Augusto
Cury sobe nas pesquisas: candidato tira mais votos de Lula ou Flávio Bolsonaro?
O que diz analista
O
escritor e psiquiatra Augusto Cury teve uma semana cheia: participou do
primeiro debate presidencial, na Band; foi sabatinado pelos jornais O Globo e
Valor Econômico e pela rádio CBN; e, depois, pelo Jornal Nacional, da TV Globo.
As
entrevistas, embora tenham rendido críticas dos jornalistas pelo caráter vago
de algumas afirmações e pela indisposição do candidato em responder a perguntas
que, segundo ele, o colocariam no centro da polarização, parecem ter surtido
efeito: Cury deu um salto nas pesquisas BTG/Nexus e AtlasIntel/Bloomberg
divulgadas na manhã desta segunda-feira (31/8).
Na
pesquisa BTG/Nexus — realizada entre os dias 28 e 30 de agosto, ou seja, de
sexta-feira a domingo —, o escritor aparece em terceiro lugar, com 8% das
intenções de voto, atrás apenas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT),
com 37%, e do senador Flávio Bolsonaro (PL), com 30%.
Ele
está bem à frente de Renan Santos (Missão) e Ronaldo Caiado (PSD), que têm 2%
cada, e de Romeu Zema, com 1%. Foi um crescimento de oito pontos percentuais,
já que, na pesquisa anterior, divulgada na segunda-feira passada (24/8), Cury
não havia pontuado.
Isso no
voto espontâneo, quando os eleitores são questionados sobre em quem votariam
caso as eleições fossem hoje. Já no voto estimulado, quando os entrevistadores
apresentam os nomes dos candidatos antes da resposta, Cury chegou a 11%, nove
pontos percentuais acima dos 2% registrados na pesquisa anterior.
Mesmo
considerando a margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para
menos, Cury ainda mantém o terceiro lugar dos candidatos com mais intenções de
votos.
O mesmo
movimento foi observado na pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, realizada entre os
dias 25 e 30 — de terça-feira a domingo.
O
levantamento também mostra Cury em terceiro lugar, com 7,8% das intenções de
voto, atrás de Lula e Flávio e à frente de Renan Santos, dentro da margem de
erro de três pontos percentuais.
Considerando
a média dos levantamentos publicados até o dia 31 de agosto por diversos
institutos, Cury ocupa o terceiro lugar da disputa, com 10% de intenção de voto
no primeiro turno, segundo o Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil.
Na
visão do analista Pablo Ortellado, professor de Gestão de Políticas Públicas na
Universidade de São Paulo (USP), Cury está desempenhando o mesmo papel que Ciro
Gomes, Simone Tebet e Marina Silva tiveram em pleitos passados, atraindo o
eleitor que busca uma alternativa a Lula e Flávio Bolsonaro.
O
escritor também teve um crescimento significativo nas redes sociais, de milhões
de seguidores no Instagram, e nas buscas por seu nome no Google, o que levou
internautas a acusá-lo de usar robôs para inflar sua popularidade.
A BBC
News Brasil entrou em contato com a campanha de Cury, que não respondeu até a
publicação desta reportagem.
Ortellado,
no entanto, discorda da acusação. Para ele, o desempenho de Cury nas pesquisas
de intenção de voto é um indicativo de que o aumento de sua popularidade não se
deve à ação de robôs, já que esse tipo de levantamento não pode ser manipulado
dessa forma.
O
especialista também afirma que, do ponto de vista técnico, é muito difícil
fraudar os dados de buscas do Google.
Chama
atenção, principalmente, seu desempenho entre os jovens de 16 a 24 anos, parte
da geração Z. Cury tem 22% das intenções de voto nessa faixa etária, enquanto
Lula tem 25% e Flávio, 32%. A margem de erro para esse recorte é de seis pontos
percentuais, o que significa que os resultados podem se sobrepor.
Na
entrevista a seguir, Ortellado comenta as chances de Cury no primeiro turno,
explica como ele pode influenciar um eventual segundo turno e analisa o que
pode ter levado ao crescimento repentino do candidato e o que pode derrubá-lo.
• A que o senhor atribui o crescimento de
Augusto Cury? Ele foi acusado de usar robôs para ampliar sua presença digital,
mas também teve saltos em duas pesquisas de intenção de voto.
Pablo
Ortellado — O movimento existe de verdade. Ele disparou nas redes sociais,
houve essa especulação do uso de robôs, mas tudo foi confirmado pelas duas
pesquisas que saíram hoje. Isso sem contar que as buscas no Google são muito
difíceis de fraudar. O Google é muito eficiente em identificar robôs.
Esse
crescimento se deve não à performance especialmente boa ou ruim no debate da
Band ou na entrevista do JN, mas ao fato de ele ser o único candidato que não
está girando em torno de Lula nem de Flávio.
Ele não
tenta arrancar voto de nenhum dos dois candidatos. Esse perfil provavelmente
atraiu os eleitores cansados da polarização a partir do momento em que ele
passou a ser reconhecido, no debate da Band.
• O senhor não vê uso de robôs, então?
