médias, pequenas e microempresas. Em muitos casos, juros salgam
uma ferida já aberta.
Lojas
Americanas, o caso mais escandaloso, é anterior à escalada das taxas de juros.
Em janeiro de 2023, a empresa informou, em “Fato Relevante”, ter descoberto
dívidas não contabilizadas (de risco sacado e de criação fictícia de verba de
propaganda cooperada).
De
início, a companhia disse que o rombo era de R$ 40 bilhões. Na Recuperação
Judicial, chegou a R$ 54 bilhões (os acionistas controladores injetaram
bilhões; a empresa renegociou dívidas, transformadas em participação no
capital, fechou unidades e demitiu muito pessoal). Mas voltou a ter prejuízos
este ano. Agora, a Polícia Federal investiga a responsabilidade dos gestores
nas fraudes contábeis.
Com
rombo de R$ 10 bilhões, Casas Bahia repetem crises internas de gestão de
gigantes do varejo. Com estoques sem saída, devido ao endividamento dos
compradores, ficam apertados pelos altos custos do capital de giro. Mas, nas
suas quebras, Casas Pernambucanas, Coroa-Brastel, Ricardo Eletro e
Casa&Vídeo (que se recuperou) não tinham a forte concorrência das vendas
diretas ou parceladas (via cartão de crédito) dos sites estrangeiros e gigantes
nacionais como o Mercado Livre. Eram só os juros.
O grupo
Marabraz, com uma centena de lojas em São Paulo, até que tinha uma dívida
pequena (R$ 140 milhões). Mas houve cisão entre os sócios e um deles retirou as
garantias à dívida, o que motivou o pedido de RJ, para evitar o pior.
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Braskem afundou bairros
A
Braskem, braço petroquímico do grupo Odebrecht, é culpada pelo afundamento de
seis bairros de Maceió, capital de Alagoas, devido às atividades imprudentes de
exploração de sal-gema. Parte dos túneis de perfuração, às margens da lagoa de
Mundaú, cedeu, tragando quarteirões inteiros. Há sete anos, a holandesa
LyondellBasell, uma das maiores petroquímicas do mundo, desistiu de comprar a
Braskem (era controlada pela Odebrecht, que cedeu o controle à Shine, e tinha
47% das ações PN detidas pela Petrobras) por avaliar que as indenizações
judiciais tornariam a empresa inviável. A dívida é de US$ 11 bilhões (RS$ 57
bilhões).
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Uma crise de alavancagem
O grupo
Raízen, parceria do grupo Cosan, de Rubens Ometto, com a Shell, pediu RJ por
dívidas de R$ 65 bilhões, devido a problemas administrativos e apostas
malfeitas. Maior produtor de açúcar e álcool do mundo, Ometto investiu,
financiado, em 2022, quase R$ 10 bilhões para ser grande acionista da Vale.
Deu-se mal. Os preços do minério de ferro caíram após a Rússia invadir a
Ucrânia, em fevereiro de 2022. Perdeu quase R$ 5 bilhões ao revender as ações
da Vale entre o fim de 2024 e começo de 2025.
Neste
meio tempo, os preços do mercado doméstico de combustíveis viraram montanha
russa. E a concorrência da produção de álcool de milho no Centro-Oeste ganhou
escala. As usinas no Planalto Central contam com duas safras anuais de milho,
enquanto há enorme empate de capital nas usinas de açúcar e álcool de São
Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul, que operam uma única safra.
Outro
fato apertou o grupo Cosan. Enquanto vigorava (desde 2017) o sistema de
paridade de preços internacionais (PPI), os preços da gasolina seguiam a alta
internacional, ajustada pelo câmbio. E, como a gasolina comum tinha mistura de
27% de álcool anidro, a cada subida da gasolina nas refinarias da Petrobras a
Cosan e a Raízen eram bafejadas por repasse de 27%.
A
partir de maio de 2023, o governo Lula cumpriu a promessa de acabar com o PPI e
“abrasileirar” os preços dos combustíveis, usando mais o petróleo do pré-sal
nas refinarias da Petrobras, retiradas da lista de privatização, e que passaram
a operar à plena carga.
O fim
do PPI, combinado à política de subsídios temporários à gasolina, diesel e GLP,
mostrou utilidade na guerra dos Estados Unidos-Israel contra o Irã: os preços
dos derivados evitaram que a inflação passasse de 5% (estava em 4,24% nos 12
meses terminados em julho). A gasolina subiu só 4,97% no ano e evitou escalada
ainda maior dos juros.
Com
seis meses de guerra, o governo está elevando a 30% a mistura do álcool à
gasolina comum. Ou seja, sem RJ, a situação de liquidez podia ainda ser pior
para a Raízen e o grupo Cosan, que está vendendo empresas e terras no CO para
abater dívidas e reduzir o excesso de alavancagem.
Fonte:
Por Gilberto Menezes Côrtes, no JB

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