Denise
Assis: A história de 1989 se repete, desta vez como farsa
Medidas
as devidas proporções, a sabatina com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva,
na TV Globo, fez lembrar aos mais antigos o debate entre ele e Fernando Collor,
em 1989, às vésperas do segundo turno para a corrida à presidência.
Principalmente no dia seguinte. Em Salvador. Na sexta-feira, dia 28, Lula
demonstrou o quanto o tratamento recebido por ele, comparado aos demais que já
haviam passado pela bancada, o incomodou. Chegou mesmo a lamentar: “eu nunca me
preparei tanto”.
Sabia
onde iria pisar e por isso seguiu em ritmo de samba de Martinho da Vila:
“devagar, devagarinho”. Mas, de cara, foi arrastado para um interrogatório que
o fez se sentir “no Ministério Público”, como definiu. Para alguém que embora
não demonstre, saiu daquele período traumatizado – e não há como ser diferente
-, deve ter sido mesmo um momento difícil. Não pelo conteúdo do que teria de
responder, mas pela forma. Aos solavancos, sem deixar tempo de respirar entre
uma questão e outra, em tom duro, como já escreveram à exaustão.
Até a
sua morte (em 10 de maio de 2022), O jornalista Alberico de Souza Cruz carregou
a pecha de ter sido ele o responsável direto, em 1989, pela famosa edição do
debate entre Lula e Collor na TV Globo.
Muitos
dos que talvez leiam esse texto, não eram nascidos e não podem imaginar o que
foi aquele “day after”. Lula que despontava como favorito na corrida
presidencial em que o seu crescimento surpreendeu, porque a bola da vez estava
com Leonel Brizola, o bicho-papão dos militares, recém-apeados do poder, havia
chegado lá. Apostavam que a esquerda descarregaria seus votos nele. Mas deu
Lula. E se hoje um ex-torneiro mecânico na presidência da República já causa
muxoxos, imaginem naquela época, pós ditadura.
Era
preciso que alguém obstruísse o seu caminho. E a hora era aquela. De pé, ambos
os candidatos eram mediados pela jornalista Marília Gabriela. Collor – tal como
Flávio Bolsonaro em sua vez de ser sabatinado -, parecia confiante. Trazia
consigo uma pasta de papel, dessas ordinárias, compradas talvez na última hora
numa papelaria dos arredores. Lula não sabia o que tinha dentro. Que petardo
poderia sair dali. Ficou assustado com a concretude da ameaça, que só por ter
sido colocada sobre o púlpito já causava medo. Afinal, ele, um estranho no
ninho esperava todo tipo de ataques durante o confronto, mas não uma pasta
onde, hoje se sabe, estavam apenas um montinho de papéis em branco. Mas
funcionou. Lula se fragilizou, embora tivesse ido bem nas respostas (maldosamente
editadas).
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Alberico de Souza Cruz morreu sendo apontado
Em 21
de agosto de 2002 – há 24 anos, portanto -, o jornalista Juca Kfouri escreveu
no Observatório da Imprensa um artigo dedicado ao tema, com um objetivo claro
de colocar em pratos limpos a “edição do debate de 1989”.
Demonstrando
sua indignação com o que chamou de “mentira repetida mil vezes” (citando
Goebbels), escreveu:
“o que
espanta é saber, e não é de hoje, que o responsável pela edição, que teria
favorecido Collor, o jornalista Ronald Carvalho, assume inteiramente a
responsabilidade pelo compacto do debate.
E
assume publicamente, sem fazer segredo, até porque não vê motivo algum para se
envergonhar do trabalho que fez, como Editor de Política do JN”.
E para
dar ainda mais veracidade e transparência ao que afirmou, transcreveu o
depoimento que colheu do ex-editor do JN, que embora longo não posso “editar”,
sob pena de faltar com detalhes históricos, tão detalhadamente colhidos pelo
jornalista Juca Kfouri:
“Por
mais que eu assuma, não adianta. O Alberico nem estava no Rio, porque
acompanhou o debate em São Paulo. Uma primeira edição do debate foi ao ar no
jornal Hoje. Achei que estava desequilibrada, achei que não mostrava a vantagem
do Collor. Disse isso a quem editou, o jornalista Wianey Pinheiro, que me
respondeu já ter o OK da Alice.
