domingo, 12 de março de 2017

“Brasil, terra de contrastes”. Por Luiz Ruffato

Este poderia ser o enredo permanente para o desfile do Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos de Pindorama. Durante o carnaval, as ruas abarrotadas de foliões, de norte a sul, comprovaram o que a pesquisa do Barômetro Global de Otimismo, feita pelo Ibope Inteligência, em parceria com a Worldwide Independent Network of Market Research (WIN), já havia captado: somos um povo afortunado. O estudo mostra que 70% dos brasileiros se consideram felizes, 18% neutros e 11% infelizes – o que nos coloca como a quinta nação mais otimista do mundo, atrás apenas de Bangladesh, Gana, Costa do Marfim e Fiji.
Por outro lado, conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), 5,8% dos brasileiros sofrem de depressão, o maior índice da América Latina e o quinto maior do planeta. Além disso, segundo a mesma investigação, 9,3% da população possui algum tipo de transtorno de ansiedade – um número três vezes maior que a média mundial. A depressão, segundo a OMS, é a doença que mais contribui para a incapacitação pessoal e é a principal causa de morte por suicídio – 12 mil casos por ano, ou 32 por dia, no Brasil, que ocupa a 8ª posição no ranking mundial.
Análise da Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais (Flacso), intitulada Mapa da Violência – Os Jovens do Brasil, aponta que a taxa de suicídios de jovens entre 15 e 29 anos aumentou 42% de 2002 a 2012. O índice de suicídios nesta faixa etária é de 6,9 casos para cada 100 mil habitantes – apenas acidentes de trânsito matam mais pessoas neste grupo. E, curiosamente, ao contrário do que ocorre na maior parte do planeta, o número de suicídios nesta faixa etária no Brasil é maior entre homens (10,7 por 100 mil habitantes) que entre mulheres (2,6 por 100 mil habitantes).
E realmente não é fácil ser jovem no Brasil. Pesquisa conduzida pela Fundação Varkey, organização que apoia a capacitação de educadores, criadora do prêmio Global Teacher Prize, espécie de Nobel dos professores, mostra que apenas 16% dos jovens brasileiros (entre 15 e 21 anos) se sentem emocionalmente bem e somente 34% acreditam que o país é um bom lugar para se viver. Este índice de desmotivação é o maior entre os 20 países consultados no estudo “Geração Z: Pesquisa da Cidadania Global”, que mapeou as prioridades profissionais, valores pessoais e de cidadania de 20 mil jovens. O sentimento que definia a satisfação era o de não pensar demais nos próprios problemas, a ausência de ansiedade, não se sentir intimidado, nem rejeitado ou solitário.
Dados da Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (Pense), publicados no 10º Anuário de Segurança Pública, mostram que 50,8% dos alunos do nono ano do ensino fundamental (ou seja, que possuem entre 14 e 15 anos) estudam em escolas localizadas em bairros violentos -34,5% na rede privada e 53,5% na rede pública. O estudo, realizado por amostragem, levou em consideração 2,6 milhões de entrevistas com estudantes de todo o país, e concluiu que 14,8% não haviam comparecido à escola em algum dia do mês anterior à pesquisa por falta de segurança no trajeto ou na escola e 8,6% tinham sido as aulas suspensas por motivo de segurança pelo menos uma vez nos 12 meses anteriores à pesquisa.
E, se a falta de segurança acomete a população em geral, faz mais vítimas, certamente, entre os jovens. De acordo com o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), das 59.627 pessoas assassinadas em 2014, 31.419 tinham idade entre 15 e 29 anos, ou seja, 53% do total. Enquanto a taxa geral de homicídios no Brasil subiu de 26,5 para 29,1 mortes por 100 mil habitantes, entre 2004 e 2014, o índice entre jovens cresceu mais que o dobro, atingindo 61 assassinatos por 100 mil habitantes em 2014. Um relatório da Flacso, Violência Letal contra as Crianças e Adolescentes do Brasil, mostra que, em 2013, 29 crianças e adolescentes (de zero a 19 anos) foram assassinados por dia, em um total de 10.520 vítimas, sendo metade delas jovens na faixa etária de 16 a 17 anos. As armas de fogo estiveram presentes em 78,2% dos homicídios.

E ainda somos muito felizes!

“Caixa 2 e as 'verdades alternativas' do PSDB”. Por Jeferson Miola

O PSDB iniciou um movimento sincronizado para legalizar o caixa 2. A estratégia começou com o comunicado oficial de 3/3/2017, escrito e publicado por FHC para defender Aécio Neves da acusação de ter pedido – e recebido – R$ 9 milhões em caixa 2 da Odebrecht na eleição de 2014.
Desdizendo aquilo que dizia no passado, que “caixa 2 é um crime grave”, agora FHC passou a dizer que caixa 2 é apenas um “erro que precisa ser reconhecido, reparado ou punido”.
Para FHC, as denúncias de pagamento de propinas ao Aécio não passam de “verdades alternativas” usadas para a “desmoralização de pessoas” – sabe-se lá o que esta falácia significa.
Aécio Neves, encorajado pelo oráculo senil da Avenida Paulista, esbravejou: “abriremos espaço para um salvador da pátria? Não, é preciso salvar a política!” [sic]. Atrevido, desafiou o bom senso: “Um cara que ganhou dinheiro na Petrobras não pode ser considerado a mesma coisa que aquele que ganhou cem pratas para se eleger” – ora, as cifras conhecidas de cada uma das delações abafadas sobre Aécio ultrapassam as dezenas de milhões; ou seja, milhares de vezes mais as “cem pratas” ainda assim aceitas, porque um “pequenino crimezinho”.
Gilmar Mendes, o curimbaba do PSDB no STF e no TSE, em seguida seguiu o rastro do presidente de honra do seu PSDB para também socorrer Aécio.
Gilmar, que se pavoneia aos holofotes da mídia para acusar o PT do “crime hediondo de caixa 2”, agora entende que “o caixa 2 tem de ser desmistificado” [sic]. É compreensível: afinal, finalmente saíram algumas das denúncias que comprometem Aécio e toda a cleptocracia que tomou de assalto o Palácio do Planalto com o golpe de Estado.
Gilmar é radical, e quer mais. Além de “desmistificar o caixa 2”, ele quer modificar a lei eleitoral para permitir o retorno das doações privadas, feitas por empresas [o poder econômico] a campanhas, candidatos e partidos políticos – que é justamente o fator cancerígeno do sistema político brasileiro.
Isso será um passo gigantesco para a institucionalização da corrupção e para a captura definitiva do sistema político, do Estado de Direito e da democracia, pelo poder econômico.
O caixa 2 não é apenas um “erro que precisa ser reconhecido” ou algo a “ser desmistificado”, mas é o acobertamento, no mínimo, de crimes de sonegação fiscal e tributária, de corrupção e de lavagem de dinheiro das empresas capitalistas contra a economia popular.
Quando aceita pelos partidos políticos, o caixa 2 pode ser um disfarce para camuflar o crime do poder econômico sobre a consciência popular, que atinge o coração da democracia.
O financiamento público dos partidos, que no orçamento de 2017 corresponde a cerca de R$ 900 milhões no fundo partidário, é suficiente para o financiamento equilibrado das eleições de dois em dois anos que acontecem no país.
Os partidos não são sucursais de empresas. Para sustentarem seu funcionamento ordinário, devem instituir mecanismos próprios de financiamento junto aos seus filiados e simpatizantes, e não viverem da “ajuda” de empresas, das pessoas ricas ou do Estado.
No regime de exceção vivido no Brasil, as “verdades alternativas” de FHC e Gilmar Mendes têm chances consideráveis de converterem em “nova jurisprudência”.

É preciso, com urgência, pôr fim ao golpe e ao regime de exceção, sob pena do Brasil ter seu futuro comprometido pelos próximos 80 anos, que é a dimensão do abismo do retrocesso que a oligarquia golpista impôs ao país.

