Cientista
é profissão no Brasil?
A ideia
deste texto nasceu dos diálogos e depoimentos de colegas de várias regiões do
Brasil após a publicação de “Doutorado para quê?” no site A Terra é Redonda.
Chegaram relatos de doutores(as) sem emprego, pós-doutorandos(as) sem bolsa,
pesquisadores(as) desempregados(as) sustentados(as) pela família e
professores(as) que produzem ciência sem encontrar essa palavra em sua vida
profissional. Muitos(as) se reconheceram na pergunta sobre o destino social do
doutorado, mas devolveram outra, ainda mais incômoda: depois de tantos anos
pesquisando, quem somos para o Estado brasileiro?
Nas
conversas, a pergunta sobre o sentido do doutorado encontrou a cotidianização
do trabalho científico sem direitos. Se “Doutorado para quê?” discutia o
destino social do título, os depoimentos conduziram a uma questão anterior ao
cargo e posterior à formação: doutorado para ser o quê? professor(a) sem
concurso? pós-doutorando(a) sem bolsa? pesquisador(a) sem vínculo? cientista
sem profissão? O diploma confirma a formação, o relatório comprova o trabalho e
o artigo registra a pesquisa. Mas qual documento reconhece o(a) cientista?
A
pergunta agora tem endereço. Ei, você, que percorreu anos de formação e
trabalho científico: fez iniciação científica? Participou do Programa
Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC)? Fez mestrado?
Doutorado? Pós-doutorado? Doutorado-sanduíche? É professor(a) universitário(a)?
Depois de tudo isso, responda sem consultar o Currículo Lattes: você é
cientista ou se considera cientista?
Talvez
você passe uma vida na ciência e, ainda assim, não seja reconhecido(a) como
cientista. Pode receber bolsa do CNPq, da CAPES ou de uma agência estadual. A
bolsa, por si, não gera tempo de contribuição, não recolhe contribuição
previdenciária nem registra você como professor(a)-cientista ou cientista.
Talvez trabalhe em sala de aula, colete dados, faça entrevistas ou passe horas
num laboratório. Na carteira de trabalho, porém, você não está contratado(a)
como cientista.
No
mestrado, você trabalha muito e não é cientista, mas é cientista. No doutorado,
trabalha mais. Você leciona, lê, pesquisa no campo, entra no laboratório,
escreve relatórios, submete artigos e responde pareceres. Cientista como? No
coração? Na descrição de uma rede social? No rótulo colado à casca? Nem o
pós-doutorado encerra a dúvida. Com bolsa, você é bolsista. Sem bolsa, pode ser
voluntário(a). Já dói olhar isso. Você existe, a pesquisa existe e o trabalho
existe, mas o nome profissional desaparece quando começam os direitos.
Uma
bolsista conhece essa pergunta. Sem nome próprio, porque poderia ser muita
gente, ela reúne experiências da pós-graduação brasileira. Filha de auxiliar de
enfermagem e operador de máquina, foi a primeira da família numa universidade
pública. Os pais tinham função registrada, salário, férias e contribuição ao
Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Não há desmerecimento nem escala de
dignidade: padeiros(as), eletricistas, motoristas, vendedores(as), técnicos(as)
de laboratório e auxiliares administrativos(as) entre outros(as) sustentam a
vida social. A diferença é sociológica. Sob vínculo formal, o trabalho recebe
nome, salário, contribuição e direitos. A jovem pesquisadora recebeu outra
palavra: bolsista.
Na
iniciação científica, ela levantou bibliografia, transcreveu entrevistas,
organizou planilhas e apresentou resultados. A família dizia que havia uma
cientista em casa. A universidade dizia que havia uma estudante em formação. As
duas frases continham verdade, a contradição nasceu do modo como a divisão
social do trabalho acolhe o produto da pesquisa e mantém incerta a condição de
quem o produz.
No
mestrado, a bolsista pesquisou educação pública. A bolsa pagava suas despesas
básicas, desde que nada saísse do cálculo. Um remédio, uma passagem inesperada
ou um computador quebrado reorganizava o mês. No doutorado, realizou estágio de
docência, participou de bancas, publicou, corrigiu textos de estudantes e
cumpriu prazos institucionais. Ganhou autonomia intelectual, mas não ganhou
vínculo profissional. No doutorado-sanduíche, viu pesquisadores(as) jovens com
contratos, contribuição social e carreira. Voltou porque desejava fazer ciência
no Brasil, perto da família, da escola pública que originou suas perguntas e da
sociedade que financiou sua formação.
