Lula
e Trump: entre a crise e a negociação
Após
semanas de tensão entre Brasil e Estados Unidos, o presidente Lula conversou
por telefone com Donald Trump na última sexta-feira, 21 de agosto. A ligação,
que durou mais de uma hora e meia, teve dentro dos principais temas as atuais
medidas envolvendo a segurança pública e economia, e também as acusações contra
autoridades brasileiras. Segundo nota do Governo Federal, a conversa foi para
retomada de um novo canal de diálogo e de negociações entre os países.
Em
entrevista ao Pauta Pública, gravada no mesmo dia da ligação, Celso Amorim,
chefe da Assessoria Especial do Presidente da República, reforçou que a
conversa teve um tom positivo, que não se limitou aos temas bilaterais, mas
reforçaram o compromisso de cooperação sem a necessidade de interferências dos
EUA nas questões nacionais. “O presidente Lula e o presidente Trump fizeram a
nuvem, agora as equipes técnicas têm que fazer chover”, afirma Amorim.
Na
entrevista com Andrea Dip, ele analisa o resultado da conversa, comenta as
medidas adotadas pelo governo norte-americano e os desafios das negociações
comerciais. Ele também fala sobre as pressões geopolíticas sobre o Brasil e a
necessidade de fortalecer a defesa e a independência do país na área industrial
e militar. “Diante desse mundo, é como uma apólice de seguro. É evidente que
você prefere que não aconteça nada, mas você tem que estar preparado se
acontecer.”
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Leia os principais pontos da conversa:
• Quais foram os principais temas tratados
no telefonema entre Lula e Trump? Qual era o clima e qual seu balanço sobre
essa conversa?
O
balanço da conversa é o mais positivo possível. Eu acho que os dois presidentes
tiveram uma conversa muito respeitosa, com muita empatia. O presidente Lula não
se limitou a temas bilaterais, ele falou de temas globais, e o presidente Trump
se estendeu em colocar a posição dele, mostrar qual é a visão dele de mediação
e o papel que os Estados Unidos têm realizado, o que pode ser feito. O
presidente Lula enfatizou a importância do Conselho de Segurança, um lugar onde
as grandes potências que podem decidir têm que conversar.
Em
geral, dentro do clima desse espírito brasileiro de que, quando possível,
sempre coopera para a paz, mas tendo clareza de que os cinco membros
permanentes do Conselho de Segurança da ONU [China, Estados Unidos, França,
Reino Unido e Rússia] têm uma responsabilidade primária nisso. E, obviamente,
os Estados Unidos, como ainda é a maior potência do mundo, têm uma
responsabilidade especial.[…] Na parte bilateral, os temas que foram tratados
são os que estão na nota oficial, não houve nenhum tema diferente.
Os dois
temas principais foram o comércio e a cooperação no combate ao crime
organizado, que as equipes se reúnam, voltem a se reunir e trabalhar. O
presidente Lula descreveu um pouco o que nós temos feito aqui. E, digamos, foi
crítico da medida americana comercial, claramente, que os motivos não
correspondiam à realidade.
O
presidente Trump não contestou, não posso dizer também se concordou, mas ele
concordou com a importância de voltar a conversar e preparar as equipes para
isso. Então, o clima foi muito bom. Eu acho que o que se espera de uma conversa
entre chefes de Estado é isso, é criar o clima e depois as equipes têm que
encontrar a solução. Às vezes, as equipes são mais difíceis do que os
governantes, mas isso é um problema para mais tarde.
• O senhor avalia as ações tomadas pelo
governo Trump, em relação ao Brasil, como ilegais ou inconstitucionais?
Constitucionais
segundo a Constituição dos Estados Unidos eu não posso julgar. A Suprema Corte
americana já fez isso no passado em relação à primeira onda de tarifaço. Enfim,
eu sempre me lembro do primeiro encontro – não o primeiríssimo, porque o primeiro
foi antes da posse – mas o primeiro encontro do presidente Lula com o
presidente Bush na Casa Branca, no Salão Oval, quando o presidente Lula entrou,
o presidente Bush disse assim, “olha, nós temos diferenças, nós vamos tratar
daquilo que nos aproxima.”
