Como
o budismo ensina a viver a vida sem peso
O caos
do agora, as marcas do passado e o excesso de futuro são desafios
contemporâneos. O refúgio contra o adoecimento mental atual não promete
fórmulas mágicas de felicidade, milagres ou atalhos instantâneos. Pelo
contrário: encanta diversos públicos justamente pela sobriedade de sua proposta
— a de aprender a encarar a vida exatamente como ela é. E, diante dessa
perspectiva, o budismo une e reúne aqueles que tentam
ser melhores em se autoconhecer.
Entre
os alpendres e o silêncio da quadra 315 Sul, a transição da curiosidade inicial
para a prática espiritual rotineira revela um movimento coletivo em busca de
serenidade e compaixão em tempos de incerteza. À frente do Templo Shin Budista
Terra Pura de Brasília desde 2022, o monge Keizo Doi, 38 anos, nascido em
Hiroshima e ordenado ainda na juventude no Japão, tem acompanhado de perto a
busca daqueles que tentam, entre tantas dúvidas, entender onde nascem suas
tristezas.
Para o
sensei, a procura crescente pela filosofia budista no Ocidente reflete uma
necessidade de ruptura com conceitos engessados e a procura por uma visão de
mundo alinhada com as transformações humanas. "Aqueles que não concordam
necessariamente com a visão de mundo das religiões predominantemente cristãs no
Brasil procuram outras espiritualidades. E o budismo mostra algo completamente
diferente: a lei da impermanência, onde o que surge vai desaparecer",
acredita o monge Keizo.
Segundo
o líder religioso, a raiz do sofrimento humano (dukkha) reside, justamente, no
descompasso entre as expectativas de controle e a natureza inconstante da vida.
"A angústia surge da lacuna entre a realidade e a ilusão. O Buda, criador
dessa filosofia, revelou, séculos atrás, que o controle sobre a nossa condição
física e mental está fora de nós. Quando você vive considerando que, ao ter seu
desejo saciado, alcançará a felicidade, isso não vai acontecer. Ao alcançar o
que desenhou, você quer mais. Nessa busca incessante pela felicidade, a pessoa
fica infeliz", adverte o sensei.
Com
isso, de acordo com ele, a verdadeira emancipação vem do entendimento da causa
e do efeito dos fenômenos. De acordo com Keizo, a oscilação entre momentos de
alegria e de dor prende o indivíduo em um ciclo contínuo de ilusões, conhecido
como samsara. A superação dessa dinâmica é o objetivo central da prática
espiritual. "Sair desse lugar chama-se moksha, a libertação. Isso é o
ideal do budismo, o que o budismo busca? Levar as pessoas à outra margem".
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Diante das incertezas
E esse
outro lado da ponte, para muitos, pode ser o destino final. Mas, no budismo, é
apenas parte de um caminho que parece nunca acabar. Esse despertar espiritual,
entretanto, pode nascer por diversos motivos. O assistente social e pedagogo
José Aguilera, 55 anos, teve o ponto de virada na sua aproximação com a prática
em 2016, a partir de uma provocação ecumênica. "Assisti a um vídeo do papa
Francisco sobre o diálogo inter-religioso que calou intensamente dentro de mim.
Eu já frequentava timidamente o templo, e aquela mensagem despertou o desejo de
conhecer melhor a prática budista", conta.
Com a
convivência rotineira na sangha (comunidade), o entendimento dos conceitos
essenciais da filosofia passou a se dar pela vivência direta dos limites
humanos. "Conteúdos como a impermanência e o desapego são compreendidos
pela experiência de nossa existência e relações. Até hoje me lembro de uma das
primeiras prédicas que ouvi no templo: qual deveria ser a atitude de um budista
diante da morte? Não temer, não chamar, não esperar", reflete Aguilera.
Na
visão dele, a recitação do namo amida butsu (eu busco refúgio na luz infinita),
mantra sagrado muito utilizado no budismo, não isola o
praticante das contradições e imperfeições da vida diária, mas constrói a
consciência necessária para enfrentá-las. "Essa prática não nos deixa
imunes às misérias humanas, mas nos coloca em estado de consciência de que
temos esses limites. O budismo é lindo até a gente precisar colocá-lo em nosso
dia a dia."
