Estudo
avalia impacto da esclerose múltipla na rotina do paciente
A
esclerose múltipla (EM) é uma doença neurológica crônica e autoimune que afeta
o sistema nervoso central ao danificar a mielina, camada que protege as fibras
nervosas. Embora seus sintomas físicos sejam os mais conhecidos, pesquisas
recentes mostram que a doença também compromete a vida social, o trabalho e a
situação financeira dos pacientes. Além disso, novas evidências indicam que
diferenças biológicas e genéticas ajudam a explicar por que a enfermidade
progride rapidamente em algumas pessoas, enquanto permanece estável por anos em
outras.
Em um
trabalho desenvolvido pela Link Campus University, da Itália, e apresentado
recentemente no Congresso da Academia Europeia de Neurologia (EAN) 2026, em
Genebra, os pesquisadores avaliaram 1.039 adultos atendidos em 68 centros
especializados para investigar como a EM interfere em quatro determinantes
sociais da saúde: educação, trabalho, recursos financeiros e vida social.
A vida
social foi o aspecto mais afetado, citado por 51% dos participantes, seguida
pelo trabalho, 48%, recursos financeiros, 34%, e educação, 19%. Os
pesquisadores também observaram forte relação entre esses fatores. Os impactos
foram maiores entre pessoas com dificuldades econômicas, desempregadas,
aposentadas precocemente, com outras doenças associadas ou maior grau de
deficiência.
Segundo
a autora principal, Marta Ponzano, cientista da Link Campus University, os
dados mostram que múltiplos domínios da vida são substancialmente afetados pela
esclerose múltipla e revelam a necessidade de uma abordagem mais ampla no
cuidado. "Não tratamos apenas a esclerose múltipla, mas a pessoa que vive
com ela", afirmou.
Quase
90% dos participantes relataram receber algum tipo de apoio social. A família
foi a principal fonte de suporte prático e emocional, seguida pelos amigos. O
estudo também mostrou que colegas de trabalho e até animais de estimação
desempenham papel importante nessa tarefa. Ainda assim, entre aqueles cuja vida
social foi afetada, 54% relataram prejuízos no relacionamento com parceiros e
46% nas amizades.
<><>
Da incerteza à esperança
A
professora de educação física da Secretaria de Educação do Distrito Federal,
Lucianna Maria dos Santos, 40, começou a ter sintomas da esclerose múltipla por
volta dos 13 anos. Na época, um ortopedista afirmou que a dormência nas pernas
era somente consequência de uma noite dançando forró. O diagnóstico veio apenas
aos 22 anos, durante a faculdade de educação física. "Ao receber essa
notícia, minha mãe me disse que eu teria que trocar de curso, fiquei
desesperada. Passei um mês internada, tomando medicação, fazendo fisioterapia e
atividades, melhorei 90%. Não desisti da graduação, indo de transporte alugado
e de bengala continuei frequentando as aulas e consegui concluir. Faço
tratamento regularmente desde então."
Lucianna
se sente realizada na profissão, ajudando também a quebrar o estigma de que
pessoas com EM não podem ser ativas. "Não é uma tarefa fácil pois tenho
que lidar com as minhas limitações e também com o preconceito das pessoas em
ver uma professora com uma deficiência física dando aula de um esporte, no caso
o voleibol." Para ela, gostar da atividade e ter apoio de amigos,
familiares, equipe gestora, profissionais da escola onde atua, principalmente dos alunos, ajuda a continuar
fazendo o que ama.
A
educadora também é vice-presidente da Associação de Esclerose Múltipla e
Doenças Raras do Distrito Federal, trabalho que tem orgulho de prestar à
comunidade. "Auxiliamos pacientes e familiares em relação a tratamento
medicamentoso, direitos, atividades multidisciplinares e outros. Buscamos
também por políticas públicas, para que possamos ter um tratamento digno, nos
dando qualidade de vida." Segundo ela, a entidade também realiza trabalhos
de conscientização em prol do diagnóstico precoce.
<><>
Variantes genéticas
Enquanto
o estudo italiano evidenciou os impactos sociais da doença, pesquisadores do
Instituto de Neurociências da Holanda investigaram por que a EM evolui de forma
tão diferente entre os pacientes. A equipe analisou dados clínicos, patológicos
e genéticos de 287 amostras do Banco de Cérebros da Holanda, formando a maior
coorte de patologia da doença já caracterizada. Os cientistas identificaram
quatro padrões relacionados à inflamação e ao reparo cerebral, incluindo
inflamação ao redor dos vasos sanguíneos, acúmulo de células imunológicas,
lesões de borda ampla e capacidade de regeneração da mielina.
Pacientes
com lesões com margens extensas apresentaram maior probabilidade de evolução
mais grave, enquanto aqueles com menor capacidade de reparar a mielina
desenvolveram danos crônicos mais intensos. O estudo também encontrou
associação entre variantes genéticas ligadas ao risco de esclerose múltipla e
processos inflamatórios no cérebro.
