Presos,
generais do golpe resenham livros, fazem fisioterapia e estudam à distância
Numa
última investida para manterem a patente, os generais de quatro estrelas
condenados por tentativa de golpe de Estado mostraram como veem a si próprios
nas defesas apresentadas ao STM (Superior Tribunal Militar), que julgará ações
de expulsão definitiva da vida militar. É um passo seguinte à condenação no STF
(Supremo Tribunal Federal).
Walter
Braga Netto, que chefiou o Estado-Maior do Exército, o Comando Militar do Leste
e o Ministério da Defesa, é descrito pelos advogados como alguém que tem a
admiração dos colegas e “enorme respeito” na Força. Paulo Sérgio de Oliveira,
ex-comandante do Exército e ex-titular da Defesa, teria um histórico “impecável
e distinto” como militar.
Almir
Garnier, ex-comandante da Marinha, ingressou na Força ainda criança, aos 10
anos, como aluno de uma escola industrial, e sempre se destacou, segundo seus
advogados.
Os três
militares da reserva, da mais alta patente, cumprem pena em regime fechado após
terem sido condenados por crimes de tentativa de golpe de Estado, de abolição
violenta do Estado democrático de Direito, organização criminosa armada, dano
qualificado e deterioração de patrimônio tombado.
As
penas definidas pelo STF variam de 19 a 26 anos de prisão –inferior apenas à do
militar apontado como chefe do esquema, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL),
sentenciado a 27 anos e três meses de prisão. A condenação completa um ano no
dia 11 de setembro. Os generais estão em celas improvisadas em unidades
militares, desde o fim de novembro.
É a
primeira vez que a democracia brasileira pune e encarcera militares que
alcançaram as quatro estrelas por tentativa de golpe. Entre os condenados está
o general Augusto Heleno, 78, que cumpre a pena em casa por sofrer da doença de
Alzheimer.
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Motivos das condenações
Braga
Netto foi condenado por coordenar um “gabinete” golpista após a derrota na
eleição e por ter apoiado um plano que incluía o assassinato do presidente Lula
(PT) e do vice, Geraldo Alckmin (PSB). A condenação de Garnier foi por ter
colocado tropas da Marinha à disposição de um golpe. Paulo Sérgio teria
pressionado comandantes a aderirem ao impedimento da posse de eleitos. Heleno
foi condenado por chefiar um “gabinete de crise” e orientado discurso contra as
urnas.
Os
quatro militares encaram as penas com irresignação, segundo o ex-vice de
Bolsonaro e senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS). Ele visitou Braga Netto
e Paulo Sérgio. “Eles manifestam um sentimento de revolta”, diz Mourão, que
também é general de Exército.
A cela
improvisada de Paulo Sérgio, 68, tem quarto, sala e banheiro privativo, segundo
quem o visita, e está anexa a gabinetes de generais do Comando Militar do
Planalto, em Brasília.
A
rotina do general é extensa: ele cadastrou 35 visitantes, todos autorizados
pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, responsável pelos processos de
execução penal e por definir as condições das prisões. Em pelo menos três dias
da semana, o militar recebe visitas da mulher, dos filhos oficiais do Exército,
de noras, netos ou de amigos de farda.
Para
presos comuns no Complexo da Papuda, no Distrito Federal, são permitidos 11
cadastros de visitantes. As visitas regulares devem ocorrer às quartas e
quintas-feiras.
Nos
banhos de sol, Paulo Sérgio, 68, faz fisioterapia e atividades físicas. Uma vez
por semana, recebe atendimento psicológico.
Um
plano de trabalho foi desenvolvido pelo comando para o general, de forma a
garantir a remição da pena. Ele revisa, cataloga e faz análise de obras da
biblioteca do Exército.
À
distância, com acesso a computador, Paulo Sérgio cursa administração
hospitalar. Moraes atendeu a um pedido do general e permitiu ainda que ele faça
o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio).
Garnier,
65, que cumpre pena nas dependências do gabinete do comandante de Operações
Navais, na Estação Rádio da Marinha em Brasília, recebe visitas semanais de
dois médicos da Força, faz exames e recebe atendimento odontológico no Hospital
Naval.
A
Garnier foi permitido ler os livros que já existiam na biblioteca da unidade
militar. Ele prefere livros religiosos: resenhou “O agir invisível de Deus” e
“Como Deus transforma tristeza em alegria”. Os capitães que avaliaram suas
resenhas descontaram poucos décimos das resenhas do almirante que já comandou a
Marinha, por erros de ortografia.
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Negativas de Moraes
O
comando do lugar queria que um soldado fosse autorizado a cortar o cabelo do
general, mas Moraes negou. A Força também quis emplacar uma atividade nobre
para o almirante, com análises sobre a capacidade defensiva do país diante do
“mutante cenário geopolítico”. O ministro negou esse tipo de trabalho. Garnier
passou, então, a fazer revisão gramatical e tradução.
Já com
a pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência em curso, o senador
Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha, pediu autorização para
visitar o almirante. Esses pedidos se deram em julho e agosto. Marinho não
respondeu aos questionamentos da reportagem sobre o teor das visitas.
Na 1ª
Divisão do Exército, na Vila Militar, no Rio, Braga Netto — ex-ministro da Casa
Civil de Bolsonaro e ex-candidato a vice na chapa derrotada em 2022 — também
recebeu visitas de bolsonaristas, ex-colegas de Esplanada. Foram autorizados os
ex-ministros da Saúde Marcelo Queiroga e Eduardo Pazuello (general da reserva e
deputado federal) e a senadora Damares Alves (Republicanos-DF).