Para o
agente de polícia Lucas de Alencar Oliveira, 42, o contato com o budismo
começou como interesse acadêmico nas ciências humanas, mas consolidouse na
vivência prática no início de 2019, durante um período de transição pessoal e
profissional. "No final de 2018, estava passando por uma fase desafiadora,
querendo fazer uma transição profissional, precisando melhorar a forma como
estava me relacionando em casa, e sentia uma vontade de conhecer o budismo como
praticante", relembra.
O
acolhimento no Templo Shin Budista de Brasília impulsionou uma mudança profunda
na gestão das emoções diárias. Diariamente, a recitação do nome do Buda Amida
(namo amida butsu) atua como um lembrete direto de ética e clareza mental.
"Não é um recurso mágico ou metafísico, serve como uma recordação do
caminho ensinado pelo Buda para a gente trilhar no nosso dia a dia, tentando,
ao máximo ,evitar sofrimento para nós e para as outras pessoas, me ajuda
bastante nos momentos em que sou tomado por ignorância, raiva, apego, para
lembrar que não devo ser dominado por esses sentimentos."
Lucas
ressalta que o foco no presente é a ferramenta indispensável para evitar o
esgotamento na rotina contemporânea. Contudo, o maior desafio é estar
efetivamente neste momento. Com tantos excessos estimulando visitas inesperadas
ao futuro, imaginando cenários que ainda nem existem, ele sempre tenta perceber
tais sentimentos ruins. Isso, sobretudo, para sofrer menos e evitar que divague
em sofrimentos que, talvez, nunca aconteçam.
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Guia de termos
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Namo amida butsu:
mantra de devoção ao Buda Amida no Budismo Terra Pura.
>>>
Obon Matsuri:
festival japonês budista de homenagem aos antepassados.
>>>Dukkha: conceito budista
para o sofrimento, insatisfação e impermanência da vida.
>>>
Samsara:
o ciclo de nascimento, morte e renascimento.
>>>
Moksha:
libertação espiritual do ciclo de renascimento (principalmente no Hinduísmo).
>>>
Sangha:
a comunidade espiritual de praticantes e monges budistas.
>>>
Nirvana:
estado de iluminação e fim do sofrimento no budismo.
>>>
Karma:
lei moral de causa e efeito impulsionada pelas ações intencionais.
>>>
O mundo saha:
o mundo físico, caracterizado pelo sofrimento e pela paciência necessária para
suportá-lo.
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No "aqui e agora"
A
expansão do budismo no Brasil deixa de ser um fenômeno puramente religioso para
se tornar uma resposta sociocultural e psíquica às pressões do mundo
contemporâneo. Em uma sociedade marcada pelo ritmo frenético das capitais, os
ensinamentos da filosofia oriental e suas práticas ancestrais extrapolam os
limites dos templos. Eles passam a ser incorporados tanto na clínica
psicológica, como uma ferramenta valiosa de regulação emocional, quanto nos
estudos sociológicos, integrando a dinâmica cosmopolita de cidades estruturadas
em torno do contato cultural, como Brasília.
Doutor
em psicologia clínica e especialista em neuropsicologia, o professor do Centro
Universitário Uniceplac Rafael Alberto Moore explica que a ciência passou a
olhar atentamente para a filosofia com o objetivo de orientar a população para um viver mais
conectado ao presente.
"Aspectos como o desapego, a aceitação e a prática da meditação passaram a
ser incorporados em muitas correntes de terapia. O budismo é uma inspiração
para a psicologia em orientar para um viver de maior aceitação com as nossas
limitações e abdicar do nosso desejo de controlar o que não podemos",
aponta.
Segundo
o especialista, os efeitos práticos da autocompaixão e da presença plena atuam
desarmando o hábito da autocrítica destrutiva. "A meditação ajuda a mudar
o enfoque dos pensamentos para o presente e a regular as emoções, como a
respiração. Já a autocompaixão é importante porque muitas pessoas com quadros
de depressão e ansiedade são muito críticas e exigentes consigo. Esses
exercícios as ajudam a se desligar desses pensamentos muito negativos e a
interromper as cobranças e críticas excessivas".
