Inteligência
artificial e a disputa pelo tempo
O
surgimento da inteligência artificial tem sido usado sem uma discussão séria e
ética sobre a inteligência artificial percebo que o a questão se alastra E traz
a obrigação ética de discuti-la. O objetivo deste artigo é que comecemos
discutir esta nova ferramenta.
Quase
sempre começamos a conversa sobre inteligência artificial pelo lugar errado: a
máquina. Queremos saber o que ela faz, quais profissões ameaça, se aprende, se
substituirá professores, médicos ou pesquisadores. São perguntas legítimas, mas
já trazem uma armadilha. Quando a tecnologia ocupa o centro da cena, as
relações sociais que lhe dão direção recuam para o fundo. E são elas que
importam.
Uma
máquina pode reduzir a poucos minutos uma tarefa que antes consumia uma tarde
inteira sem que, por isso, a tarde seja devolvida a quem trabalha. A hora
poupada pode reaparecer como duas tarefas, três metas, quatro cobranças. A
questão decisiva, portanto, não está na velocidade da inteligência artificial.
Está no destino do tempo que ela consegue liberar.
É aí
que humanização e reificação deixam de ser palavras abstratas. Se a
inteligência artificial retira do trabalho parcelas mecânicas, repetitivas e
burocráticas e devolve esse tempo à leitura, ao cuidado, à criação, à conversa,
ao descanso, há uma possibilidade humanizadora. Se a economia de tempo apenas
eleva a régua da produtividade, comprime prazos e amplia a disponibilidade
exigida, ocorre o movimento contrário.
A
técnica deixa de servir ao ritmo humano; o ritmo humano é que passa a ser
ajustado ao desempenho da técnica. Nenhum algoritmo decide sozinho entre essas
duas possibilidades. A decisão se realiza na organização do trabalho, na
propriedade e nas relações de poder que cercam a tecnologia.
Nas
sociedades dependentes, essa pergunta precisa ganhar outra espessura. Não basta
saber se a inteligência artificial poupa ou captura tempo no cotidiano de um
trabalhador. É preciso perguntar quem controla os modelos, os chips, os
datacenters, os dados, as patentes e os circuitos financeiros que sustentam
essa maquinaria.
Um país
pode usar inteligência artificial em larga escala e, ao mesmo tempo, tornar-se
mais dependente. Pode ser usuário sofisticado de sistemas que não controla,
comprador permanente de serviços que não produz, fornecedor de dados que não
governa e consumidor de padrões cognitivos definidos em outros centros. Nesse
caso, a modernização aparece na superfície; por baixo dela, estreita-se a
capacidade de decidir sobre o próprio tempo histórico.
A
episteme da modernidade dependente ajuda a enxergar precisamente essa inversão.
Dependência não é apenas atraso, escassez tecnológica ou distância em relação
ao centro. Ela também se expressa na desigualdade de poder sobre o futuro. Há
sociedades capazes de estabelecer padrões, impor ritmos, antecipar mercados e
transformar expectativas em ativos. Outras entram nesses circuitos depois que
as regras já foram definidas, comprando tecnologias, pagando licenças e
reorganizando suas instituições segundo exigências externas.
A
desigualdade tecnológica converte-se também em desigualdade temporal: uns
participam da definição do amanhã; outros o recebem como condição. A
inteligência artificial torna essa assimetria mais aguda porque sua produção
exige volumes extraordinários de capital, energia, infraestrutura, dados e
conhecimento acumulado.
A crise
de 2008 é um marco importante para compreender esse cenário. Não porque a
inteligência artificial tenha começado ali, mas porque, depois dela, tornou-se
mais visível uma mutação na forma de organizar o presente a partir do futuro. O
capital fictício ampliou sua capacidade de antecipar rendimentos, transformar
expectativas em ativos e subordinar decisões atuais a fluxos ainda não
realizados de valorização.
Metas
futuras governam o trabalho de hoje; rankings pesam sobre universidades;
expectativas financeiras condicionam políticas públicas. O futuro deixa de ser
apenas horizonte de possibilidade e passa a funcionar como propriedade
antecipada. É dentro dessa temporalidade, e não fora dela, que a inteligência
artificial se expande.
