Doenças
raras: quando a genética desafia o diagnóstico
Na
última semana, o caso do influenciador Lito Sousa, do canal Aviões e Música,
chamou a atenção em todo o país. Diagnosticado com a doença de
Creutzfeldt-Jakob (DCJ), condição neurológica rara, degenerativa e fatal, ele
trouxe visibilidade à realidade de pessoas que vivem com doenças raras, muitas
delas sem tratamento ou cura.
São
milhares de condições, a maioria causada por alterações genéticas, que exigem
atenção especializada, atendimento personalizado e suporte para garantir
qualidade de vida. Estima-se que 13 milhões de brasileiros sejam afetados por
doenças raras, das quais 80% têm origem genética.
Um dos
grandes desafios é ainda conhecer a própria condição de saúde. Os pacientes
enfrentam desinformação, profissionais incapacitados e ausência de protocolos
para identificar a situação. Estudo conduzido pela Rede Brasileira de Doenças
Raras (RARAS), que ouviu 12 mil pacientes, aponta que o diagnóstico leva, em
média, 5,4 anos.
Muitas
vezes, a demora em identificar o quadro pode permitir o avanço da doença, que
poderia ser contida ou atrasada por procedimentos já existentes, além do risco
de sequelas irreversíveis. No caso do influenciador Lito Sousa, a doença
geralmente é identificada no início dos sintomas, e a expectativa de vida dos
pacientes é de 6 a 12 meses após o surgimento dos primeiros sinais.
A
influenciadora Priscila Araújo, de 39 anos, tem uma singela alteração no gene
TP53. É uma mudança pequena, em comparação com a complexidade do DNA humano. No
entanto, a mutação faz com que a proteína p53, produzida pelo corpo e
responsável por controlar o crescimento celular e destruir células com danos
genéticos, tenha sua função prejudicada.
O
resultado é uma tendência muito maior do que a da população em geral de
desenvolver diversos tipos de câncer. A estimativa é de que mulheres com a
Síndrome de Li-Fraumeni tenham 90% de chance a mais de desenvolver câncer. No
caso dos homens, o risco aumenta 70%.
Ao
receber o diagnóstico, Priscila conta que resolveu seguir sua vida e seus
planos, mas que teve de fazer escolhas, como a de retirar ou não as glândulas
mamárias para evitar o desenvolvimento de tumores na região. "Uma das
decisões mais importantes que tomei depois que descobri a Síndrome de
Li-Fraumeni foi fazer, em 2023, uma adenomastectomia bilateral preventiva. Isso
porque, nas mulheres com a síndrome, o risco de desenvolver câncer de mama ao
longo da vida é estimado entre 80% e 90%", conta.
"No
meu caso, esse número pesou ainda mais porque existe um histórico muito forte
de câncer de mama na família do meu pai. Muitas das mulheres da família
começaram justamente pelo câncer de mama, e uma das minhas irmãs também teve a
doença. Graças a Deus, no caso dela, foi descoberta ainda no início e ela
conseguiu tratar", afirma.
Além da
decisão pela cirurgia, a influenciadora teve de se preocupar ainda mais com a
alimentação. Alguns tipos de alimentos podem elevar a chance de desenvolver
câncer, o que já exige atenção da população em geral e torna a dieta ainda mais
importante para quem tem no DNA a mutação que atinge Priscila e 23 pessoas da
família dela. "Antes de descobrir a síndrome, eu já tinha bons hábitos,
principalmente com a alimentação. Mas depois do diagnóstico passei a ter ainda
mais cuidado com isso", explica.
"Eu
já me alimentava bem e hoje tento me alimentar melhor ainda. Não fumo, não
bebo, não tomo refrigerante e evito ao máximo alimentos ultraprocessados.
Também levo esses hábitos para a minha família, mas sem fazer terrorismo
alimentar, porque acredito que tudo precisa ter equilíbrio", completa. Ela
transformou o desafio de saúde em inspiração e utiliza as redes sociais para
dar dicas de alimentação saudável e informar sobre a síndrome.
