terça-feira, 1 de setembro de 2026

Cinco semanas dramáticas

O perigo que nos ameaça deve ser levado a sério. Não se trata de alarmismo, mas de lucidez. Ignorar o que aconteceu no Chile, Peru e Colômbia há poucos meses seria fatal. Diminuir que, diferente de 2022, é Donald Trump que está na Casa Branca seria infantil. Análise contaminada pelo desejo não é saudável otimismo, é autoengano ingênuo.

As pesquisas revelam, até o início do horário gratuito em rádios e televisões, que o desfecho da eleição presidencial permanece imprevisível. Ou seja, estabilidade na indefinição quer dizer que a extrema direita pode voltar ao poder, ainda mais quando consideramos que há, em escala internacional, um “silêncio” dissimulado ou voto “oculto” de uma parte de sua base eleitoral.

Os dados sugerem, dramaticamente, uma dinâmica muito parecida com 2022, confirmando que a nação ainda está fraturada, social e ideologicamente, e os neofascistas mantém liderança intacta sobre a massa da burguesia, uma maioria da classe média mais acomodada, e influência entre os trabalhadores “remediados”. Mas, ao contrário de quatro anos atrás, não há o mesmo nível de engajamento na esquerda.

Recordemos que a motivação da militância foi decisiva no “arrastão”, nas ruas e nas redes, que garantiu a vitória “por um triz” contra Jair Bolsonaro. Nas próximas cinco semanas o desafio é convencer todo o ativismo de todas as causas justas, dos mais moderados aos mais radicais, que será vital vencer as eleições. Trata-se de realismo revolucionário: ganhar tempo diante de uma situação internacional tão adversa que até Cuba está, seriamente, ameaçada.

Lula mantém uma vantagem fora da margem de erro no primeiro turno, uma maioria entre as mulheres e os mais pobres, nos 60+ e no Nordeste, e menos rejeição. Já a oscilação da desaprovação foi ruim, ainda que sem que se possa concluir que indique uma tendência. A linha da campanha em defesa de Lula será, portanto, essencial. A defesa do legado de Lula será indispensável.

A “mão não pode tremer”, também, na denúncia implacável da ameaça autoritária do bolsonarismo aliado a Donald Trump, mas serão insuficientes para garantir a vitória. Neste marco, a possível aprovação do fim da jornada 6×1 no Senado será decisiva para vencer as eleições. Outras votações, como o Marco Legal dos Minerais Críticos, o fim da “Taxa das Blusinhas”, e até a PEC da segurança serão, eleitoralmente, positivas.

Só que eleições não são só um duelo de compromissos, projetos e argumentos. Campanha eleitoral é um espaço de luta de classes em que a confiança, a decisão e o empolgamento, quando outros fatores estão equilibrados, fazem a diferença. É possível vencer. Mas que ninguém duvide, vai ser uma batalha terrível. Vai ser sofrido, com muita emoção.

O debate na Band foi um “show de horrores”, e Lula fez muito bem em não comparecer. Foi uma decisão inteligente na tática e justa, politicamente. Debates, quando têm visibilidade, são uma conquista democrática valiosa, e a esquerda tem interesse em expor suas ideias. Mas o cálculo de que a imposição de Romeu Zema e Renan Santos, que não têm direito legal de presença, era uma armadilha foi um acerto.

A semana de entrevistas na TV Globo permitiu retirar três conclusões: (i) a campanha será um ultimato ininterrupto de ajuste fiscal de todos os candidatos reacionários contra Lula, com apoio da fração liberal da classe dominante que mantém  domínio sobre a mídia comercial; (ii) a campanha para tentar desgastar Lula com acusações de complacência, ou até cumplicidade com acusações de corrupção será um dos eixos do bolsonarismo, ecoando o discurso de criminalização “a la LavaJato”, e a mídia vai, também, “tocar tambor”; (iii) a dramatização da segurança pública pela exploração do medo como espetáculo de apelo eleitoral, envenenando a consciência popular com discursos punitivistas, vai ser monstruosa.

As entrevistas permitiram concluir, também, que a disputa já está antecipada para o primeiro turno entre Lula e Flávio Bolsonaro. No campo da oposição de direita ao governo Lula nem Ronaldo Caiado, nem Renan Santos nem Romeu Zema, nenhum dos três irá além do papel lateral de fazer barulho e gerar confusão, favorecendo o bolsonarismo.