Por
isso sua velocidade encontra terreno preparado. A máquina não inventou a pressa
contemporânea. Ela chega a empresas, governos, escolas e universidades que já
vivem sob avaliação contínua, competição e demanda por resposta imediata. A
novidade é que aquilo que exigia horas pode agora ser feito em minutos, e essa
capacidade rapidamente se torna referência de normalidade.
Um
relatório produzido em vinte minutos faz dois dias parecerem demora. Cem
documentos lidos por um sistema em uma tarde alteram a expectativa sobre
quantos documentos devem ser examinados. O ganho técnico é incorporado à meta
quase antes que alguém tenha a chance de usufruí-lo.
Aqui
aparece a contradição que interessa. A inteligência artificial pode liberar uma
quantidade enorme de tempo e, no mesmo movimento, fornecer os meios para
capturá-lo de maneira ainda mais rigorosa. Não há paradoxo nisso. O
desenvolvimento das forças produtivas sempre abriu a possibilidade de diminuir
o trabalho necessário, mas essa possibilidade não se realiza automaticamente
como liberdade.
Quando
o aumento de produtividade é absorvido pela valorização, a redução do tempo
necessário reaparece como maior volume de produção. A técnica encurta uma
tarefa; a organização social alonga a lista. Aquilo que poderia ser tempo
disponível volta ao trabalhador sob a forma de obrigação.
Pensemos
numa professora. Ela gasta três horas para conferir referências, corrigir
pequenos problemas formais e montar a primeira versão de um roteiro de aula.
Com uma boa ferramenta de inteligência artificial, talvez faça boa parte disso
em quarenta minutos. Duas horas e vinte minutos foram tecnicamente liberados.
Onde elas vão parar?
Se
puderem ser usadas para ler, conversar com estudantes, revisar uma hipótese,
preparar melhor a aula ou simplesmente fechar o computador, houve ganho humano.
Se a administração concluir que agora cabem quatro roteiros, mais mensagens,
outra turma e novos formulários no mesmo expediente, a produtividade aumentou e
a liberdade diminuiu. O relógio marca economia; o corpo registra outra coisa.
É no
cotidiano que essa diferença ganha carne. O telefone vibra cedo, a caixa de
mensagens repõe o que acabou de ser respondido, uma plataforma avisa que existe
outra pendência, o calendário aceita mais um compromisso porque supostamente
surgiu uma folga. Aos poucos, responder depressa deixa de ser cortesia e vira
obrigação. A eficiência produzida pela ferramenta passa a organizar a
expectativa dos outros. O sujeito parece mais capaz, mas já não sabe onde foi
parar o tempo que ganhou. A reificação entra por essa fresta: a vida começa a
ser medida por prazos, índices, quantidades e velocidades exteriores a ela.
Reificação
não significa apenas tratar alguém como objeto. Ela designa uma inversão mais
funda, pela qual relações humanas passam a se apresentar como relações entre
grandezas, desempenhos e coisas. O trabalhador aparece como produtividade,
número de entregas, ranking e tempo de resposta.
Com a
inteligência artificial, essa lógica encontra um novo padrão de comparação. O
humano já não é medido apenas diante de outros humanos, mas diante do que a
infraestrutura algorítmica tornou possível. A máquina criada para auxiliar
converte-se discretamente em medida. E toda medida, quando se torna norma,
começa a governar o comportamento.
No
trabalho intelectual, esse deslocamento é particularmente delicado. Escrever,
traduzir, interpretar, comparar documentos e organizar argumentos: atividades
antes demoradas agora podem ser aceleradas. Há nisso um ganho real. Seria pouco
sensato negar a utilidade de ferramentas capazes de retirar horas de tarefas
mecânicas. O problema surge quando se apaga a fronteira entre eliminar o
trabalho repetitivo e eliminar o percurso pelo qual uma pessoa se forma.
