“Não
há do que se desculpar”: Globo reafirma seu compromisso com a Lava Jato e
insulta os brasileiros
O jornal O Globo publicou neste domingo (30)
um editorial em resposta à cobrança feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da
Silva durante sua sabatina na emissora. Lula havia afirmado que a Globo deveria
se desculpar pelo papel desempenhado na cobertura da Lava Jato, especialmente
pela difusão da célebre apresentação em PowerPoint do então procurador Deltan
Dallagnol, usada para apresentar o petista como centro de uma organização
criminosa. A resposta do jornal veio em tom categórico: “não há do que se desculpar”.
A
afirmação é uma afronta à memória recente do País.
Não se
trata de defender que a imprensa deveria ter ignorado denúncias de corrupção,
escondido investigações ou deixado de informar sobre crimes comprovados. O
próprio Lula já reconheceu publicamente que houve corrupção e afirmou que
aqueles contra os quais existem provas devem ser responsabilizados. A questão é
outra: o jornalismo pode alegar que simplesmente “informou os fatos” depois de
ter participado da construção de uma atmosfera pública em que acusações foram
frequentemente tratadas como condenações e em que a Lava Jato foi apresentada
durante anos como uma espécie de cruzada moral acima de qualquer crítica?
A Globo
responde que sim. E é precisamente aí que seu editorial se torna tão revelador.
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O PowerPoint que simbolizou uma época
A
apresentação de Dallagnol tornou-se um dos símbolos dos excessos da Lava Jato.
Nela, o nome de Lula aparecia no centro de uma teia de acusações, em uma
exposição pública que teve enorme repercussão nacional.
Aquele
espetáculo midiático ajudou a consolidar perante milhões de brasileiros uma
conclusão antes do julgamento: Lula seria culpado.
O
problema é que a história posterior desmontou pilares essenciais daquela
narrativa.
As
condenações de Lula foram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal. Em 2021, o
STF concluiu que os processos não deveriam ter sido julgados pela Justiça
Federal de Curitiba. A Corte também reconheceu a parcialidade de Sergio Moro no
processo do tríplex.
Lula
recuperou seus direitos políticos depois de passar 580 dias preso, voltou à
presidência, salvou o Brasil do fascismo bolsonarista e deu aos brasileiros a
menor taxa de desemprego da história.
Diante
de fatos dessa magnitude, a resposta “não há do que se desculpar” não
representa apenas uma defesa corporativa. Representa a recusa em fazer uma
reflexão crítica sobre um dos períodos mais traumáticos da história
institucional brasileira recente.
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Moro deixou a magistratura para integrar o governo beneficiado pela prisão de
Lula
Há
ainda um fato político impossível de apagar.
Sergio
Moro condenou Lula. A condenação confirmada em segunda instância impediu o
petista de disputar a eleição presidencial de 2018. Jair Bolsonaro venceu
aquela eleição. Pouco depois, Moro abandonou a magistratura e aceitou ser
ministro da Justiça do governo Bolsonaro.
Posteriormente,
o STF declarou Moro parcial no julgamento de Lula.
É
difícil imaginar sequência de acontecimentos mais relevante para uma reflexão
jornalística sobre o período.
Um
veículo de comunicação não precisava prever, no início da operação, tudo o que
seria revelado anos depois. Jornalismo não é adivinhação. Mas justamente por
isso existe a possibilidade — e a obrigação profissional — de revisar
criticamente a própria atuação quando fatos novos demonstram que instituições,
autoridades e personagens apresentados ao público sob determinada perspectiva
não eram aquilo que pareciam ser.
Reconhecer
isso não seria fraqueza. Seria jornalismo.
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A Globo sempre foi parte do processo
O
argumento de que jornalistas não poderiam saber antecipadamente o que ocorria
nos bastidores da Lava Jato também não encerra a discussão.
O
jornalismo existe precisamente para desconfiar do poder.
Não
deveria importar se esse poder está no Palácio do Planalto, numa grande
empresa, no Ministério Público ou sentado atrás da mesa de um juiz.
Quando
investigadores e magistrados adquirem dimensão de celebridades, quando
coletivas de imprensa assumem a forma de espetáculos, quando acusações passam a
ocupar muito mais espaço do que os argumentos das defesas e quando vazamentos
selecionados influenciam diariamente a agenda política, o papel da imprensa
deveria ser aumentar seu grau de escrutínio, não reduzi-lo.
As
revelações posteriores sobre as relações entre integrantes da força-tarefa e
Sergio Moro tornaram ainda mais necessária essa revisão histórica.
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A Lava Jato não aconteceu apenas dentro dos tribunais
Há
outro aspecto que o editorial da Globo não pode simplesmente varrer para
debaixo do tapete: a dimensão econômica do desastre.
A Lava
Jato poderia ter combatido a corrupção preservando empresas, empregos,
conhecimento tecnológico e capacidade produtiva nacional.
Não foi
esse o caminho escolhido.
Grandes
construtoras brasileiras foram devastadas. Empresas que haviam acumulado
durante décadas engenharia, tecnologia, capacidade de execução e presença
internacional foram reduzidas drasticamente, entraram em recuperação judicial
ou praticamente desapareceram como protagonistas globais.
Milhares
de fornecedores foram atingidos. Cadeias produtivas inteiras sofreram. Projetos
foram interrompidos. Investimentos desapareceram. Trabalhadores perderam seus
empregos.
A
destruição não ficou restrita aos acionistas ou executivos investigados. A
conta chegou às famílias brasileiras.
