Destinos
da economia internacional
Os
destinos da economia internacional quase nunca obedecem a lógicas puramente
econômicas. O desenvolvimento econômico ocorre na sombra da política (ou da
geopolítica), que, segundo Raymond Aron, está na sombra da guerra (ARON, 2018).
Pode a geopolítica precipitar e acelerar processos geoeconômicos que estavam em
outra direção? Pode a geopolítica da Guerra Fria ter selado o destino do
Atlântico, e do Brasil na América Latina?
A União
Soviética representou uma polaridade por fora do capitalismo histórico, mas
ainda assim uma polaridade. Alçou a ilha japonesa à condição de cortina
ocidental, mas atraiu o desenvolvimento econômico para a Ásia. Com licença à
elaboração contrafactual, isso pode ter fechado a grande janela de
oportunidades emergentes do Atlântico Sul Ocidental, da América Latina e do
Brasil.
Com
base na leitura do epílogo da obra maior do sociólogo Giovanni Arrighi sobre a
grande história do século XX (ARRIGHI, 1994), obra seguida pelas elaborações
sobre os fundamentos do século XXI pelo mesmo autor (ARRIGHI, 2008), nossas
hipóteses especulativas confluem para a ideia de uma “precipitação” da
desclassificação atlântica e da emergência “antecipada” do bloco asiático rumo
ao Pacífico, que pode ter ocorrido como resposta à instalação do poder
soviético por fora do capitalismo histórico.
Em
termos de desenvolvimento econômico capitalista, os desclassificados podem ter
sido a América Latina e, em especial, o Brasil. Os elos geográficos do
capitalismo histórico, de um lado, e da história geopolítica e geoeconômica da
URSS, de outro, podem ter seus efeitos no século XXI.
Com
efeito, a consolidação do “intercâmbio político que ligou a busca japonesa de
lucros à busca norte-americana de poder já se assemelhava à relação
genovesa-ibérica do século XVI” (ARRIGHI, 1994, p.368), mas era um voo de
ganso: os genoveses podiam financiar a conquista do mundo e os ibéricos tinham
condição geográfica de fazê-lo. Ainda assim, na URSS e nos capitalistas do
Japão podem estar as lentes para a compreensão da história contra factual
geopolítica e desenvolvimentista do Brasil, cuja massa terrestre latino
americana pode ter passado de terrenos de investimentos produtivos do
capitalismo histórico para bolsão de extração de recursos energéticos na
transição interna (ou externa) desse capitalismo.
Antes
do início da Guerra Fria, o Japão era tido para os Estados Unidos como um país
que deveria ter seu poder militar desmantelado para proteger os países contra
os quais havia praticado agressões, com documentos oficiais afirmando que as
necessidades do país deveriam receber menor prioridade, ainda que no contexto
de sua recuperação econômica (Arrighi, 1994). Contudo, com a eclosão da Guerra
Fria, os EUA passaram a enxergar o Japão como um importante país a ser
transformado em aliado no mundo asiático, que os ajudassem a manter o controle
na região.
Retroativamente,
na longa formação e consolidação do capitalismo histórico, os Estados Unidos
aparecem com a nação hegemônica do longo século XX, que, ao passar por
transformações em sua estrutura econômica, expandiu sua fronteira interna.
Segundo Giovanni Arrighi (1994), a hegemonia norte americana tinha, entre
outros pilares, uma organização empresarial focada em uma economia de
velocidade que internalizou os custos de transação do modelo de livre mercado
inglês e pôde internacionalizar sua economia através da consolidação de
empresas multinacionais.
A
internalização das estruturas do livre mercado inglês permitiu que às empresas
multinacionais norte-americanas experimentassem uma capacidade de planejamento
econômico nunca alcançado por países outros países territorialistas e
capitalistas. A expansão geográfica para o grande oeste com seus recursos
inesgotáveis, o mercado regulado, e o relativo isolamento geoeconômico do livre
mercado global, foram peças chaves da decolagem do capitalismo norte-americano.
Esse processo ocorreu quase que imediatamente após concluírem sua integração
continental (ARRIGHI, 1994).
Nos
termos de Fernand Braudel (1995/1996), a quem Arrighi via-se altamente devedor
em sua concepção de capitalismo, esse “sistema” (talvez Braudel preferisse
dizer esse “lugar”), não tendo um modelo de produção, mas uma estratégia de
reestruturação flexível do lucro através do deslocamento geográfico, movido
pelo capital financeiro, encontra em sua expressão geográfica nas ancoragens
urbanas de uma rede de comércio global.
Aqui
reside sua força e sua fraqueza. Em termos de força, uma grande cidade global
conferia ao capitalismo a flexibilidade de que necessitava para escapar da
tendência à queda da taxa dos lucros. Em termos de fraqueza, o capitalismo não
era ubíquo, mas, ao contrário, uma fina camada de fluxos de capitais globais.