Um
estudante pode usar inteligência artificial para organizar referências ou
testar a clareza de uma argumentação e aprender mais com isso. Outra coisa é
entregar à máquina a formulação do problema, a hipótese, a estrutura e o
julgamento final. Nesse caso, economiza-se justamente o tempo em que o
pensamento poderia ter acontecido.
Pensar
demora. Não por defeito, mas porque certas operações humanas dependem de
duração. Uma hipótese precisa ficar algum tempo em suspenso antes de mostrar
sua fragilidade. Uma leitura difícil altera uma interpretação devagar. Uma
conversa desloca uma certeza que parecia sólida. Conhecer também nos muda.
A
educação perde parte de seu sentido quando todo obstáculo passa a ser tratado
como ruído a eliminar. Se a inteligência artificial ampliar a investigação,
confrontar argumentos e abrir caminhos, ela pode fortalecer a formação. Quando
fornece uma chegada sem percurso, entrega resultado e retira experiência.
A
universidade torna essa contradição quase visível a olho nu. Antes mesmo da
expansão recente da inteligência artificial, o trabalho acadêmico já havia sido
tomado por métricas, plataformas, rankings, editais, avaliações sucessivas e
produtividade bibliométrica. O docente ensina, pesquisa, orienta, presta
contas, preenche sistemas, administra projetos e responde mensagens que não
respeitam a antiga separação entre jornada e descanso.
A
inteligência artificial entra numa instituição cujo tempo já está picotado. Se
ela retirar burocracia e devolver continuidade à leitura, à pesquisa e à
orientação, haverá ganho substantivo. Se apenas elevar a expectativa de
produção, teremos uma universidade ainda mais intermitente, incapaz de
preservar o tempo longo que a formação intelectual exige.
Na
periferia capitalista, a universidade carrega outra determinação. Ela produz
conhecimento em uma divisão internacional profundamente desigual. Pesquisadores
dependem de bases, periódicos, softwares, plataformas e infraestruturas cujo
controle frequentemente está fora do país. A entrada da inteligência artificial
nesse ambiente pode aprofundar a dependência cognitiva se não vier acompanhada
de política científica, capacidade computacional e soberania sobre dados e
infraestrutura.
Passamos
então a investigar com instrumentos cujos critérios de funcionamento, bases de
treinamento e decisões arquitetônicas não conhecemos inteiramente. Não se trata
de rejeitar esses instrumentos, mas de perceber que a mediação tecnológica
também organiza aquilo que pode ser visto, comparado e conhecido.
A
tradição latino-americana da dependência permanece fértil exatamente porque
impede que a periferia seja lida como simples versão atrasada do centro.
Marini, Bambirra e Theotonio dos Santos mostraram que a inserção subordinada na
acumulação mundial produz determinações próprias. A questão contemporânea não é
descobrir em quantos anos a América Latina alcançará as grandes potências da
inteligência artificial.
A
pergunta mais incômoda é que tipo de integração está em curso. Quem captura
valor? Quem possui a infraestrutura? Onde ficam os dados? Que trabalho é
deslocado e que trabalho invisível é criado? Quem escreve os padrões que depois
aparecem como universais?
Francisco
de Oliveira permite avançar outro passo. Moderno e arcaico não se sucedem
necessariamente como etapas; podem se alimentar mutuamente. A plataforma mais
sofisticada pode repousar sobre trabalho precarizado.
Sistemas
de aparência imaterial dependem de pessoas que classificam dados, moderam
conteúdos, corrigem respostas e executam tarefas fragmentadas, muitas vezes mal
remuneradas e espalhadas pelo mundo. Também dependem de mineração, energia,
água, cabos e cadeias industriais. A nuvem tem chão. A inteligência artificial
não aboliu a materialidade: tornou-a menos visível para quem está diante da
tela e distribuiu seus custos de forma desigual.
Daí a
importância de recolocar a divisão internacional do trabalho dentro da análise.
Chips são projetados em poucos lugares, produzidos em cadeias concentradas e
instalados em grandes infraestruturas de processamento controladas por um
número reduzido de empresas. Países dependentes compram acesso a esse poder
computacional e podem transformar investimento tecnológico em pagamentos
recorrentes ao exterior.
