Uma
em cada seis pessoas no mundo vive algum grau de solidão
Pessoas
aguardam atendimento numa clínica, esperam o elevador, percorrem uma fila,
ocupam um ônibus ou dividem uma mesa num aeroporto, enquanto os olhos
permanecem voltados para pequenas telas. A proximidade física continua intacta;
a disponibilidade para o contato sofreu uma mudança profunda. O telefone
ampliou como poucas invenções a comunicação entre pessoas distantes e, ao mesmo
tempo, ocupou aqueles intervalos em que desconhecidos costumavam reconhecer a
presença uns dos outros. O fenômeno parece pequeno diante das grandes crises
contemporâneas, mas toca uma dimensão decisiva da vida urbana: a convivência
com quem não escolhemos previamente encontrar.
Em
2025, a Organização Mundial da Saúde divulgou o relatório de sua Comissão sobre
Conexão Social e estimou que uma em cada seis pessoas no mundo vive algum grau
de solidão. Entre adolescentes e jovens, a proporção é ainda maior. O documento
relaciona isolamento e fragilidade de vínculos a consequências sobre saúde,
educação, trabalho e vida comunitária, além de chamar atenção para ambientes
que dificultam relações presenciais. A dimensão do problema ajuda a perceber o
valor de interações que raramente aparecem nas estatísticas: uma conversa de
cinco minutos numa fila, um comentário no transporte coletivo, a troca de
informações entre pessoas que provavelmente jamais voltarão a se encontrar.
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O acaso perde espaço
Esses
contatos tiveram durante séculos um papel silencioso na formação das cidades.
Esperar o ônibus, procurar um endereço, dividir um banco de praça, comentar uma
demora ou perguntar as horas ofereciam pequenas aberturas para a conversa. A
maioria delas desaparecia no mesmo instante, sem produzir amizade, compromisso
ou qualquer continuidade. Ainda assim, fazia circular experiências entre
pessoas de idades, profissões, origens e visões de mundo diferentes. As grandes
cidades construíram parte de sua vitalidade sobre essa convivência imprevista,
porque obrigavam indivíduos a dividir espaços com gente que nenhuma rede de
afinidade havia selecionado.
Pesquisas
experimentais recentes ajudam a medir o que mudou. Em estudos realizados com
pessoas que ainda não se conheciam, participantes com acesso imediato ao
telefone tenderam a interagir menos e a avaliar de maneira menos positiva a
experiência de espera. Outro conjunto de pesquisas, conduzido com passageiros
de transporte público, encontrou resultado igualmente significativo: pessoas
orientadas a conversar com desconhecidos relataram uma experiência melhor do
que aquelas que permaneceram isoladas, embora antes do contato tivessem
imaginado que a conversa seria menos agradável. Existe, portanto, uma diferença
entre aquilo que antecipamos sobre o encontro e aquilo que efetivamente
sentimos depois de conversar.
O
smartphone modifica esse cenário porque funciona como um endereço portátil para
onde a atenção pode se transferir a qualquer instante. O corpo permanece na
praça, no metrô ou no café, enquanto a consciência se desloca para uma conversa
familiar, uma notícia, um vídeo ou uma rede de pessoas conhecidas. Aos poucos,
a cidade começa a reunir multidões presentes pela metade. Essa transformação
lembra os antigos portos depois da construção de grandes canais privados: as
embarcações continuam diante da mesma costa, mas parte crescente do tráfego
passa por rotas que evitam o cais comum. O espaço público permanece cheio,
porém uma parcela considerável da circulação humana acontece fora dele.
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Olhos que já não se cruzam
A
literatura percebeu muito cedo o valor desses instantes. Baudelaire, observando
a multidão parisiense do século XIX, transformou o encontro com uma
desconhecida em “A uma passante”. A mulher cruza a rua, os olhares se encontram
e o poeta resume a violência daquele instante: “Um relâmpago… depois a noite!”.
Toda a força do poema depende de uma condição simples e cada vez menos
garantida: duas pessoas levantam os olhos no mesmo momento. Walt Whitman
escreveu experiência semelhante em “A um estranho”, dirigindo-se a alguém que
passa pela rua e sugerindo que, por segundos, uma vida inteira poderia caber
naquele reconhecimento. O desconhecido aparece na literatura porque a cidade
lhe dava espaço para existir.
