terça-feira, 1 de setembro de 2026

Denise Assis: A história de 1989 se repete, desta vez como farsa

Medidas as devidas proporções, a sabatina com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na TV Globo, fez lembrar aos mais antigos o debate entre ele e Fernando Collor, em 1989, às vésperas do segundo turno para a corrida à presidência. Principalmente no dia seguinte. Em Salvador. Na sexta-feira, dia 28, Lula demonstrou o quanto o tratamento recebido por ele, comparado aos demais que já haviam passado pela bancada, o incomodou. Chegou mesmo a lamentar: “eu nunca me preparei tanto”.

Sabia onde iria pisar e por isso seguiu em ritmo de samba de Martinho da Vila: “devagar, devagarinho”. Mas, de cara, foi arrastado para um interrogatório que o fez se sentir “no Ministério Público”, como definiu. Para alguém que embora não demonstre, saiu daquele período traumatizado – e não há como ser diferente -, deve ter sido mesmo um momento difícil. Não pelo conteúdo do que teria de responder, mas pela forma. Aos solavancos, sem deixar tempo de respirar entre uma questão e outra, em tom duro, como já escreveram à exaustão.

Até a sua morte (em 10 de maio de 2022), O jornalista Alberico de Souza Cruz carregou a pecha de ter sido ele o responsável direto, em 1989, pela famosa edição do debate entre Lula e Collor na TV Globo.

Muitos dos que talvez leiam esse texto, não eram nascidos e não podem imaginar o que foi aquele “day after”. Lula que despontava como favorito na corrida presidencial em que o seu crescimento surpreendeu, porque a bola da vez estava com Leonel Brizola, o bicho-papão dos militares, recém-apeados do poder, havia chegado lá. Apostavam que a esquerda descarregaria seus votos nele. Mas deu Lula. E se hoje um ex-torneiro mecânico na presidência da República já causa muxoxos, imaginem naquela época, pós ditadura.

Era preciso que alguém obstruísse o seu caminho. E a hora era aquela. De pé, ambos os candidatos eram mediados pela jornalista Marília Gabriela. Collor – tal como Flávio Bolsonaro em sua vez de ser sabatinado -, parecia confiante. Trazia consigo uma pasta de papel, dessas ordinárias, compradas talvez na última hora numa papelaria dos arredores. Lula não sabia o que tinha dentro. Que petardo poderia sair dali. Ficou assustado com a concretude da ameaça, que só por ter sido colocada sobre o púlpito já causava medo. Afinal, ele, um estranho no ninho esperava todo tipo de ataques durante o confronto, mas não uma pasta onde, hoje se sabe, estavam apenas um montinho de papéis em branco. Mas funcionou. Lula se fragilizou, embora tivesse ido bem nas respostas (maldosamente editadas).

<><> Alberico de Souza Cruz morreu sendo apontado

Em 21 de agosto de 2002 – há 24 anos, portanto -, o jornalista Juca Kfouri escreveu no Observatório da Imprensa um artigo dedicado ao tema, com um objetivo claro de colocar em pratos limpos a “edição do debate de 1989”.

Demonstrando sua indignação com o que chamou de “mentira repetida mil vezes” (citando Goebbels), escreveu:

“o que espanta é saber, e não é de hoje, que o responsável pela edição, que teria favorecido Collor, o jornalista Ronald Carvalho, assume inteiramente a responsabilidade pelo compacto do debate.

E assume publicamente, sem fazer segredo, até porque não vê motivo algum para se envergonhar do trabalho que fez, como Editor de Política do JN”.

E para dar ainda mais veracidade e transparência ao que afirmou, transcreveu o depoimento que colheu do ex-editor do JN, que embora longo não posso “editar”, sob pena de faltar com detalhes históricos, tão detalhadamente colhidos pelo jornalista Juca Kfouri:

“Por mais que eu assuma, não adianta. O Alberico nem estava no Rio, porque acompanhou o debate em São Paulo. Uma primeira edição do debate foi ao ar no jornal Hoje. Achei que estava desequilibrada, achei que não mostrava a vantagem do Collor. Disse isso a quem editou, o jornalista Wianey Pinheiro, que me respondeu já ter o OK da Alice.

