RS:
de uma primavera progressista a um rigoroso inverno ultraliberal
A
trajetória política do Rio Grande do Sul (RS) demonstra um significativo
contraste sociopolítico na história brasileira. O Estado que, durante os
governos petistas, projetou sua capital internacionalmente como referência em
democracia participativa, inovação social e experiências de gestão pública
voltadas à inclusão e ao desenvolvimento sustentável, passou, sob a orientação
de projetos políticos pautados pelo liberalismo econômico, a avançar na
privatização de empresas estatais, na redução do papel do Estado e no desmonte
de políticas públicas, abrindo espaço para o fortalecimento de forças
conservadoras e reacionárias.
Agora,
em 2026, esse processo chega a um ponto de inflexão diante da possibilidade de
o Palácio Piratini ser ocupado por uma das principais expressões do
bolsonarismo, embora as pesquisas oscilem e uma delas aponte um avanço
promissor da intenção de voto na esquerda progressista, impulsionado pela
resistência democrática de parte significativa do povo gaúcho. Enquanto o
levantamento da Quaest, divulgado em 24 de agosto de 2026, registrou o
candidato Luciano Zucco (PL) com 26% das intenções de voto, em empate técnico
com a candidata Juliana Brizola (PDT), que alcançou 23%, outro levantamento,
divulgado no dia seguinte pelo instituto Real Time Big Data, apontou Juliana
com 38% e Zucco com 32%. Os números não permitem antecipar o resultado
eleitoral, mas demonstram os riscos que cercam a candidatura progressista de
esquerda de Juliana Brizola.
Para
compreender a dimensão dessa oscilação política, é preciso voltar ao período em
que a capital do RS ocupava o polo oposto desse percurso e era reconhecida
internacionalmente pela prática genuína da democracia participativa e pela
inovação na gestão pública. Porto Alegre viveu, a partir do final dos anos
1980, uma experiência política que ultrapassou as fronteiras do país. O
Orçamento Participativo, implantado em 1989, durante a administração do então
prefeito Olívio Dutra (PT), transferiu para a população parte das decisões
sobre a aplicação dos recursos públicos e tornou-se referência internacional de
participação cidadã. A ONU-Habitat reconheceu a experiência como uma prática de
referência em gestão urbana, enquanto o Banco Mundial a apontou como exemplo
bem-sucedido de ação conjunta entre governo e sociedade civil. A experiência do
Orçamento Participativo não se limitava a uma forma inovadora de consulta
popular. Ela expressava uma concepção de Estado em que a definição das
prioridades públicas incorporava aqueles que historicamente permaneciam à
margem das decisões orçamentárias. A lógica era inverter prioridades, fazendo
com que investimentos em saneamento, pavimentação, habitação, educação e outros
serviços alcançassem também, e prioritariamente, regiões socialmente
vulneráveis.
Foi no
ambiente político progressista de esquerda que a capital gaúcha se transformou
também em espaço de uma das mais expressivas manifestações internacionais de
contestação ao neoliberalismo. Em janeiro de 2001, sob a administração de Tarso
Genro (PT) na Prefeitura de Porto Alegre e de Olívio Dutra (PT) no governo do
Rio Grande do Sul, a capital sediou a primeira edição do Fórum Social Mundial,
concebido como contraponto ao Fórum Econômico Mundial de Davos e consagrado
pelo lema “Um outro mundo é possível”. Mais de 20 mil pessoas de 117 países
participaram do evento. Em 2002, o público ultrapassou 50 mil e, em 2003,
chegou a cerca de 100 mil participantes. Porto Alegre havia deixado de ser
apenas uma capital regional para ocupar, por alguns anos, uma posição central
no debate mundial sobre democracia, desigualdade, direitos sociais e
alternativas à ordem econômica dominante.
Essa
trajetória, entretanto, começou a ser progressivamente substituída por outra
concepção de administração pública. No âmbito estadual, especialmente a partir
de 2019, durante o governo de Eduardo Leite, filiado nesse período ao PSDB e
franco apoiador de Jair Bolsonaro, consolidou-se uma política de desestatização
que atingiu empresas estratégicas. A Companhia Estadual de Energia Elétrica
(CEEE), responsável pela distribuição de energia foi arrematada pela Equatorial
pela bagatela de R$ 100 mil em 2021. Meses depois, a Companhia de Gás do Estado
do Rio Grande do Sul (Sulgás) seguiu o mesmo caminho.
Vale
ressaltar que o caso da CEEE se tornou um dos exemplos mais impactante do
modelo privatista adotado. O valor nominal pago pelo controle acionário
impressionou, quando comparado à importância estratégica de uma empresa que
atendia cerca de 1,6 milhão de consumidores. Essa venda representou um dos
casos mais contundentes da retirado do Estado do controle direto de um serviço
público fundamental à sociedade. Sob a gestão da Equatorial, a população passou
a sentir o impacto dessa privatização, marcada pela precariedade no atendimento
e pelo encarecimento do serviço. A questão central, portanto, não se resume aos
baixos valores arrecadados pelo Estado em cada privatização, mas sim à
concepção liberal de poder público que passou a orientar a administração gaúcha.
