Antes
do nome, o rosto
Há
patrimônios que desaparecem sem que nenhuma parede desabe. Nenhuma tela é
rasgada. Nenhuma escultura é destruída. Nenhum edifício deixa de existir. A
matéria permanece. O significado é que começa a morrer.
Talvez
essa seja uma das formas mais silenciosas de perda patrimonial, justamente
porque dificilmente produz manchetes. Conservamos a pedra, restauramos a
pintura, controlamos a umidade, protegemos o edifício, catalogamos o objeto e,
satisfeitos com a permanência física daquilo que recebemos, nem sempre
percebemos que as relações humanas, políticas, intelectuais e afetivas que lhe
davam sentido começaram a desaparecer.
O
objeto sobrevive. O patrimônio, apenas parcialmente. Penso nisso muitas vezes
caminhando pelo Memorial da América Latina. Todos os anos, milhares de
estudantes atravessam seus espaços. Chegam em grupos, percorrem a Praça Cívica,
entram nos edifícios, observam obras extraordinárias, fotografam, escutam
explicações e regressam às suas escolas.
Muitos
sabem que estão dentro de um conjunto arquitetônico concebido por Oscar
Niemeyer. Entram no Salão de Atos e descobrem diante de si o monumental
Tiradentes, de Candido Portinari. Sabem que estão olhando para uma das grandes
obras da arte brasileira. Talvez aprendam que aquela narrativa pictórica fala
da prisão, do julgamento, da execução e do esquartejamento de Joaquim José da
Silva Xavier.
Mas
quantos sabem que estão olhando também para Luiz Carlos Prestes? Essa pergunta
aparentemente simples abre uma porta para aquilo que considero uma das
responsabilidades mais profundas da museologia e da antropologia.
Em
carta que recebi em 2023,[i] Luiz Carlos Prestes Filho chamou minha atenção
para uma passagem do crítico Antonio Bento, em seu livro fundamental sobre
Portinari. Ao descrever o mural Tiradentes, Antonio Bento[ii] registra que a
figura do mártir teve como modelo o rosto barbado de Luiz Carlos Prestes, amigo
do artista. Prestes Filho acrescenta ainda que não teria sido somente a
fisionomia, mas também o corpo e o gestual registrados numa fotografia
realizada na Bolívia, em La Gaiba, em 1927.
A
informação transforma nosso olhar. Porque, de repente, aquilo que parecia ser
apenas a representação de um personagem do século XVIII passa a conter também
uma presença do século XX. Portinari não estava apenas perguntando como teria
sido Tiradentes. Estava dizendo alguma coisa sobre aquilo que Tiradentes
continuava significando. O passado adquiria o rosto do presente. E talvez seja
precisamente isso que a grande arte faça: não ilustra simplesmente a história.
Obriga cada época a reencontrá-la.
O
Projeto Portinari[iii] conserva estudos e a documentação do painel, realizado
em 1948, cuja narrativa apresenta sucessivamente a conspiração, o julgamento, o
enforcamento, o esquartejamento e a exposição dos restos de Tiradentes. A obra
é história transformada em imagem.
Mas
dentro dessa imagem existe outra história. Portinari e Prestes eram amigos.
Oscar Niemeyer, autor da arquitetura que décadas depois receberia aquela obra
no Memorial, também pertenceu à rede de relações de Prestes. E Luiz Carlos
Prestes Filho, na mesma carta, percebeu a extraordinária reunião simbólica que
se produz naquele espaço: Portinari, Niemeyer e Prestes, a quem chamou de “três
amigos fraternos”.
A
amizade, portanto, também está na parede. Não a vemos. Mas ela está lá. Saímos
do Salão de Atos. Diante de nós, outra obra. Bruno Giorgi.
Outra
vez, poderíamos fazer aquilo que frequentemente fazemos diante do patrimônio:
ler o nome do artista, contemplar a forma, talvez fotografá-la e continuar
andando. Mas Bruno Giorgi também não está sozinho.