Só que, depois que foi ao ar, ela me chamou e disse que a edição resultara desequilibrada, e pediu que fosse refeita para o JN.

Eu mesmo tratei de refazer a edição, porque sabia que era uma missão delicada e não quis expor ninguém. Pensei assim: vou editar como se fosse um jogo de futebol. Se foi 5 a 1, e foi 5 a 1 para o Collor, mostrarei os cinco gols dele e o gol do Lula.

Assim fiz e fui mostrar para Alice que nem quis ver: ?Se você fez, está bem feito?, disse. Procurei o Armando que me disse que se a Alice achava que estava bem, estava bem.

Se alguma incorreção houve, e houve, vou revelá-la agora, pela primeira vez.

Eu tinha sido diretor da Editora Bloch no Recife e conhecia o Collor de longa data, por causa dos relatos do nosso correspondente em Maceió, Divaldo Suruagy. Eu não gostava nada do Collor e votei no Lula. Como, por sorteio, o debate acabava com uma fala do Lula, ou seja, a palavra final da campanha eleitoral era do Lula, eu resolvi também terminar a edição com uma fala dele.

Acontece que a frase final, no debate, era paupérrima. O Lula tinha dito: ?Vim aqui pronto para debater com um caçador de marajás e acabei debatendo com um caçador de maracujás?.

Achei muito ruim e escolhi uma frase melhor, o que não deveria ter feito.

Minutos antes de o debate ir ao ar, o Alberico chegou de São Paulo e me chamou à sala dele para vermos o JN juntos. Só aí ele viu como o debate tinha sido editado.

Há versões que dão conta de uma explosão de protestos, dentro da Globo, tão logo o debate foi ao ar. Pura imaginação. Não houve explosão na hora nem no dia seguinte nem durante a apuração do resultado da eleição.

Recebi, depois da edição ter ido ao ar, um telefonema do doutor Roberto Marinho, me parabenizando. Antes, é preciso que se diga, nenhum dos Marinho me disse coisa alguma.”

A pergunta é simples: por que alguém assumiria como seu um trabalho que teria sido de outro e que é até hoje tão criticado, para muitos decisivo para o resultado daquela eleição, coisa com a qual, diga-se de passagem, o próprio Lula nem concorda?

Que Alberico tenha inimigos é natural, para quem ocupou cargos de chefia e por tanto tempo. Que haja quem não goste de seu estilo, é também natural. O meu, por exemplo, é diferente do dele. Mas que seja acusado de algo que não fez e não mandou fazer é demais.

Ele estava na ponte-aérea quando o debate foi editado!”

“Mas entra eleição presidencial, sai eleição presidencial, a história do debate vem à tona e Alberico volta à berlinda. Uma covardia”, protesta Kfouri.

O episódio histórico dá bem a dimensão e o significado do que foi a sabatina de Lula na Globo, na quinta-feira, dia 27. A chuva de posts nas redes, a enxurrada de artigos – esse aqui é apenas mais um -, traduz o que uma afronta desta natureza pode provocar, ainda mais que Luiz Inácio Lula da Silva é, sim, o incumbente e o presidente da República do Brasil.

Desta vez ainda não veio à tona quem estava no “ponto” para, por exemplo, assoprar ao Cesar Tralli que ele deveria citar que a emissora havia “pedido desculpas” a Lula. Nervoso, se precipitou ao se referir às desculpas pelo powerpoint exibido pela Globo no caso Vorcaro, e não por Dallagnol, por ocasião da Lava-Jato, o que nunca aconteceu.

No dia seguinte, neste ano da graça de 2026, quem estava sentado frente aos entrevistadores era Flávio Bolsonaro – o equivalente ao Collor de ontem, com muito mais pimenta e fascismo na veia -, mas tratado com a mesma fidalguia daquele, em 1989.

