Cinco
semanas dramáticas
O
perigo que nos ameaça deve ser levado a sério. Não se trata de alarmismo, mas
de lucidez. Ignorar o que aconteceu no Chile, Peru e Colômbia há poucos meses
seria fatal. Diminuir que, diferente de 2022, é Donald Trump que está na Casa
Branca seria infantil. Análise contaminada pelo desejo não é saudável otimismo,
é autoengano ingênuo.
As
pesquisas revelam, até o início do horário gratuito em rádios e televisões, que
o desfecho da eleição presidencial permanece imprevisível. Ou seja,
estabilidade na indefinição quer dizer que a extrema direita pode voltar ao
poder, ainda mais quando consideramos que há, em escala internacional, um
“silêncio” dissimulado ou voto “oculto” de uma parte de sua base eleitoral.
Os
dados sugerem, dramaticamente, uma dinâmica muito parecida com 2022,
confirmando que a nação ainda está fraturada, social e ideologicamente, e os
neofascistas mantém liderança intacta sobre a massa da burguesia, uma maioria
da classe média mais acomodada, e influência entre os trabalhadores
“remediados”. Mas, ao contrário de quatro anos atrás, não há o mesmo nível de
engajamento na esquerda.
Recordemos
que a motivação da militância foi decisiva no “arrastão”, nas ruas e nas redes,
que garantiu a vitória “por um triz” contra Jair Bolsonaro. Nas próximas cinco
semanas o desafio é convencer todo o ativismo de todas as causas justas, dos
mais moderados aos mais radicais, que será vital vencer as eleições. Trata-se
de realismo revolucionário: ganhar tempo diante de uma situação internacional
tão adversa que até Cuba está, seriamente, ameaçada.
Lula
mantém uma vantagem fora da margem de erro no primeiro turno, uma maioria entre
as mulheres e os mais pobres, nos 60+ e no Nordeste, e menos rejeição. Já a
oscilação da desaprovação foi ruim, ainda que sem que se possa concluir que
indique uma tendência. A linha da campanha em defesa de Lula será, portanto,
essencial. A defesa do legado de Lula será indispensável.
A “mão
não pode tremer”, também, na denúncia implacável da ameaça autoritária do
bolsonarismo aliado a Donald Trump, mas serão insuficientes para garantir a
vitória. Neste marco, a possível aprovação do fim da jornada 6×1 no Senado será
decisiva para vencer as eleições. Outras votações, como o Marco Legal dos
Minerais Críticos, o fim da “Taxa das Blusinhas”, e até a PEC da segurança
serão, eleitoralmente, positivas.
Só que
eleições não são só um duelo de compromissos, projetos e argumentos. Campanha
eleitoral é um espaço de luta de classes em que a confiança, a decisão e o
empolgamento, quando outros fatores estão equilibrados, fazem a diferença. É
possível vencer. Mas que ninguém duvide, vai ser uma batalha terrível. Vai ser
sofrido, com muita emoção.
O
debate na Band foi um “show de horrores”, e Lula fez muito bem em não
comparecer. Foi uma decisão inteligente na tática e justa, politicamente.
Debates, quando têm visibilidade, são uma conquista democrática valiosa, e a
esquerda tem interesse em expor suas ideias. Mas o cálculo de que a imposição
de Romeu Zema e Renan Santos, que não têm direito legal de presença, era uma
armadilha foi um acerto.
A
semana de entrevistas na TV Globo permitiu retirar três conclusões: (i) a
campanha será um ultimato ininterrupto de ajuste fiscal de todos os candidatos
reacionários contra Lula, com apoio da fração liberal da classe dominante que
mantém domínio sobre a mídia comercial;
(ii) a campanha para tentar desgastar Lula com acusações de complacência, ou
até cumplicidade com acusações de corrupção será um dos eixos do bolsonarismo,
ecoando o discurso de criminalização “a la LavaJato”, e a mídia vai, também,
“tocar tambor”; (iii) a dramatização da segurança pública pela exploração do
medo como espetáculo de apelo eleitoral, envenenando a consciência popular com
discursos punitivistas, vai ser monstruosa.
As
entrevistas permitiram concluir, também, que a disputa já está antecipada para
o primeiro turno entre Lula e Flávio Bolsonaro. No campo da oposição de direita
ao governo Lula nem Ronaldo Caiado, nem Renan Santos nem Romeu Zema, nenhum dos
três irá além do papel lateral de fazer barulho e gerar confusão, favorecendo o
bolsonarismo.