Combater
empresários acusados de crimes não exigia destruir empresas brasileiras. Países
que levam a sério seus interesses nacionais punem pessoas físicas responsáveis
por ilegalidades, aplicam multas, reformam sistemas de governança e preservam
ativos estratégicos e empregos.
No
Brasil, optou-se por uma devastação que contribuiu para aprofundar uma das mais
graves crises econômicas de nossa história recente.
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Milhões pagaram uma conta que não era deles
A Lava
Jato coincidiu com — e contribuiu para agravar — um período de recessão,
retração brutal do investimento e desemprego em massa.
O setor
de construção pesada, que empregava enormes contingentes de trabalhadores e
projetava empresas brasileiras internacionalmente, nunca voltou ao patamar
anterior.
O
resultado social foi devastador.
Milhões
de brasileiros perderam empregos em meio à crise econômica. Famílias perderam
renda. A pobreza voltou a crescer. Investimentos públicos e privados foram
paralisados. A capacidade de grandes empresas nacionais competirem
internacionalmente foi profundamente afetada.
Nada
disso significa que corrupção deveria ter sido tolerada.
Significa
exatamente o contrário: um Estado responsável deve punir corruptos sem destruir
a economia do próprio país.
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E quem pede desculpas pelos 580 dias?
O caso
de Lula torna essa discussão ainda mais incontornável.
O homem
apresentado diariamente como símbolo máximo da corrupção nacional passou 580
dias preso. Depois, suas condenações foram anuladas e o Supremo reconheceu a
parcialidade do juiz em um dos processos.
Lula
não pôde disputar a eleição de 2018.
Moro,
que o condenou, tornou-se ministro do principal beneficiário político de sua
ausência daquela eleição.
Depois
de tudo isso, afirmar que “não há do que se desculpar” exige uma impressionante
ausência de autocrítica.
A Globo
não condenou Lula juridicamente. Evidentemente não foi a emissora que assinou a
ordem de prisão. Mas grandes organizações jornalísticas possuem poder. Elas
selecionam fatos, estabelecem prioridades, constroem enquadramentos e ajudam a
determinar quais personagens terão credibilidade perante a opinião pública.
Quanto
maior o poder, maior deveria ser a disposição para examinar os próprios erros.
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Admitir excessos não significa negar a corrupção
O
editorial procura estabelecer uma falsa escolha: ou se reconhece a legitimidade
da cobertura da Lava Jato ou se nega que tenha existido corrupção.
Uma
coisa não tem relação necessária com a outra.
Houve
casos de corrupção, confissões, devoluções de dinheiro e crimes comprovados. O
próprio Lula já reconheceu isso publicamente. Em 2019, ainda preso, defendeu
que tudo aquilo que tivesse sido corretamente investigado e comprovado deveria
resultar em condenação.
O que
está em discussão é se, em nome do combate à corrupção, foram atropeladas
garantias, destruídas empresas, eliminados empregos, interferido o processo
político e transformadas autoridades judiciais em protagonistas de uma campanha
moral permanente.
Hoje
sabemos que Moro foi considerado parcial pelo STF.
Sabemos
que as condenações de Lula foram anuladas.
Sabemos
que Lula ficou 580 dias na prisão.
Sabemos
que foi impedido de disputar a eleição de 2018.
E
sabemos que o juiz que o condenou abandonou a magistratura para integrar o
governo que emergiu daquela eleição.
Esses
são fatos históricos.
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Um pedido de desculpas seria um gesto de grandeza
A Globo
poderia reconhecer que errou em momentos importantes da cobertura sem renunciar
a seu papel jornalístico.
Poderia
dizer que acertou ao investigar determinados fatos e errou ao conferir
credibilidade excessiva a determinados personagens.
Poderia
reconhecer que o PowerPoint de Dallagnol deveria ter sido tratado com muito
mais ceticismo.
Poderia
admitir que a cobertura frequentemente transformou procedimentos judiciais em
espetáculos políticos.
Poderia
refletir sobre as consequências econômicas e institucionais da Lava Jato.
Poderia,
sobretudo, reconhecer que os fatos revelados posteriormente obrigam qualquer
organização jornalística séria a revisitar criticamente aquele período.
Preferiu
dizer: “não há do que se desculpar”.
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A história já julgou parte da Lava Jato
O
editorial deste domingo pretende transformar a ausência de autocrítica em
defesa do jornalismo. Produz o efeito contrário.
Jornalismo
não significa jamais admitir erros.
Jornalismo
significa compromisso com os fatos, inclusive quando os fatos posteriores
desmentem certezas anteriores.
Lula
passou 580 dias preso. Suas condenações foram anuladas. Sergio Moro foi
declarado parcial no caso do tríplex. O mesmo Moro tornou-se ministro de Jair
Bolsonaro depois da eleição da qual Lula foi afastado.
A Lava
Jato deixou ainda um enorme rastro econômico e social, atingindo empresas,
investimentos, empregos e a capacidade produtiva brasileira.
Diante
dessa história, a frase “não há do que se desculpar” não ofende apenas Lula.
Insulta
a inteligência dos brasileiros que viveram aquele período, assistiram à
destruição econômica e institucional produzida em nome de uma suposta cruzada
moral e, anos depois, conheceram fatos que lançaram uma luz completamente
diferente sobre seus principais protagonistas.
A Globo
pode defender sua cobertura, mas não pode reescrever a história.
E a
história da Lava Jato já não cabe no PowerPoint que um dia ajudou a apresentar
ao Brasil como se fosse a verdade definitiva.
Fonte:
Brasil 247

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