Dados
atravessam fronteiras; serviços voltam como mercadoria; a infraestrutura
continua alheia. Há modernização, mas parte do valor e da capacidade
estratégica escapa. A dependência tecnológica deixa de ser somente falta de
equipamentos e passa a significar limitação concreta sobre escolhas futuras.
É nesse
ponto que a ideia de soberania temporal se torna necessária. Uma sociedade não
é soberana apenas porque possui território, instituições e moeda. Também
precisa conservar alguma capacidade de escolher seus ritmos, prioridades e
horizontes. Quando decisões fundamentais passam a depender de padrões
financeiros, cognitivos e tecnológicos definidos fora dela, o futuro já chega
parcialmente ocupado.
A
inteligência artificial pode aprofundar esse processo caso a política nacional
se limite a adaptar escolas, universidades, empresas e serviços públicos aos
sistemas oferecidos pelas corporações globais. O país parece entrar rapidamente
no futuro, mas entra por uma porta cuja fechadura pertence a outro.
Capital
fictício e inteligência artificial encontram-se justamente na antecipação.
Sistemas algorítmicos classificam comportamentos, estimam riscos, projetam
consumo, calculam produtividade e oferecem previsões. O futuro adquire preço
antes de acontecer. Essa capacidade pode servir ao planejamento, à prevenção e
à organização de políticas públicas, mas pode igualmente ampliar vigilância,
seleção e controle.
Quando
trajetórias individuais são calculadas antecipadamente, decisões presentes
começam a ser tomadas sobre vidas ainda não vividas. O futuro, que deveria
conservar alguma abertura, retorna ao presente como probabilidade administrada.
Nada
disso autoriza uma recusa romântica da inteligência artificial. Não há virtude
em conservar tarefas penosas apenas porque sua automação ocorre dentro de
relações sociais contraditórias. Seria como defender o cansaço em nome da
crítica. O problema está em outra parte: quem se apropria da potência técnica e
o que faz com ela. Se uma máquina reduz o trabalho necessário, a consequência
socialmente desejável deveria ser uma discussão sobre redução da jornada,
reorganização das tarefas e distribuição dos ganhos. Caso contrário, o avanço
técnico continua existindo, mas seu benefício é desviado antes de alcançar quem
trabalha.
Talvez
seja útil distinguir, então, duas formas de automação. Uma é emancipatória
quando transforma produtividade em tempo disponível e amplia a autonomia das
pessoas. Outra é disciplinar quando usa a mesma produtividade para elevar
metas, controlar ritmos e ocupar os intervalos que a técnica abriu.
A
primeira pergunta o que deixou de ser necessário fazer. A segunda pergunta
quanto mais poderá ser exigido. Numa, a técnica reduz a parcela da vida
submetida ao trabalho necessário. Noutra, oferece meios para que essa mesma
parcela se torne mais densa e mais difícil de abandonar.
Por
isso o tempo precisa voltar ao campo dos direitos. A jornada de oito horas
nunca foi um presente da tecnologia. Resultou de conflito político e
organização social. Agora, quando ferramentas cognitivas prometem elevar de
modo radical a produtividade, reaparece uma pergunta antiga com outra forma:
por que a jornada deveria permanecer a mesma?
Se
tarefas desaparecem, por que devem ser imediatamente substituídas por novas
obrigações? Se o conhecimento social acumulado permite economizar milhões de
horas, por que essa economia haveria de pertencer apenas aos proprietários da
infraestrutura? Discutir inteligência artificial sem discutir duração do
trabalho é aceitar metade do problema.
Um
critério de avaliação poderia começar aí. Uma inteligência artificial
humanizadora amplia a capacidade de as pessoas decidirem sobre o próprio tempo
e participarem da decisão sobre o futuro coletivo. Ela auxilia o julgamento sem
ocupar o lugar do julgamento; reduz tarefas sem transformar cada minuto poupado
em nova cobrança; melhora a educação sem converter aprendizagem em consumo de
respostas; aumenta a capacidade produtiva sem fazer do trabalhador um apêndice
de sistemas automáticos. Sobretudo, não concentra em poucas empresas o poder de
organizar a infraestrutura cognitiva de sociedades inteiras.