Ronaldo
Caiado é, ridiculamente, empolado, grandiloquente e pomposo. Não tem nada a
dizer senão que vai fazer do Brasil um grande Goiás do agronegócio. Romeu Zema
é um escárnio, insignificantemente, cômico e cafona. Não tem nada a dizer senão
que vai privatizar tudo, e construir uma prisão na Amazônia inspirada no modelo
de El Salvador de Bukele, uma Alcatraz na floresta.
No
campo da oposição de esquerda, delimitando com Lula na defesa, não poucas vezes
justa de transformações estruturais anticapitalistas, nem Samara Martins (UP),
nem Hertz Dias (PSTU), nem Edmílson Costa (PCB), e muito menos Rui Pimenta
(PCO), nenhuma das quatro candidaturas irá além de um papel testemunhal, com
audiência reduzida a segmentos restritos de vanguarda.
Isto
posto, há um ruído novo na campanha. Anunciando métodos de guerra civil contra
o narcotráfico, declarando que vai “subir o morro para fazer um banho de
sangue”, insultando Lula, mas também os eleitores da esquerda como canalhas, e
prometendo a bomba atômica, entre outras bestialidades, Renan Santos estreou o
“momento Marçal” nas eleições.
Qual é
a missão do Missão? Parecem ser cinco os objetivos: (a) “satanizar” Lula,
dizendo o que Flávio Bolsonaro gostaria, mas não pode, embora corresponda ao
que pensa, sendo funcional como sublegenda; (b) afirmação do partido através do
escândalo, tentando seduzir a parcela mais jovem e radical da influência da
extrema direita, para eleger deputados, cruzar a cláusula de barreira, e estar
melhor posicionado no futuro.
(c)
Acumular forças para disputar o espaço da extrema-direita com o clã
bolsonarista, seja Flávio ou até Michelle a herdeira; (d) defender um programa
ultraliberal a la Milei e punitivista a la Bukele; (e) por último, mas não
menos importante, a construção de si mesmo contra Nikolas Ferreira, em chave
meio messiânica e traços sociopatas. Infelizmente, são um perigo que veio para
ficar. Têm que ser enfrentados, contidos e derrotados.
Conheça o currículo de Flávio Bolsonaro e
entenda por que ele não tem condições de ser presidente da República
A
trajetória política e profissional do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ),
candidato à Presidência da República em 2026, passou a ser alvo de uma ofensiva
eleitoral destinada a reunir episódios controversos de sua vida pública. O
material está concentrado no site “O pior dos Bolsonaros”, criado pela
Coligação Brasil Pronto pra Mais, adversária do senador na disputa
presidencial.
A
plataforma, disponível em “opiordosbolsonaros.com.br”, reúne documentos,
informações públicas, denúncias, investigações e episódios ocorridos desde o
início da carreira política do filho mais velho de Jair Bolsonaro. O objetivo
declarado da iniciativa é apresentar aos eleitores um histórico do candidato e
questionar suas credenciais para ocupar a Presidência da República.
O
conteúdo deve ser lido levando-se em conta sua origem: trata-se de material
produzido no contexto de uma campanha eleitoral e, portanto, representa a
argumentação política dos adversários de Flávio Bolsonaro. Ainda assim, vários
dos episódios mencionados remetem a fatos, investigações e controvérsias
públicas que marcaram a trajetória do senador.
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Uma carreira construída na política
Flávio
Bolsonaro iniciou sua trajetória profissional ligado diretamente à atividade
política. Entre 2000 e 2002, enquanto cursava Direito, trabalhou na Câmara dos
Deputados.
Esse
período foi posteriormente objeto de questionamentos sobre a compatibilidade
entre os horários de trabalho em Brasília e sua formação universitária no Rio
de Janeiro.
Pouco
depois, Flávio iniciou uma longa carreira parlamentar. Foi eleito deputado
estadual pelo Rio de Janeiro em 2002, aos 21 anos, e permaneceu na Assembleia
Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) durante quatro mandatos
consecutivos.
Em
2018, impulsionado pela eleição de Jair Bolsonaro à Presidência, elegeu-se
senador pelo Rio de Janeiro.
Sua
experiência política, portanto, é extensa. A questão levantada por seus
adversários não é a ausência de mandatos eletivos, mas a natureza dessa
trajetória e as controvérsias que a acompanharam.
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A homenagem a Adriano da Nóbrega
Entre
os episódios recuperados está a relação política de Flávio Bolsonaro com o
ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega.
Quando
era deputado estadual, Flávio concedeu a Adriano a Medalha Tiradentes,
principal honraria da Alerj. O ex-policial viria posteriormente a ser apontado
pelas autoridades como integrante de uma organização criminosa ligada à milícia
no Rio de Janeiro.
Adriano
morreu em 2020, na Bahia, durante uma operação policial.