Conheci
Bruno Giorgi. Algumas das relações de que falo aqui não chegaram a mim apenas
por documentos ou livros. Chegaram pela convivência. Tenho uma fotografia feita
por mim em que Bruno Giorgi aparece ao lado de meu pai, Marco Antonio França
Mastrobuono, os dois tomando uísque. Guardo também imagens de meu pai com Oscar
Niemeyer. São fotografias aparentemente domésticas. Mas o tempo possui essa
capacidade extraordinária de transformar aquilo que um dia foi cotidiano em
documento.
Conheci
também de perto a relação de Bruno Giorgi com Alfredo Volpi. Décadas mais
tarde, tive a oportunidade de pesquisar e transformar parte dessa história na
exposição “A Estética de uma Amizade”,[iv] realizada em 2019, com curadoria que
compartilhei com Max Perlingeiro. A exposição reuniu mais de 130 obras e
documentos para contar uma amizade que atravessou mais de meio século. As
pesquisas foram enriquecidas pelos longos depoimentos de Leontina Ribeiro
Giorgi, viúva de Bruno, que abriu arquivos e recuperou histórias pessoais dos
dois artistas.
Ali
reaparecia também Mário de Andrade. Um depoimento de Bruno Giorgi,
posteriormente recuperado na pesquisa da exposição, conta que em 1937 ele levou
Mário de Andrade e Sérgio Milliet ao ateliê de Volpi. Os dois ficaram
maravilhados.
Novamente,
não estamos diante de nomes isolados. Estamos diante de relações. Bruno Giorgi
havia conhecido ainda outra experiência que não deveria desaparecer de sua obra
quando contamos sua história. Sua trajetória europeia foi marcada pela
militância antifascista e pela prisão na Itália de Mussolini. Fontes
biográficas registram anos de encarceramento e sua posterior saída da Itália
antes da consolidação definitiva de sua trajetória artística brasileira.
Depois
viria Mário. Volpi. Portinari. Niemeyer. A arte brasileira. E hoje uma obra sua
permanece diante do Salão de Atos do Memorial. Há algo quase vertiginoso nisso.
Estamos na Avenida Mário de Andrade. Dentro de um conjunto concebido por Oscar
Niemeyer. Diante de uma escultura de Bruno Giorgi. Entramos no edifício e
encontramos Candido Portinari. Dentro do Portinari encontramos Tiradentes. E
dentro da imagem de Tiradentes encontramos Luiz Carlos Prestes.
O que
estamos preservando? A resposta aparentemente óbvia seria: arquitetura,
pintura, escultura. É verdade. Mas é insuficiente. Estamos preservando também
encontros. Amizades. Conflitos. Convicções. Resistências. Visões de país.
Experiências políticas. Redes intelectuais. Afetos.
Estamos
preservando uma época em que artistas, escritores, arquitetos e homens públicos
conversavam intensamente sobre que Brasil deveria existir. Não pensavam todos
da mesma maneira. Não fizeram as mesmas escolhas. Não devem ser reduzidos a uma
identidade política homogênea. Mas compartilhavam algo que talvez hoje nos faça
falta: a convicção de que arte, cultura, política, educação e vida social não
pertenciam a mundos inteiramente separados.
Havia
uma ideia de país em disputa. E havia uma extraordinária confiança na
possibilidade de construí-lo. É nesse ponto que a antropologia se torna
indispensável. Uma coisa cultural nunca existe sozinha. Ela pertence a sistemas
de relações. Foi produzida por alguém, num determinado tempo, dentro de
determinadas circunstâncias, atravessada por técnicas, crenças, disputas,
amizades, medos, esperanças e projetos de sociedade.
Quando
retiramos todas essas relações e preservamos apenas a matéria, podemos ter
conservado magnificamente o objeto. Mas empobrecemos o patrimônio. Como
pós-doutor em Antropologia Social e alguém que dedicou grande parte da vida
profissional à museologia e à preservação, sinto cada vez mais profundamente
essa responsabilidade. Preservar não é apenas impedir que alguma coisa
desapareça. É impedir que permaneça diante de nós depois que já esquecemos o
que significa.