<><>
Cuidados diários
Uma
doença ainda mais rara afeta pessoas em diversas regiões do país. A
epidermólise bolhosa (EB) é causada por uma alteração genética que provoca
hipersensibilidade na pele, que fica fragilizada ao toque. Atritos e traumas,
mesmo que pequenos, podem causar bolhas, feridas, dor e cicatrizes. Para se
proteger, quem tem a doença precisa fazer curativos no corpo, que devem ser
trocados diariamente, além de usar diversos produtos, especialmente
hidratantes, para manter a pele saudável.
A
servidora pública federal Anna Carolina Rocha, de 43 anos, convive com a doença
e conta que perdeu parentes no passado em razão da ausência de diagnóstico e
tratamento. "Meus pais são primos de segundo grau e eu tive três tios com
EB. Mas isso foi na década de 40, 50. No interior, muito interior de Minas
Gerais. Então eles não passavam de meses de vida. Morriam de infecção por causa
das lesões ou desnutrição por causa das lesões na boca e não conseguiam
mamar", relata.
Após
quatro décadas convivendo com a epidermólise bolhosa, Anna precisa manter os
cuidados diários, mas conta que a rotina é cada vez mais complexa. "A EB
afeta muito a minha vida, pois tenho uma rotina exaustiva de curativos. No dia
que a minha cuidadora está aqui, passo o dia inteiro fazendo curativo. Acordo,
vou ao banheiro e começo a fazer o curativo. Pauso para o almoço e volto. Pausa
para o lanche, para o trabalho e volto aos curativos. Não dou conta mais de
trocar em apenas um dia. O processo causa muita dor. A EB tem formas mais leves
e mais graves. As mais graves, como é o meu caso, são progressivas e pioram com
a velhice, pois a pele fica mais frágil", descreve.
Mas ela
conta que os entraves provocados pela doença não a impediram de seguir a vida e
realizar sonhos. "Estudei, me formei, fiz concurso público, fui trabalhar
no serviço público… Eu vivi uma vida como a vida das outras pessoas. Claro que
com orientações e as adaptações necessárias, mas de uma maneira mais leve. Meus
planos são continuar com saúde para continuar trabalhando no serviço público,
continuar fazendo arte, tocando o movimento de Ativismo EB, que eu fundei, e
continuar o trabalho de divulgação da doença e conscientização", completa.
Em
fevereiro deste ano, o Ministério da Saúde incluiu no SUS uma nova plataforma
de sequenciamento genético, que promete fazer até 20 mil atendimentos por ano.
A medida pode reduzir o tempo de diagnóstico dos atuais sete anos para seis
meses.
<><>
Origem
As
doenças raras têm uma ligação muito forte com a genética. Por conta disso,
sempre que uma pessoa é identificada com alguma alteração do tipo, é importante
avaliar a árvore genealógica, seja para entender a origem do problema ou evitar
que as futuras gerações herdem o gene.
No
entanto, existem casos em que não há relação genética ou em que a incidência da
doença é inédita na família, como explica a médica Romina Herédia, geneticista
do Hospital de Base de Brasília, especialista pela Sociedade Brasileira de
Genética Médica e professora da Escola Superior de Ciências da Saúde do
Distrito Federal.
"Não,
nem todas as doenças raras são transmitidas ou foram herdadas. Depende da
doença e do mecanismo da doença. Algumas doenças podem acontecer por uma
mutação nova. Também é possível que os pais sejam portadores assintomáticos e
tenham filhos afetados. É possível investigar, com exames genéticos, algumas
causas e predisposições em casais que desejam ter filhos. No aconselhamento
genético, o heredograma/história familiar, até etnia, podem indicar quais são
os exames de rastreio e as opções reprodutivas e de investigação no
embrião/feto, se for o caso", destaca.
