terça-feira, 1 de setembro de 2026

Antes do nome, o rosto

Há patrimônios que desaparecem sem que nenhuma parede desabe. Nenhuma tela é rasgada. Nenhuma escultura é destruída. Nenhum edifício deixa de existir. A matéria permanece. O significado é que começa a morrer.

Talvez essa seja uma das formas mais silenciosas de perda patrimonial, justamente porque dificilmente produz manchetes. Conservamos a pedra, restauramos a pintura, controlamos a umidade, protegemos o edifício, catalogamos o objeto e, satisfeitos com a permanência física daquilo que recebemos, nem sempre percebemos que as relações humanas, políticas, intelectuais e afetivas que lhe davam sentido começaram a desaparecer.

O objeto sobrevive. O patrimônio, apenas parcialmente. Penso nisso muitas vezes caminhando pelo Memorial da América Latina. Todos os anos, milhares de estudantes atravessam seus espaços. Chegam em grupos, percorrem a Praça Cívica, entram nos edifícios, observam obras extraordinárias, fotografam, escutam explicações e regressam às suas escolas.

Muitos sabem que estão dentro de um conjunto arquitetônico concebido por Oscar Niemeyer. Entram no Salão de Atos e descobrem diante de si o monumental Tiradentes, de Candido Portinari. Sabem que estão olhando para uma das grandes obras da arte brasileira. Talvez aprendam que aquela narrativa pictórica fala da prisão, do julgamento, da execução e do esquartejamento de Joaquim José da Silva Xavier.

Mas quantos sabem que estão olhando também para Luiz Carlos Prestes? Essa pergunta aparentemente simples abre uma porta para aquilo que considero uma das responsabilidades mais profundas da museologia e da antropologia.

Em carta que recebi em 2023,[i] Luiz Carlos Prestes Filho chamou minha atenção para uma passagem do crítico Antonio Bento, em seu livro fundamental sobre Portinari. Ao descrever o mural Tiradentes, Antonio Bento[ii] registra que a figura do mártir teve como modelo o rosto barbado de Luiz Carlos Prestes, amigo do artista. Prestes Filho acrescenta ainda que não teria sido somente a fisionomia, mas também o corpo e o gestual registrados numa fotografia realizada na Bolívia, em La Gaiba, em 1927.

A informação transforma nosso olhar. Porque, de repente, aquilo que parecia ser apenas a representação de um personagem do século XVIII passa a conter também uma presença do século XX. Portinari não estava apenas perguntando como teria sido Tiradentes. Estava dizendo alguma coisa sobre aquilo que Tiradentes continuava significando. O passado adquiria o rosto do presente. E talvez seja precisamente isso que a grande arte faça: não ilustra simplesmente a história. Obriga cada época a reencontrá-la.

O Projeto Portinari[iii] conserva estudos e a documentação do painel, realizado em 1948, cuja narrativa apresenta sucessivamente a conspiração, o julgamento, o enforcamento, o esquartejamento e a exposição dos restos de Tiradentes. A obra é história transformada em imagem.

Mas dentro dessa imagem existe outra história. Portinari e Prestes eram amigos. Oscar Niemeyer, autor da arquitetura que décadas depois receberia aquela obra no Memorial, também pertenceu à rede de relações de Prestes. E Luiz Carlos Prestes Filho, na mesma carta, percebeu a extraordinária reunião simbólica que se produz naquele espaço: Portinari, Niemeyer e Prestes, a quem chamou de “três amigos fraternos”.

A amizade, portanto, também está na parede. Não a vemos. Mas ela está lá. Saímos do Salão de Atos. Diante de nós, outra obra. Bruno Giorgi.

Outra vez, poderíamos fazer aquilo que frequentemente fazemos diante do patrimônio: ler o nome do artista, contemplar a forma, talvez fotografá-la e continuar andando. Mas Bruno Giorgi também não está sozinho.

