terça-feira, 1 de setembro de 2026

Florestan Fernandes Jr: Globo, Flávio e o teatro de uma entrevista

A Globo escancarou, na sexta-feira, qual é o seu candidato. O roteiro da entrevista concedida por Flávio Bolsonaro ao JN tem todos os sinais de ter sido cuidadosamente construído para ajudar o candidato a sair das cordas do escândalo do Banco Master.

A mudança em relação à linha inquisitória adotada pela dupla de jornalistas na noite anterior, durante a entrevista com o presidente Lula, não é gratuita.

Sugere um reposicionamento da emissora dos Marinho, que vinha trabalhando com a possibilidade de Ronaldo Caiado, candidatura que não decolou, e agora parece se mover na direção de Flávio Bolsonaro.

É perfeitamente plausível que, por trás desse movimento, estejam não apenas os interesses da elite financeira, mas também, e principalmente, os do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio.

A entrevista com Flavio é muito reveladora. Durante os 40 minutos, boa parte das perguntas foi feita por Renata Vasconcellos, que se mostrou bem mais amena ao tratar de temas pra lá de espinhosos do currículo do senador.

O tom das perguntas foi tão cordial que Flávio aproveitou a deixa para se solidarizar com Renata por conta de uma resposta dada por Lula, que ele tentou transformar, de maneira oportunista, em uma agressão.

Para quem tem uma alta rejeição entre o eleitorado feminino, Flávio Bolsonaro deveria agradecer, e muito a Renata Vasconcellos.

Ela não levou para a entrevista um tema que é especialmente caro às mulheres: o aumento dos feminicídios em São Paulo, estado governado pelo aliado Tarcísio de Freitas.

A crise com a mulher de seu pai também não chegou a ser mencionada.

Muito menos houve uma pergunta sobre o desprezo com que Flávio tratou recentemente a própria madrasta, ao dizer que Michelle “não entende de política”, que é uma novata que está “chegando agora” e que deveria ficar fora das decisões partidárias.

Renata poderia ainda ter lembrado o histórico de machismo dos Bolsonaro, incluindo as declarações misóginas do pai, Jair Bolsonaro, e do irmão Eduardo.

Isso sem falar nos desatinos do amigo da família, Paulo Figueiredo, neto do último ditador militar, que chegou a afirmar que “mulher vota estatisticamente mal, principalmente as solteiras; as casadas costumam acompanhar o marido”.

Não faltavam, portanto, assuntos capazes de colocar Flávio diante de questões que atingem diretamente o eleitorado feminino.

Mas, na entrevista da Globo, eles simplesmente não apareceram.

De qualquer maneira, o jornalismo da Globo teve pelo menos o cuidado de manter no roteiro as questões das rachadinhas, dos R$ 61 milhões pedidos a Vorcaro e dos crimes de golpe de Estado e organização criminosa armada que resultaram na condenação e prisão de Jair Bolsonaro.

O problema é que cada uma dessas questões foi tratada sem a devida contestação firme e atenta por parte dos jornalistas.

Flávio teve todo o tempo e espaço para construir suas narrativas, que invariavelmente terminavam em ataques ao presidente Lula, valendo-se daquilo que o senador parece saber fazer melhor: mentir.

Teve liberdade até para construir uma narrativa que justificasse a entrega da Medalha Tiradentes, a mais alta honraria do Poder Legislativo do Rio de Janeiro, ao miliciano Adriano da Nóbrega, apontado como chefe do Escritório do Crime, quando ele ainda estava preso.

Nesse momento, não houve sequer uma contestação mais firme por parte dos entrevistadores.

Foi um verdadeiro faz de conta: os jornalistas simulavam uma entrevista dura, enquanto Flávio fingia responder com seriedade a perguntas que o colocavam diante de fatos comprometedores.

E, para mim, que trabalhei a vida toda como jornalista de televisão, a questão mais grave e evidente do comprometimento da Globo com o entrevistado estava na distribuição das câmeras no estúdio.

A emissora teve o cuidado de posicionar uma câmera exclusiva, frontal, para Flávio Bolsonaro, dando a ele uma dimensão que o presidente Lula não teve.

Ao aproximar o entrevistado do telespectador, essa escolha permitiu que Flávio respondesse às perguntas em closes, criando um clima de intimidade e proximidade com quem acompanhava a entrevista.

Ele falava diretamente aos olhos de quem estava diante da televisão, como se estivesse dentro da sala de cada espectador.

Isso é muito grave. Na entrevista com o presidente Lula, não havia uma câmara exclusiva para que ele falasse diretamente com o telespectador.