Enfim,
eu achei que o clima foi um pouco também esse, sem necessariamente falar em
diferença, mas que é muito respeitoso da parte do presidente Trump. As
colocações que nós fizemos, muito interessado em discutir e apresentar a
posição norte-americana sobre temas globais. Eu acho muito respeito por um
estadista, que o presidente Lula é, não é qualquer pessoa que liga para o
presidente dos Estados Unidos. Eu tenho muita vivência nisso, quem liga para o
presidente dos Estados Unidos e fala sobre a guerra no Irã, por exemplo, e ele
se dá ao trabalho de explicar as posições dos Estados Unidos? Agora, eu tinha
um chefe, que era ministro do exterior muitos anos atrás, ele dizia que “a
gente faz a nuvem, agora a gente não pode fazer chover.” Então, o presidente Lula
e o presidente Trump fizeram a nuvem, agora as equipes técnicas têm que fazer
chover.
• Vários analistas veem um aumento
constante das pressões dos Estados Unidos sobre o Brasil por acesso a recursos
nos próximos anos e para conter a influência da China, independente de ser um
governo republicano ou democrata. Alguns até pensam na possibilidade de uma
escalada militar envolvendo o Brasil pela sua importância geopolítica na nova
economia. Como fugir dessa encruzilhada?
O
Brasil, como um país grande que é, tem que tratar da sua defesa. Nós temos que
trabalhar nessa conversa. Nós conversamos com todos e torcemos, e se pudermos
vamos colaborar para que eles tenham uma relação pacífica entre si. Isso não é
bom só para o Brasil, isso é bom para o mundo. Diante desse mundo, é como uma
apólice de seguro. É evidente que você prefere que não aconteça nada, mas você
tem que estar preparado se acontecer. Eu fui ministro da Defesa, como você
sabe, e naquela época fizemos investimentos importantes, entre eles o Gripen
[aeronave supersônica], mas a Comissão da Verdade foi o tema dominante. Então,
as atenções se voltavam mais para isso, mas eu acho que nós temos que dar uma
grande importância à defesa nacional.
Isso
pode envolver cooperação com outros países, mas tem que envolver também um grau
forte de independência na área industrial ou militar. Isso eu acho que é
fundamental. Não é para atacar ninguém, não, mas é que se alguém quiser nos
atacar, tem que pensar duas vezes. A questão é a seguinte: não é que você vai
ganhar uma guerra contra o país A ou contra o país B, que tem bomba atômica,
etc. É que você tem que ser capaz de causar um dano que seja suficiente para
ele pensar duas vezes antes de te atacar. Senão, você fica dominado a priori.
• Trump anuncia medida contra monopólio da
carne após críticas a empresas brasileiras. Por Isabella Menon
O
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta sexta-feira (28) que
prepara medidas para permitir que agricultores e pecuaristas processem a
própria produção, em uma nova ofensiva contra a concentração do setor de carnes
no país — setor que tem entre seus principais atores duas empresas de origem
brasileira.
O
anúncio ocorre dois dias depois de Trump afirmar em um podcast que existe um
monopólio no processamento de carne bovina nos Estados Unidos e pouco mais de
duas semanas após seu conselheiro comercial, Peter Navarro, acusar quatro
grandes empresas do setor de formar um cartel.
“Há,
essencialmente, quatro delas, um número nada competitivo, e elas tornam
horrível a vida dos nossos maravilhosos agricultores e pecuaristas”, escreveu
Trump nesta sexta-feira, sem citar nominalmente as companhias.
O
movimento também ocorre na esteira da disparada dos preços de proteínas de
origem animal nos Estados Unidos e da redução do rebanho. Um quilo de carne
moída chegou a US$ 6,759 (R$ 35,10) em janeiro deste ano, de acordo com o
Federal Reserve Economic Data, um aumento de 18% em comparação com o ano
passado.
Em
números oficiais, a inflação da carne foi de 9,4% nos 12 meses encerrados em
julho, segundo o índice de preços ao consumidor divulgado pelo Departamento do
Trabalho.