A
especialista explica que, no caso da epidermólise bolhosa, existe um tratamento
aprovado nos Estados Unidos. Em relação à doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) e à
Síndrome de Li-Fraumeni, os estudos ainda estão em andamento. Neste momento, o
mais importante é um diagnóstico mais célere.
"É
possível que essas doenças tenham manifestações clínicas mais tardias, na idade
adulta. No caso da epidermólise bolhosa (EB), essa situação é rara, mas
possível em casos mais leves. Em relação ao tratamento, há uma terapia aprovada
nos Estados Unidos para uma forma específica de EB, e outras estão em pesquisa.
Para DCJ e Li-Fraumeni, há algumas pesquisas, mas em fases mais iniciais. O
tratamento atual é, predominantemente, de vigilância e suporte", completa.
<><>
SUS
No
Brasil, o atendimento às pessoas com doenças raras é oferecido pelo Sistema
Único de Saúde (SUS), que conta com uma política específica para diagnóstico,
acompanhamento e tratamento dessas condições. A rede inclui serviços de
referência e equipes multidisciplinares, mas o acesso pode variar conforme a
doença e a disponibilidade de especialistas, exames e terapias em cada região.
O
tratamento depende da condição e, em muitos casos, não há cura. As opções podem
incluir medicamentos específicos, terapias de reposição, cirurgias,
fisioterapia e acompanhamento multidisciplinar para controlar sintomas,
retardar a evolução da doença e melhorar a qualidade de vida.
Algumas
terapias de alto custo são disponibilizadas pelo SUS para doenças específicas,
enquanto outras ainda estão em pesquisa. Para condições sem tratamento
específico, o cuidado costuma ser voltado ao controle dos sintomas e à
prevenção de complicações.
¨
Tratamento de doenças raras enfrentam lacunas, apontam
especialistas
Cerca
de 13 milhões de brasileiros convivem com doenças raras, grupo que reúne mais
de sete mil condições, das quais aproximadamente 95% ainda não possuem
tratamento disponível, segundo dados do setor de saúde e da indústria
farmacêutica. O cenário evidencia desafios no diagnóstico, no acesso a terapias
e na incorporação de inovação, ao mesmo tempo em que coloca o Brasil como peça
relevante em estratégias globais de pesquisa clínica.
Em
entrevista ao Correio, Marc Dunoyer, presidente global da Alexion e diretor de
Estratégia da AstraZeneca, afirmou que o impacto dessas condições é mais amplo
do que a classificação sugere. "De cada 10 pessoas, uma é afetada por
doenças raras, então não é algo tão raro assim", explica. Segundo o
especialista, além da raridade da doença, o tratamento também é um desafio a
ser superado. Diante de cerca de 10 mil enfermidades identificadas,
"existem mais ou menos 500 produtos aprovados", o que evidencia um intervalo
entre demanda e oferta terapêutica.
Os
pacientes também enfrentam problemas para identificar a doença. No Brasil, o
tempo médio para fechar um diagnóstico preciso supera os cinco anos,
período em que pacientes passam por diferentes especialistas até identificar a
condição correta. "Esse tempo acontece porque há diagnósticos equivocados
até se chegar à definição correta, podendo levar até mais de 10 anos em alguns
casos", afirmou. Segundo ele, "o momento mais importante na vida do
paciente é quando recebe o diagnóstico correto", etapa que define o início
do tratamento, quando disponível.
O
sistema público de saúde concentra a maior parte da assistência, financiando
mais de 84% dos exames e 86% dos tratamentos. Ainda assim, o acesso a
medicamentos permanece um dos principais entraves. Levantamento do setor aponta
que os protocolos aprovados ainda aguardam inclusão nas diretrizes clínicas,
com tempo médio de 14 meses. "Os melhores sistemas de seguridade social
são aqueles que são receptivos à inovação", disse. "Se um desses
elementos estiver faltando, a coisa não funciona", completou, ao citar a
necessidade de integração entre sistema público, especialistas e centros de
referência.