Aposentada
e frequentadora do templo desde 2013, Graça Monteiro, 74, chegou ao templo por
meio de uma amiga, neta de japoneses, que a convidou para fazer um curso
de iniciação ao budismo. "Venho de família católica, estudei em colégio de
freiras e achei tudo aquilo muito diferente do meu cotidiano. Passei cerca de
dois anos frequentando o templo para, então, adotá-lo como prática
diária", conta. Até aqui, a parte mais desafiadora — e também a melhor —
tem sido aprender a lidar com aquilo que ela não pode controlar.
Graça
vê, em si mesma, muita dificuldade em entender as incertezas que, naturalmente,
costumam aparecer. Ainda assim, acredita que a rotina é o que ajuda a firmar o
que absorve dessa filosofia. "Não sou o tipo de pessoa que senta para
meditar. Prefiro adotar a prática da atenção plena no 'aqui e agora'. Se estou
respondendo a perguntas, estou respondendo a perguntas. Não estou pensando no
café da manhã nem no que tenho para fazer mais tarde. Isso é viver no presente,
e impacta diretamente a nossa saúde mental. Esquecer que existe um celular ali
ao lado ainda é um dos maiores desafios."
De
acordo com a aposentada, atualmente, existe uma banalização de conceitos
milenares no mercado de bem-estar, que transformam esses conhecimentos em
comércio. "Assim como existe o greenwashing, agora temos o wellness
washing, tomando como base os conceitos budistas. Pessoas e organizações estão
ganhando dinheiro com isso e essa é a lógica do mercado. Mas o budismo é sobre
experienciar a vida em seus mais diversos aspectos."
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A busca por sentido
A
popularização dessas práticas e o crescimento do "budismo secular" ou
do mindfulness no Ocidente não surpreendem. Muito pelo contrário. É de total
sentido que muitos estejam buscando sentido para as próprias jornadas e
emoções. Para a professora de relações internacionais do Ceub Aline Thomé, o
fenômeno é um resultado natural e esperado da fluidez cultural em uma sociedade
urbana e acelerada.
"Adotar
as técnicas que a gente chama de mindfulness, ou budismo secular, envolve toda
uma busca por tranquilidade, por lidar com angústias, com uma aceleração
excessiva e ansiedades que fazem parte do nosso cotidiano enquanto humanidade,
que vive sob a lógica do sistema capitalista", reflete a professora.
"Buscar recursos para lidar com o caos de um meio urbano é esperado. Tanto
no formato secular quanto no formato religioso, essa busca é uma resposta ao
modelo de sociedade em que vivemos”, completa.
Aline
Thomé destaca, ainda, que o ambiente urbano da capital federal funcionou
como um terreno fértil
para a consolidação e
a popularização do Templo Shin Budista e de seus eventos comunitários, como a
tradicional quermesse do Obon Matsuri, além de fazer com que a população mais
jovem se sentisse à vontade para fazer visitas e conhecer o local.
"Brasília
é uma cidade de formação cosmopolita, criada no centro do Brasil e constituída
pela vinda de imigrantes de todos os cantos e por representantes de embaixadas
e organismos internacionais. Temos um caldeirão cultural aqui, e é totalmente
esperado que isso tenha aberto espaço para a presença da filosofia budista na
cidade".
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Tipos de Budismo
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Theravada
É a
escola mais antiga e preservada que existe hoje, predominantemente praticada no
Sudeste Asiático (Sri Lanka, Tailândia, Mianmar, Camboja e Laos).
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Mahayana
É a
maior vertente do budismo em número de praticantes. Expandiu-se pelo Leste
Asiático (China, Japão, Coreia, Vietnã).
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Vajrayana
Desenvolveu-se
como uma evolução do Mahayana e é a forma predominante na região do Himalaia
(Tibet, Nepal, Butão e Mongólia).