Ocorre
que o peso do domínio dos territórios é tão grande e custoso que essa rede de
trocas globais deve contar com a existência de múltiplos Estados para ganhar
algum nível de estabilidade territorial, sendo que há sempre um Estado que
ganha condições de exercer funções liderança sobre um sistema de nações
(ARRIGHI, 1994).
Dessa
forma, compreende-se que o território de um Estado hegemônico deve conter
estruturas capazes de centralizar, projetar e dirigir os fluxos de capitais, de
forma a operar mundialmente a economia-mundo capitalista como a melhor margem
de manobra para lidar com múltiplas e pesadas estruturas territoriais e, ao
mesmo tempo, exercer domínio sobre a arquitetura dos fluxos globais. Assim,
Estados e capitalismo formam uma “aliança memorável entre o poder das armas e o
poder do dinheiro que, desde o fim do século XV, impulsionam a economia mundial
capitalista no espaço e no tempo” (ARRIGHI, 1994, p.368).
A
primeira dessas alianças memoráveis, com efeito, foi a aliança entre os reinos
ibéricos e os banqueiros genoveses, de viés territorialista, ou seja, com o
motor do desenvolvimento econômico voltado à expansão territorial do mercado
mundial. A casa do Orain e os capitalistas holandeses também encontraram, no
século XVIII, razões para se associarem, quando se viram na condição de dominar
os fluxos globais de capitais, mas é o capitalismo que rege a orquestra do
mundo, com economias de “território” adotadas em favor da acumulação de
capital.
O
movimento de pêndulo oscila novamente para colocar a família real inglesa na
liderança dos novos processos de conquista territorial, auxiliada pelas
finanças britânicas no século XIX. Já os Estados Unidos reposicionam novamente
o motor dos desenvolvimentos globais na lógica capitalista, com as
multinacionais internalizando um territorialismo voltado para dentro.
O
notável desse percurso histórico é que essas alianças ocorreram do século XVI
ao XX, com os sucessivos domínios das redes globais centralizadas nos mares
mediterrânicos, Báltico e Atlântico. Ao mesmo tempo, as alianças entre
capitalismo e territorialismo iam aos poucos esgotando a potência do
territorialismo, à medida que o território ia fechando os espaços de expansão
do mercado global e a Terra ia atingindo seus limites internos. No século XXI,
com a queda da URSS, tudo levava a crer que a grande massa terrestre do
Pacífico seria finalmente integrada ao capitalismo histórico?
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E o Atlântico Sul?
A
resposta pode parecer evidente, mas com conotações anacrônicas. Ao lermos
epílogo de Giovanni Arrighi (1994), temos a sensação de que houve uma
precipitação rumo ao Pacífico. A tomar pelo Brasil e América Latina, talvez
fosse possível afirmar que o Atlântico ainda apresentava condições geográficas
e econômicas de crescimento.
Mas, os
Estados Unidos, movido pela oposição à União Soviética e pelas alianças da
Guerra Fria, aparentemente canalizaram, mais ou menos bruscamente, grande
volume de exportação de seus capitais para o Japão. Com efeito, antes que esse
movimento se tornasse irreversível, grandes quantidades de capitais
norte-americanos haviam sido exportadas para todo o Terceiro Mundo e, em
especial, para o Brasil.
A Ásia
como palco de guerras e de grande parte das revoluções socialistas do século
XX, tornava-se a região em que os Estados Unidos se viram sem garantias claras
de sua hegemonia. Devido à facilidade de aparelhamento do Estado japonês,
somado ao fato de haver uma indústria consolidada no país, a ilha foi escolhida
como ponte entre os EUA e a Ásia. Ao que parece, a revolução socialista selou o
destino desenvolvimentista da Ásia, enquanto o controle da ilha cubana não
gerou os mesmos efeitos na América Latina.
Os EUA
ainda incentivaram que a Coreia do Sul e Formosa, outrora colônias japonesas,
superassem seu ressentimento contra as violências do imperialismo japonês da
década de 30, a fim de estabelecer um comércio entre os países. Nas palavras de
Giovanni Arrighi: “Assim, sob a hegemonia norte-americana, sem nenhum esforço,
o Japão obteve a hinterlândia econômica que tanto lutara para obter através da
expansão territorial na primeira metade do século XX, e que acabara perdendo na
catástrofe da Segunda Guerra Mundial” (ARRIGHI, 1994, p.354). O subimperialismo
que havia sido ofertado também ao Brasil (MARINI, 1973) tinha uma versão
espelhada no Japão.