Conheci Bruno Giorgi. Algumas das relações de que falo aqui não chegaram a mim apenas por documentos ou livros. Chegaram pela convivência. Tenho uma fotografia feita por mim em que Bruno Giorgi aparece ao lado de meu pai, Marco Antonio França Mastrobuono, os dois tomando uísque. Guardo também imagens de meu pai com Oscar Niemeyer. São fotografias aparentemente domésticas. Mas o tempo possui essa capacidade extraordinária de transformar aquilo que um dia foi cotidiano em documento.

Conheci também de perto a relação de Bruno Giorgi com Alfredo Volpi. Décadas mais tarde, tive a oportunidade de pesquisar e transformar parte dessa história na exposição “A Estética de uma Amizade”,[iv] realizada em 2019, com curadoria que compartilhei com Max Perlingeiro. A exposição reuniu mais de 130 obras e documentos para contar uma amizade que atravessou mais de meio século. As pesquisas foram enriquecidas pelos longos depoimentos de Leontina Ribeiro Giorgi, viúva de Bruno, que abriu arquivos e recuperou histórias pessoais dos dois artistas.

Ali reaparecia também Mário de Andrade. Um depoimento de Bruno Giorgi, posteriormente recuperado na pesquisa da exposição, conta que em 1937 ele levou Mário de Andrade e Sérgio Milliet ao ateliê de Volpi. Os dois ficaram maravilhados.

Novamente, não estamos diante de nomes isolados. Estamos diante de relações. Bruno Giorgi havia conhecido ainda outra experiência que não deveria desaparecer de sua obra quando contamos sua história. Sua trajetória europeia foi marcada pela militância antifascista e pela prisão na Itália de Mussolini. Fontes biográficas registram anos de encarceramento e sua posterior saída da Itália antes da consolidação definitiva de sua trajetória artística brasileira.

Depois viria Mário. Volpi. Portinari. Niemeyer. A arte brasileira. E hoje uma obra sua permanece diante do Salão de Atos do Memorial. Há algo quase vertiginoso nisso. Estamos na Avenida Mário de Andrade. Dentro de um conjunto concebido por Oscar Niemeyer. Diante de uma escultura de Bruno Giorgi. Entramos no edifício e encontramos Candido Portinari. Dentro do Portinari encontramos Tiradentes. E dentro da imagem de Tiradentes encontramos Luiz Carlos Prestes.

O que estamos preservando? A resposta aparentemente óbvia seria: arquitetura, pintura, escultura. É verdade. Mas é insuficiente. Estamos preservando também encontros. Amizades. Conflitos. Convicções. Resistências. Visões de país. Experiências políticas. Redes intelectuais. Afetos.

Estamos preservando uma época em que artistas, escritores, arquitetos e homens públicos conversavam intensamente sobre que Brasil deveria existir. Não pensavam todos da mesma maneira. Não fizeram as mesmas escolhas. Não devem ser reduzidos a uma identidade política homogênea. Mas compartilhavam algo que talvez hoje nos faça falta: a convicção de que arte, cultura, política, educação e vida social não pertenciam a mundos inteiramente separados.

Havia uma ideia de país em disputa. E havia uma extraordinária confiança na possibilidade de construí-lo. É nesse ponto que a antropologia se torna indispensável. Uma coisa cultural nunca existe sozinha. Ela pertence a sistemas de relações. Foi produzida por alguém, num determinado tempo, dentro de determinadas circunstâncias, atravessada por técnicas, crenças, disputas, amizades, medos, esperanças e projetos de sociedade.

Quando retiramos todas essas relações e preservamos apenas a matéria, podemos ter conservado magnificamente o objeto. Mas empobrecemos o patrimônio. Como pós-doutor em Antropologia Social e alguém que dedicou grande parte da vida profissional à museologia e à preservação, sinto cada vez mais profundamente essa responsabilidade. Preservar não é apenas impedir que alguma coisa desapareça. É impedir que permaneça diante de nós depois que já esquecemos o que significa.

