terça-feira, 1 de setembro de 2026

Destinos da economia internacional

Os destinos da economia internacional quase nunca obedecem a lógicas puramente econômicas. O desenvolvimento econômico ocorre na sombra da política (ou da geopolítica), que, segundo Raymond Aron, está na sombra da guerra (ARON, 2018). Pode a geopolítica precipitar e acelerar processos geoeconômicos que estavam em outra direção? Pode a geopolítica da Guerra Fria ter selado o destino do Atlântico, e do Brasil na América Latina?

A União Soviética representou uma polaridade por fora do capitalismo histórico, mas ainda assim uma polaridade. Alçou a ilha japonesa à condição de cortina ocidental, mas atraiu o desenvolvimento econômico para a Ásia. Com licença à elaboração contrafactual, isso pode ter fechado a grande janela de oportunidades emergentes do Atlântico Sul Ocidental, da América Latina e do Brasil.

Com base na leitura do epílogo da obra maior do sociólogo Giovanni Arrighi sobre a grande história do século XX (ARRIGHI, 1994), obra seguida pelas elaborações sobre os fundamentos do século XXI pelo mesmo autor (ARRIGHI, 2008), nossas hipóteses especulativas confluem para a ideia de uma “precipitação” da desclassificação atlântica e da emergência “antecipada” do bloco asiático rumo ao Pacífico, que pode ter ocorrido como resposta à instalação do poder soviético por fora do capitalismo histórico.

Em termos de desenvolvimento econômico capitalista, os desclassificados podem ter sido a América Latina e, em especial, o Brasil. Os elos geográficos do capitalismo histórico, de um lado, e da história geopolítica e geoeconômica da URSS, de outro, podem ter seus efeitos no século XXI.

Com efeito, a consolidação do “intercâmbio político que ligou a busca japonesa de lucros à busca norte-americana de poder já se assemelhava à relação genovesa-ibérica do século XVI” (ARRIGHI, 1994, p.368), mas era um voo de ganso: os genoveses podiam financiar a conquista do mundo e os ibéricos tinham condição geográfica de fazê-lo. Ainda assim, na URSS e nos capitalistas do Japão podem estar as lentes para a compreensão da história contra factual geopolítica e desenvolvimentista do Brasil, cuja massa terrestre latino americana pode ter passado de terrenos de investimentos produtivos do capitalismo histórico para bolsão de extração de recursos energéticos na transição interna (ou externa) desse capitalismo.

Antes do início da Guerra Fria, o Japão era tido para os Estados Unidos como um país que deveria ter seu poder militar desmantelado para proteger os países contra os quais havia praticado agressões, com documentos oficiais afirmando que as necessidades do país deveriam receber menor prioridade, ainda que no contexto de sua recuperação econômica (Arrighi, 1994). Contudo, com a eclosão da Guerra Fria, os EUA passaram a enxergar o Japão como um importante país a ser transformado em aliado no mundo asiático, que os ajudassem a manter o controle na região.

Retroativamente, na longa formação e consolidação do capitalismo histórico, os Estados Unidos aparecem com a nação hegemônica do longo século XX, que, ao passar por transformações em sua estrutura econômica, expandiu sua fronteira interna. Segundo Giovanni Arrighi (1994), a hegemonia norte americana tinha, entre outros pilares, uma organização empresarial focada em uma economia de velocidade que internalizou os custos de transação do modelo de livre mercado inglês e pôde internacionalizar sua economia através da consolidação de empresas multinacionais.

A internalização das estruturas do livre mercado inglês permitiu que às empresas multinacionais norte-americanas experimentassem uma capacidade de planejamento econômico nunca alcançado por países outros países territorialistas e capitalistas. A expansão geográfica para o grande oeste com seus recursos inesgotáveis, o mercado regulado, e o relativo isolamento geoeconômico do livre mercado global, foram peças chaves da decolagem do capitalismo norte-americano. Esse processo ocorreu quase que imediatamente após concluírem sua integração continental (ARRIGHI, 1994).

Nos termos de Fernand Braudel (1995/1996), a quem Arrighi via-se altamente devedor em sua concepção de capitalismo, esse “sistema” (talvez Braudel preferisse dizer esse “lugar”), não tendo um modelo de produção, mas uma estratégia de reestruturação flexível do lucro através do deslocamento geográfico, movido pelo capital financeiro, encontra em sua expressão geográfica nas ancoragens urbanas de uma rede de comércio global.

Aqui reside sua força e sua fraqueza. Em termos de força, uma grande cidade global conferia ao capitalismo a flexibilidade de que necessitava para escapar da tendência à queda da taxa dos lucros. Em termos de fraqueza, o capitalismo não era ubíquo, mas, ao contrário, uma fina camada de fluxos de capitais globais.