Para compensar e tentar limpar nome e imagem – como se isso fosse possível frente a tantas críticas e motivos que vem dando ao longo dos anos -, no programa da GloboNews, “Central das Eleições” Ana Flor, Camarotti e Natuza Nery, desceram a lenha nas “mentiras” e vacilos do candidato. O que pareceu “missa encomendada”, foi em vão. Sua cara em close, tipo “olhos nos olhos”, já havia rodado o país todo pela TV aberta. O povão que pode ter “comprado” o Flávio Bolsonaro clean, não tem acesso ou hábito de ver o canal pago. Guardaram o candidato que fala direto com eles na tela da TV.

       “Lula derrotou a Globo e o PIG”, diz Genoino

O ex-presidente do PT José Genoino afirmou, em entrevista ao Bom Dia 247, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva saiu vitorioso do confronto com a Globo durante a sabatina promovida pela emissora. Para ele, Lula conseguiu transformar uma entrevista marcada por questionamentos sucessivos sobre investigações e denúncias em um embate sobre o próprio papel da mídia corporativa no processo político brasileiro.

“Lula derrotou o projeto, o partido da imprensa golpista. Ele derrotou seus inquisidores, foi firme, contundente, preciso e demonstrou uma combatividade que vai influenciar muito na campanha nesse mês que falta”, declarou Genoino.

Na avaliação do ex-dirigente petista, a postura adotada pelos entrevistadores mostrou que a Globo atua para além de uma empresa jornalística e assume posições vinculadas a interesses econômicos e políticos. Genoino relacionou esse comportamento à defesa de políticas de austeridade, da financeirização da economia e de uma agenda associada ao mercado financeiro.

“A Globo é a ponta, a vanguarda da mídia golpista que defende o sistema, defende o neoliberalismo, a financeirização, o agronegócio. E eles não aceitam que o Lula seja vitorioso com muito voto, porque ele vai ter força para realizar as mudanças”, afirmou.

Segundo Genoino, Lula conseguiu modificar a dinâmica da entrevista quando passou a questionar diretamente a cobertura feita pela emissora em episódios políticos dos últimos anos. O ex-presidente do PT citou a Operação Lava Jato, o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e a projeção concedida pela imprensa a personagens como Sergio Moro, Deltan Dallagnol e Eduardo Cunha.

Para ele, esses episódios formam parte de uma relação histórica entre grandes veículos de comunicação e disputas de poder no Brasil.

“Será que a Globo vai esperar 50 anos para pedir desculpa? Ela esperou 50 anos para pedir desculpa do golpe de 64 que ela apoiou. Ela vai esperar 50 anos para pedir desculpa da manipulação que fez com mensalão, com Lava Jato, com impeachment da Dilma e esses monstros que ela alimentou?”, questionou.

Genoino disse considerar que a sabatina perdeu o caráter de entrevista jornalística em determinados momentos e adquiriu, segundo sua interpretação, uma dinâmica semelhante à de um interrogatório.

Ele observou que parte considerável do tempo foi dedicada a assuntos relacionados a investigações e casos policiais, enquanto outros temas ligados à gestão do governo e ao cenário econômico receberam espaço menor.

“Eles que cobram programa, eles que cobram debate de programa, eles que cobram as propostas para o futuro, aí gastam 20 minutos para discutir uma questão que é da área policial”, disse.

Para Genoino, a reação de Lula foi decisiva para alterar o rumo da conversa. O presidente, segundo ele, respondeu às perguntas, apresentou sua posição sobre as investigações e passou a confrontar os pressupostos apresentados pelos entrevistadores.

O ex-presidente do PT destacou particularmente a defesa feita por Lula da presunção de inocência e da necessidade de investigação de eventuais irregularidades.

“Primeiro, não tem ninguém acima da lei. Segundo, ele defende a presunção da inocência. Terceiro, ele defende que os erros cometidos sejam apurados”, resumiu.

