Povos indígenas e o preço da terra: da vinha de Nabot ao território do povo Mura
A
história da humanidade é, em grande parte, a história da disputa pela terra.
Mas nem sempre essa disputa se dá no campo de batalha aberto. Frequentemente,
ela ocorre nos corredores do poder, nos bastidores da justiça e na manipulação
das leis. Para entender a violência que assola comunidades tradicionais na
Amazônia contemporânea, não precisamos olhar apenas para os mapas atuais;
precisamos voltar três mil anos atrás, para as margens do reino de Israel, onde
um rei, uma rainha e uma vinha definiram um arquétipo de injustiça que ecoa até
hoje.
A
narrativa das Vinhas de Nabot, registrada no primeiro livro dos Reis (capítulo
21), da Bíblia, não é apenas um texto teológico. É um estudo de caso sobre a
corrupção sistêmica, o abuso de poder estatal e a transformação da terra de
“herança sagrada” em “ativo econômico”. Quando colocamos essa parábola antiga
em diálogo com os conflitos modernos envolvendo a exploração de potássio na
Amazônia e a resistência dos povos Mura, no município de Autazes, no Amazonas,
percebemos que a mecânica da opressão permanece inalterada, mudando apenas a
tecnologia e a linguagem.
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O modelo clássico: a vinha e o palácio
A
história começa com uma proposta aparentemente razoável. Acab, rei de Israel,
deseja a vinha de Nabot, um cidadão comum de Jezrael. A vinha fica
estrategicamente localizada “junto ao palácio”, o que a tornaria ideal para se
transformar em uma horta de legumes. Acab oferece uma troca justa: outra vinha
melhor ou o valor em dinheiro.
A
recusa de Nabot, no entanto, toca em algo que o rei não compreende: a terra não
é uma mercadoria. Para Nabot, a vinha é a “herança de meus pais”, um vínculo
indissolúvel com a linhagem familiar e a lei divina. “Iahweh (Senhor) me livre
de ceder-te a herança de meus pais“, diz ele.
É aqui
que a tragédia se desenrola. Acab não usa a força militar para tomar a terra.
Ele usa a fraude e a manipulação. Sua esposa, Jezabel, assume o comando da
operação. Ela não envia soldados; ela envia cartas seladas com o anel real aos
“anciãos e nobres” da cidade. O plano é meticuloso: corromper o sistema
judicial local. Eles organizam um falso jejum (dessacralizando um ritual
sagrado), convocam falsas testemunhas (“homens inescrupulosos”) e acusam Nabot
de blasfêmia contra Deus e contra o rei.
O
resultado é o assassinato de Nabot por apedrejamento e a subsequente tomada da
vinha por Acab. A lição é clara: quando o poder político se alia a um
judiciário omisso ou corrupto, o direito do mais fraco é anulado não pela força
bruta, mas pela burocracia da mentira. A terra é tomada, o dono é eliminado, e
o crime é legitimado pela lei.
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A modernidade da cobiça: o caso potássio
Milhares
de anos depois, a geografia mudou, mas a lógica permanece. Na Amazônia
brasileira, a busca por recursos estratégicos para o mercado global —
especificamente o potássio, mineral essencial para a produção de fertilizantes
agrícolas — reacendeu o ciclo de Acab e Jezabel.
O
Brasil possui vastas reservas de potássio, e a pressão para sua exploração tem
crescido em meio a uma crise alimentar global. Grandes corporações e o
interesse estatal têm pressionado por concessões em áreas que, historicamente,
foram de uso tradicional de comunidades ribeirinhas e indígenas.
Assim
como Acab queria a vinha “perto do palácio” para facilitar o acesso e o lucro,
as mineradoras buscam as terras mais ricas, muitas vezes sobrepostas a
territórios protegidos ou de comunidades vulneráveis. A narrativa oficial
frequentemente apresenta a mineração como sinônimo de “progresso”,
“desenvolvimento” e “soberania nacional”.
No
entanto, sob essa retórica, esconde-se a mesma mecânica de Jezabel. A “lei” é
manipulada para flexibilizar licenciamentos ambientais, para ignorar a consulta
prévia, livre e informada garantida pela Convenção 169 da OIT (Organização
Internacional do Trabalho) e para criminalizar a resistência local. A terra
deixa de ser o lar de gerações e passa a ser vista apenas como um ativo
financeiro em um balanço patrimonial. O “ancestral” é substituído pelo
“acionista”, mas o preço pago pelas comunidades locais é o mesmo: a perda de
soberania e a ameaça à existência física.
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Os Mura de Autazes: a resistência ancestral
É neste
cenário de tensão que se situa a realidade do povo Mura, especificamente na
região de Autazes. Os Mura são um povo com uma história milenar de resistência,
profundamente conectado à bacia do Rio Madeira, às guerras coloniais,
Cabanagem, trincheiras de defesa ao longo dos séculos. Para eles que defendem
seu território ancestral, o rio e a terra não são recursos a serem extraídos;
são a própria extensão de sua identidade, memória e sobrevivência cultural.
A
ameaça que paira sobre Autazes não é hipotética. Projetos de mineração,
petróleo, gás, expansão da fronteira agrícola e a construção de infraestrutura
hidroviária pressionam constantemente os limites territoriais dos Mura e dos
povos indígenas, quilombolas e tradicionais na Amazônia e em todo planeta
terra. A situação reflete diretamente o dilema de Nabot: como manter a
integridade de sua “herança” diante de um poder que vê sua terra apenas como um
obstáculo ao lucro?