Talvez possamos chamar aquilo que existe nessa dimensão de patrimônio relacional. Não proponho uma nova categoria jurídica de proteção. Proponho uma maneira de olhar. Portinari é patrimônio. Prestes é memória histórica. Mas existe também Portinari e Prestes.

Bruno Giorgi é patrimônio. Mário de Andrade é patrimônio. Mas existe também Bruno e Mário. Giorgi e Volpi. Prestes e Niemeyer. Niemeyer e Darcy. Darcy e a América Latina. A obra e o lugar. O artista e seu tempo. A coisa e as relações que permitiram que ela adquirisse significado. Preservar uma constelação exige mais do que conservar suas estrelas. É preciso preservar também as linhas invisíveis que nos permitem reconhecê-la.

Talvez seja justamente aí que esteja uma das almas do Memorial da América Latina. Darcy Ribeiro jamais pensou a América Latina como uma coleção de países colocados lado a lado. Seu pensamento procurava relações. Processos históricos compartilhados. Matrizes culturais. Violências. Mestiçagens. Contradições. Potencialidades. Uma força civilizatória capaz de reconhecer-se não pela uniformidade, mas pela experiência histórica de povos que precisavam aprender a enxergar a si mesmos.

O Memorial nasceu dessa ambição. Por isso, talvez não exista maneira mais darcyniana de compreendê-lo do que recusar-se a enxergá-lo como uma coleção de coisas isoladas. Aqui, arquitetura conversa com pintura. Pintura conversa com política. Escultura conversa com amizade. Brasil conversa com América Latina. Passado conversa com presente. E os vivos continuam conversando com os mortos.

É também por isso que museus e instituições culturais não podem limitar sua responsabilidade à guarda. Precisam produzir mediação. Pesquisa. Documentação. Educação. Contexto. Perguntas. A conservação protege a permanência material. A museologia organiza possibilidades de compreensão. A antropologia nos ajuda a recuperar as relações que fizeram aquela matéria tornar-se cultura.

Nenhuma delas substitui a outra. Juntas, permitem que uma obra continue significando. Penso novamente nos estudantes. Uma criança entra no Salão de Atos. Olha Portinari. Alguém lhe diz: “Tiradentes”. Ela aprendeu alguma coisa. Mas podemos ir além. “Está vendo aquele homem?”. Sim. “O rosto dele lembra outra pessoa da história brasileira”. Quem? “Luiz Carlos Prestes”.

E por quê? Então começa a educação patrimonial. Quem foi Prestes? Por que Portinari o utilizou? Que relação existia entre eles? Por que Tiradentes recebeu aquele rosto? Quem projetou este edifício? Quem é o escultor que está lá fora? Por que estamos na Avenida Mário de Andrade? Quem foi Darcy Ribeiro? Por que existe um Memorial da América Latina em São Paulo? Uma pergunta produz outra.

De repente, a criança já não está visitando uma coleção de objetos. Está entrando numa história. É por isso que considero tão interessante a possibilidade de denominar a atual Praça Cívica como Praça Luiz Carlos Prestes. Não se trata simplesmente de acrescentar o nome de um personagem histórico a um espaço público. Nem de exigir concordância com todas as posições que Prestes sustentou ao longo de sua longa e complexa trajetória política.

Patrimônio não existe apenas para preservar os passados com os quais concordamos. Existe também para impedir que simplifiquemos os passados que precisamos compreender. A denominação pode cumprir uma função muito mais interessante. Pode produzir uma pergunta. “Por que esta praça se chama Luiz Carlos Prestes?”

A resposta está a poucos metros. Porque, antes de seu nome chegar à praça, seu rosto já havia chegado à parede. Então entramos no Salão de Atos. Encontramos Portinari. Encontramos Tiradentes. Encontramos Prestes. Encontramos uma amizade. Encontramos Niemeyer.

Saímos. Encontramos Bruno Giorgi. Encontramos Mário. Encontramos Volpi. Encontramos Darcy. E talvez acabemos encontrando um pouco mais do Brasil.