Havia uma frontal, mas o enquadramento incluía o pescoço e parte do corpo de Tralli ou de Renata, o que prejudicava a dimensão visual do presidente, que permaneceu praticamente o tempo todo afundado na poltrona.

É difícil não perceber a diferença de tratamento. Uma câmera exclusiva, em primeiro plano, cria uma relação muito mais direta entre o entrevistado e o telespectador.

A assessoria do presidente deveria ter chamado a atenção para isso e cobrado uma condição técnica equivalente à que foi oferecida aos outros candidatos e ao Flávio Bolsonaro.

Um dos momentos mais reveladores desse compadrio ocorreu quando Flávio foi questionado sobre a falta de prestação de contas pública do financiamento do filme Dark Horse, uma promessa que o candidato não cumpriu.

Flávio respondeu, com a maior cara de pau, que os R$ 61 milhões do patrocínio do Banco Master não eram dinheiro público e que não havia recursos da Lei Rouanet.

O problema é que a própria documentação disponível sobre o filme continua cercada de lacunas, e o contrato com o financiador e a prestação de contas detalhada não foram apresentados até agora.

Renata Vasconcellos e César Tralli, jornalistas tão experientes, não partiram para o embate.

Não lembraram, por exemplo, que parte relevante dos recursos que passaram pelo Banco Master veio de aplicações em títulos do próprio banco, inclusive por meio de aportes feitos por prefeituras e governos estaduais utilizando fundos de pensão.

Também “esqueceram” de mencionar os aportes bilionários feitos pelo BRB, o Banco de Brasília, instituição pública do Distrito Federal.

Outro esquecimento conveniente foram os R$ 4,6 milhões em emendas parlamentares destinados pelos deputados bolsonaristas Carla Zambelli, Alexandre Ramagem, Bia Kicis e Marcos Pollon a entidades ligadas à produtora de Dark Horse.

Esse repasse foi documentado em maio deste ano.

Para quem acompanha as eleições brasileiras desde a redemocratização, conhece bem as manobras da Globo e de parte de seu jornalismo político para favorecer determinados candidatos e projetos.

A emissora teve papel decisivo, por exemplo, na eleição de Fernando Collor em 1989 e, mais tarde, na construção do ambiente político que antecedeu o impeachment de Dilma Rousseff e a ascensão de Michel Temer.

Em 2018, depois da retirada de Lula da disputa eleitoral, Bolsonaro acabou eleito em um cenário no qual a principal liderança das pesquisas estava impedida de concorrer.

Por isso, não seria exatamente uma surpresa se, desta vez, a Globo estivesse novamente fazendo sua escolha.

Ao que tudo indica, a emissora dos Marinho parece preferir o homem das rachadinhas, da riqueza cercada de suspeitas, dos R$ 61 milhões de Vorcaro e filho de Jair Bolsonaro, o presidente cujo governo conduziu o país à maior tragédia sanitária de sua história recente, com mais de 700 mil mortos pela Covid-19.

A diferença é que, agora, a Globo não precisa declarar seu candidato.

Basta olhar para a maneira como entrevista cada um deles.

•        Até Merval Pereira percebeu o que Flávio Bolsonaro fez no Jornal Nacional: “Mentiu muito.” Por Marco Damiani

O cinismo exibido pelo candidato Flávio Bolsonaro no Jornal Nacional, durante a entrevista ontem aos âncoras César Tralli e Renata Vasconcellos, despertou críticas dentro da própria Rede Globo.

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Na média das notas de 0 a 5 que o time da GloboNews atribuiu ao desempenho dele no ar, Flávio ficou no vermelho, com 2,4. Mas o pior foram os comentários. O termo mais usado para defini-lo foi “mentiroso”.

A jornalista Natuza Nery foi uma das mais críticas em relação ao conteúdo apresentado por Flávio.

“Uma entrevista em que Flávio Bolsonaro, na minha avaliação, enrolou demais e mentiu bastante, inclusive sobre o escândalo Master. Foram várias mentiras em série”, declarou ela.

A comentarista Vera Magalhães notou que o bolsonarista “soou altamente ensaiado e mentiu sobre temas importantes, como o pedido de dinheiro a Daniel Vorcaro e a participação dele e do irmão Eduardo na obtenção de sanções contra o Brasil pelos Estados Unidos”.

Para ela, ao tentar se mostrar moderado, Flávio ficou parecendo com “os personagens de IA que adora usar em suas redes”.