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Cura, presença e entendimento
Para
quem adota a filosofia budista na vida pessoal, o entendimento dessas premissas
muda radicalmente o enfrentamento de crises. A psicóloga Jessica Jorge
Carvalho, 32, começou a frequentar o templo em 2016, após a morte precoce de um
amigo. Apesar de ter convivência com a cultura japonesa desde pequena, os
mantras e hábitos (como o de tirar os sapatos antes de entrar em um ambiente
fechado) não causaram estranhamento devido à familiaridade, e a filosofia
parecia ser exatamente o que precisava no momento.
Mais
tarde, os conceitos que
aprendeu serviram de ancoragem durante um dos momentos mais difíceis
da sua vida, daqueles que ela nunca imaginou que viveria: o diagnóstico e o
tratamento de um câncer de mama em estágio 3. "A impermanência nos ajuda a
ver as coisas sob outro foco: se tudo vai acabar, quer dizer que nenhum
sofrimento é eterno. A percepção da impermanência me auxiliou no enfrentamento
do câncer de mama. Foram momentos de muito medo, mas tive a certeza de que
todas essas dificuldades em algum momento cessariam. Receber um diagnóstico
fatídico determina como será um período da sua vida, mas não determina como
você escolhe lidar com aquilo”, detalha.
Em
remissão desde abril desse ano, ela ainda atribui muito do bom andamento do
tratamento à tranquilidade da mente e à aceitação do quadro que estava vivendo.
Além do impacto na regulação emocional e nas tomadas de decisão, Jessica
ressalta que o budismo engaja o indivíduo na transformação social e na defesa
das minorias. "Perceber a interdependência entre as pessoas me fez atentar
ainda mais para a necessidade de melhorarmos nossa vida em sociedade. Estamos
interligados por um ciclo de interdependência com todas as pessoas, logo a
injustiça e a intolerância devem ser veementemente combatidas".
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O papel do ensinamento
No
final de tudo, o budismo é uma religião ou uma filosofia? Para Keizo Doi, os
dois. ”Se você estudar filosofia, vai perceber que é uma religião; se estudar
religião, vai ver que é uma filosofia”, brinca. Todavia, de acordo com o
sensei, o que importa são os ensinamentos. Os aprendizados diários e a inserção
deles no cotidiano. Os mantras, as perspectivas e a crença. Tudo isso é o
suficiente para quem deseja uma história com mais sentido.
“Os
ensinamentos funcionam como o veículo para atravessar o rio turbulento das
paixões humanas. Quando o sofrimento se extingue, atinge-se o nirvana, descrito
como o estado de suprema tranquilidade”, acrescenta o líder religioso.
Diferentemente do que muitos imaginam no Ocidente, onde o budismo é associado
exclusivamente a longas horas de meditação ou a regras rígidas de conduta
diária, a tradição Shin Budista da Terra Pura enfatiza a simplicidade e a
acessibilidade para pessoas comuns.
"Quando
se trata do Budismo, a primeira coisa que a pessoa pensa é a meditação. Na
meditação, o objetivo é encontrar o Buda para você sair do samsara. A recitação
do nome do Buda também tem o mesmo objetivo: atender ao chamado do Buda. O
resto é floreio. Ler sutra, oferecer incenso, limpar o altar — é isso. O resto
é floreio, mas a gente também faz", complementa o sensei em tom
bem-humorado.
Ao
lidar com os inevitáveis percalços da vida diária no mundo contemporâneo — o
mundo saha, "onde você tem que aturar" —, a filosofia budista convida
à observação atenta do próprio karma, evitando culpar terceiros pelos reveses
vividos. "Quando a gente vivencia algum sofrimento, nossa tendência é
procurar a causa alheia. Mas no budismo não existe causa alheia do sofrimento.
Sempre o que você pensou, falou e agiu acarreta algum karma", conclui
Keizo Doi. ,E assim, esse estilo de vida tem alcançado tantas pessoas.
Mostrando que o sofrimento é inerente à causa humana, mas que a felicidade
também.
Fonte:
Correio Braziliense

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