Genoino também comparou o comportamento da Globo ao de outros veículos e entrevistadores. Para ele, perguntas duras fazem parte da atividade jornalística, mas existe uma diferença entre uma entrevista baseada no contraditório e aquilo que classificou como uma tentativa de enquadramento político do entrevistado.

“Eles não se comportaram como jornalistas”, afirmou. “A Globo é um partido.”

Na análise de Genoino, a atuação da emissora precisa ser compreendida dentro de um sistema de comunicação concentrado em grandes grupos empresariais, com capacidade para interferir no debate público e na formação da agenda política.

“A mídia corporativa hereditária e monopolista é o partido da ordem. Ela defende os princípios da ordem neoliberal, financeirização, hegemonia dos Estados Unidos e austeridade fiscal”, declarou.

O ex-presidente do PT sustentou que a entrevista também evidenciou divergências sobre quais temas deveriam ocupar o centro da campanha eleitoral. Segundo ele, enquanto Lula tentava apresentar realizações e propostas, a sabatina insistia em assuntos capazes de colocá-lo na defensiva.

Genoino citou como exemplo o debate sobre os gastos públicos. Na visão dele, os entrevistadores buscaram pressionar Lula em torno de limites para despesas sociais sem aprofundar questões como o peso dos juros da dívida pública ou o funcionamento das emendas parlamentares.

“Eles queriam fazer uma inquisição ao presidente Lula”, afirmou.

Para Genoino, porém, o efeito político terminou sendo contrário ao pretendido. Ao resistir à pressão e confrontar os entrevistadores, Lula teria reforçado uma característica que o ex-dirigente petista considera fundamental para a reta final da campanha: a combatividade.

“Primeiro, a capacidade política do Lula, a agilidade com que ele foi entrevistado de maneira inquisitorial. Segundo, ele respondeu a todas as questões. Terceiro, ele foi combativo”, enumerou.

Segundo Genoino, essa postura pode produzir efeitos para além da audiência imediata da sabatina, já que trechos da entrevista circulam nas redes sociais e passam a integrar a disputa política desenvolvida simultaneamente na televisão, na internet e nas ruas.

“Essa combatividade que ele revelou nas entrevistas e que revelou ontem é a questão-chave para a gente ganhar essa eleição”, afirmou.

O ex-presidente do PT também contestou o tratamento dado a Lula durante a entrevista. Para ele, embora esteja concorrendo à reeleição, Lula continua ocupando a Presidência da República e deveria ter sido tratado dessa forma.

“Você poderia republicanamente dizer ‘presidente Lula, candidato à reeleição’. É a verdade”, declarou.

Genoino interpreta esse tipo de escolha como parte de uma disputa simbólica destinada a reduzir o peso político do presidente. Para ele, setores econômicos que se opõem a mudanças procuram limitar a margem de ação de Lula caso seja eleito novamente.

“O sistema quer diminuir a força do Lula para tentar forçar o Lula a negociar a ponto do seu programa”, afirmou.

Ao analisar a repercussão da entrevista, Genoino destacou que até comentaristas da própria GloboNews fizeram avaliações acima da média sobre o desempenho do presidente. Para ele, isso demonstraria que Lula conseguiu superar o formato inicialmente adverso da sabatina.

Mais do que um episódio isolado, Genoino considera que o confronto recoloca no debate o papel desempenhado pelos grandes grupos de comunicação na democracia brasileira.

“Nós temos que aprender democraticamente que nós não temos uma mídia democrática, neutra, independente. Não tem”, afirmou.

Na avaliação do ex-presidente do PT, a entrevista mostrou que Lula conseguiu inverter a posição de quem estava sob pressão e transformar a sabatina em um questionamento sobre a própria conduta da emissora.

“Eu acho que foi uma lição de política a entrevista dele diante do PIG”, concluiu.

 

Fonte: Brasil 247

 

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