“O golpe jogou o Brasil na turbulência”. Por Emir Sader

O mundo entrou em um processo permanente de turbulência, pela combinação entre a decadência da hegemonia norte-americana no mundo e o esgotamento do modelo neoliberal. A combinação desses dois fenômenos leva a um processo de multiplicação dos epicentros de guerra no mundo, paralelamente à depressão econômica e a crise social que ela produz.
Já há tempos que a sensação de turbulência permanente se apossa da grande maioria dos países do mundo. O Brasil havia se colocado a salvo dessa turbulência, a partir do momento em que o país passou a adotar um modelo econômico antineoliberal e a desenvolver uma política externa de priorização dos processos de integração regional e de intercâmbio Sul-Sul.
Pudemos recuperar a capacidade de crescimento da economia, mesmo num marco internacional de estagnação, fomos capazes de contornar o primeiro fluxo da atual crise recessiva internacional. Mesmo num marco de aumento da desigualdade social, de intensificação da exclusão social, fomos capazes, junto com outros países da região, de diminuir significativamente a desigualdade.
Ficamos à margem dos efeitos mais duros das turbulências internacionais, tivemos os governos de maior estabilidade e apoio popular, ao contrário dos países que estavam sob a égide direta dos EUA e com modelos neoliberais. Basta mencionar, aqui mesmo na América Latina, o México e o Peru, com situação sociais muito graves e com governos que rapidamente perdiam todo apoio e eram derrotados nas suas sucessões.
O golpe que rompeu com a continuidade do processo democrático brasileiro jogou o país na turbulência internacional, com todas suas consequências dramáticas para dentro do nosso país. Adotou-se, contra a vontade da maioria dos brasileiros, o mesmo modelo que produz as turbulências econômicas e sociais na Europa e em tantos países da América Latina. Se desmonta a política externa que tinha permitido ao país se colocar ao abrigo das incertezas e dependências da dominação norte-americana, situação ainda mais grave com as novas turbulências promovidas nos EUA com o governo de Donald Trump.
O Brasil, sob a direção do governo golpista, escolhe o caminho errado. Ao invés de aprofundar as relações com os governos próximos da região, provoca conflitos com eles. Ao invés de aprofundar as relações com os Brics, com a China e com a Rússia, o país se distancia desse novo polo dinâmico da economia e da reorganização das relações políticas internacionais. Em lugar de construir proteções diante das turbulências econômicas e políticas internacionais, o governo golpista e suas desastradas políticas econômica e internacional, deixa o país indefeso, ao assumir a política econômica responsável pela recessão internacional e ao desmontar a política de alianças que nos protegia das convulsões do bloco sob direção dos EUA.
O Brasil passa a ser mais um país vítima da depressão econômica e da ausência de política internacional soberana. Os piores ventos recessivos e desestabilizadores que vem de fora, nos afetam da forma mais negativa possível. Ao invés de buscar as zonas mais dinâmicas economicamente para nos somarmos a elas, ao invés de atuarmos pela solução pacífica dos conflitos, nós os multiplicamos.

Temos assim um governo que fragiliza a estrutura econômica interna do país e sua inserção internacional. Um governo que está na contramão das correntes econômicas dinâmicas do mundo e dos centros estabilizadores e pacificadores no mundo. O Brasil só tem a perder com o retorno a esse modelo econômico predatório e essa situação internacional de absoluto isolamento. Regredimos para as políticas de ajuste, que não deram certo em nenhum lugar do mundo e a uma posição de intranscendência internacional em que ninguém respeitava o Brasil.

“A corrupção é ruim, mas a ditadura é pior”. Por Alex Solnik

A lista do material escolar. A lista do supermercado. A lista telefônica. A lista de Furnas. A lista das promessas de início de ano. A lista dos presentes de fim de ano.
A lista de Janot é mais uma que se incorporou à lista das listas brasileiras.
Embora ele já tenha demonstrado ser um especialista em listas e em criar clima de suspense, suas listas costumam ser anunciadas com muito estardalhaço, mas de prático não ocorre nada.
Dão sempre a sensação de que a montanha pariu um rato. Os processos dos listados nunca chegam ao final, deixando os brasileiros sem saber se eles são culpados ou inocentes. Desconfia-se que muitos ou até a maioria o sejam. Mas, da desconfiança à sentença final leva-se anos-luz.
Então para que serve a lista de Janot?
Uma das coisas estranhas dessas delações da Odebrecht ou ao menos dos trechos vazados para a imprensa é que dá a impressão que a empreiteira distribuía dinheiro a rodo, mais de 3 bilhões, segundo as últimas estatísticas, e não recebia nada em troca.
O que se lê nos jornais e se vê na TV é que tal político recebeu tantos milhões, em tais e tais circunstâncias, de tal e de tal forma. Mas nunca nos informam o que a empreiteira recebeu em troca. Distribuiu 3 bilhões e lucrou quanto com esse investimento? No que?
Não dá para acreditar que, numa estrutura tão organizada como a da Odebrecht não houvesse uma planilha referente às contrapartidas, do tipo: demos tantos milhões para Fulano e ele nos vai retribuir com contrato de tantos bilhões em tal situação. Essa informação é fundamental para a população poder separar o joio do trigo, caso haja trigo nesse joio.
No início da Lava Jato, com as delações dos ex-diretores da Petrobrás, Paulo Roberto Costa e Pedro Barusco, dava para entender o que acontecia: eles distribuíam porcentagens de contratos bilionários a representantes de partidos que os apoiavam nos cargos, principalmente PMDB e PP. (O diretor que supostamente seria o canal com o PT continua preso, mas ainda não virou delator.)
Agora, no terceiro ano da operação, a confusão é total. Não se sabe mais quem fez o que, quando, onde, como e por que. A classe política é desmoralizada (ou desmorolizada) por inteiro.
É uma onda que cresce e se retroalimenta mas que deixa margem a algumas preocupações em relação às eleições de 2018: algum candidato sobreviverá à guerra contra os políticos? Poderá haver eleição sem candidatos?
Para a imprensa está sendo ótimo. Todo dia tem uma bomba, uma denúncia, uma mordomia do Sergio Cabral, a negação de habeas corpus ao Eike Batista, mais uma pressão sobre Lula. Isso vende jornal.
A questão é: aonde vai nos levar mais essa onda moralista (ou morolista, como diz minha mulher), uma de tantas que já foram promovidas neste país usando como fachada uma suposta moralização?
Por mais defeitos que tenham nossos políticos não existe democracia sem eles. Regime sem políticos chama-se ditadura, cuja expressão mais notória foi o Estado Novo de Getúlio Vargas, que criou a ditadura sem partidos nem políticos. A corrupção é uma merda, mas a ditadura é pior. Mesmo porque, na ditadura, a corrupção continua, mas fica escondida.
Diminuir a corrupção num país é um processo que leva décadas, leva gerações e exige a elaboração de um programa complexo, que começa na educação das crianças e passa por várias instâncias; um tratamento de choque, como esse proposto pela Lava Jato tende a radicalizar o processo político e jogar a população contra a classe política, sem informá-la que sem políticos é o caos.
A maneira civilizada de quebrar o círculo vicioso da corrupção não é colocar “todos os corruptos na cadeia”, não é promover a malhação de Judas, não é prender e arrebentar e sim promover um amplo programa de educação nacional, efetivo, contínuo, determinado, envolvendo instâncias nacional estadual e municipal, empresas privadas, todos os meios de comunicação a fim de que as pessoas, num futuro breve, em cargos públicos, eletivos ou não, não deixem de “roubar” o estado por medo de prisão e sim por estarem convictas de que assim prejudicam toda a sociedade, inclusive a eles próprios.
Na ditadura de 64, alguns políticos foram cassados corretamente, como o então governador de São Paulo, Adhemar de Barros, por corrupção, mas a esmagadora maioria foi cassada por motivos políticos, com o intuito de eliminar a esquerda da politica.
A Lava Jato repete a mesma experiência, que já sabemos onde e como acaba.

A corrupção é ruim, mas a ditadura é pior.