Ronaldo Caiado é, ridiculamente, empolado, grandiloquente e pomposo. Não tem nada a dizer senão que vai fazer do Brasil um grande Goiás do agronegócio. Romeu Zema é um escárnio, insignificantemente, cômico e cafona. Não tem nada a dizer senão que vai privatizar tudo, e construir uma prisão na Amazônia inspirada no modelo de El Salvador de Bukele, uma Alcatraz na floresta.

No campo da oposição de esquerda, delimitando com Lula na defesa, não poucas vezes justa de transformações estruturais anticapitalistas, nem Samara Martins (UP), nem Hertz Dias (PSTU), nem Edmílson Costa (PCB), e muito menos Rui Pimenta (PCO), nenhuma das quatro candidaturas irá além de um papel testemunhal, com audiência reduzida a segmentos restritos de vanguarda.

Isto posto, há um ruído novo na campanha. Anunciando métodos de guerra civil contra o narcotráfico, declarando que vai “subir o morro para fazer um banho de sangue”, insultando Lula, mas também os eleitores da esquerda como canalhas, e prometendo a bomba atômica, entre outras bestialidades, Renan Santos estreou o “momento Marçal” nas eleições.

Qual é a missão do Missão? Parecem ser cinco os objetivos: (a) “satanizar” Lula, dizendo o que Flávio Bolsonaro gostaria, mas não pode, embora corresponda ao que pensa, sendo funcional como sublegenda; (b) afirmação do partido através do escândalo, tentando seduzir a parcela mais jovem e radical da influência da extrema direita, para eleger deputados, cruzar a cláusula de barreira, e estar melhor posicionado no futuro.

(c) Acumular forças para disputar o espaço da extrema-direita com o clã bolsonarista, seja Flávio ou até Michelle a herdeira; (d) defender um programa ultraliberal a la Milei e punitivista a la Bukele; (e) por último, mas não menos importante, a construção de si mesmo contra Nikolas Ferreira, em chave meio messiânica e traços sociopatas. Infelizmente, são um perigo que veio para ficar. Têm que ser enfrentados, contidos e derrotados.

       Conheça o currículo de Flávio Bolsonaro e entenda por que ele não tem condições de ser presidente da República

A trajetória política e profissional do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República em 2026, passou a ser alvo de uma ofensiva eleitoral destinada a reunir episódios controversos de sua vida pública. O material está concentrado no site “O pior dos Bolsonaros”, criado pela Coligação Brasil Pronto pra Mais, adversária do senador na disputa presidencial.

A plataforma, disponível em “opiordosbolsonaros.com.br”, reúne documentos, informações públicas, denúncias, investigações e episódios ocorridos desde o início da carreira política do filho mais velho de Jair Bolsonaro. O objetivo declarado da iniciativa é apresentar aos eleitores um histórico do candidato e questionar suas credenciais para ocupar a Presidência da República.

O conteúdo deve ser lido levando-se em conta sua origem: trata-se de material produzido no contexto de uma campanha eleitoral e, portanto, representa a argumentação política dos adversários de Flávio Bolsonaro. Ainda assim, vários dos episódios mencionados remetem a fatos, investigações e controvérsias públicas que marcaram a trajetória do senador.

<><> Uma carreira construída na política

Flávio Bolsonaro iniciou sua trajetória profissional ligado diretamente à atividade política. Entre 2000 e 2002, enquanto cursava Direito, trabalhou na Câmara dos Deputados.

Esse período foi posteriormente objeto de questionamentos sobre a compatibilidade entre os horários de trabalho em Brasília e sua formação universitária no Rio de Janeiro.

Pouco depois, Flávio iniciou uma longa carreira parlamentar. Foi eleito deputado estadual pelo Rio de Janeiro em 2002, aos 21 anos, e permaneceu na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) durante quatro mandatos consecutivos.

Em 2018, impulsionado pela eleição de Jair Bolsonaro à Presidência, elegeu-se senador pelo Rio de Janeiro.

Sua experiência política, portanto, é extensa. A questão levantada por seus adversários não é a ausência de mandatos eletivos, mas a natureza dessa trajetória e as controvérsias que a acompanharam.

<><> A homenagem a Adriano da Nóbrega

Entre os episódios recuperados está a relação política de Flávio Bolsonaro com o ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega.

Quando era deputado estadual, Flávio concedeu a Adriano a Medalha Tiradentes, principal honraria da Alerj. O ex-policial viria posteriormente a ser apontado pelas autoridades como integrante de uma organização criminosa ligada à milícia no Rio de Janeiro.