As
quatro maiores processadoras de carne bovina nos Estados Unidos são JBS, Tyson
Foods, Cargill e National Beef e, juntas, controlam cerca de 85% do mercado.
Duas têm ligação com o Brasil: a JBS tem origem brasileira, enquanto a National
Beef é controlada pela MBRF. A reportagem procurou ambas as empresas por meio
da assessoria de imprensa por volta das 19h, mas não obteve retorno até a
publicação deste texto.
Trump
afirmou que parte significativa da propriedade das grandes processadoras está
fora dos Estados Unidos e disse ter autorizado a preparação de documentos
jurídicos para que produtores tenham “o direito de processar seus próprios
alimentos”. O presidente não detalhou quais regras pretende alterar.
A
secretária da Agricultura, Brooke Rollins, afirmou que o governo prepara uma
série de anúncios a partir de segunda-feira (31) para fortalecer produtores e
pequenos processadores de carne, incluindo redução de burocracia no
processamento, ampliação das vendas entre estados, revogação de orientações
consideradas ultrapassadas, além de financiamento e desregulamentação para
pequenos processadores.
A
iniciativa dá continuidade a uma discussão iniciada publicamente nesta semana
durante uma entrevista de Trump ao apresentador conservador Glenn Beck. Dono de
um rancho, Beck disse ao presidente que as regras federais dificultavam que
pecuaristas processassem os próprios animais e que isso os tornava dependentes
das grandes companhias.
Trump
respondeu que analisaria se havia regulamentação excessiva no setor.
A
legislação impede que pecuaristas comercializem carne de animais abatidos e
processados por eles próprios sem inspeção federal, embora existam exceções. A
fiscalização é realizada pelo Serviço de Inspeção e Segurança Alimentar do
Departamento de Agricultura.
A
possibilidade de flexibilizar essas regras já provocou reação de representantes
do setor. O Meat Institute, que representa empresas processadoras, afirmou que
permitir a comercialização de carne sem inspeção pode colocar em risco a
segurança alimentar. Já a National Cattlemen’s Beef Association, representante
de pecuaristas, afirmou apoiar a redução de regulamentações e a criação de
oportunidades para pequenos processadores, mas defendeu a manutenção dos
padrões de inspeção.
A
ofensiva da Casa Branca contra as grandes processadoras ganhou força neste mês.
Em entrevista a jornalistas no último dia 11, Navarro afirmou que as quatro
maiores empresas constituem um “cartel” e destacou especificamente a presença
brasileira no setor.
“E fica
pior porque duas das quatro empresas são de propriedade brasileira e estão
envolvidas até o pescoço com os chineses”, afirmou na ocasião.
Navarro
também acusou as empresas de exercer pressão dos dois lados da cadeia, pagando
menos aos pecuaristas pelo gado e cobrando preços mais altos dos supermercados.
“O que
a parte brasileira do cartel faz, como qualquer cartel faria, é maximizar seus
preços globalmente, e os americanos estão pagando a conta por isso”, disse.
Na
época, a MBRF afirmou que opera “em estrita conformidade com as leis de defesa
da concorrência e antitruste e mantém políticas robustas de governança e
integridade”.
A
empresa afirma que o modelo de operação da National Beef é único nos EUA e que
possui uma parceria de longa data com aproximadamente 700 produtores locais,
que, juntos, detêm cerca de 18% do capital da companhia. A JBS não se
pronunciou.
Na
quarta-feira (26), Trump também assinou uma medida para ampliar temporariamente
em 300 mil toneladas a quantidade de carne bovina magra que pode entrar no país
sob uma cota com tarifa reduzida, numa tentativa de diminuir os preços pagos
pelos consumidores.
A
estratégia provocou críticas de representantes dos pecuaristas americanos, que
temem que o aumento das importações pressione os preços recebidos pelos
produtores locais.
Fonte:
Entrevista com Celso Amorim, por Andrea DiP, Sofia Amaral, Ricardo Terto, Stela
Diogo e Natália Perezpara a Agencia Pública/ICL Notcias

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