O custo
também representa um fator crítico. Dados internacionais indicam que famílias
afetadas podem enfrentar despesas até seis vezes maiores do que aquelas
associadas a doenças crônicas. "É impossível que os pacientes arquem com
esses custos sozinhos", afirmou o executivo, ao defender modelos
sustentáveis para ampliação do acesso.
Nesse
contexto, o Brasil tem sido incorporado como eixo estratégico em pesquisa
clínica. O país é o segundo maior mercado internacional da AstraZeneca, atrás
apenas da China. Em 2025, foram investidos R$ 315 milhões em estudos clínicos,
com resultados positivos em 16 pesquisas de fase 3. Para 2026, a empresa
projeta mais de 100 ensaios em andamento, distribuídos por mais de 200 centros
em 23 estados, com investimento superior a R$ 368 milhões e participação de
mais de 1.500 novos pacientes.
Na área
específica de doenças raras, estão previstos 18 estudos clínicos no país, com
aumento de 22% na participação de pacientes brasileiros. O objetivo é atingir
3.651 pessoas tratadas até 2030. "A capacidade de realizar pesquisas no
nível local é imprescindível para que a inovação chegue aos pacientes",
disse Dunoyer.
<><>
Mais investimentos
A
aquisição da Alexion pela AstraZeneca, concluída em 2021 por US$ 39 bilhões,
ampliou a atuação em imunologia e doenças raras e expandiu a rede global de
pesquisa. "Passamos de 20 para 80 países, o que permitiu beneficiar um
número maior de pacientes em escala mundial", afirmou. Segundo ele, a
integração, também, acelerou o desenvolvimento de novos medicamentos e ampliou
o intercâmbio entre áreas como oncologia e imunologia.
O
executivo citou ainda um caso clínico para ilustrar o impacto do diagnóstico e
do tratamento. Uma paciente com neuromielite óptica passou anos sem
identificação correta da doença até iniciar terapia adequada. "Após o
tratamento, ela retomou atividades e chegou a correr a maratona de
Tóquio", relatou, ao destacar a mudança de trajetória após a intervenção
médica.
Além da
pesquisa, o debate envolve a incorporação de terapias no sistema público de
saúde. Um exemplo é o ravulizumabe, indicado para hemoglobinúria paroxística
noturna, que recebeu recomendação de incorporação, mas ainda aguarda inclusão
formal. Estudos apontam que sua adoção pode gerar economia de R$ 528 milhões em
cinco anos, em comparação ao tratamento atualmente disponível.
Para
Dunoyer, o avanço depende da combinação entre inovação científica, estrutura de
atendimento e políticas públicas. "Precisamos multiplicar o número de
produtos aprovados e garantir acesso global", afirmou. Ele acrescentou que
países como o Brasil podem contribuir para a próxima geração de soluções
biomédicas, desde que haja integração entre pesquisa, financiamento e
assistência.
O
cenário, que reúne demandas de saúde pública e estratégias de negócios, coloca
o país no centro de discussões sobre desenvolvimento científico, acesso a
medicamentos e sustentabilidade do sistema de saúde, em um campo onde a maioria
das doenças ainda não possui resposta terapêutica.
Como
parte da estratégia para ampliar o acesso e reduzir desigualdades, Dunoyer
defendeu maior integração entre governo, indústria e centros de pesquisa. Além
disso, é fundamental acelerar a incorporação de tecnologias e reduzir o tempo
entre a aprovação e a disponibilização ao paciente. Segundo ele, o Brasil tem
capacidade para liderar esse movimento na América Latina, desde que haja
previsibilidade regulatória e continuidade nos investimentos. "A inovação
precisa caminhar junto com sustentabilidade, garantindo que o sistema consiga
absorver novas terapias sem comprometer o atendimento",
acrescentou. "O desafio não é apenas desenvolver medicamentos, mas
assegurar que eles cheguem de forma efetiva a quem precisa", concluiu o
especialista.
Fonte:
Correio Braziliense

Nenhum comentário:
Postar um comentário