Uma
pesquisa etnográfica publicada em 2025, realizada em espaços públicos de Oslo,
estudou exatamente as condições que favorecem conversas casuais. O trabalho
identificou aquilo que o pesquisador chamou de abertura mútua: sinais
corporais, posições no espaço, disponibilidade do olhar e situações
compartilhadas capazes de permitir que um contato comece. A conclusão possui
consequências para a arquitetura urbana e também para os hábitos individuais.
Bancos voltados uns para os outros, calçadas agradáveis, mercados, cafés,
transporte público e praças podem criar oportunidades; ainda assim, o encontro
depende de pessoas suficientemente presentes para reconhecer essas
oportunidades.
É nesse
ponto que a perda da conversa casual ultrapassa a nostalgia. O ambiente digital
permite escolher com extraordinária precisão quem acompanhamos, quais grupos
frequentamos, quais assuntos consumimos e de quais pessoas desejamos distância.
O espaço público sempre funcionou segundo outra lógica: nele, a sociedade
aparece sem filtro prévio. O vizinho de idade diferente, a trabalhadora que
pega o mesmo ônibus, o turista perdido, o adolescente no elevador, o vendedor
da esquina e a senhora que pergunta sobre uma rua fazem parte de uma
convivência que obriga cada pessoa a lidar com a variedade humana sem recorrer
imediatamente a mecanismos de seleção.
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A cidade fora dos filtros
Essa
característica possui importância democrática. Uma sociedade formada apenas por
círculos de afinidade tende a conhecer muito bem suas próprias razões e muito
pouco a vida concreta de quem permanece fora deles. As conversas entre
desconhecidos jamais resolveram conflitos políticos, mas introduziam pequenas
fraturas na tendência de imaginar o mundo apenas a partir do grupo ao qual
pertencemos. Uma frase escutada num táxi, numa fila ou numa sala de espera
podia revelar uma dificuldade social que nunca havia atravessado nossa
experiência. A cidade ensinava por contato lateral, sem currículo, sem mediação
e sem promessa de continuidade.
O
desaparecimento desses encontros também altera a percepção de segurança social.
Pessoas que trocam algumas palavras reconhecem-se mutuamente como indivíduos e
deixam de ser apenas figuras anônimas no mesmo espaço. Um bairro no qual
comerciantes, passageiros, vizinhos e frequentadores de uma praça estabelecem
contatos mínimos acumula uma espécie de conhecimento compartilhado que ajuda a
transformar território em comunidade. Esse tecido depende de gestos quase
invisíveis, construídos pouco a pouco, e pode enfraquecer sem que nenhuma
estatística urbana registre imediatamente a perda.
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O valor do inesperado
Seria
absurdo responsabilizar o telefone por uma transformação que envolve desenho
das cidades, jornadas de trabalho, medo, desigualdade, transporte, hábitos
familiares e mudanças culturais profundas. Também seria ingênuo ignorar que o
aparelho ocupa hoje justamente os segundos em que o acaso costumava trabalhar.
Uma espera de três minutos já oferece conteúdo suficiente para impedir qualquer
silêncio. E certas formas de sociabilidade nasciam porque existia silêncio,
demora e alguma disponibilidade para perceber o que acontecia ao redor.
As
cidades continuarão cheias de desconhecidos, mas a simples presença deles já
não garante encontro. O desafio consiste em preservar espaços e hábitos nos
quais a convivência possa surgir sem finalidade definida, sem inscrição prévia
e sem algoritmo de compatibilidade. Ninguém precisa conversar o tempo inteiro;
o direito ao silêncio permanece tão legítimo quanto o desejo de interação. O
que merece ser protegido é a possibilidade de que alguma coisa inesperada
atravesse a rotina. Durante séculos, a cidade ofereceu diariamente milhões
dessas pequenas colisões entre trajetórias humanas. Ainda continuamos próximos
o bastante para que aconteçam. Falta apenas saber quantas vezes levantaremos os
olhos a tempo.
Fonte:
Por Washington Araújo, em Brasil 247

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