Ocorre que o peso do domínio dos territórios é tão grande e custoso que essa rede de trocas globais deve contar com a existência de múltiplos Estados para ganhar algum nível de estabilidade territorial, sendo que há sempre um Estado que ganha condições de exercer funções liderança sobre um sistema de nações (ARRIGHI, 1994).

Dessa forma, compreende-se que o território de um Estado hegemônico deve conter estruturas capazes de centralizar, projetar e dirigir os fluxos de capitais, de forma a operar mundialmente a economia-mundo capitalista como a melhor margem de manobra para lidar com múltiplas e pesadas estruturas territoriais e, ao mesmo tempo, exercer domínio sobre a arquitetura dos fluxos globais. Assim, Estados e capitalismo formam uma “aliança memorável entre o poder das armas e o poder do dinheiro que, desde o fim do século XV, impulsionam a economia mundial capitalista no espaço e no tempo” (ARRIGHI, 1994, p.368).

A primeira dessas alianças memoráveis, com efeito, foi a aliança entre os reinos ibéricos e os banqueiros genoveses, de viés territorialista, ou seja, com o motor do desenvolvimento econômico voltado à expansão territorial do mercado mundial. A casa do Orain e os capitalistas holandeses também encontraram, no século XVIII, razões para se associarem, quando se viram na condição de dominar os fluxos globais de capitais, mas é o capitalismo que rege a orquestra do mundo, com economias de “território” adotadas em favor da acumulação de capital.

O movimento de pêndulo oscila novamente para colocar a família real inglesa na liderança dos novos processos de conquista territorial, auxiliada pelas finanças britânicas no século XIX. Já os Estados Unidos reposicionam novamente o motor dos desenvolvimentos globais na lógica capitalista, com as multinacionais internalizando um territorialismo voltado para dentro.

O notável desse percurso histórico é que essas alianças ocorreram do século XVI ao XX, com os sucessivos domínios das redes globais centralizadas nos mares mediterrânicos, Báltico e Atlântico. Ao mesmo tempo, as alianças entre capitalismo e territorialismo iam aos poucos esgotando a potência do territorialismo, à medida que o território ia fechando os espaços de expansão do mercado global e a Terra ia atingindo seus limites internos. No século XXI, com a queda da URSS, tudo levava a crer que a grande massa terrestre do Pacífico seria finalmente integrada ao capitalismo histórico?

<><> E o Atlântico Sul?

A resposta pode parecer evidente, mas com conotações anacrônicas. Ao lermos epílogo de Giovanni Arrighi (1994), temos a sensação de que houve uma precipitação rumo ao Pacífico. A tomar pelo Brasil e América Latina, talvez fosse possível afirmar que o Atlântico ainda apresentava condições geográficas e econômicas de crescimento.

Mas, os Estados Unidos, movido pela oposição à União Soviética e pelas alianças da Guerra Fria, aparentemente canalizaram, mais ou menos bruscamente, grande volume de exportação de seus capitais para o Japão. Com efeito, antes que esse movimento se tornasse irreversível, grandes quantidades de capitais norte-americanos haviam sido exportadas para todo o Terceiro Mundo e, em especial, para o Brasil.

A Ásia como palco de guerras e de grande parte das revoluções socialistas do século XX, tornava-se a região em que os Estados Unidos se viram sem garantias claras de sua hegemonia. Devido à facilidade de aparelhamento do Estado japonês, somado ao fato de haver uma indústria consolidada no país, a ilha foi escolhida como ponte entre os EUA e a Ásia. Ao que parece, a revolução socialista selou o destino desenvolvimentista da Ásia, enquanto o controle da ilha cubana não gerou os mesmos efeitos na América Latina.

Os EUA ainda incentivaram que a Coreia do Sul e Formosa, outrora colônias japonesas, superassem seu ressentimento contra as violências do imperialismo japonês da década de 30, a fim de estabelecer um comércio entre os países. Nas palavras de Giovanni Arrighi: “Assim, sob a hegemonia norte-americana, sem nenhum esforço, o Japão obteve a hinterlândia econômica que tanto lutara para obter através da expansão territorial na primeira metade do século XX, e que acabara perdendo na catástrofe da Segunda Guerra Mundial” (ARRIGHI, 1994, p.354). O subimperialismo que havia sido ofertado também ao Brasil (MARINI, 1973) tinha uma versão espelhada no Japão.