Com a palavra, os analistas globais:

Thomas Traumann:

“Flávio Bolsonaro segue sem explicar como arrancou R$ 60 milhões de um banqueiro corrupto, como o miliciano Adriano é um ‘policial exemplar’ e fugiu de qualquer detalhe de como vai recuperar a economia.”

Bernardo Mello Franco:

“Flávio Bolsonaro não conseguiu dar explicações convincentes sobre a intimidade com Daniel Vorcaro, as relações com o chefe do Escritório do Crime e a rachadinha em seu gabinete na Alerj.”

Míriam Leitão:

“Flávio Bolsonaro deu explicações falsas para a sua relação com o miliciano e chefe do Escritório do Crime no Rio, Adriano da Nóbrega. Mentiu em vários momentos, mas a mais curiosa das mentiras foi a de acusar o Baptista Jr., brigadeiro que Bolsonaro nomeou, de ter declarado voto em Lula.”

Merval Pereira:

“Do ponto de vista do marketing, Flávio foi bem. Do ponto de vista do conteúdo, mentiu muito.”

O humorista Paulo Vieira, que é contratado da Globo, também resolveu entrar no assunto com uma crítica de muito sentido à postura dos âncoras César Tralli e Renata Vasconcellos durante a entrevista com Flávio Bolsonaro.

“Ao entrevistar um mentiroso, se não interromper a mentira e dizer a verdade de imediato, vira desserviço. Faltaram muitas interrupções e explicações”, escreveu o humorista.

Vieira usou de exemplo uma das falas de Flávio que considerou que era necessário algum tipo de interrupção.

“Por exemplo, ouvir calado o cara justificar ter recebido dinheiro sujo roubado dos aposentados com ‘pelo menos não usei Lei Rouanet’ sem fazer nenhuma ponderação é fod*”, criticou.

Em paralelo, a ex-âncora global Leila Cordeiro, uma referência dentro da emissora entre os anos 1980 e 2000, publicou em sua página no Facebook uma detalhada análise da entrevista concedida na véspera pelo presidente Lula ao Jornal Nacional.

A palavra é dela:

“Hoje, este texto está sensível. Profundo. Reflexivo e, acima de tudo, muito sincero.

A entrevista de Lula à Globo trouxe de volta muitas lembranças.

Nós o conhecemos quando ainda era líder sindical, na época em que morávamos em São Paulo e ele começava sua trajetória política.

Desde então, suas ideias e convicções sempre estiveram voltadas para a justiça social, a soberania do Brasil e a urgência de atender, por meio de políticas públicas, às necessidades básicas da população mais carente.

Sem precisar repetir tudo o que o mundo já sabe, Lula deu ontem uma aula de democracia, respeito à política e compromisso com o povo brasileiro.

Renata Vasconcellos e César Tralli, que haviam sido assertivos nas entrevistas com os três primeiros candidatos, abordando assuntos pertinentes, pareceram completamente perdidos diante dele.

Foi uma entrevista visivelmente tendenciosa, conduzida muito mais com a intenção de constrangê-lo e fazê-lo cair em alguma armadilha do que de esclarecer a população.

Enquanto insistiam em perguntas que poderiam produzir uma frase condenatória, deixaram de aprofundar um dos temas mais importantes do momento: o tarifaço e a maneira como o Brasil enfrentará essa questão daqui para a frente, especialmente agora que Lula já foi procurado por Washington para uma nova negociação.

E aqui não se trata de ser de direita ou de esquerda.

Não se trata sequer de ser a favor ou contra Lula.

Trata-se de reconhecer que estamos diante de um verdadeiro presidente — alguém que coloca seu país, sua soberania e os interesses de seu povo acima de qualquer pressão estrangeira.

Também não adianta que os haters enfurecidos venham até aqui destilar seu ódio contra a realidade, refugiados no metaverso de absurdos que criaram.

Tampouco aceito o argumento de que não posso opinar ou defender meu país porque vivo fora dele.

Curiosamente, muitos dos que repetem esse discurso também vieram para os Estados Unidos — alguns não para construir pontes, mas para conspirar contra o próprio Brasil e destruir sua imagem em nome de interesses particulares e de uma ideologia reacionária.

Ontem, Lula foi Lula.

Com serenidade, experiência e firmeza, deixou seus adversários presos aos mesmos chavões empoeirados, aos mesmos preconceitos e às mesmas acusações que o tempo já fez caducar.

Podem amá-lo ou odiá-lo.

Podem concordar ou discordar dele.

Mas há algo que nem o ódio, nem as narrativas fabricadas, nem as armadilhas conseguem apagar:

Lula é simplesmente Lula.

Apesar de você…”

 

Fonte: Brasil 247

 

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