“É racional parar de dialogar”. Por Vladimir Safatle

Faz parte de uma certa leitura hegemônica da vida social moderna a ideia de que a razão se realiza necessariamente na vida social por meio da consolidação de um horizonte de diálogo.
Assim, uma sociedade cujas instituições e práticas são racionais seria necessariamente capaz de regular seus conflitos a partir da capacidade de exigir dos sujeitos a explicitação de suas razões para agir e a avaliação de tais ações a partir da procura do melhor argumento. Ou seja, a razão nos permitiria orientar nossas ações a partir do consenso possível produzido pela procura do melhor argumento.
Uma posição como esta, no entanto, só pode produzir niilismo e violência. Pode parecer paradoxal afirmar que a organização dos conflitos a partir da expectativa de diálogo produza necessariamente niilismo e violência, afinal aprendemos que o diálogo é exatamente o inverso da violência, que ele é seu melhor antídoto. Mas talvez devamos assumir que há uma violência implícita no diálogo.
O filósofo francês Jacques Derrida lembrava, com propriedade, que não há nada mais violento do que dizer: "posso ouvir suas considerações, posso levar em conta o que você tem a dizer, mas desde que você fale a minha língua".
Esta "minha língua" não é exatamente a língua que falo agora, mas algo mais determinante, a saber, o conjunto de valores, a gramática que organiza minha sintaxe, a compreensão do que é um enunciado válido ou não.
Para dialogar é necessário pressupor uma gramática comum. Mais do que isto. É necessário pressupor que todos os conflitos e todas as posições conflitantes farão sempre referência à mesma gramática comum.
No entanto, talvez o problema esteja exatamente neste ponto. Pois e se boa parte de nossos conflitos visassem exatamente mostrar que não há uma gramática comum no interior da vida social? Que quando nos digladiamos a respeito do que significa "liberdade", "justiça" não temos uma gramática comum na qual nos apoiarmos, pois estamos ligados, pois somos legatários de experiências históricas muito distintas?
Nossas sociedades não são só momentaneamente antagônicas. Não estamos simplesmente divididos e voltaremos a nos unir assim que as paixões se arrefecerem. Nossas sociedades são estruturalmente antagônicas e a divisão é sua verdade. Pois julgamos a partir da adesão a formas de vida e o que nos distingue são formas diferente de vida. Não queremos as mesmas coisas, não temos as mesmas histórias.
Neste ponto, há os que dirão que esta é a maior prova de que precisamos de sociedades baseadas no respeito a diferença. Sendo sociedades antagônicas, devemos neutralizar os combates e construir uma forma de convivência entre as diferenças.
Mas o que fazer quando temos aqueles que defendem a tortura, que exaltam ditaduras militares (e, por favor, que não venha pela enésima vez dizer: "mas, e Cuba?".
Há muitos de esquerda que não compactuam com regimes degenerados como o cubano) ou que naturalizam a espoliação social das mulheres? Há de se respeitar esta "diferença"? Mas você realmente acredita que podemos resolver tais diferenças por meio do diálogo?
Neste ponto, seria importante lembrar que nem todos os modos de circulação da linguagem se resumem ao diálogo e à comunicação.
A palavra que circula na experiência estética do poema, na experiência analítica da clínica e mesmo nas conversões de toda ordem não argumenta nem comunica. Ela instaura, ela mobiliza novos afetos e desativa antigos, ela reconstrói identificações, em suma, ela persuade com uma persuasão que não se resume a explicitação de argumentos, e isto vale também para os verdadeiros embates políticos.
O que nos falta não é diálogo, mas encontrar a palavra nesta sua força instauradora.

Triste é a sociedade que vê nesta persuasão a explosão da irracionalidade, pois ela conhece apenas um conceito de razão baseado em dicotomias que remetem, ao fim, a distinção metafísica entre o corpo e a alma. Um conceito pré-pascaliano de razão. Pois há de se lembrar de Pascal, para quem: "o coração conhece razões que a razão desconhece". A frase foi muito usada e gasta, mas a ideia era precisa. Compreender circuitos de afetos não é calar a razão, mas ampliá-la.

“O que está em jogo na ‘economia verde’?” Por Amyra El Khalili

Às vésperas da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável– Rio+20 (2012), fomos abordados por uma avalanche vinda dos ativistas internacionais que denunciavam os perigos da “economia verde” tão propalada pela mídia e pelas grandes Ongs ambientalistas, com a anuência de políticos ideologicamente alinhados, tanto com a direita quanto com a esquerda, neste continente latinoamericano-caribenho.
A economia verde se apresentou como uma alternativa para solucionar os problemas socioambientais, como o combate à pobreza, às desigualdades e à degradação ambiental, sendo posta, nas convenções das instituições, como meta dos Objetivos do Milênio no programa da ONU, pelo Banco Mundial, pela Organização dos Estados Americanos (OEA), entre outros, nos mais diversos setores da economia, supostamente admitida (a economia verde) como consenso resultante (era o que diziam) de amplo debate com a sociedade, transformando-se, portanto, em fato consumado.
No entanto, a “economia verde” não se limita a incluir as variáveis ambientais no debate político-econômico. Ela vem como um pacote forjado pelo setor financeiro, arrastando em seu bojo, evidentemente ajustado aos seus interesses, inúmeras iniciativas e propostas que partiram da base excluída dos grandes centros de decisão e das reuniões destas mesmas instituições, que contaram com uma ilegítima representação de mesmos políticos e seus parceiros nos megaprojetos de infraestruturas responsáveis pelos impactos ambientais nas regiões de onde partiram as propostas dos/as que desafiam diuturnamente o status quo com seu direito de existir.
Importantes propostas discutidas por anos de trabalho junto às mais diversas comunidades que constituíram, por exemplo, os comitês de bacias hidrográficas, como a “cobrança pelo uso da água”, foram postas no mesmo pacote do que chamam “pagamento por serviços ambientais”.
O setor do agronegócio e empresarial utiliza os recursos naturais (água, energia e minério) mediante outorga (concessão de exploração) como insumo para produzir bens e serviços, enquanto a proposta elaborada pelos comitês de bacias hidrográficas, “cobrança pelo uso da água”, está sendo incluída neste pacote financeiro, sem a devida explicação do que significa “assinar” um contrato com uma claúsula  específica sobre  “Pagamentos por Serviços Ambientais” ou mesmo esclarecer o que está implícito quando se utiliza essa expressão.
Desde sempre, a nossa participação no debate sobre instrumentos econômicos e financeiros foi pautada pela didática e por esclarecimentos. Sempre expusemos claramente nas discussões os riscos e as necessidades de avançar na direção de um novo modelo econômico para a América Latina e o Caribe, com propostas que vinham da base e dos rincões mais distantes dos centros urbanos, enquanto os políticos e lobistas debatiam as suas propostas em fóruns realizados em hotéis de luxo, regados a badalados coquetéis com solidariedade corporativa entre pares.
Valendo-se de conceitos confusos, de posições políticas dúbias, mas com sofisticada engenharia financeira a respeito da equação terra e bens comuns, os recursos naturais estratégicos engrossaram os negócios da geopolítica internacional (nossa velha conhecida), como mais um incremento de guerras (muitas vezes promovidas pelos próprios governantes), tudo em defesa da democracia e da paz na América Latina, na Ásia, no Oriente Médio, na África.
Esta questão, pelo tanto que é de espinhosa, requer coragem para o devido enfrentamento. Ela nos impõe relembrar a história sangrenta com que foram instaladas as forças políticas na América Latina e no Caribe, o colonialismo, a escravidão. Lamentável e lastimavelmente, também nos obriga a olhar a situação das/os irmãs e irmãos refugiadas/os, imagem que incomoda, ocupando quase que diariamente os noticiários, assim como os ocupam de fundamentalistas que se alimentam do ciclo vicioso da indiferença.
A pesquisa investigativa “Valoração Econômica e Pagamento por Serviços Ambientais – Reconhecimento do Valor da Natureza ou Atribuição de Preço à Destruição da Natureza?, da bióloga e ativista Jutta Kill, faz uma análise acurada e nos dá esclarecimentos fundamentados com argumentos técnico-operacionais (de execução) e jurídicos de como se deu a implementação destes “experimentos” com base no princípio da economia verde nos países do norte, e suas consequências tanto lá quanto cá.
Neste trabalho, fica claro que estamos diante de um problema de ordem ética e moral mais complexo e bem distante das falsas soluções que se impõem por força do comodismo da despolitização e da falta de interesse. Esta última, é a que tranquilamente assim se justifica:  “Se não entendo do assunto, não quero saber”.
Se quisermos sair do atoleiro em que nossa civilização contemporânea se meteu, é melhor começar a saber e a entender.
Gente disposta a pesquisar, a esclarecer e a orientar, comprometida com a democratização da informação, não falta nem nunca faltou. Aliás, como nos chama a atenção o cientista e ativista Carlos A. Lungarzzo:
“[…] O despertar das mulheres, coincidindo com uma das maiores crises internacionais do capitalismo, pode ser a esperança de uma nova etapa, desta vez pacífica, que não renuncie à igualdade (e, portanto, à desaparição das classes), mas encare os problemas imediatos. Esta seria uma Novíssima Esquerda, ou, melhor, uma segunda fase da “Nova Esquerda”. Nada garante seu sucesso, mas sua chance é maior que a dos movimentos violentos que só beneficiam os traficantes de armas, e que produziram milhões de mortos na África, na Ásia e na América Latina.