Braga
Netto, 70, passou praticamente o primeiro semestre inteiro sem trabalhar, sem
ler e sem estudar. Fez pouca atividade física, recebeu alguma assistência
religiosa e não teve atendimento psicológico.
Em
nota, o Exército disse que as condições de custódia são definidas e
fiscalizadas conforme orientação do STF, em respeito a “parâmetros de
segurança, salubridade e dignidade da pessoa humana”.
“Eventuais
visitas e atendimentos de saúde, ressalvados os casos emergenciais, dependem de
prévia autorização judicial”, disse a Força. “A assistência religiosa, o acesso
à leitura, as atividades laborais e as demais medidas observam estritamente a
legislação e as decisões do juízo da execução penal, sendo aplicadas a todos
sob custódia.”
A
Marinha e as defesas dos quatro militares não responderam aos questionamentos.
A reportagem pediu às defesas para entrevistar os quatro generais. O advogado
de Garnier disse que não há interesse. O de Heleno afirmou que o general não
está disponível para entrevistas. Os demais não responderam.
“Em
termos de localização, Braga Netto é o que está em pior condição. É longe e o
deslocamento da esposa, que vive em Copacabana, e da família, em Niterói, é
inseguro”, diz o senador Mourão. O general afirma, no entanto, que as
instalações oferecidas aos dois generais de Exército são boas, com quarto e
sala e direito a horário de sol.
“Em
algum momento, esse processo vai ser anulado, com ou sem anistia”, diz o
ex-vice-presidente. “Isso vai se dar por revisão no STF ou lei de anistia no
Congresso. E diante de um Congresso mais à direita, o próprio presidente da
República não vai bloquear isso.”
Sem
anistia, generais terão direito ao regime semiaberto a partir de 2031 ou 2032.
Ex-comandante da FAB rebate Flávio
Bolsonaro após acusação de pedir votos para Lula. Por Cleber Lourenço
O
ex-comandante da Aeronáutica Carlos de Almeida Baptista Jr. rebateu Flávio
Bolsonaro após o candidato à Presidência afirmar, durante sabatina no Jornal
Nacional, que o brigadeiro estaria pedindo votos para a reeleição do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva. Baptista Jr. classificou a acusação como uma
“leviandade” e afirmou não saber de onde Flávio tirou a informação.
A
declaração de Flávio ocorreu quando ele foi confrontado com o depoimento de
Baptista Jr. sobre as articulações golpistas ocorridas após a derrota de Jair
Bolsonaro nas eleições de 2022. O senador tentou desqualificar o relato do
ex-comandante ao afirmar que ele seria “completamente parcial” por supostamente
fazer campanha para Lula.
Baptista
Jr. respondeu neste sábado (29) por meio das redes sociais. Segundo ele, a
acusação não apenas carece de fundamento como teria sido usada por Flávio para
evitar o mérito da pergunta feita durante a sabatina.
“A
leviandade de dizer que faço campanha para a reeleição do presidente Lula […] é
antes de tudo uma ferramenta para fugir da responsabilidade de respondê-la —
algo entendido na figura de filho, mas não de alguém que se proponha a nos
presidir”, escreveu.
O
brigadeiro comandou a Aeronáutica entre abril de 2021 e janeiro de 2023 e se
tornou uma das principais testemunhas militares das articulações ocorridas no
Palácio do Planalto após a derrota de Bolsonaro. Seu depoimento ajudou a
reconstruir as discussões mantidas pela cúpula do governo sobre medidas que
poderiam impedir a posse de Lula.
Na
resposta a Flávio, Baptista Jr. afirmou não saber se a acusação de que estaria
fazendo campanha para Lula teria surgido de seu depoimento na ação penal sobre
a tentativa de golpe ou de seu livro, Eu Disse Não! Uma trincheira
antigolpista.
O
ex-comandante aproveitou o fato de a obra ainda não ter chegado às livrarias
para ironizar Flávio. Caso o candidato tenha feito uma “viagem” sobre o
conteúdo do livro, escreveu Baptista Jr., deveria esperar mais dez dias para
“ler o livro e refletir, antes de outra entrevista”.
A
publicação também trouxe um recado a Rogério Marinho, coordenador-geral da
campanha de Flávio. Baptista Jr. reagiu à declaração do senador de que “a tal
direita consentida vai ter que nos engolir”.
O
brigadeiro chamou Marinho de “outrora ponderado” e recomendou que ele não
incorporasse o “espírito do nosso querido Zagallo”, em referência à célebre
frase “vocês vão ter que me engolir”, eternizada pelo ex-técnico da seleção
brasileira.
Baptista
Jr. encerrou o recado com uma referência a Fernando Collor. “Lembre-se do
chamamento de Fernando Collor aos ‘Caras-Pintadas’: menos”, escreveu.
A
referência é à reação popular ocorrida em 1992, quando Collor convocou a
população a vestir verde e amarelo em apoio ao governo. O chamado acabou
produzindo o efeito contrário: manifestantes foram às ruas de preto em
protestos que ganharam força durante a crise política que culminaria no
impeachment do então presidente.
Fonte:
Por Vinicius Sassine, em ICL Notícias

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