A sucessão de desestatizações CEEE, Sulgás, Companhia Riograndense de
Saneamento (Corsan) expressa a preferência por transferir à iniciativa privada
parcelas relevantes da prestação de serviços essenciais e da exploração de
ativos públicos, em lugar de ampliar a capacidade estatal de investimento e
planejamento. Vender os serviços públicos para entregar o lucro e socializar o
prejuízo é uma marca contumaz da direita oportunista e da extrema-direita.
Qualquer semelhança do governo de Eduardo Leite no RS com o governo de São
Paulo do bolsonarista Tarcísio de Freitas (Republicanos) não é mera
coincidência. Tarcísio proferiu uma aula magna dessa prática. A privatização da
Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) revelou-se um
desastre, pela transformação de um bem essencial de saneamento em um expediente
para usurpar o bolso do contribuinte e sucatear o atendimento à população.
A
mudança na administração de Porto Alegre para um modelo ultra liberal também
apareceu por outros caminhos. O Orçamento Participativo, por exemplo, perdeu a
centralidade política que teve no período em que cidade era apresentada
internacionalmente como laboratório da democracia participativa. Sob a
administração da direita avançaram mecanismos de concessão e parcerias com o
setor privado. O movimento alcançou diretamente a educação municipal. Em 2025,
sob a gestão de Sebastião Melo (MDB) a prefeitura lançou o programa Escola
Bem-Cuidada, posteriormente transferido à iniciativa privada. Na educação
infantil, o município passou a recorrer à contratação de instituições privadas
com fins lucrativos para ofertar vagas a crianças que não conseguiram
atendimento na rede municipal ou comunitária. A medida pode ser apresentada
administrativamente como solução para ampliar a oferta, mas, do ponto de vista
político, revela a crescente presença da lógica de contratação privada na
execução de serviços que antes ocupavam lugar mais central na estrutura
pública.
Os
efeitos da lógica liberal no RS revelam um cenário de degradação dos
indicadores educacionais. Segundo dados do Censo Escolar analisados pelo
DIEESE, entre 2019 e 2024 as redes públicas de ensino do Rio Grande do Sul
perderam 6,6% das matrículas, enquanto a rede privada cresceu 12,7%
evidenciando uma transformação relevante na composição da oferta educacional
gaúcha.
A
enchente de 2024 tornou ainda mais visível o custo da concepção ultraliberal de
gestão do RS. Pesquisas e mapeamentos do Instituto de Pesquisas Hidráulicas
(IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e do Serviço
Geológico do Brasil apontavam áreas vulneráveis e ofereciam subsídios para
orientar planos de contingência, sistemas de alerta e obras de prevenção e
contenção. O problema não era, portanto, a ausência de informação sobre os
riscos, mas a insuficiência das medidas adotadas para enfrentá-los. A auditoria
do Tribunal de Contas do Estado identificou falhas acumuladas na concepção,
manutenção e gestão do Sistema de Proteção Contra Cheias de Porto Alegre. O
relatório apontou, entre outras inadequações, a extrema fragilidade da estrutura
responsável pela proteção contra as cheias. Vale lembrar que antes da
ocorrência da enchente Eduardo Leite sancionou um novo Código Estadual do Meio
Ambiente, em janeiro de 2020, que alterou centenas de dispositivos da
legislação anterior e flexibilizou regras de proteção ambiental, inclusive as
relativas às Áreas de Preservação Permanente e ao licenciamento de
empreendimentos como barragens.
Contudo,
apesar do desastre causado pela enchente de 2024, os porto-alegrenses
reincidiram no erro ao reeleger o prefeito Sebastião Melo (MDB), com 61,53% dos
votos válidos, apenas alguns meses após a maior inundação da capital. Vale
destacar que a candidatura de Melo articulou um amplo apoio empresarial,
financeiro e do setor imobiliário, o que se traduziu em um volume
desproporcional de recursos de campanha, tempo de rádio e TV, além do apoio
decisivo de grandes grupos de comunicação, a exemplo da afilhada da Rede Globo,
a Rede Brasil Sul (RBS). A vitória mostrou que o trauma da tragédia não foi
suficiente para produzir uma ruptura eleitoral com o campo político de uma
direita fisiologista ultra liberal que governava a cidade. O eleitorado acabou
tragado pelo rolo compressor de uma campanha profundamente desigual, na qual o
poder econômico financiou um populismo barato e enganoso para sufocar as
propostas progressistas representadas pela deputada federal Maria do Rosário
pelo PT, e pela deputada estadual, Juliana Brizola pelo PDT, que concorriam à
prefeitura com projetos estruturantes de reconstrução dos serviços públicos em
oposição à hegemonia liberal conservadora instalada na cidade.