Não podemos esperar que os grupos que hoje mobilizam dúzias de trilhões de dólares sejam definitivamente derrotados. Até que isso aconteça, se acontecer, bilhões de crianças, índios, negros, refugiados, mulheres e pobres esperam uma reação das forças esclarecidas deste planeta, que, acreditemos ou não, existem.

“Pauta trabalhista será caso de polícia?” Por Leonardo Sakamoto

Uma das funções das leis trabalhistas e das instituições que zelam pela sua aplicação e equilíbrio, como a Justiça do Trabalho e o Ministério Público do Trabalho, é mediar a relação entre as pessoas que vendem sua mão de obra e as empresas e governos que as compram. O sistema não é perfeito, claro, mas tem contribuído para garantir um mínimo de dignidade nas relações de trabalho.
Se essas leis fossem reduzidas a pó e essas instituições perdessem força, como desejam parte dos parlamentares, o que impediria a superexploração de pessoas pobres até o limite de suas forças sob a eterna chantagem do ''não está feliz, vá embora porque há quem trabalhe só por comida''? E, por outro lado, o que impediria que trabalhadores que acreditam estar sendo superexplorados, ao invés de começarem uma greve, partissem para a justiça com as próprias mãos?
É interessante que o presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia (DEM-RJ) que, em tese, representa o povo e é responsável pela proposição de leis para que nossa sociedade viva da forma mais harmoniosa possível, considerando as contradições inerentes ao capitalismo, queira um cenário com menos regras e sem instituições para vigiar o cumprimento das regras que sobrarem. Isso fica claro tanto por sua desastrosa declaração de que o Judiciário trabalhista nem deveria existir e pelas pesadas críticas à CLT, culpando-a, inclusive, por desemprego em massa.
Será que Maia e amigos gostariam de ver uma luta de classes ao pé da letra com o mais forte levando a melhor? Pois apesar do que acreditam algumas pessoas com graves problemas de interpretação de texto, ''luta de classes'' não é ringue de boxe de pobre e rico, mas uma expressão que explica uma dinâmica social, política, econômica e ideológica entre quem detém os meios de produção e quem neles trabalha.
Duas conjecturas a partir desse questionamento:
– Rodrigo Maia e amigos desejam, saudosos do início do século 20, que as reivindicações trabalhistas voltem a ser tratadas como um caso de polícia. Ou seja, parou de trabalhar e reclamou? O pau vai comer.
– Rodrigo Maia e amigos são revolucionários anarco-sindicalistas e querem derrotar o Estado para que os trabalhadores possam, através da autogestão e da democracia direta, governarem a si mesmos. Ou seja, seremos livres quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre.
Desconfio que não é a segunda.
Em 1886, uma greve geral começou no dia Primeiro de Maio em Chicago, nos Estados Unidos, exigindo a redução da jornada de trabalho para oito horas por dia. Isso acabou em tragédia, com manifestantes e policiais mortos e sindicalistas condenados (injustamente) à morte. Nos anos seguintes, a data foi escolhida para ser um dia de luta por condições melhores de trabalho. Menos nos Estados Unidos, em que o Labor Day é na primeira segunda-feira de setembro.
Quem visita a cidade norte-americana, encontra uma frase gravada em um monumento: ''Chegará o dia em que o nosso silêncio será mais poderoso do que as vozes que vocês estrangularam hoje''.
Só o trabalho gera riqueza. E o silêncio de trabalhadores, que se reconhecem como tais, percebem a injustiça que, muitas vezes, recai sobre eles e resolvem cruzar os braços, não apenas aumentou salários ao longo do tempo, mas já ajudou a derrubar regimes, a democratizar países, a mudar o rumo da história.
Um dos mais importantes direitos mediados pela Justiça do Trabalho é o direito à greve – que é visto como heresia por parte do mercado e de seus representantes políticos.
Aliás, em qualquer cidade grande brasileira, temos relatos de trabalhadores em greve que ainda apanham, levam tiros e respiram gás. Manifestações que questionam a desigualdade e a injustiça social tendem a ser reprimidas pela força pública. São vistas como subversivas. As ''ordeiras'', que não mexem com a estrutura econômica e social do país, são aplaudidas pelos governantes de plantão.
A vida já é difícil com alguém mediando o regulamentado direito à greve. Imagine como seria o vácuo disso. Quem decidiria se uma greve é legal ou não? O comandando do Batalhão de Choque da Polícia Militar?
O Brasil está correndo a passos largos para rasgar sua legislação trabalhista. E há políticos e empresários que se esforçam para deslegitimar o sistema do judiciário trabalhista. Se a ampliação da terceirização não significasse redução de direitos, por exemplo, não estariam tentando te convencer tão arduamente de que isso é melhor para você e para o país.
Todos os direitos que temos hoje não foram dados por alguém de forma milagrosa, mas são fruto de lutas brasileiras ou internacionais de gerações. E consequência de muita mediação entre patrões e empregados sob o monitoramento da Justiça e do Ministério Público. É função dos governantes fazer parecer que foram eles que, generosamente, concederam. E função da história dos vencedores registrar isso como fato.
Temos diversas formas de silêncio. O poder não está no silêncio das bocas fechadas que aceitam as coisas como elas são porque acreditam que nada pode mudar e que ficam felizes se ganharam uma TV do sindicato no feriado ou porque tiveram acesso ao próprio FGTS.
Mas dos braços parados que se negam a produzir riqueza quando um diálogo aberto e franco com os empregadores seja estabelecido.
Quem é contra as instituições que possibilitam esse diálogo acredita que o silêncio é libertador. Mas de outra forma, através da repetição incansável do temerário mantra ''não fale em crise, trabalhe''.

Escondem o fato de que, sem leis e sem Justiça, o que temos é a mais completa barbárie.