Em
junho de 2026, o CNPq informou manter uma folha mensal superior a 102 mil
bolsistas, distribuídos entre diferentes modalidades de formação, pesquisa e
desenvolvimento científico, com pagamentos próximos de R$ 170 milhões por mês.
O número inclui desde bolsas de iniciação científica até mestrado, doutorado,
pós-doutorado, produtividade e outras modalidades. Ainda assim, a dimensão da
folha revela uma questão incômoda: o Estado identifica cada beneficiário,
acompanha projetos, relatórios, resultados e prazos, mas grande parte desse
trabalho científico permanece juridicamente enquadrada como formação ou
fomento.
Para
mestrandos, doutorandos e pós-doutorandos sustentados por bolsas, essa condição
não assegura décimo terceiro, férias remuneradas, Fundo de Garantia do Tempo de
Serviço (FGTS) ou contribuição patronal ao INSS.
Chamo
aqui o Estado brasileiro, em sentido provocativo, de grande empregador informal
de cientistas no país. Não uso a expressão como categoria jurídica, mas como
leitura sociológica de uma relação material: a bolsa é juridicamente fomento,
não contrato de emprego, embora sustente atividades submetidas a metas, prazos,
avaliações, prestação de contas e cobrança de resultados. A forma jurídica da
bolsa não elimina o trabalho realizado; separa o trabalho do estatuto
profissional de quem o realiza.
Se
pagamento habitual, atividade pessoal, subordinação e cobrança contínua
aparecessem reunidos numa empresa privada, essa relação poderia ser examinada
pela Justiça do Trabalho. Na ciência pública, a pesquisa é exigida, avaliada e
socialmente apropriada, mas quem a produz por meio de bolsa permanece fora dos
direitos trabalhistas e previdenciários vinculados ao emprego.
Karl
Marx, que também viveu o jornalismo, procurava o interesse material escondido
sob palavras respeitáveis. Caso entrasse hoje numa redação brasileira, poderia
estampar a manchete: Cientista brasileiro(a) trabalha muito, ganha pouco e não
existe, mesmo existindo. A frase parece absurda porque a realidade já escreveu
o absurdo antes do jornal. O valor de uso da pesquisa é celebrado; a força de
trabalho que a produz recebe o nome provisório de formação.
Daí
nasce a licença poética do cientista fictício. Fictícia não é a pessoa;
fictício é o vazio profissional colocado entre o trabalho executado e o direito
reconhecido. A bolsista é cientista no laboratório, no artigo, no congresso e
na prestação de contas. Diante da Previdência, a bolsa não produz tempo
contributivo automático. Cientista para as obrigações, aprendiz para os
direitos.
No
plano jurídico, “cientista” não figura entre as profissões regulamentadas pelo
Ministério do Trabalho e Emprego, embora a Classificação Brasileira de
Ocupações reconheça diferentes ocupações de pesquisador(a). A Lei nº 8.691, de
1993, criou a carreira federal de Pesquisa em Ciência e Tecnologia e o cargo de
pesquisador(a) em determinados órgãos, estrutura atualizada pela Lei nº 15.141,
de 2025. Biólogos(as), químicos(as), físicos(as), engenheiros(as), médicos(as),
sociólogos(as) e outros(as) podem receber reconhecimento profissional por suas
áreas de formação ou por carreiras específicas, embora desenvolvam trabalho
científico.
A
questão permanece: cientista é profissão na divisão social do trabalho, mas não
existe como profissão geral regulamentada nacionalmente, aparecendo
juridicamente por meio de cargos, carreiras e categorias profissionais
particulares.
Nas
universidades, o caminho profissional mais comum passa pelo concurso para
professor(a) do magistério superior. A bolsista precisa vestir a identidade
docente para obter salário e pesquisar com continuidade. A pesquisa vira uma
atribuição entre aulas, correções, orientações, reuniões e tarefas
administrativas. Cobra-se circulação internacional da produção de um(a)
professor(a) cujo dia foi dividido até o último minuto.