Adriano morreu em 2020, na Bahia, durante uma operação policial.

A homenagem tornou-se um dos episódios mais explorados pelos críticos do senador por causa das acusações que posteriormente recaíram sobre o ex-capitão.

<><> O caso das “rachadinhas”

Outro capítulo central da trajetória de Flávio Bolsonaro foi a investigação sobre um suposto esquema de “rachadinha” em seu antigo gabinete na Alerj.

As apurações ganharam projeção nacional a partir das movimentações financeiras atribuídas a Fabrício Queiroz, ex-assessor parlamentar de Flávio e antigo amigo da família Bolsonaro.

O Ministério Público do Rio de Janeiro chegou a denunciar Flávio Bolsonaro sob a acusação de participação em um esquema de recolhimento de parte dos salários de funcionários de seu gabinete.

O senador sempre negou participação em irregularidades e sustentou que foi vítima de perseguição política. Ao longo do processo, decisões judiciais anularam provas e atingiram a sustentação jurídica das acusações. Por isso, é importante distinguir a existência das investigações e denúncias de uma condenação criminal definitiva, que não ocorreu nesse caso.

<><> Patrimônio e negócios imobiliários

A evolução patrimonial de Flávio Bolsonaro e suas operações imobiliárias também aparecem entre os assuntos reunidos pela plataforma eleitoral.

Ao longo dos anos, compras, vendas e negociações de imóveis realizadas pelo senador foram escrutinadas pela imprensa e por investigadores, especialmente durante as apurações relacionadas ao período em que ele exercia mandato na Alerj.

Seus adversários utilizam esses episódios para questionar a origem e a evolução de seu patrimônio. Flávio, por sua vez, sempre contestou suspeitas de irregularidades em seus negócios.

<><> Relação com Daniel Vorcaro

A plataforma também procura explorar politicamente as relações de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, envolvido em investigações sobre fraudes financeiras.

Entre os episódios destacados estão contatos e negociações relacionados ao projeto cinematográfico “Dark Horse”.

A relação ganhou relevância política diante das investigações envolvendo Vorcaro e passou a integrar o conjunto de questionamentos apresentados pelos adversários do senador sobre suas relações empresariais e políticas.

A existência de relações ou negociações, por si só, não comprova participação de Flávio Bolsonaro em eventuais crimes atribuídos a terceiros. O episódio, no entanto, passou a fazer parte da disputa política em torno de sua candidatura presidencial.

<><> Experiência parlamentar é suficiente para governar o Brasil?

A ofensiva eleitoral toca em uma questão que vai além das investigações e controvérsias: qual é a experiência administrativa de Flávio Bolsonaro para comandar o País?

Embora tenha acumulado mais de duas décadas de mandatos parlamentares, primeiro como deputado estadual e depois como senador, sua trajetória foi construída essencialmente no Legislativo.

A Presidência da República exige a administração direta de uma estrutura gigantesca, coordenação ministerial, formulação de políticas econômicas e sociais, condução das relações exteriores, interlocução com governadores e prefeitos e exercício da função constitucional de comandante supremo das Forças Armadas.

É nesse ponto que seus adversários pretendem estabelecer o contraste entre tempo de carreira política e experiência executiva.

<><> Eleição coloca trajetórias sob escrutínio

A criação de “O pior dos Bolsonaros” faz parte da estratégia eleitoral da Coligação Brasil Pronto pra Mais, formada por partidos que apoiam a candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Por isso, as informações reunidas pela página precisam ser avaliadas também à luz de sua finalidade eleitoral.

Isso não diminui, entretanto, a importância de examinar o histórico de quem pretende ocupar o cargo mais poderoso da República. Em uma eleição presidencial, conhecer a experiência profissional, os mandatos exercidos, as decisões tomadas, as relações políticas e empresariais e as controvérsias envolvendo cada candidato é parte essencial da formação do voto.

No caso de Flávio Bolsonaro, seus adversários sustentam que o conjunto de sua trajetória — marcada por longa permanência no Legislativo, ausência de experiência relevante à frente do Poder Executivo e sucessivas controvérsias públicas — demonstra que ele não reúne as condições necessárias para governar o Brasil.

Caberá ao eleitor confrontar essa avaliação com a defesa apresentada pelo próprio candidato e decidir se o currículo construído por Flávio Bolsonaro ao longo de mais de duas décadas de vida pública o credencia ou não para exercer a Presidência da República.

 

Fonte: Por Valerio Arcary, em A Terra é Redonda/Brasil 247

 

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