De
acordo com Paulo Zattar Ribeiro, médico geneticista especialista em esclerose
múltipla, hoje o acompanhamento da EM depende principalmente de ressonância
magnética e da avaliação clínica de incapacidade. "A identificação desses
quatro padrões biológicos abre caminho para um acompanhamento mais refinado,
baseado na biologia dominante em cada paciente — inflamação perivascular,
agregados imunes, lesões periféricas extensas ou falha de reparo da mielina —
em vez de tratar todos os casos como uma única trajetória."
Segundo
ele, na prática, isso deve se traduzir em biomarcadores de sangue e líquor e em
técnicas avançadas de imagem capazes de identificar lesões cronicamente ativas.
"Permitindo um monitoramento mais individualizado da atividade silenciosa
da doença, que hoje passa despercebida nos exames convencionais."
Para os
pesquisadores, identificar biomarcadores capazes de reconhecer esses padrões
poderá permitir o acompanhamento da progressão da doença e o desenvolvimento de
tratamentos cada vez mais personalizados.
<><>
Esperança de diagnóstico antecipado
Estudo
recente da Universidade McGill, no Canadá, revelou um grupo de proteínas
sanguíneas que se alteram em pessoas que desenvolvem esclerose múltipla, em
alguns casos mais de uma década antes do diagnóstico. Para os cientistas, as
descobertas oferecem esperança de que um simples exame de sangue possa um dia
identificar pessoas com chances de ter EM, com tempo para iniciar terapêuticas
antes que ocorram danos ao corpo.
Segundo
os autores, danos cerebrais são difíceis ou impossíveis de reparar, mas se a
esclerose múltipla for detectada precocemente, os piores efeitos debilitantes
podem ser evitados a tempo. No entanto, em muitos casos, o diagnóstico acontece
apenas quando a doença está avançada e o tempo para intervenção precoce já
passou.
Uma
equipe de cientistas liderada por Adil Harroud, neurologista e pesquisador do
Instituto Neurológico de Montreal, hospital da Universidade McGill, buscou
maneiras de detectar sinais de esclerose múltipla no sangue de pacientes anos
antes do diagnóstico. Para o trabalho, eles se concentraram nas proteínas.
De mais
de 2.500 proteínas sanguíneas analisadas, a equipe descobriu que 39 estavam
ligadas ao risco de esclerose múltipla, a maioria delas nas vias de sinalização
que as células imunológicas usam para se comunicar. Para saber se essas
proteínas poderiam servir como um alerta precoce, eles recorreram ao UK
Biobank, um banco com dados de mais de 500 mil pessoas.
Entre
os voluntários avaliados, 124 desenvolveram EM, permitindo que os pesquisadores
analisassem amostras coletadas, em média, seis anos antes do diagnóstico e, em
alguns casos, mais de uma década antes.
Nessas
amostras, os cientistas descobriram que oito proteínas estavam alteradas em
pessoas que seriam diagnosticadas com esclerose múltipla depois. Uma delas, a
DKKL1, foi associada tanto a um menor risco de desenvolver esclerose múltipla
quanto a um curso mais leve da doença naqueles que a apresentaram, tornando
essa substância um possível marcador tanto de risco quanto de prognóstico.
"Na
esclerose múltipla, agora sabemos que a intervenção precoce pode retardar ou
até mesmo prevenir completamente os sintomas", afirma Harroud. "O que
nos falta é uma maneira de identificar as pessoas certas a tempo. Esses
marcadores sanguíneos apontam para uma forma de fazer isso e agir antes que o
dano seja causado."
De
acordo com Natália Nasser, neurologista do Hospital Santa Lúcia, em Brasília,
se esses biomarcadores forem validados, a triagem provavelmente será
direcionada inicialmente a grupos de maior risco. “Sobretudo familiares de
primeiro grau de pacientes com EM; pessoas com síndrome radiologicamente
isolada, lesões no cérebro ou na medula e pacientes com síndrome clínica
isolada, sintomas neurológicos causados por inflamação e perda de mielina no
sistema nervoso central. O rastreamento populacional não parece viável no
momento, pois a EM é relativamente rara e isso geraria muitos falsos positivos,
mesmo com testes de boa qualidade.”
>>>>
Palavra de especialista - Felipe von Glehn, neurologista do Hospital Brasília
Águas Claras, da Rede Américas
"O principal desafio atual no diagnóstico
da esclerose múltipla é que não existe um único exame capaz de confirmar a
doença. O diagnóstico é feito a partir de um conjunto de informações, com base
em critérios atualizados em 2024. São considerados dados clínicos, exames de
ressonância magnética, análises de sangue e do líquor, além da exclusão de
outros possíveis diagnósticos. À medida que as pesquisas ampliam o conhecimento
sobre a fisiopatologia da doença, também contribuem para que o rastreio seja
feito de forma mais segura. Um exemplo incorporado aos critérios atuais é o
chamado sinal da veia central, identificado por meio de exames de imagem. Na
esclerose múltipla, ocorre uma infiltração de células inflamatórias em
diferentes regiões do parênquima cerebral, distribuídas ao redor de pequenas
veias. Essa característica pode ser visualizada na ressonância magnética e é
bastante característica da doença."
Fonte:
Correio Braziliense

Nenhum comentário:
Postar um comentário