Nem o
jaleco resolve. Na fotografia promocional, a pessoa diante do microscópio é “o
cientista”. Na folha de pagamento, pode ser estudante, bolsista, técnico(a),
biólogo(a), químico(a), tecnologista ou professor(a). O jaleco produz
reconhecimento visual; o contracheque conta outra história. Como diz o meme de
2026: você é cientista ou sabor cientista? A brincadeira provoca riso porque
alcança uma ferida real. Somos cientistas. A pergunta é por que o nome
desaparece quando o direito começa.
Desde
2023, a CAPES permite, sob condições, acumular bolsas de mestrado, doutorado ou
pós-doutorado com atividade remunerada. Em 2025, o CNPq adotou abertura
semelhante. A exigência geral de dedicação exclusiva perdeu espaço, embora
programas e editais mantenham regras próprias. Procurar renda fora da bolsa
reconhece o aperto financeiro, mas não converte fomento em contrato.
Há
experiências que apontam outra direção. Desde 2024, a Fapesp ressarce a
contribuição previdenciária de bolsistas de pós-doutorado e de algumas
modalidades para jovens pesquisadores(as), desde que o recolhimento facultativo
seja comprovado. O exemplo demonstra que proteção previdenciária pode
acompanhar a bolsa. Se uma agência consegue fazer, a ausência nas demais
precisa ser discutida como escolha política, não como lei da natureza.
Depois
da defesa, a bolsista iniciou um pós-doutorado sem bolsa. Precisava manter
vínculo com o grupo, publicar e disputar concursos. Em 2026, editais oficiais
deram corpo ao mesmo problema. A Universidade Estadual do Oeste do Paraná
(Unioeste) publicou várias seleções semelhantes. Na Universidade Federal de
Sergipe, duas vagas de professor(a) voluntário(a) exigiam mestrado, plano de
ensino e análise do Lattes para trabalho presencial sem remuneração e sem
vínculo trabalhista. Eis uma proeza nacional: até o trabalho gratuito possui
concurso.
O
voluntariado acadêmico pode nascer de escolha consciente, a exploração começa
quando o desemprego transforma a escolha em pedágio profissional. A instituição
recebe aula, pesquisa, publicação e prestígio. O(a) voluntário(a) recebe
certificado e esperança. Num concurso futuro, o edital pode aceitar o
documento, reduzir sua pontuação ou ignorá-lo. A bolsista trabalha agora para
disputar a possibilidade de provar depois que trabalhou.
Na
propriedade intelectual, a Lei nº 10.973, de 2004, assegura ao(à) criador(a)
participação mínima de 5% e máxima de um terço dos ganhos econômicos obtidos
pela instituição com licenciamento ou transferência de tecnologia. Nem todo
retorno financeiro, portanto, fica obrigatoriamente com a universidade. Mas há
uma aritmética cruel nessa proteção: qualquer percentual de zero continua sendo
zero. O projeto termina, a bolsa acaba, a patente permanece e o(a)
pesquisador(a) volta à fila.
Nessa
cotidianização do trabalho científico sem direitos, o(a) cientista bolsista
integra o precariado, e a vocação converte-se em justificativa moral para sua
exploração. “Se ganha pouco ou nada, não reclame; faça por amor”, dizem. A
frase converte a desigualdade em teste de caráter e confirma o que Gramsci
identificava no senso comum: interesses dos grupos dominantes apresentados como
virtudes universais. A obediência ganha aparência de mérito, e o silêncio do(a)
cientista pobre vira prova de vocação.
A
bolsista vive cercada por editais, plataformas, mensagens, prazos e pareceres.
A internet ainda cobra que ela divulgue ciência, grave vídeos, forme novos(as)
cientistas e dispute atenção com desinformação. O corpo pede sono; a rede pede
conteúdo. Em terra de estafa acadêmica, viralizar ciência vira mais uma tarefa
não remunerada.
Quando
a formação termina e o trabalho não vem, surge outra pergunta incômoda: o
Brasil está perdendo seus cérebros? Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada (Ipea), divulgado em 2026, identificou 3.145 doutores(as)
titulados(as) no Brasil entre 2013 e 2024 que declaravam residência no exterior
em 2025. Esse grupo correspondia a 1,2% das 254,9 mil pessoas examinadas. Quase
um terço era composto por estrangeiros(as), em grande parte retornando aos
países de origem.
Os
números não sustentam a imagem de uma debandada geral e revelam algo ainda mais
cruel, a maioria permanece no Brasil, muitas vezes sem ocupar um posto
compatível com sua formação. O problema envolve quem parte e as condições
impostas a quem fica.