A
homenagem tornou-se um dos episódios mais explorados pelos críticos do senador
por causa das acusações que posteriormente recaíram sobre o ex-capitão.
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O caso das “rachadinhas”
Outro
capítulo central da trajetória de Flávio Bolsonaro foi a investigação sobre um
suposto esquema de “rachadinha” em seu antigo gabinete na Alerj.
As
apurações ganharam projeção nacional a partir das movimentações financeiras
atribuídas a Fabrício Queiroz, ex-assessor parlamentar de Flávio e antigo amigo
da família Bolsonaro.
O
Ministério Público do Rio de Janeiro chegou a denunciar Flávio Bolsonaro sob a
acusação de participação em um esquema de recolhimento de parte dos salários de
funcionários de seu gabinete.
O
senador sempre negou participação em irregularidades e sustentou que foi vítima
de perseguição política. Ao longo do processo, decisões judiciais anularam
provas e atingiram a sustentação jurídica das acusações. Por isso, é importante
distinguir a existência das investigações e denúncias de uma condenação
criminal definitiva, que não ocorreu nesse caso.
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Patrimônio e negócios imobiliários
A
evolução patrimonial de Flávio Bolsonaro e suas operações imobiliárias também
aparecem entre os assuntos reunidos pela plataforma eleitoral.
Ao
longo dos anos, compras, vendas e negociações de imóveis realizadas pelo
senador foram escrutinadas pela imprensa e por investigadores, especialmente
durante as apurações relacionadas ao período em que ele exercia mandato na
Alerj.
Seus
adversários utilizam esses episódios para questionar a origem e a evolução de
seu patrimônio. Flávio, por sua vez, sempre contestou suspeitas de
irregularidades em seus negócios.
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Relação com Daniel Vorcaro
A
plataforma também procura explorar politicamente as relações de Flávio
Bolsonaro com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, envolvido em
investigações sobre fraudes financeiras.
Entre
os episódios destacados estão contatos e negociações relacionados ao projeto
cinematográfico “Dark Horse”.
A
relação ganhou relevância política diante das investigações envolvendo Vorcaro
e passou a integrar o conjunto de questionamentos apresentados pelos
adversários do senador sobre suas relações empresariais e políticas.
A
existência de relações ou negociações, por si só, não comprova participação de
Flávio Bolsonaro em eventuais crimes atribuídos a terceiros. O episódio, no
entanto, passou a fazer parte da disputa política em torno de sua candidatura
presidencial.
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Experiência parlamentar é suficiente para governar o Brasil?
A
ofensiva eleitoral toca em uma questão que vai além das investigações e
controvérsias: qual é a experiência administrativa de Flávio Bolsonaro para
comandar o País?
Embora
tenha acumulado mais de duas décadas de mandatos parlamentares, primeiro como
deputado estadual e depois como senador, sua trajetória foi construída
essencialmente no Legislativo.
A
Presidência da República exige a administração direta de uma estrutura
gigantesca, coordenação ministerial, formulação de políticas econômicas e
sociais, condução das relações exteriores, interlocução com governadores e
prefeitos e exercício da função constitucional de comandante supremo das Forças
Armadas.
É nesse
ponto que seus adversários pretendem estabelecer o contraste entre tempo de
carreira política e experiência executiva.
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Eleição coloca trajetórias sob escrutínio
A
criação de “O pior dos Bolsonaros” faz parte da estratégia eleitoral da
Coligação Brasil Pronto pra Mais, formada por partidos que apoiam a candidatura
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Por
isso, as informações reunidas pela página precisam ser avaliadas também à luz
de sua finalidade eleitoral.
Isso
não diminui, entretanto, a importância de examinar o histórico de quem pretende
ocupar o cargo mais poderoso da República. Em uma eleição presidencial,
conhecer a experiência profissional, os mandatos exercidos, as decisões
tomadas, as relações políticas e empresariais e as controvérsias envolvendo
cada candidato é parte essencial da formação do voto.
No caso
de Flávio Bolsonaro, seus adversários sustentam que o conjunto de sua
trajetória — marcada por longa permanência no Legislativo, ausência de
experiência relevante à frente do Poder Executivo e sucessivas controvérsias
públicas — demonstra que ele não reúne as condições necessárias para governar o
Brasil.
Caberá
ao eleitor confrontar essa avaliação com a defesa apresentada pelo próprio
candidato e decidir se o currículo construído por Flávio Bolsonaro ao longo de
mais de duas décadas de vida pública o credencia ou não para exercer a
Presidência da República.
Fonte:
Por Valerio Arcary, em A Terra é Redonda/Brasil 247

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