Talvez
possamos chamar aquilo que existe nessa dimensão de patrimônio relacional. Não
proponho uma nova categoria jurídica de proteção. Proponho uma maneira de
olhar. Portinari é patrimônio. Prestes é memória histórica. Mas existe também
Portinari e Prestes.
Bruno
Giorgi é patrimônio. Mário de Andrade é patrimônio. Mas existe também Bruno e
Mário. Giorgi e Volpi. Prestes e Niemeyer. Niemeyer e Darcy. Darcy e a América
Latina. A obra e o lugar. O artista e seu tempo. A coisa e as relações que
permitiram que ela adquirisse significado. Preservar uma constelação exige mais
do que conservar suas estrelas. É preciso preservar também as linhas invisíveis
que nos permitem reconhecê-la.
Talvez
seja justamente aí que esteja uma das almas do Memorial da América Latina.
Darcy Ribeiro jamais pensou a América Latina como uma coleção de países
colocados lado a lado. Seu pensamento procurava relações. Processos históricos
compartilhados. Matrizes culturais. Violências. Mestiçagens. Contradições.
Potencialidades. Uma força civilizatória capaz de reconhecer-se não pela
uniformidade, mas pela experiência histórica de povos que precisavam aprender a
enxergar a si mesmos.
O
Memorial nasceu dessa ambição. Por isso, talvez não exista maneira mais
darcyniana de compreendê-lo do que recusar-se a enxergá-lo como uma coleção de
coisas isoladas. Aqui, arquitetura conversa com pintura. Pintura conversa com
política. Escultura conversa com amizade. Brasil conversa com América Latina.
Passado conversa com presente. E os vivos continuam conversando com os mortos.
É
também por isso que museus e instituições culturais não podem limitar sua
responsabilidade à guarda. Precisam produzir mediação. Pesquisa. Documentação.
Educação. Contexto. Perguntas. A conservação protege a permanência material. A
museologia organiza possibilidades de compreensão. A antropologia nos ajuda a
recuperar as relações que fizeram aquela matéria tornar-se cultura.
Nenhuma
delas substitui a outra. Juntas, permitem que uma obra continue significando.
Penso novamente nos estudantes. Uma criança entra no Salão de Atos. Olha
Portinari. Alguém lhe diz: “Tiradentes”. Ela aprendeu alguma coisa. Mas podemos
ir além. “Está vendo aquele homem?”. Sim. “O rosto dele lembra outra pessoa da
história brasileira”. Quem? “Luiz Carlos Prestes”.
E por
quê? Então começa a educação patrimonial. Quem foi Prestes? Por que Portinari o
utilizou? Que relação existia entre eles? Por que Tiradentes recebeu aquele
rosto? Quem projetou este edifício? Quem é o escultor que está lá fora? Por que
estamos na Avenida Mário de Andrade? Quem foi Darcy Ribeiro? Por que existe um
Memorial da América Latina em São Paulo? Uma pergunta produz outra.
De
repente, a criança já não está visitando uma coleção de objetos. Está entrando
numa história. É por isso que considero tão interessante a possibilidade de
denominar a atual Praça Cívica como Praça Luiz Carlos Prestes. Não se trata
simplesmente de acrescentar o nome de um personagem histórico a um espaço
público. Nem de exigir concordância com todas as posições que Prestes sustentou
ao longo de sua longa e complexa trajetória política.
Patrimônio
não existe apenas para preservar os passados com os quais concordamos. Existe
também para impedir que simplifiquemos os passados que precisamos compreender.
A denominação pode cumprir uma função muito mais interessante. Pode produzir
uma pergunta. “Por que esta praça se chama Luiz Carlos Prestes?”
A
resposta está a poucos metros. Porque, antes de seu nome chegar à praça, seu
rosto já havia chegado à parede. Então entramos no Salão de Atos. Encontramos
Portinari. Encontramos Tiradentes. Encontramos Prestes. Encontramos uma
amizade. Encontramos Niemeyer.
Saímos.
Encontramos Bruno Giorgi. Encontramos Mário. Encontramos Volpi. Encontramos
Darcy. E talvez acabemos encontrando um pouco mais do Brasil.