A
bolsista também quer ficar. Sua candidatura a uma vaga no exterior nasce menos
do desejo de abandonar o país do que da necessidade de trabalhar. O drama
brasileiro inclui a saída, mas inclui também o desperdício interno:
doutores(as) dirigindo por aplicativo, vendendo produtos, pulando de bolsa em
bolsa ou abandonando a pesquisa. O cérebro pode permanecer dentro da fronteira
e ser perdido socialmente.
Há
décadas, a Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG) luta para que
pós-graduandos(as) existam fora do mapa das bolsas. Em 2024, articulou a
apresentação do Projeto de Lei nº 974, uma tentativa de incluir bolsistas no
Regime Geral de Previdência Social. Não existe bancada da ciência no Congresso;
há uma frente registrada, sem votos suficientes para impor orçamento e
direitos.
As
bancadas do agronegócio, da mineração, da saúde privada, das armas e dos
grandes grupos econômicos têm dinheiro, assessorias e votos para obter
subsídios, emendas, renúncias fiscais e leis sob medida. Para a ciência, sobram
homenagens, medalhas, discursos sobre futuro e a fila da recomposição
orçamentária.
A China
oferece um contraste incômodo para países que celebram a ciência em discursos e
a financiam por migalhas. Em 2025, registrou 3,9262 trilhões de yuans em
despesas com pesquisa e desenvolvimento, equivalentes a 2,80% do PIB. Só a
pesquisa básica recebeu 277,8 bilhões de yuans. O financiamento também alcançou
23 disciplinas e dois campos das ciências sociais, incluindo história,
filosofia, educação, linguagem, direito e sociologia.
Pode-se
criticar muito no regime chinês, mas é difícil negar que ali a ciência é
política de Estado. No Brasil, pesquisadores disputam bolsas, editais e
condições mínimas para permanecer na ciência. A comparação incomoda porque
revela prioridades: dinheiro público também escreve a política científica de um
país.
Na
contramão desse compromisso com a ciência, candidatos(as) da direita brasileira
por vezes entram numa pequena área de convivência estudantil, ligam a câmera,
filmam uma cena ruidosa e anunciam: “isto é a universidade”. O enquadramento
exclui bibliotecas, hospitais, laboratórios, salas, arquivos, clínicas, escolas
atendidas e projetos comunitários. Uma fração vira totalidade por edição
ideológica.
Na
compressão do espaço-tempo examinada por David Harvey, o fragmento filmado
circula em segundos, mas a explicação do trabalho universitário exige tempo. A
imagem deformada alimenta desprezo pelo financiamento público e hostilidade
contra professores(as), estudantes e pesquisadores(as).
Ao
final de mais um dia sem remuneração no pós-doutorado, a bolsista visitou uma
escola pública para conversar sobre ciência. Uma criança perguntou sua
profissão. Por um segundo, ela pensou no edital, na bolsa encerrada, no
certificado e na carteira sem o nome esperado. Depois respondeu: “sou
cientista”. A criança disse que também queria ser.
É nessa
frase que a esperança encontra matéria. Utopia não é fuga da história, é a
negação consciente de uma condição que homens e mulheres produziram e podem
transformar. Reconhecer cientistas como trabalhadores(as) não reduz a beleza da
descoberta; impede que a beleza seja usada para baratear quem descobre.
Quero
ouvir crianças dizendo “quero ser professor(a)” e “quero ser cientista”. Quero
ver um(a) jovem abrir a carteira digital e encontrar, em letras maiúsculas,
CIENTISTA. Quero que essa pesquisadora possa envelhecer com a certeza de que
seus anos de trabalho científico foram reconhecidos pela universidade, pelas
agências, pelos periódicos e pelo país, contando também para sua aposentadoria.
A
expressão “cientista fictício(a)” é minha licença poética para nomear uma
presença material escondida pela forma jurídica. Ele(a) existe, trabalha,
adoece, produz e deseja continuar no Brasil. Fictícia é a normalidade que cobra
ciência sem reconhecer integralmente o(a) cientista. Um país que deseja futuro
não pode manter pesquisadores(as) presos(as) à condição de promessa. A ciência
é trabalho social: quem a produz precisa de nome, direitos, tempo e vida.
Fonte:
Por Everton Fargoni, em A Terra é Redonda

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