“Impacto das reformas trabalhistas no mundo”. Por Clemente Ganz Lúcio

No Brasil, iniciativas dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário visam à promoção de mudanças nas regras e normas trabalhistas, o que trará grande impacto sobre o sistema de relações de trabalho, as formas de contratação, a jornada de trabalho, a remuneração, as condições de trabalho, os sistemas de negociação coletiva, o direito de greve, a organização e o financiamento sindical. Já está em debate no Congresso o amplo e perverso projeto de reforma da Seguridade e Previdência Social, depois de ter sido aprovada a mudança constitucional e legislativa que congela os gastos públicos em termos reais por vinte anos.
Essas reformas se processam em um ambiente e no contexto de uma das mais profundas crises econômicas que o país já viveu, com severo aumento do desemprego e de grave crise fiscal. As reformas mencionadas são justificadas como necessárias para recuperar a competitividade da economia, reduzir o custo do trabalho, flexibilizar a capacidade de inciativa das empresas, recuperar os empregos, modernizar a legislação e o sistema de relações de trabalho, além de gerar equilíbrio fiscal.
Nesse início de semestre (2017), encontra-se em debate no Congresso Nacional o Projeto de Lei no 6.787, encaminhado pelo Executivo, que altera as regras referentes ao trabalho em tempo parcial; define a representação dos trabalhadores no local de trabalho, eleição e funções; afirma o incentivo à negociação coletiva em vários temas, como férias anuais, jornada de trabalho, participação nos lucros e resultados, horas “in itinere”, intervalo intrajornada, ultratividade, Programa Seguro-Emprego, plano de cargos e salários, regulamento empresarial, banco de horas, trabalho remoto, remuneração por produtividade, registro da jornada de trabalho; e redefine trabalho temporário.
Segundo levantamento realizado pelo relator da reforma trabalhista, deputado Rogério Marinho (PSDB-RN), tramitam no Congresso Nacional cerca de 2.300 projetos que se relacionam com diversas questões do mundo do trabalho e da organização sindical. Nesse momento se destaca a retomada do processo de regulamentação do direito à terceirização – relação entre empresas, que terá repercussão sobre a vida dos trabalhadores e a representação sindical. Na pauta quase imediata também está o direito de negociação e de greve para os servidores públicos, além de inúmeras outras questões tratadas em diversas comissões. De outra parte ainda, o Supremo Tribunal Federal vem editando sentenças com repercussão geral, como no caso da ultratividade, da contribuição sindical, entre outras.
Essas inciativas estão em sintonia com a grande mobilização de reformas trabalhistas implementadas em mais de uma centena de países, desde o início da crise econômica, cujo ápice foi em 2008. A queda do nível de atividade produtiva, a recessão, o desemprego, a crise fiscal, entre outros, são problemas vivenciados por quase todo o mundo, enfrentados por muitos países com planos que incluíram uma agenda de reformas sociais e laborais.
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) publicou um estudo1, produzido pelos pesquisadores Dragos Adascalieti e Clemente Pignatti Morano, sobre reformas legislativas laborais e de mercado de trabalho em 110 países, promovidas no período de 2008 a 2014. A pesquisa atualiza investigações anteriores, bem como faz comparações com estudos do Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
O fundamento comum observado nas diversas inciativas de reformas, no contexto da grave crise e da estagnação econômica com desemprego, foi o de aumentar a competitividade das economias ou criar postos de trabalho.
Nos países desenvolvidos predominam iniciativas para reformar a legislação do mercado de trabalho no que se refere aos contratos permanentes. Já nos países em desenvolvimento, observaram ênfase maior em reformas das instituições da negociação coletiva. As duas dimensões estão presentes, com maior ou menor intensidade, na maioria dos projetos de reforma implementados. Outra observação geral indica que a maioria das reformas diminuiu o nível de regulamentação existente e teve caráter definitivo. Foram analisadas 642 mudanças nos sistemas laborais em 110 países. Em 55% dos casos, as reformas visaram reduzir a proteção ao emprego, atingindo toda a população, tinham caráter permanente, produzindo uma mudança de longo prazo na regulamentação do mercado de trabalho no mundo.
As altas e crescentes taxas de desemprego formam o contexto que criou o ambiente para catalisar as iniciativas de reformas e disputar a opinião da sociedade sobre elas. De outro lado, os resultados encontrados no estudo não indicam que as reformas de redução ou aumento da regulação do mercado de trabalho tenham gerado efeitos ou promovido mudanças na situação do desemprego.
Vale prestar muita atenção ao fato de o estudo indicar que mudanças como essas na legislação trabalhista, realizadas em período de crise e que visam reduzir a proteção, aumentam a taxa de desemprego no curto prazo. Ademais, não se observou nenhum efeito estatístico relevante quando essas mudanças foram implementadas em períodos de estabilidade ou expansão da atividade econômica. Mais grave ainda, as reformas “liberalizadoras”, que facilitam o processo de demissão, tenderam a gerar aumento do desemprego no curto prazo. Esses resultados são corroborados por outros estudos produzidos pelo FMI e pela OCDE (2016).
Do total de reformas, destacam-se aquelas que diminuem os níveis de regulação, das quais: 74% trataram de jornada de trabalho, 65% de contratos de trabalho temporário, 62% de demissões coletivas, 59% de contratos permanentes, 46% de negociações coletivas e 28% de outras formas de emprego.
Depois de longo período sem debater, de maneira sistemática, medidas de reformas trabalhistas e sindicais, uma grande agenda de mudanças se impõe por inciativa dos três poderes no Brasil. O sistema de relações de trabalho e organização sindical merece permanente e cuidadoso processo de aprimoramento, o que se pode denominar de reforma, ou seja, mudanças que busquem melhorar e modernizar.
De outro lado, promover a geração de empregos é um dos principais objetivos da política econômica, e a legislação deve criar um marco regulatório que aperfeiçoe a segurança no emprego e favoreça a criação de mais e melhores postos de trabalho.
Para pensar e debater as reformas e as mudanças no sistema de relações de trabalho, que deveriam ser orientadas para o fortalecimento dos sindicatos como instrumento de representação do interesse coletivo, devem ser observadas algumas diretrizes orientadoras, que norteiam a intervenção sindical:
• Incentivar o diálogo e as soluções compartilhadas;
• Valorizar e incentivar a negociação coletiva em todos os níveis (chão da empresa, local, setorial e nacional);
• Fortalecer a representatividade sindical desde o local de trabalho;
• Promover a solução ágil de conflitos;
• Assegurar segurança jurídica aos trabalhadores e empregadores (privados e públicos);
• Orientar a harmonia e complementariedade entre o legislado e o negociado;
• Favorecer aprimoramentos e/ou mudanças de processos, procedimentos e organização com caráter voluntário e incentivo para a adesão das partes.
O sistema de relações do trabalho tem vínculos profundos com as demais políticas e instituições, bem como as reformas que o modernizam podem ser alavancadoras de novo patamar de desenvolvimento. É preciso aproveitar a crise para gerar a mais rápida transição para o crescimento, destravando obstáculos que têm impedido a retomada da economia. Mas mudanças precisam fortalecer a negociação e o diálogo de organizações representativas, em um ambiente institucional que valorize a solução dos conflitos pelas partes e que seja capaz de criar compromissos com o interesse geral da sociedade, elementos que atuam para favorecer e promover o desenvolvimento do país.


* Clemente Ganz Lúcio é diretor técnico do Dieese.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

A alegoria do turbante no Carnaval de racismo. Por Joanna Burigo

“É Carnaval, é a doce ilusão, é promessa de vida no meu coração.”