De forma que essa grande divergência entre os destinos do capitalismo, seja na Ásia, seja na América Latina, impulsionada pela concorrência soviética, pode ter precipitado a ascensão da economia da ilha japonesa na hierarquia da economia mundial capitalista, calcando-se no intercâmbio político entre os capitalistas japoneses e o poder bélico norte-americano, externalizando seus custos de proteção e “abastecendo o Estado-bélico-assistencialista norte-americano com produtos baratos” (ARRIGHI, 1994, p.364). Em troca, receberam proteção contra o comunismo.

A transferência de capital dos Estados Unidos para o Japão colocou a região em contato direto com a valorização capitalista do espaço. O Japão, escolhido como local de fixação de capital no leste asiático, experimentava uma redistribuição de poder aquisitivo para o seleto grupo de Estados aliados e clientes, que adotaram o padrão de consumo dos Estados Unidos. Em paralelo, essa mesma expansão acelerava-se pela “transferência de insumos primários (em especial o petróleo) dos países do Terceiro Mundo para os do Primeiro Mundo, pelas empresas multinacionais” (ARRIGHI, 1994, p. 363). Estava desclassificado o destino do “Brasil potência”?

<><> A URSS e a resiliência de seus elos regionais

Em sua análise, Giovanni Arrighi constata que, até a década de 1950, o desenvolvimento da economia japonesa é extremamente parecido com o desenvolvimento das economias italiana e alemã. Contudo, a partir da década de 1960, o desenvolvimento do Japão passa a ser maior do que o desses outros países, sendo que na década de 1970, o PIB japonês já era maior do que o italiano e o alemão e, em 1985, maior do que o de todos os países do núcleo orgânico europeu.

A partir de 1980, o Japão era o então o epicentro da expansão do capital para o leste asiático, apresentando taxas de crescimento da economia maiores do que demais países que estavam sofrendo um processo de expansão financeira na região, como a Coréia do Sul, Hong Kong, Formosa e Cingapura.

Durante a era Reagan, o Japão atendeu às solicitações dos EUA, estendendo um imenso volume de capital para respaldar os déficits das contas externas e os desequilíbrios fiscais internos do grande parceiro ocidental, acumulados durante a Segunda Guerra Fria. Atingia-se também a decadência da ameaça soviética. Juntamente com assistência bilateral a países considerados estratégicos para as necessidades dos Estados Unidos, o Japão, ainda assim, nada fez para perturbar o domínio norte-americano nas altas finanças.

O contexto de guerra ao comunismo pode tanto ter sido um grande “acelerador” da economia norte-americana, intensificador de seu poderio militar, quanto um externalizador de sua dependência por produtos de baixo valor agregado, que começaram a ser produzidos na Ásia no interior de uma dinâmica de “revolução industriosa”, cujo primeiro laboratório dessa nova engenharia econômica foi o Japão (SUGIHARA, 2003). Se a URSS não havia conseguido chegar às bordas do século XXI, a revolução industriosa, por sua vez, atingiu a China, por efeito regional de bola de neve (ARRIGHI, 2008).

Com efeito, a dinâmica de contaminação regional levou também passou a atrair investimentos em busca de mão de obra que atrelaram o arquipélago a outras “ilhas” e às massas trabalhadoras submersas de toda a região. A parcimônia e a industriosidade dessas massas trabalhadoras do leste asiático constituíram a base mais importante desse novo regime de acumulação.

O capitalismo conhecia a estratégia industriosa. Esse processo, assim, atingiu a China, selando uma possível vantagem geográfica global da estratégia industriosa. Pôde ser internalizada e hibridizada com o caminho ocidental, com potencial impacto sem precedentes na economia global a partir do endereço espacial chinês (ARRIGHI, 2008) que se projeta na massa terrestre africana.

Durante a ditadura militar, o Brasil também se constituía como um bolsão de massas laboriosas com baixos salários, mas a proximidade cubana pode ter constituído um elo frágil para atrair ainda mais investimentos. As massas trabalhadoras brasileiras agitaram-se fortemente com os desvios dos fluxos globais de capitais e com o neoliberalismo, e suas conquistas foram expressivas com a instalação da Democracia. Já a massa laboriosa chinesa estava atrelada ao destino e planejamento socialista do Pacífico.

De um lado, o ciclo da União Soviética, visto na longa duração e em seus elos geoeconômicos, pode não ter se encerrado na Guerra Fria. Por outro lado, o grande ciclo do Atlântico também pode estar se encerrando, selando, no século XXI, o mesmo destino que o Mediterrâneo encontrou no século XVI, na alvorada do capitalismo histórico, maravilhosamente descrito por Fernand Braudel (1983).

 

Fonte: Por Larissa Alves de Lira, Luiz Carlos Korazenko Parreira e João Lucas Borges Ribeiro, em A Terra é Redonda

 

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