Ortellado
— Não. Até achei estranho no começo, porque foi muito súbito, mas no Google,
por exemplo, é muito difícil tecnicamente. Ele também cresceu em grupos focais,
em duas pesquisas de intenção de voto, então o fenômeno é real. Foi orgânico
mesmo.
• Segundo a pesquisa da BTG/Nexus, Cury
faz mais sucesso entre os jovens, especialmente aqueles de 16 a 24 anos. Por
quê?
Ortellado
— Existe gente atrás de um candidato que foge da polarização, já que Zema,
Caiado e Renan estão orbitando o bolsonarismo. No caso do Lula, nem tem uma
alternativa visível. Havia essa carência e, quando ele surgiu no debate da
Band, as pessoas podem ter ido para o Cury.
Esse
público jovem é particularmente desgostoso da polarização, porque eles entraram
na vida política e tudo o que viram até agora foi esse mundo polarizado. Cury
apareceu como um respiro.
• É uma geração que, desde a primeira vez
que votou, precisou encarar a polarização.
Ortellado
— A polarização começou em 2014, mas ganhou corpo em 2018. Estamos falando de
oito anos, ou seja, uma pessoa que votou em 2018, em 2022 e vai votar pela
terceira vez em 2026 só conhece a polarização. Mesmo o mais velho dessa faixa
etária. Pode ser que Cury apareça para eles como um respiro.
• Para o jovem de esquerda, não existem
candidatos com chances reais além do Lula. A ausência dessa alternativa ajuda
Cury a crescer?
Ortellado
— Foi uma estratégia do Lula para tentar ganhar a eleição no primeiro turno.
Ele tirou do páreo todos os candidatos. Marina Silva e Simone Tebet estão
concorrendo ao Senado, Ciro Gomes ao governo do Ceará, então Lula está correndo
sozinho, porque os outros candidatos de esquerda são muito pequenos.
Pode
ser que o Cury seja o candidato fora da polarização que esteja vazando para
centro-esquerda, embora ele também possa vazar para centro-direita. Ele é
indefinido, na verdade. A gente coloca no centro porque ele não tem um programa
e uma ideologia bem definida.
• Cury deve continuar a crescer?
Ortellado
— Se estiver ocupando o lugar da Marina Silva, da Simone Tebet e do Ciro Gomes,
que é o que me parece, Cury não deve ir muito além disso, desses 10% ou 12%.
Mas é um fenômeno muito novo, então precisamos esperar as próximas pesquisas.
Se ele seguir os padrões dos últimos anos, já está próximo do teto, mas ainda
precisamos avaliar.
• Ele pode tirar eleitores de quem?
Ortellado
— De todo mundo. Ele deve estar tirando voto do Lula, do Flávio e também de
quem estava pensando em votar nulo, em branco ou até em não votar.
• Até agora, ele teria tomado mais
eleitores do Lula ou do Flávio?
Ortellado
— Dos dois, porque ambos oscilaram para baixo. A impressão olhando para a
pesquisa da BTG/Nexus é essa.
• Em uma eleição que deve ser decidida
pelos indecisos ou neutros, o que isso significa para Flávio e para Lula?
Ortellado
— Se Cury consolidar esses 10% e não cair, o apoio dele é fundamental no
segundo turno. Passa a ser a grande questão do segundo turno, para onde vão os
votos dele. O apoio explícito valeria ouro.
• Ele disse que não apoiaria nenhum dos
dois em segundo turno. Para quem, então, iria o eleitor dele?
Ortellado
— Se os eleitores dele vieram tanto do Lula quanto do Flávio, no segundo turno
tende a se distribuir entre os dois. Além daqueles que votariam em branco,
anulariam o voto ou nem votariam. Mas o apoio explícito dele seria relevante,
porque ele tem se tornado uma espécie de líder do campo não polarizado. Ele vai
ser muito cotejado pelos dois lados.
• No primeiro turno, Cury pode ameaçar
Lula ou Flávio?
Ortellado
— Não. A menos que surja algo muito inédito. Mas, à luz dos fenômenos passados,
que é o que temos até agora, o limite não é muito maior do que 10% dos votos.
• É fogo de palha?
Ortellado
— Não. É expressivo. Não é suficiente para ganhar eleição, sem dúvida, mas
seria muito importante no segundo turno. Poderia ser decisivo. É dos
insatisfeitos com os dois polos, afinal, que deve sair o vencedor.
• Ele vai ser o terceiro colocado no
primeiro turno, então?
Ortellado
— Não dá para cravar nada ainda, mas acho que sim. Aparentemente, ele tomou o
lugar do Renan. Tudo aponta para uma explosão dele. Neste momento, ele tomou o
terceiro lugar. Mas se ele vai permanecer ou vai cair, só o tempo vai dizer.
• O que poderia ameaçá-lo?
Ortellado
— Ele não é um grande debatedor, não tem grande carisma, não tem consistência
ideológica. Mas pode estar canalizando a vontade das pessoas de escaparem desse
jogo ideológico polarizado.
Fonte:
BBC News Brasil

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