Assim começa um dos mais conhecidos sambas-enredo da Mangueira, de 1992, quando a escola homenageou Jobim. Mas o tema deste texto não é Tom, nem a Estação Primeira ou sequer o Carnaval, e se menciono a efeméride é tão somente por oportunismo sazonal, como metalinguagem a partir da qual viso direcionar este argumento.
Alegorias, no contexto carnavalesco, são representações feitas por meio de adereços ou ornamentações que servem para ilustrar os enredos das escolas de samba.
Em 2007, o tema da Unidos da Tijuca foi fotografia, e um dos carros alegóricos da escola trazia a figura de um diabo, que certos povos acreditam ser ladrão de almas fotografadas.
O carro pegou fogo em pleno desfile das campeãs daquele ano, e a interpretação supersticiosa do incêndio sugere que foi a representação do diabo o que gerou o inferno temporário.
Mas nem o fogo assegura que o diabo representado seja de fato um diabo, e não deixa de ser uma coincidência irônica que a falha mecânica que o causou tenha acontecido justamente naquele carro. Se o incêndio tivesse ocorrido em qualquer outro, a interpretação supersticiosa talvez nem existisse, visto que o que a engendrou foi o signo “diabo”.
Escrevi sobre este fato para exemplificar a separação que existe entre um objeto real, material e concreto, sua existência e usos enquanto signo, e os significados atrelados a tudo isso. No caso do diabo, excepcionalmente, não posso afirmar que ele exista real, material e concretamente; mas é facilmente constatável que diabos existem como signos, visto que representações diabólicas abundam.
Estes signos – meras imagens do diabo – evocam desde a presença do mal até indiferença pura e simples, dependendo das interpretações de quem os vê. O diabo pode ou não existir, mas não está em questão a existência de signos o representando, nem que eles servem de alegorias para um sem-fim de interpretações distintas, seja almas roubadas, piromania ou danação eterna.
Na lógica e na linguística, alegorias são figuras da retórica, dispositivos cuja função é possibilitar que uma coisa denote outra. Alegorias podem ser entendidas como signos que transmitem significados outros que não o literal, ou original, atribuídos a ele.
Assim, podemos pensar em alegorias como a utilização de certos signos enquanto símbolos de significados para aquém e além de significações preexistentes.
Venho ensaiando versões deste mesmo texto desde o começo do mês, quando uma altercação entre amigas me pôs a pensar nas formas com que estruturas sociais afetam as relações de foro íntimo, onde opressão e sofrimento são frequentemente disputados como se fossem equivalentes (geralmente por quem não passa por experiências da opressão em debate).
É fácil conceber que desafetos entre amigos não necessariamente se deem a partir de um ato descaradamente opressor. Mas eles acontecem bastante, e bastante por conta de ruídos interpretativos em relação aos signos que carregam os significados referentes à opressão em debate.
Estes signos são frequentemente trazidos para discussões como alegorias da opressão em debate. Estas alegorias não são a opressão em si, mas sim exemplos da miríade de formas com que ela se apresenta para quem não tem escolha a não ser lidar com ela.
Logo depois disso o que pegou fogo foi a Internet, com discussões sobre um turbante. As altercações produzidas online sobre o tema me instigaram ainda mais a pensar sobre as formas com que certos signos viram alegorias para disputas que se dão a partir de não equivalências sobre seus significados – por vezes resistência a opressões estruturais; por outras, direitos individuais.
Tanto na altercação privada entre amigas quanto na pública, minha impressão é que desafetos foram causados porque os debates estavam acontecendo em “frequências” diferentes. Os significados dos signos que serviram como alegoria para ilustrar a opressão, e assim situar o debate, eram diferentes para as partes envolvidas.
A opressão não é a alegoria; a alegoria ilustra a opressão. Infelizmente as opressões estruturais e estruturantes da sociedade também estruturam nossos pensamentos e modos de ação. Isso acaba por fazer com que os significados de certos signos alegóricos de uma opressão específica não sejam compartilhados de formas equânimes entre as pessoas que sofrem e as que não sofrem com ela.
Acredito que quem não sofre uma opressão estrutural específica deve fazer maior esforço para compreender os significados dos signos que servem como alegoria para que quem dela sofra possa melhor explica-la. Esse esforço pode ser feito por meio de uma atitude – que, ao que tudo indica, parece ser menos simples do que é: a escuta.
Não é a primeira vez que o turbante, objeto do vestuário cujo signo tem múltiplos significados oriundos de diversos tempos e culturas, serviu de alegoria para discussões acerca de apropriação cultural e lugar de fala – e também sobre privilégios, violências, ditames, proibições, moralismo e as armadilhas da linguagem e do inconsciente.
Em respeito à leitora e às pessoas que tratam destes temas com mais propriedade e competência do que eu, este texto não se debruça em nenhum deles, e serve apenas como registro de observações das formas com que estes conceitos foram disputados a partir do turbante como alegoria.
Formas estas que foram amplamente discutidas em detrimento da significação da alegoria do turbante, nesta discussão, por parte daquelas para quem ele tem fortes significados políticos e sacrossantos, que era: racismo.
Outro exemplo – e este também um item de indumentária usado como alegoria para debates acirrados na internet, quando uma opressão estrutural foi confundida com direitos individuais – foi o caso do shortinho.
Em 2016 alunas de uma escola particular de Porto Alegre fizeram uma petição pelo direito ao uso de shorts em sala de aula. Na época o fato foi vastamente discutido com ignorância, empáfia e viés moralizante, afinal escola não é lugar para contendas sobre comprimento de roupas.
O que parece ter escapado – ou jamais entrado? – na mente de vários comentaristas era que a petição das gurias denunciava os dois pesos e duas medidas com que proibições acerca de roupas afetam a liberdade dependendo do gênero das pessoas.
Para muita gente, roupas curtas são signos que significam disponibilidade sexual. O feminismo sustenta que o único signo que significa disponibilidade sexual é o consentimento. O debate, portanto, nunca foi sobre o shortinho, mas sim sobre o que ele representa.
O shortinho da petição serviu como alegoria para a discussão sobre a autonomia de vestir o que quiser sem abrir precedentes para violência sexual. O turbante, de alegoria para a discussão sobre a autonomia de usar o que quiser sem abrir precedentes para violência racial.
É difícil imaginar que quem não sofre violência sexual por causa de certas roupas vá fazer um manifesto pelo direito de usa-las. Ainda assim, um manifesto pelo direito de usar turbantes por parte de quem não sofre violência racial por causa dele foi estrela de discussões online no mês de fevereiro.
Um factoide gerado no Facebook por uma mulher branca foi rapidamente captado por um veículo da grande mídia, hegemonicamente branca, e promoveu discussões ocas, porém não inócuas, entre muita gente branca.
A ficção de mulheres negras interpelando uma mulher branca para exigir que esta removesse o adereço – que usava por conta do tratamento para sua leucemia nada ficcional – na internet tomou caráter de verdade absoluta, e abriu comportas para uma verdadeira enxurrada de posições racistas – e pior: por parte de gente que, além de nem usar turbantes, sabe muito pouco sobre seus significados.
Racismo e machismo são parecidos no seu caráter estrutural. Onde há homens, há disparidade de gênero em detrimento das mulheres. Onde há brancos, há disparidade racial em detrimento dos negros. É incontestável que a sociedade é machista e racista, e pouca gente não admite isso. Por que então insistimos tanto em disputar o que é ou não racismo e machismo justamente com as pessoas que sofrem racismo e machismo?
Reclamar de críticas estruturais a partir da própria interpretação, sem entender nem a crítica nem a estrutura, faz parecer que o que as pessoas não admitem é quando apontamos o machismo e o racismo delas.
Aceitar que podemos ser machistas ou racistas não é sabotar as lutas feministas e antirracistas, mas sim reconhecer que estas opressões estruturais são formativas, e que somente podemos escapar da nossa condição de perpetuadores delas se as enxergarmos.
Para conseguir entender, é preciso estar disposto a ouvir. Para aprender, é preciso considerar que há algo a ser ensinado. Quando se trata de um conhecimento que não se tem, procura-se quem detenha aquele conhecimento. Quando se trata de uma experiência que não se tem, busca-se quem tenha aquela experiência.
No caso do feminismo e da luta antirracista, é impressionante a velocidade com que se deslegitima tanto quem tem a experiência quanto quem tem o conhecimento sobre estas opressões – mesmo quando uma mesma pessoa congrega as duas coisas, o que não é raro.
Passado o “carnaval” de racismo feito em cima do turbante como alegoria, fica esperança de que a promessa que guardo no coração, de maior entendimento acerca de opressões estruturais a partir do conhecimento que existe sobre o tema, não seja apenas doce ilusão.

E para que debates futuros não virem folia, que nos perguntemos: como reagimos quando apontam nossos preconceitos?