Só que,
depois que foi ao ar, ela me chamou e disse que a edição resultara
desequilibrada, e pediu que fosse refeita para o JN.
Eu
mesmo tratei de refazer a edição, porque sabia que era uma missão delicada e
não quis expor ninguém. Pensei assim: vou editar como se fosse um jogo de
futebol. Se foi 5 a 1, e foi 5 a 1 para o Collor, mostrarei os cinco gols dele
e o gol do Lula.
Assim
fiz e fui mostrar para Alice que nem quis ver: ?Se você fez, está bem feito?,
disse. Procurei o Armando que me disse que se a Alice achava que estava bem,
estava bem.
Se
alguma incorreção houve, e houve, vou revelá-la agora, pela primeira vez.
Eu
tinha sido diretor da Editora Bloch no Recife e conhecia o Collor de longa
data, por causa dos relatos do nosso correspondente em Maceió, Divaldo Suruagy.
Eu não gostava nada do Collor e votei no Lula. Como, por sorteio, o debate
acabava com uma fala do Lula, ou seja, a palavra final da campanha eleitoral
era do Lula, eu resolvi também terminar a edição com uma fala dele.
Acontece
que a frase final, no debate, era paupérrima. O Lula tinha dito: ?Vim aqui
pronto para debater com um caçador de marajás e acabei debatendo com um caçador
de maracujás?.
Achei
muito ruim e escolhi uma frase melhor, o que não deveria ter feito.
Minutos
antes de o debate ir ao ar, o Alberico chegou de São Paulo e me chamou à sala
dele para vermos o JN juntos. Só aí ele viu como o debate tinha sido editado.
Há
versões que dão conta de uma explosão de protestos, dentro da Globo, tão logo o
debate foi ao ar. Pura imaginação. Não houve explosão na hora nem no dia
seguinte nem durante a apuração do resultado da eleição.
Recebi,
depois da edição ter ido ao ar, um telefonema do doutor Roberto Marinho, me
parabenizando. Antes, é preciso que se diga, nenhum dos Marinho me disse coisa
alguma.”
A
pergunta é simples: por que alguém assumiria como seu um trabalho que teria
sido de outro e que é até hoje tão criticado, para muitos decisivo para o
resultado daquela eleição, coisa com a qual, diga-se de passagem, o próprio
Lula nem concorda?
Que
Alberico tenha inimigos é natural, para quem ocupou cargos de chefia e por
tanto tempo. Que haja quem não goste de seu estilo, é também natural. O meu,
por exemplo, é diferente do dele. Mas que seja acusado de algo que não fez e
não mandou fazer é demais.
Ele
estava na ponte-aérea quando o debate foi editado!”
“Mas
entra eleição presidencial, sai eleição presidencial, a história do debate vem
à tona e Alberico volta à berlinda. Uma covardia”, protesta Kfouri.
O
episódio histórico dá bem a dimensão e o significado do que foi a sabatina de
Lula na Globo, na quinta-feira, dia 27. A chuva de posts nas redes, a enxurrada
de artigos – esse aqui é apenas mais um -, traduz o que uma afronta desta
natureza pode provocar, ainda mais que Luiz Inácio Lula da Silva é, sim, o
incumbente e o presidente da República do Brasil.
Desta
vez ainda não veio à tona quem estava no “ponto” para, por exemplo, assoprar ao
Cesar Tralli que ele deveria citar que a emissora havia “pedido desculpas” a
Lula. Nervoso, se precipitou ao se referir às desculpas pelo powerpoint exibido
pela Globo no caso Vorcaro, e não por Dallagnol, por ocasião da Lava-Jato, o
que nunca aconteceu.
No dia
seguinte, neste ano da graça de 2026, quem estava sentado frente aos
entrevistadores era Flávio Bolsonaro – o equivalente ao Collor de ontem, com
muito mais pimenta e fascismo na veia -, mas tratado com a mesma fidalguia
daquele, em 1989.