Nesse
horizonte, fica difícil ignorar o contraste histórico. O mesmo território que,
recebeu multidões do mundo inteiro para discutir justiça social, democracia e
alternativas ao neoliberalismo hoje debate a possibilidade de entregar o
governo estadual a uma força política alinhada ao bolsonarismo. A prioridade
deixou de estar concentrada na participação popular e na expansão direta das
políticas públicas e passou, progressivamente, a privilegiar a desestatização,
as concessões e a ampliação do espaço privado na prestação de serviços.
Faltam
menos de dois meses para o pleito de 4 de outubro, quando os gaúchos terão de
escolher, a julgar pelas pesquisas, entre projetos políticos profundamente
distintos. No polo progressista de esquerda, Juliana Brizola como candidata à
governadora e Edegar Preto do PT como vice. Neta de Leonel Brizola, advogada,
mestre em Direito, Juliana figura como a principal expressão do trabalhismo de
centro-esquerda no Estado. Apoiada por uma coligação composta por oito partidos
PDT, PT, Psol, PCdoB, PSB, PV, Rede e Avante, tem sua trajetória política
vinculada ao resgate do brizolismo e à defesa da educação pública em tempo
integral como instrumento de emancipação social. Vereadora de Porto Alegre e
deputada estadual por três mandatos consecutivos, construiu sua atuação na
oposição às privatizações e ao enfraquecimento do ensino público. No polo da extrema direita, o candidato
Luciano Zucco a governador, tendo como vice Silvana Covatti (PP). Zucco é da
extrema direita, alinhada visceralmente ao bolsonarismo. O empate técnico entre
Juliana e Zucco, apontado por uma das pesquisas mais recentes, revela a
dimensão da disputa e o risco de uma guinada ainda mais à direita no Palácio
Piratini.
É
importante ressaltar que essa configuração eleitoral não surgiu de repente. Ela
se insere em uma trajetória política na qual o Rio Grande do Sul,
historicamente marcado pela alternância entre forças progressistas e setores
conservadores, vem fazendo escolhas cada vez mais distantes da tradição
trabalhista e social-democrata que também ajudou a configurar sua identidade.
Esse movimento alcançou igualmente o Congresso Nacional. Na onda bolsonarista
de 2022, uma parcela expressiva do eleitorado gaúcho intensificou a escolha por
uma bancada federal majoritariamente identificada com a direita conservadora, a
exemplo de Osmar Terra (MDB), conhecido por defender teorias negacionistas da
Covid-19, e com a extrema direita bolsonarista, representada por Zucco e Marcel
van Hattem (Novo), político reacionário e adepto ferrenho do bolsonarismo, em
rota de colisão com as agendas ambiental e de saúde pública. Neste ano, Van
Hattem concorre ao mandato de senador, juntamente com a ex-deputada Manuela
D’Ávila (PSOL) e o deputado Paulo Pimenta (PT), duas grandes lideranças da
esquerda.
Já
Zucco, eleito originalmente pelo Republicanos, acabou migrando para o Partido
Liberal, de Jair Bolsonaro, no final de 2023. A mudança partidária não
representou uma ruptura, mas a explicitação de um alinhamento que sua atuação
parlamentar já vinha tornando evidente. Desde sua chegada à Câmara, sua atuação
esteve fortemente associada às pautas punitivistas, ao armamentismo e ao
confronto político com movimentos sociais. À frente da CPI do MST, em 2023,
transformou a comissão em uma das principais vitrines de sua atuação política,
explorando o conflito no campo e a criminalização dos movimentos sociais como
instrumentos de mobilização ideológica e de comunicação nas redes. O
encerramento da CPI do MST, em de setembro de 2023, sem sequer votar o
relatório de Ricardo Salles (PL), expôs a derrota da extrema direita
bolsonarista na Câmara e o fracasso da ofensiva contra o movimento.
O
avanço desse campo político, entretanto, não pode ser explicado apenas pela
ascensão de figuras declaradamente bolsonaristas da região Sul, como Zucco e
Marcel van Hattem. Ele resulta de uma transformação mais ampla no espectro
político do país, na qual a agenda progressista vem perdendo espaço para
diferentes vertentes da direita liberal e da extrema direita bolsonarista desde
o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff.
Nesse
horizonte obscurantista e ultraliberal, o Rio Grande do Sul já experimentou
primaveras de potentes políticas públicas que colocaram a participação popular,
a inclusão social e a presença do Estado no centro da administração. Hoje, vive
sob um inverno político marcado pelo ultraliberalismo econômico, pelo
enfraquecimento dos serviços públicos e pelo avanço conservador. Nessa
perspectiva, a eleição de 2026 será uma escolha sobre qual concepção de Estado
os gaúchos querem para os próximos anos, se um Estado condenado a prolongar um
rigoroso inverno submetido à lógica do mercado ou um Estado capaz de fazer
florescer novas primaveras na vida pública, recuperar sua capacidade de
planejar, reconstruir serviços essenciais e devolver ao povo o protagonismo nas
decisões que afetam sua própria vida.
Fonte:
Por Elisabeth Lopes, em Brasil 247

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