De
forma que essa grande divergência entre os destinos do capitalismo, seja na
Ásia, seja na América Latina, impulsionada pela concorrência soviética, pode
ter precipitado a ascensão da economia da ilha japonesa na hierarquia da
economia mundial capitalista, calcando-se no intercâmbio político entre os
capitalistas japoneses e o poder bélico norte-americano, externalizando seus
custos de proteção e “abastecendo o Estado-bélico-assistencialista
norte-americano com produtos baratos” (ARRIGHI, 1994, p.364). Em troca,
receberam proteção contra o comunismo.
A
transferência de capital dos Estados Unidos para o Japão colocou a região em
contato direto com a valorização capitalista do espaço. O Japão, escolhido como
local de fixação de capital no leste asiático, experimentava uma redistribuição
de poder aquisitivo para o seleto grupo de Estados aliados e clientes, que
adotaram o padrão de consumo dos Estados Unidos. Em paralelo, essa mesma
expansão acelerava-se pela “transferência de insumos primários (em especial o
petróleo) dos países do Terceiro Mundo para os do Primeiro Mundo, pelas
empresas multinacionais” (ARRIGHI, 1994, p. 363). Estava desclassificado o
destino do “Brasil potência”?
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A URSS e a resiliência de seus elos regionais
Em sua
análise, Giovanni Arrighi constata que, até a década de 1950, o desenvolvimento
da economia japonesa é extremamente parecido com o desenvolvimento das
economias italiana e alemã. Contudo, a partir da década de 1960, o
desenvolvimento do Japão passa a ser maior do que o desses outros países, sendo
que na década de 1970, o PIB japonês já era maior do que o italiano e o alemão
e, em 1985, maior do que o de todos os países do núcleo orgânico europeu.
A
partir de 1980, o Japão era o então o epicentro da expansão do capital para o
leste asiático, apresentando taxas de crescimento da economia maiores do que
demais países que estavam sofrendo um processo de expansão financeira na
região, como a Coréia do Sul, Hong Kong, Formosa e Cingapura.
Durante
a era Reagan, o Japão atendeu às solicitações dos EUA, estendendo um imenso
volume de capital para respaldar os déficits das contas externas e os
desequilíbrios fiscais internos do grande parceiro ocidental, acumulados
durante a Segunda Guerra Fria. Atingia-se também a decadência da ameaça
soviética. Juntamente com assistência bilateral a países considerados
estratégicos para as necessidades dos Estados Unidos, o Japão, ainda assim,
nada fez para perturbar o domínio norte-americano nas altas finanças.
O
contexto de guerra ao comunismo pode tanto ter sido um grande “acelerador” da
economia norte-americana, intensificador de seu poderio militar, quanto um
externalizador de sua dependência por produtos de baixo valor agregado, que
começaram a ser produzidos na Ásia no interior de uma dinâmica de “revolução
industriosa”, cujo primeiro laboratório dessa nova engenharia econômica foi o
Japão (SUGIHARA, 2003). Se a URSS não havia conseguido chegar às bordas do
século XXI, a revolução industriosa, por sua vez, atingiu a China, por efeito
regional de bola de neve (ARRIGHI, 2008).
Com
efeito, a dinâmica de contaminação regional levou também passou a atrair
investimentos em busca de mão de obra que atrelaram o arquipélago a outras
“ilhas” e às massas trabalhadoras submersas de toda a região. A parcimônia e a
industriosidade dessas massas trabalhadoras do leste asiático constituíram a
base mais importante desse novo regime de acumulação.
O
capitalismo conhecia a estratégia industriosa. Esse processo, assim, atingiu a
China, selando uma possível vantagem geográfica global da estratégia
industriosa. Pôde ser internalizada e hibridizada com o caminho ocidental, com
potencial impacto sem precedentes na economia global a partir do endereço
espacial chinês (ARRIGHI, 2008) que se projeta na massa terrestre africana.
Durante
a ditadura militar, o Brasil também se constituía como um bolsão de massas
laboriosas com baixos salários, mas a proximidade cubana pode ter constituído
um elo frágil para atrair ainda mais investimentos. As massas trabalhadoras
brasileiras agitaram-se fortemente com os desvios dos fluxos globais de
capitais e com o neoliberalismo, e suas conquistas foram expressivas com a
instalação da Democracia. Já a massa laboriosa chinesa estava atrelada ao
destino e planejamento socialista do Pacífico.
De um
lado, o ciclo da União Soviética, visto na longa duração e em seus elos
geoeconômicos, pode não ter se encerrado na Guerra Fria. Por outro lado, o
grande ciclo do Atlântico também pode estar se encerrando, selando, no século
XXI, o mesmo destino que o Mediterrâneo encontrou no século XVI, na alvorada do
capitalismo histórico, maravilhosamente descrito por Fernand Braudel (1983).
Fonte:
Por Larissa Alves de Lira, Luiz Carlos Korazenko Parreira e João Lucas Borges
Ribeiro, em A Terra é Redonda

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