Nas
formações dependentes, porém, a questão da liberdade individual nunca basta. Um
pesquisador pode ganhar duas horas usando uma plataforma estrangeira e,
simultaneamente, sua universidade pode perder autonomia tecnológica ao
tornar-se estruturalmente dependente dela.
Um
estudante pode receber uma resposta em segundos enquanto o país deixa de
desenvolver capacidade própria para produzir os sistemas que mediam essa
resposta. A experiência individual registra ganho; a estrutura coletiva pode
registrar subordinação. É justamente essa diferença de escala que a noção de
modernidade dependente obriga a manter à vista.
A
inteligência artificial precisa ser observada, portanto, em pelo menos três
planos que se cruzam. No plano da vida cotidiana, interessa saber se ela amplia
autonomia ou comprime ainda mais a duração. No trabalho, importa descobrir quem
fica com os ganhos de produtividade.
Na
divisão internacional, a pergunta recai sobre quem controla as condições
técnicas e cognitivas que organizam o futuro. Quando um desses planos
desaparece, a análise fica manca. Juntos, eles revelam que o problema
tecnológico é, no fundo, um problema de poder sobre o tempo.
A
pergunta sobre quando a inteligência artificial humaniza e quando reifica
exige, assim, um complemento: para quem, onde e sob que forma histórica? Uma
hora economizada por uma máquina ainda não tem destino. Pode tornar-se
descanso, desemprego, formação, lucro, aceleração, autonomia ou vigilância.
Pode fortalecer a soberania científica de um país ou ampliar sua dependência
cognitiva. O ganho técnico é real, mas seu sentido permanece aberto até que as
relações sociais o capturem, disputem e distribuam. É nesse intervalo que a
política começa.
A
disputa em torno da inteligência artificial é, por isso, uma disputa sobre o
futuro. O capital busca antecipá-lo, precificá-lo e trazê-lo ao presente como
fonte de valorização. Uma sociedade democrática deveria preservar o futuro
também como campo de escolha coletiva. Humanizar a inteligência artificial
significa impedir que sua capacidade de economizar trabalho seja imediatamente
apropriada como nova obrigação. Nas sociedades dependentes, significa ainda
recusar uma posição em que o país se limite a consumir uma infraestrutura
cognitiva definida por outros e a pagar continuamente por ela.
Uma
hora economizada pela técnica parece pouca coisa. Talvez seja, contudo, a
unidade mínima dessa disputa. Quando volta à pessoa como tempo de vida, abre
uma possibilidade de liberdade. Quando volta à empresa como meta ampliada,
aprofunda a reificação. Quando o ganho tecnológico retorna aos países centrais
como renda, controle de dados e propriedade e deixa aos dependentes o
pagamento, a adaptação e a subordinação, a velha dependência reaparece em uma
camada nova. A inteligência artificial não escolhe entre esses destinos. Ela
apenas amplia a potência do que pode ser feito com o tempo.
Resta
saber quem governará essa potência. Quem possuirá a infraestrutura? Quem
estabelecerá seus usos? Quem poderá interrompê-los? Quem ficará com o tempo que
a máquina liberar? A inteligência artificial será humanizadora quando a
economia de trabalho puder tornar-se formação, cuidado, criação, democracia,
descanso e vida, e não apenas matéria-prima para uma produtividade sem limite.
Para as
sociedades dependentes, há ainda uma exigência adicional: converter capacidade
tecnológica em soberania histórica. Sem isso, teremos máquinas cada vez mais
velozes operando em sociedades cada vez menos capazes de decidir para onde vão.
E talvez essa seja a forma mais dura da reificação: possuir instrumentos
extraordinários para antecipar o futuro e, ainda assim, não ser senhor dele.
Fonte:
Por João dos Reis Silva Júnior, em A Terra é Redonda

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