Assim
como Nabot foi acusado de blasfêmia para justificar sua morte, os líderes Mura
e suas comunidades são frequentemente estigmatizados na esfera pública. São
rotulados como “obstáculos ao desenvolvimento”, “contra o progresso” ou
“aliados de interesses estrangeiros”.
A
violência contra eles raramente é um apedrejamento público; é uma violência
estrutural e silenciosa. É a lentidão da justiça que não demarca terras; é a
invasão de garimpeiros que contaminam os rios; são búfalos que invadem
territórios, plantações e contaminam lagos; é a falta de proteção estatal que
permite a grilagem.
A
recusa dos Mura em abandonar suas terras ou em aceitar compensações que não
respeitem sua cosmovisão é o equivalente moderno ao “O Senhor me livre” de
Nabot. É uma afirmação de que há valores que transcendem o mercado.
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O julgamento de Elias: quem denuncia a injustiça?
Na
narrativa bíblica, após a tomada da vinha, o silêncio é quebrado pelo profeta
Elias. Ele não pergunta a Acab sobre o preço da terra ou a eficiência da horta.
Ele vai direto ao centro moral: “Mataste e ainda por cima roubas“. A profecia
de Elias traz um alerta severo: a injustiça tem consequências. “No mesmo lugar
em que os cães lamberam o sangue de Nabot, os cães lamberão também o teu.”
Hoje,
quem são os “Elias” na Amazônia? São os líderes indígenas, quilombolas,
ribeirinhos, povos tradicionais, defensores dos direitos humanos, jornalistas
investigativos e a sociedade civil que se recusam a aceitar a normalização da
violência. Eles são aqueles que apontam o dedo para a corrupção sistêmica, para
a conivência do Estado e para a ganância corporativa.
O
“julgamento” na era moderna não é necessariamente uma punição divina imediata,
mas o colapso ecológico, a destruição de nossa casa comum – a “Mãe terra” como
cantava Francisco de Assis há 800 anos e como muitos povos indígenas também a
conhecem – a perda irreversível de culturas milenares e a instabilidade social
que surge quando a justiça é sistematicamente negada. A história dos Mura de
Autazes e dos conflitos pelo potássio nos ensina que a impunidade não é um
vácuo; ela cria um terreno fértil para a repetição da violência.
Hoje,
ainda, ensina que também nós sociedade civil podemos fazer parte deste ciclo de
violência e, se não estamos do lado dos que sofrem, fatalmente estaremos do
lado dos que oprimem. Na época de Nabot quantos “cidadãos de bem” ficaram
calados, não denunciaram a injustiça ou foram coniventes com o homicídio
injusto?
Um
exemplo simples atual está em nossos hábitos de consumo diários: fala-se aqui
de potássio, mas para que ele serve? Para a produção do NPK essencialmente,
fertilizante químico utilizado na maioria da produção do agronegócio brasileiro
e mundial, em especial em mega lavouras de soja, milho e cana de açúcar, mas
também de frutas, legumes e verduras não orgânicas.
Ou
seja, cada vez que compramos um alimento que utiliza produtos que são fruto de
violência (como o fertilizante químico produzido em tais condições de violação
de direitos humanos), estamos fazendo parte desta cadeia de injustiças,
saibamos ou não disto. Seja por ações maiores ou menores que contribuem para a
perpetuação deste ciclo, seja pela omissão despreocupada do “cada um no seu
quadrado”.
Qual
seria então a solução? Colocar-se ao lado dos que sofrem, defender seus
direitos, denunciar a violência injusta. De outro lado, não fazer parte do
ciclo perverso e, neste caso, comprar alimentos para nossa casa ou trabalho em
feiras direto do agricultor familiar, de preferência de produção orgânica ou
agroecológica. Em cidades como Manaus, tais feiras tendem a se multiplicar.
Alguns exemplos são as realizadas semanalmente nas dependências da sede do
Incra e no MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária).
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Conclusão: a terra como espelho moral
A
similaridade entre as jornadas de Jezrael e de Autazes revela uma verdade
incômoda: a história não se repete apenas como farsa, mas como tragédia
estrutural. A diferença entre o rei Acab e os modernos “reis” corporativos ou
estatais é apenas a tecnologia da opressão, não a essência da ganância.
A vinha
de Nabot, as reservas de potássio e as terras dos Mura são espelhos que
refletem nossa moralidade coletiva. Elas nos perguntam: até onde estamos
dispostos a ir para garantir o lucro? Para garantir bens de consumo? Até que
ponto permitimos que a lei seja distorcida para servir aos poderosos?
A
resistência dos Mura, assim como a recusa de Nabot, é um lembrete vital de que
a terra tem um dono que não é o Estado, nem a empresa, nem o rei. A terra
pertence à vida, à história e às gerações que a sustentam. Reconhecer isso é o
primeiro passo para romper o ciclo de violência que, há três milênios, tenta
transformar lares em commodities.
Enquanto
houver quem se recuse a vender sua herança, haverá quem precise ser ouvido. E,
como nos ensina a história, o silêncio da justiça é o prelúdio de uma
catástrofe que, inevitavelmente, atingirá a todos.
Fonte:
Por Fernando Merloto Soave da Amazônia Real

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