Para
compensar e tentar limpar nome e imagem – como se isso fosse possível frente a
tantas críticas e motivos que vem dando ao longo dos anos -, no programa da
GloboNews, “Central das Eleições” Ana Flor, Camarotti e Natuza Nery, desceram a
lenha nas “mentiras” e vacilos do candidato. O que pareceu “missa encomendada”,
foi em vão. Sua cara em close, tipo “olhos nos olhos”, já havia rodado o país
todo pela TV aberta. O povão que pode ter “comprado” o Flávio Bolsonaro clean,
não tem acesso ou hábito de ver o canal pago. Guardaram o candidato que fala
direto com eles na tela da TV.
“Lula derrotou a Globo e o PIG”, diz
Genoino
O
ex-presidente do PT José Genoino afirmou, em entrevista ao Bom Dia 247, que o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva saiu vitorioso do confronto com a Globo
durante a sabatina promovida pela emissora. Para ele, Lula conseguiu
transformar uma entrevista marcada por questionamentos sucessivos sobre
investigações e denúncias em um embate sobre o próprio papel da mídia
corporativa no processo político brasileiro.
“Lula
derrotou o projeto, o partido da imprensa golpista. Ele derrotou seus
inquisidores, foi firme, contundente, preciso e demonstrou uma combatividade
que vai influenciar muito na campanha nesse mês que falta”, declarou Genoino.
Na
avaliação do ex-dirigente petista, a postura adotada pelos entrevistadores
mostrou que a Globo atua para além de uma empresa jornalística e assume
posições vinculadas a interesses econômicos e políticos. Genoino relacionou
esse comportamento à defesa de políticas de austeridade, da financeirização da
economia e de uma agenda associada ao mercado financeiro.
“A
Globo é a ponta, a vanguarda da mídia golpista que defende o sistema, defende o
neoliberalismo, a financeirização, o agronegócio. E eles não aceitam que o Lula
seja vitorioso com muito voto, porque ele vai ter força para realizar as
mudanças”, afirmou.
Segundo
Genoino, Lula conseguiu modificar a dinâmica da entrevista quando passou a
questionar diretamente a cobertura feita pela emissora em episódios políticos
dos últimos anos. O ex-presidente do PT citou a Operação Lava Jato, o
impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e a projeção concedida pela
imprensa a personagens como Sergio Moro, Deltan Dallagnol e Eduardo Cunha.
Para
ele, esses episódios formam parte de uma relação histórica entre grandes
veículos de comunicação e disputas de poder no Brasil.
“Será
que a Globo vai esperar 50 anos para pedir desculpa? Ela esperou 50 anos para
pedir desculpa do golpe de 64 que ela apoiou. Ela vai esperar 50 anos para
pedir desculpa da manipulação que fez com mensalão, com Lava Jato, com
impeachment da Dilma e esses monstros que ela alimentou?”, questionou.
Genoino
disse considerar que a sabatina perdeu o caráter de entrevista jornalística em
determinados momentos e adquiriu, segundo sua interpretação, uma dinâmica
semelhante à de um interrogatório.
Ele
observou que parte considerável do tempo foi dedicada a assuntos relacionados a
investigações e casos policiais, enquanto outros temas ligados à gestão do
governo e ao cenário econômico receberam espaço menor.
“Eles
que cobram programa, eles que cobram debate de programa, eles que cobram as
propostas para o futuro, aí gastam 20 minutos para discutir uma questão que é
da área policial”, disse.
Para
Genoino, a reação de Lula foi decisiva para alterar o rumo da conversa. O
presidente, segundo ele, respondeu às perguntas, apresentou sua posição sobre
as investigações e passou a confrontar os pressupostos apresentados pelos
entrevistadores.
O
ex-presidente do PT destacou particularmente a defesa feita por Lula da
presunção de inocência e da necessidade de investigação de eventuais
irregularidades.
“Primeiro,
não tem ninguém acima da lei. Segundo, ele defende a presunção da inocência.