O mito do 'investidor estrangeiro'. Por André Araújo

Alan Greenspan, o "maestro" do Federal Reserve System por 18 anos, passava horas na banheira lendo estatísticas da economia real: geladeiras, iogurte, pneus, caminhões, pão de hambúrguer, todos dados da vida das pessoas lhe interessam. Tinha especial fixação por telhados, quantos telhados  foram vendidos na semana (nos EUA a construção se faz por conjuntos e não por peças). Era por estes indicadores que Greenspan tirava o pulso da economia que importava. Greenspan, que está com 90 anos, proporcionou o maior período contínuo de prosperidade dos EUA no pós-guerra, embora lhe atribuam culpa da crise de 2008, decorrência exatamente do excesso de confiança nessa prosperidade longa demais.
No Brasil, no oceano de ignorância sobre economia que domina a grande mídia, os únicos indicadores valorizados são os de câmbio e bolsa. Os comentaristas da Globonews são os mais rasos, para eles a economia se resume em câmbio e bolsa e, nesta última, o que interessa é o mítico "investidor estrangeiro". O padrão se repete em outras mídias, como a Jovem Pan, onde sua comentarista só conhece câmbio e bolsa, a economia se resume nisso. Na Globonews o comentarista  Donny di Nuccio, a qualquer observação sobre economia, replica "Ah, mas a bolsa subiu". Pronto, esta é para eles TODA a economia.  Na FOLHA de 19 de fevereiro de 2017, pag. A 23, um artigo "Mercado especula melhor nota do Brasil" mostra  esse viés de considerar o mercado financeiro como único indicador da economia brasileira.
No passado longínquo do início da mídia econômica no Brasil, com o jornal Observador Econômico e Financeiro, a revista BANAS, os temas eram a produção de café, de cana, de aço, de cimento, de tijolos, de telhas, cacau, de sisal, de construção de rodovias, usinas, aeroportos, havia comentaristas especializados em agropecuária, como Mario Mazzei Guimarães, comentava-se com detalhes e atenção a produção de carne e de leite, de tubos de ferro e de concreto para saneamento, de tecidos de algodão, de farinha de trigo. Economia é isso e o Brasil só crescerá quando esses fatores voltarem a ser o centro da economia como foram nos anos, em que o Brasil cresceu e se tornou a 5ª economia do mundo, saindo de um País essencialmente agrícola para um país industrial no pós-guerra.
A partir do Plano Real e com o domínio dos "economistas de mercado" sobre a política econômica, fixou-se que a única coisa que faz andar a economia é a bolsa e, nesta, o "investidor estrangeiro", se ele não aparecer  afunda a economia, se ele trouxer dinheiro para cá, está tudo indo bem na economia  Esse mítico "investidor " é o único que os "economistas de mercado" conhecem, os fundos de investimento estrangeiros tipo BlackRock, Fidelity, Templeton que operam no Brasil via parceiros daqui e com isso garantem empregos para alguns desses "economistas de mercado",  eles são as únicas fontes de informação da mídia conservadora, que é quase toda a imprensa, rádio e tv.
Ao usar exclusivamente essa régua, os comentaristas esquecem da enorme "economia real" do País, onde está o crescimento, o emprego, a produção e o dinamismo do processo que faz as famílias sobreviverem e ter perspectivas de futuro para seus filhos.
Ao comentar câmbio e bolsa, os comentaristas da mídia oficialista tampouco aprofundam a informação. O dólar está caindo quando devia subir? Porque? Onde está a análise? Nunca vi nesses comentaristas qualquer menção ao centro do problema do câmbio, a política cambial do Banco Central, que é a de intervenção "suja" (não declarada)  e que em 2016 foi o motivo central para a derrubada do dólar, a um custo estratosférico, só no primeiro semestre de 2016 os swaps cambiais deram perda de R$ 207 bilhões ao Banco Central, mais que todo o déficit do orçamento federal que os "economistas de mercado" consideram o maior problema do Brasil. Sobre esse custo monumental nunca ouvi um mísero comentário dos jornalistas de economia da grande mídia, em primeiro lugar porque não correlacionam cotação do dólar com política cambial e, em segundo, se conhecem o "background" não convém comentar porque isso seria uma crítica ao Banco Central, que eles respeitam como o Vaticano da moeda, infalível e inatingível.
Não comentam, ou só falam marginalmente, do "carry trade", dinheiro emprestado nos EUA a 2% ao ano e aplicado aqui em títulos do Tesouro a 13%, além do lucro do diferencial de juros. Desde que começou a gestão da atual equipe econômica, esse tipo de especuladores levou para casa também o lucro cambial fantástico, dólar que entra a 3,60 e volta a 3,10 graças à generosidade do Banco Central, mas quem e porque comanda este espetáculo? Aguardam-se análises dos comentaristas da grande imprensa. Muita coisa que circula no mercado por alguma razão a imprensa não reporta e são fatos importantes da economia.
Além da atuação catastrófica do Banco Central para empurrar o dólar para baixo visando "trazer a inflação para o centro da meta" há outro personagem que os comentaristas da Globonews veneram: o "investidor estrangeiro". Quem é ele?
O "investidor estrangeiro" é o mesmo personagem mítico que na Itália devastada pela miséria no imediato pós-guerra via no "turista americano". Nos escombros de Nápoles, um "turista americano" era visto como salvador do almoço do dia. A mesma cafonice impera na fala dos comentaristas ignorantes de hoje. Veem no "investidor estrangeiro" a salvação do Brasil sem realmente saber que é esse Mandrake que é tão reverenciado como fiel da balança da nossa estagnada economia.
O "investidor estrangeiro" de hoje, adorado pela Globonews, é um fundo especulativo da pior espécie que entra e sai da bolsa e das apostas em juros e índices, é o mais destrutivo tipo, o mais deletério, o mais inútil dos personagens em uma economia em desintegração de seus reais fatores de crescimento, o investimento privado nacional das pequenas e médias empresas que anseiam por crescer e que tem hoje tais limitações que muitas definham e morrem, para essas o BNDES abre linhas de crédito que só uma carta de fiança do Banco Rothschild pode atender em termos de garantia, higidez de balanço e certidões fiscais.
Tampouco chama a atenção a falta do fundamental investimento público, primeira vítima do ajuste fiscal "à outrance" e cuja falta é uma das causas da recessão.
 Fundos abutres e especulativos cujo modelo universal é o padrão Soros (Quantum Fund) são hoje o arroz com feijão da bolsa brasileira, é para eles que se pratica toda política cambial, não é para o exportador de soja, de frango e de carne bovina, o alvo a agradar é o fundo especulativo de Nova York, fundos esses que produziram 49 bilionários na lista da revista FORBES, que vivem exclusivamente de especulação e o Brasil é um dos seus territórios preferidos porque garante saída livre sem questionamentos, o capital entra e sai como um turista do Carnaval carioca. Uma porta rotatória que gira sem parar.
Quando entra o "investidor estrangeiro" fundo especulativo, soltam rojões, mas quando sai "boca fechada", não é noticia. O mercado de câmbio no Brasil é inteiramente livre, entra e sai como e quando quiser, o investimento financeiro pode sair no mesmo dia em que seus donos decidem, bastam cliques de botão de computador. Já o investimento produtivo, em fábricas, não pode sair rápido e fácil, é preciso vender os ativos, fazer caixa para depois remeter, isso leva meses ou anos. Então o investimento produtivo é sólido, é o que interessa ao País, por isso a separação conceitual entre o financeiro e o produtivo é fundamental, nada disso é sequer de leve noticiado e muito menos analisado. A conexão do "sistema" Banco Central + mercado financeiro (uma coisa só) é exclusivo com Wall Street e não com os polos de economia produtiva dos grandes países.
O "investimento direto no Pais" IDP, tratado com tapete vermelho, quem é ele?
Quase todo IDP que chega é para COMPRA de empresas no Brasil, não é para novas fábricas, usinas ou shoppings. A razão? Como a economia está em recessão, causada pela política monetária recessiva do BC, o preço dos ativos no Brasil caiu muito, os empresários nacionais estão vendendo suas empresas e negócios,  além de venda de concessões, privatizações e demais ativos, muitas vezes para pagar dívidas, como os das empreiteiras alvos da Lava Jato, que estão vendendo bens acumulados ao longo de décadas. O BC e seus porta vozes na mídia comemoram essas entradas que têm um efeito econômico perverso, esses IDP serão base futura de remessas de dividendos e lucros, o chamado PASSIVO EXTERNO do País, soma dos IDP mais dívida externa pública e privada mais contratos de leasing que são outra forma de passivo. O estoque registrado no BC já chega perto de  UM TRILHÃO DE DÓLARES, um valor tão grande como o da dívida pública interna, todo esse passivo exige serviço de juros, dividendos, lucros ou parcelas de leasing, uma hipoteca sobre o País que exige cada vez divisas para remessas.