A praça
passa a funcionar como aquilo que poderíamos chamar de dispositivo de mediação
patrimonial. Seu nome não encerra uma interpretação. Provoca uma pergunta. E
instituições culturais deveriam desejar perguntas. Porque memória que não
produz pergunta corre o risco de transformar-se em decoração. Essa talvez seja
uma das diferenças entre monumento e patrimônio.
O
monumento pode permanecer silencioso. O patrimônio precisa continuar sendo
capaz de falar. E, para isso, alguém precisa conservar sua linguagem.
Talvez
minha inquietação venha também da experiência de ter conhecido algumas dessas
pessoas. Quando olho uma fotografia de Bruno Giorgi com meu pai, lembro-me de
que nenhum dos dois imaginava que décadas depois alguém poderia olhar aquela
imagem procurando compreender uma época.
Quando
vejo meu pai ao lado de Niemeyer, acontece o mesmo. O cotidiano não sabe
antecipadamente que será memória. Talvez seja por isso que preservar seja uma
atividade tão profundamente humana. Nunca sabemos exatamente aquilo de que o
futuro precisará para compreender o passado. Guardamos. Documentamos.
Escutamos. Perguntamos. Transmitimos. E esperamos que alguma coisa consiga
atravessar.
Hoje,
quando caminho pelo Memorial, não vejo apenas concreto, mármore, tinta e água.
Vejo relações. Vejo conversas que continuam existindo dentro das coisas. Vejo
amizades que se transformaram em arte. Vejo ideias políticas transformadas em
imagens. Vejo artistas que discordaram, sofreram, criaram, envelheceram e
morreram. Vejo Darcy insistindo que a América Latina precisava reconhecer-se. E
vejo milhares de jovens atravessando esses mesmos espaços sem saber ainda
quantas histórias estão caminhando ao lado deles.
Talvez
seja essa uma das maiores responsabilidades de uma instituição como o Memorial.
Não dizer ao visitante o que deve pensar. Mas permitir que ele saiba diante de
quê está pensando. Não oferecer uma versão domesticada da história. Mas
devolver-lhe sua complexidade. Não transformar artistas em santos, políticos em
estátuas ou amigos em personagens sem contradições. Mas impedir que desapareçam
as relações que nos permitem compreendê-los como seres humanos de seu tempo.
Todos
os anos, milhares de pessoas entram e saem daqui. Talvez muitas saibam que
viram um Portinari. Talvez algumas saibam que viram Tiradentes. Quantas sabem
que olharam também para Luiz Carlos Prestes? Quantas sabem que, ao sair,
passaram diante de Bruno Giorgi? Quantas sabem que Giorgi levou Mário de
Andrade ao ateliê de Volpi? Quantas percebem que caminham pela Avenida Mário de
Andrade? Quantas conseguem enxergar que aqueles poucos metros guardam uma
extraordinária concentração da história artística, intelectual e política
brasileira?
É
precisamente aí que começa nossa responsabilidade. Preservar não é apenas
conservar aquilo que as próximas gerações poderão ver. É permitir que
compreendam aquilo que estão vendo. Antes do nome, Prestes já possuía um rosto
naquele lugar. Antes da placa, havia amizade. Antes do monumento, havia
pessoas. Antes do patrimônio, houve vida.
Talvez
denominar aquele espaço Praça Luiz Carlos Prestes não signifique acrescentar
uma memória ao Memorial da América Latina. Talvez signifique simplesmente
tornar visível uma memória que já estava ali. Porque há patrimônios que
desaparecem sem que nenhuma pedra seja retirada, nenhuma tela seja rasgada e
nenhuma escultura seja destruída. Permanecem diante de nossos olhos. Mas suas
histórias se calam.
E
talvez a tarefa mais profunda da antropologia, da museologia e de toda
instituição verdadeiramente comprometida com a memória seja justamente esta:
impedir que as pessoas desapareçam de dentro das coisas que preservamos. Porque
matéria sem memória é permanência. Patrimônio é permanência com significado.
Fonte:
Por Pedro Machado Mastrobuono, em A Terra é Redonda

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