Terceiro, ele defende que os erros cometidos sejam apurados”, resumiu.
Genoino
também comparou o comportamento da Globo ao de outros veículos e
entrevistadores. Para ele, perguntas duras fazem parte da atividade
jornalística, mas existe uma diferença entre uma entrevista baseada no
contraditório e aquilo que classificou como uma tentativa de enquadramento
político do entrevistado.
“Eles
não se comportaram como jornalistas”, afirmou. “A Globo é um partido.”
Na
análise de Genoino, a atuação da emissora precisa ser compreendida dentro de um
sistema de comunicação concentrado em grandes grupos empresariais, com
capacidade para interferir no debate público e na formação da agenda política.
“A
mídia corporativa hereditária e monopolista é o partido da ordem. Ela defende
os princípios da ordem neoliberal, financeirização, hegemonia dos Estados
Unidos e austeridade fiscal”, declarou.
O
ex-presidente do PT sustentou que a entrevista também evidenciou divergências
sobre quais temas deveriam ocupar o centro da campanha eleitoral. Segundo ele,
enquanto Lula tentava apresentar realizações e propostas, a sabatina insistia
em assuntos capazes de colocá-lo na defensiva.
Genoino
citou como exemplo o debate sobre os gastos públicos. Na visão dele, os
entrevistadores buscaram pressionar Lula em torno de limites para despesas
sociais sem aprofundar questões como o peso dos juros da dívida pública ou o
funcionamento das emendas parlamentares.
“Eles
queriam fazer uma inquisição ao presidente Lula”, afirmou.
Para
Genoino, porém, o efeito político terminou sendo contrário ao pretendido. Ao
resistir à pressão e confrontar os entrevistadores, Lula teria reforçado uma
característica que o ex-dirigente petista considera fundamental para a reta
final da campanha: a combatividade.
“Primeiro,
a capacidade política do Lula, a agilidade com que ele foi entrevistado de
maneira inquisitorial. Segundo, ele respondeu a todas as questões. Terceiro,
ele foi combativo”, enumerou.
Segundo
Genoino, essa postura pode produzir efeitos para além da audiência imediata da
sabatina, já que trechos da entrevista circulam nas redes sociais e passam a
integrar a disputa política desenvolvida simultaneamente na televisão, na
internet e nas ruas.
“Essa
combatividade que ele revelou nas entrevistas e que revelou ontem é a
questão-chave para a gente ganhar essa eleição”, afirmou.
O
ex-presidente do PT também contestou o tratamento dado a Lula durante a
entrevista. Para ele, embora esteja concorrendo à reeleição, Lula continua
ocupando a Presidência da República e deveria ter sido tratado dessa forma.
“Você
poderia republicanamente dizer ‘presidente Lula, candidato à reeleição’. É a
verdade”, declarou.
Genoino
interpreta esse tipo de escolha como parte de uma disputa simbólica destinada a
reduzir o peso político do presidente. Para ele, setores econômicos que se
opõem a mudanças procuram limitar a margem de ação de Lula caso seja eleito
novamente.
“O
sistema quer diminuir a força do Lula para tentar forçar o Lula a negociar a
ponto do seu programa”, afirmou.
Ao
analisar a repercussão da entrevista, Genoino destacou que até comentaristas da
própria GloboNews fizeram avaliações acima da média sobre o desempenho do
presidente. Para ele, isso demonstraria que Lula conseguiu superar o formato
inicialmente adverso da sabatina.
Mais do
que um episódio isolado, Genoino considera que o confronto recoloca no debate o
papel desempenhado pelos grandes grupos de comunicação na democracia
brasileira.
“Nós
temos que aprender democraticamente que nós não temos uma mídia democrática,
neutra, independente. Não tem”, afirmou.
Na
avaliação do ex-presidente do PT, a entrevista mostrou que Lula conseguiu
inverter a posição de quem estava sob pressão e transformar a sabatina em um
questionamento sobre a própria conduta da emissora.
“Eu
acho que foi uma lição de política a entrevista dele diante do PIG”, concluiu.
Fonte:
Brasil 247

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