A conta de "serviços" está ficando perigosamente alta e nela estão as remessas de juros, dividendos, leasing e royalties. Em 2016, todo o saldo da balança comercial, US$ 45 bilhões, não foi suficiente para pagar as remessas, ainda faltaram US$ 24 bilhões, que foram cobertos pelas entradas do  investimento direto, mas isso significa vender a casa para pagar o almoço. O IDP entra e forma base de novas remessas futuras e o valor dele é gasto para sempre, estamos trocando ativos do País por despesas que nunca mais voltam, quando entra o IDP tudo é festa mas depois ele serve de motor para novas remessas eternas.
Ao contrário do período pré-Plano Real, o BC não informa ao público, embora sejam números disponíveis para especialistas, qual é o passivo externo, qual é a dívida pública externa e a dívida privada externa do País. NINGUÉM COMENTA esses dados cruciais, muito mais importantes do que quanto gasta turista no exterior no mês, dado de escassa relevância a não ser para mostrar que o dólar está barato demais e está sendo esbanjado nos outlets de Miami.
O que importa são DADOS MACRO do passivo externo, que ninguém comenta e são esses o dados importantes e não números pontuais mensais disto ou daquilo.
A dívida externa pública, que inclui Petrobras, BNDES e Banco do Brasil e as demais estatais, mesmo sem garantia formal, a divida externa de estatal implica em responsabilidade implícita da União, a dívida pública privada também afeta o risco País pois se um grande banco ou corporação privada deixa de pagar um compromisso de imediato acende luz vermelha sobre todo o risco País, hoje a DÍVIDA EXTERNA PRIVADA é considerável, são esses os dados cruciais da economia MACRO e não o que os brazucas gastam em Miami em Janeiro ou o que os estrangeiros gastam aqui no Carnaval, temas muito comentados em toda a mídia como se isso fosse de enorme importância.
E o exemplo dos dólares da China para pagar a compra da CPFL e da ENEL italiana para pagar a compra da CELG,  entradas recentes, não geram um único emprego no Brasil, ao contrário, quem compra geralmente faz um enxugamento no quadro do pessoal. Mais ainda, essas compras exigirão remessas já em 2018, um ativo que até então não gerava gasto externo de divisas, agora passa a ser fonte de remessa.
Tampouco se informa o RETORNO de capital investido, só o que entra, pode até haver déficit na conta de investimentos do exterior, o que não se explicita para chamar a atenção apenas para a entrada e não para a saída de capital com o intuito de demonstrar a "confiança na política econômica", operação que conta com toda a colaboração da mídia apoiadora da máxima  "o que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde". Sem essa visão global não vale nada dizer o que entrou em Janeiro.
Para mostrar a montanha de equívocos que se informa a população, a agência Fitch, uma das três agencias globais de rating, já anunciou que pode rebaixar a nota do Brasil, que já está dois graus abaixo do nivel de investimento, "porque a economia não cresce". Isso é revelador! E não adianta desqualificar as agências, quando deram grau de investimento se soltaram rojões na Av.Faria Lima em SP e na Rua Dias Ferreira no Leblon, catedrais dos "economistas de mercado" e suas gestoras de fortunas, a "turma da bolsa".
A Standard & Poor´s também mantém o viés negativo, não se impressionam com resultados mensais. Com todas as vitórias cantadas em prosa e verso pela mídia mistificadora como porta voz da equipe econômica, as agências não se deixam enganar, "onde está o crescimento?" As agências têm um olhar de longo prazo sobre a estabilidade do País, uma mega recessão com enorme desemprego mostra instabilidade política e social futura ou o BC acha que só tratar da inflação é suficiente?
Todo esse foco no "investidor estrangeiro" quase 100% de fundos e não de empresas da produção é um vício inacreditável da mídia brasileira. Porque não se interessam no crescimento ou fechamento das milhares de médias empresas do interior, são essas que realmente empregam gente, que geram riqueza sólida, que dão lastro à economia e que podem tirar o pais da recessão, não é o fundo BlackRock e nem o fundo Templeton, esses compram ações velhas que acham baratas visando vendê-las daqui a seis meses e levar o lucro de volta, não criam um mísero emprego e nem tem essa vocação.
Boa parte do investimento que entra é especulativo, a economia não cresce, o PIB de 2016 vai registrar queda de, 4,3%, em cima de 3,8% de 2015, não adianta as vanglórias do BC, podem enganar os daqui mas não engana os de fora. O Brasil não cresce por causa da política recessiva do BC, para as agências de rating não adianta nada "a inflação no centro da meta", se outros fatores centrais da economia indicam problemas de maior dificuldade de solução com a retração do PIB e o altíssimo desemprego, maior entre todos os países BRIC.
O que vale é crescimento com ou sem inflação, esse é o valor real do mundo real, fora das planilhas, é o crescimento que atrai capital ótimo e dinamizador, aliado do País a longo prazo.
O investidor que secularmente fez o crescimento brasileiro não é o estrangeiro. O Brasil se desenvolveu realmente de 1930 até 1980, 50 anos, quando o crescimento médio  foi o maior do mundo entre todos os países. O Brasil cresceu pelo seus empreendedores que construíram fábricas, mesmo com inflação e déficits enormes do orçamento federal, nasceram linhas de ônibus interestaduais, fazendas de café, cana, soja, gado, armazéns beneficiadores de grãos, empresas engarrafadoras de gás de cozinha, fábricas de doces, de bebidas, de massas, retíficas de motores, indústrias mecânicas, de material elétrico, fiação e tecelagem de algodão, de seda, cerâmicas, olarias, fábricas de enxadas e arados,  sem falar do imenso parque automotivo,  que inclui tratores, do parque de bens de capital, foi daí que surgiu o crescimento e os empregos do Brasil, de suas grandes empreiteiras que fizeram o maior parque hidroelétrico do mundo, da Petrobras em expansão permanente de 1955 a 1990.
O capital estrangeiro foi sempre subsidiário, importante mas nunca o eixo da economia brasileira, me referindo ao capital de produção, o capital financeiro, esse que a mídia gosta, jamais foi bom para o Brasil, aliás foi um aspirador de dinheiro para fora do Brasil.
Hoje a mídia econômica se esfrega nesse "investidor estrangeiro", roupa dentro da qual se disfarçam também muitos brasileiros que usam pessoas jurídicas de paraísos fiscais para ter maior proteção para seu capital aqui, portanto parte desse "investidor estrangeiro" é brasileiro disfarçado, um fato perfeitamente conhecido do mercado mas que a mídia tradicional jamais menciona, talvez porque alguns de seus personagens se enquadram no modelo.
A coluna econômica da grande imprensa só terá algum valor quando seus comentaristas começarem a falar de tijolos e azulejos, de produção de leite, de venda de pneus e de sapatos, esquecendo a miséria intelectual de "câmbio e bolsa" que vale tanto como palpite de jogo de futebol de 3ª divisão e principalmente quando deixarem de ser meras correias de transmissão de mensagens do boletim Focus e de suas "bocas de varal", os "economistas de mercado" sempre à disposição para entrevistas, do meio dia à meia noite, repetindo os mesmos bordões acríticos e dentro de uma cartilha ensaiada.
Uma nova cruzada do Ministro da Fazenda para se viabilizar como candidato à Presidência em 2018 espalha a noção de que "a recessão acabou" (entrevista de 22/02/2017 na Globonews) o que é um delírio, uma recessão de três anos não acaba em um mês, faltou avisar as 12 milhões de famílias dos desempregados que já podem ir correndo fazer compras de novas Tvs. Uma recessão acaba quando o desemprego cai de 12% para 5% e não há sinal algum de que isso esteja ocorrendo, MERCADO FINANCEIRO não é balizador de começo ou fim de recessão e é esse o único que o Ministro da Fazenda conhece, mas parece que parece que o Ministro está conseguindo convencer alguns jornalistas de que sua fantasia é real, mesmo com os índices de popularidade do Governo em níveis baixíssimos.

O debate de economia no Brasil precisa sair dos blogs corajosos e entrar na mídia tradicional, economia é hoje o fenômeno mais importante da vida da população que tem o direito de ser melhor informada sobre a realidade e não ouvir  narrativas montadas sobre o nada.