A praça passa a funcionar como aquilo que poderíamos chamar de dispositivo de mediação patrimonial. Seu nome não encerra uma interpretação. Provoca uma pergunta. E instituições culturais deveriam desejar perguntas. Porque memória que não produz pergunta corre o risco de transformar-se em decoração. Essa talvez seja uma das diferenças entre monumento e patrimônio.

O monumento pode permanecer silencioso. O patrimônio precisa continuar sendo capaz de falar. E, para isso, alguém precisa conservar sua linguagem.

Talvez minha inquietação venha também da experiência de ter conhecido algumas dessas pessoas. Quando olho uma fotografia de Bruno Giorgi com meu pai, lembro-me de que nenhum dos dois imaginava que décadas depois alguém poderia olhar aquela imagem procurando compreender uma época.

Quando vejo meu pai ao lado de Niemeyer, acontece o mesmo. O cotidiano não sabe antecipadamente que será memória. Talvez seja por isso que preservar seja uma atividade tão profundamente humana. Nunca sabemos exatamente aquilo de que o futuro precisará para compreender o passado. Guardamos. Documentamos. Escutamos. Perguntamos. Transmitimos. E esperamos que alguma coisa consiga atravessar.

Hoje, quando caminho pelo Memorial, não vejo apenas concreto, mármore, tinta e água. Vejo relações. Vejo conversas que continuam existindo dentro das coisas. Vejo amizades que se transformaram em arte. Vejo ideias políticas transformadas em imagens. Vejo artistas que discordaram, sofreram, criaram, envelheceram e morreram. Vejo Darcy insistindo que a América Latina precisava reconhecer-se. E vejo milhares de jovens atravessando esses mesmos espaços sem saber ainda quantas histórias estão caminhando ao lado deles.

Talvez seja essa uma das maiores responsabilidades de uma instituição como o Memorial. Não dizer ao visitante o que deve pensar. Mas permitir que ele saiba diante de quê está pensando. Não oferecer uma versão domesticada da história. Mas devolver-lhe sua complexidade. Não transformar artistas em santos, políticos em estátuas ou amigos em personagens sem contradições. Mas impedir que desapareçam as relações que nos permitem compreendê-los como seres humanos de seu tempo.

Todos os anos, milhares de pessoas entram e saem daqui. Talvez muitas saibam que viram um Portinari. Talvez algumas saibam que viram Tiradentes. Quantas sabem que olharam também para Luiz Carlos Prestes? Quantas sabem que, ao sair, passaram diante de Bruno Giorgi? Quantas sabem que Giorgi levou Mário de Andrade ao ateliê de Volpi? Quantas percebem que caminham pela Avenida Mário de Andrade? Quantas conseguem enxergar que aqueles poucos metros guardam uma extraordinária concentração da história artística, intelectual e política brasileira?

É precisamente aí que começa nossa responsabilidade. Preservar não é apenas conservar aquilo que as próximas gerações poderão ver. É permitir que compreendam aquilo que estão vendo. Antes do nome, Prestes já possuía um rosto naquele lugar. Antes da placa, havia amizade. Antes do monumento, havia pessoas. Antes do patrimônio, houve vida.

Talvez denominar aquele espaço Praça Luiz Carlos Prestes não signifique acrescentar uma memória ao Memorial da América Latina. Talvez signifique simplesmente tornar visível uma memória que já estava ali. Porque há patrimônios que desaparecem sem que nenhuma pedra seja retirada, nenhuma tela seja rasgada e nenhuma escultura seja destruída. Permanecem diante de nossos olhos. Mas suas histórias se calam.

E talvez a tarefa mais profunda da antropologia, da museologia e de toda instituição verdadeiramente comprometida com a memória seja justamente esta: impedir que as pessoas desapareçam de dentro das coisas que preservamos. Porque matéria sem memória é permanência. Patrimônio é permanência com significado.

 

Fonte: Por Pedro Machado Mastrobuono, em A Terra é Redonda

 

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