A
Globo está onde sempre esteve: contra o Brasil e os brasileiros
O
editorial publicado neste domingo pelo jornal O Globo, em que o grupo afirma
que “não há do que se desculpar” por sua atuação durante a Lava Jato, tem pelo
menos uma virtude: desfaz ilusões.
Depois
de tudo o que aconteceu no Brasil na última década, depois dos 580 dias de
prisão de Luiz Inácio Lula da Silva, da anulação de suas condenações, do
reconhecimento da parcialidade de Sergio Moro pelo Supremo Tribunal Federal no
processo do tríplex e da destruição de empresas, empregos e capacidade
produtiva nacional, a Globo decidiu que não tem nada a rever.
Talvez
seja melhor assim. Porque a frase permite compreender que a Globo está
exatamente onde sempre esteve: contra o Brasil e contra os brasileiros.
Não se
trata de um desvio ocasional, de um erro jornalístico ou de uma escolha infeliz
feita durante a cobertura de determinado acontecimento. Trata-se de uma posição
histórica.
A Globo
é e sempre foi um dos mais poderosos aparelhos ideológicos das classes
dominantes brasileiras e do imperialismo. Nos grandes confrontos sobre os
destinos do País, quase invariavelmente colocou seu imenso poder de comunicação
a serviço daqueles que defendem um Brasil subordinado, desigual e incapaz de
exercer plenamente sua soberania. Mudam os personagens, mudam os pretextos,
mudam as campanhas, mas o lado permanece essencialmente o mesmo.
Essa
história não começou com Lula, Dilma Rousseff ou a Lava Jato. Antes mesmo da
existência da Rede Globo de Televisão, o jornal O Globo integrou o campo
político e midiático que combateu Getúlio Vargas, especialmente na crise que
culminou no suicídio do presidente, em 24 de agosto de 1954. A Carta-Testamento
transformou a morte de Vargas numa denúncia histórica contra as forças
nacionais e estrangeiras que se levantavam contra seu projeto de
desenvolvimento.
A
reação popular ao suicídio foi explosiva e atingiu também os veículos
identificados com a campanha contra Getúlio. Carros de O Globo foram
incendiados por manifestantes.
Não se
trata de celebrar a violência contra empresas ou trabalhadores da imprensa, mas
de registrar o tamanho da revolta e a percepção, já naquele momento, de que
determinados meios de comunicação não eram simples observadores da crise
brasileira. Eram atores políticos.
Dez
anos depois, não haveria sequer espaço para dúvidas. O Globo apoiou o golpe
militar de 1964 que derrubou o presidente constitucional João Goulart e
instaurou uma ditadura que duraria 21 anos. O golpe foi vendido como defesa da
democracia e produziu exatamente o contrário: cassações, censura, perseguições
políticas, prisões, torturas, assassinatos e exílio.
Enquanto
milhares de brasileiros pagavam o preço da ditadura, as Organizações Globo
cresceram extraordinariamente. Foi durante o regime militar que a Rede Globo se
consolidou nacionalmente, construiu uma posição dominante na formação da
opinião pública brasileira e adquiriu uma capacidade de influência política sem
paralelo entre empresas privadas do País.
A
ditadura precisava de instrumentos capazes de produzir consenso, enquanto a
Globo precisava das condições políticas, econômicas e regulatórias que
permitissem sua expansão. Os interesses convergiram.
Somente
em 2013, quase meio século depois do golpe, a Globo reconheceu publicamente que
apoiar a ruptura de 1964 havia sido um erro. O pedido de desculpas poderia ter
representado um verdadeiro acerto de contas com a história, mas a Globo já
preparava mais um golpe. Naquele exato momento, o Brasil começava a ingressar
em um novo ciclo de desestabilização política que terminaria, três anos depois,
com a derrubada da presidenta Dilma Rousseff.
As
chamadas “jornadas de junho de 2013” foram incentivadas e amplificadas pela
Globo e seus jornalistas. Vieram depois as manifestações contra Dilma, a Lava
Jato, a demonização da política e a fabricação de um ambiente no qual derrubar
uma presidenta legitimamente eleita passou a ser apresentado como solução para
os problemas nacionais.
Em
2016, Dilma foi afastada por um golpe parlamentar apoiado entusiasticamente
pela Globo. Se em 2013 o grupo pedia desculpas por ter apoiado o golpe de 1964,
três anos depois já participava da legitimação de uma nova ruptura democrática,
desta vez sem tanques nas ruas.
Deste
golpe, a Globo nunca pediu desculpas. E não pedirá, porque reconhecer o erro
significaria admitir também responsabilidade pelos retrocessos econômicos e
sociais que vieram depois – e que fazem parte do programa econômico da Globo,
ou seja, do neoliberalismo.
O
governo Michel Temer implementou uma agenda que jamais teria recebido respaldo
popular nas urnas, com congelamento dos gastos públicos, reforma trabalhista,
enfraquecimento da proteção social e redução da capacidade do Estado brasileiro
de promover desenvolvimento e combater desigualdades.
Paralelamente,
a Lava Jato produzia uma das maiores destruições econômicas autoinfligidas da
história brasileira. Em vez de punir empresários e executivos que tivessem
cometido crimes e preservar empresas, empregos, tecnologia e capacidade
produtiva, o Brasil permitiu que suas maiores construtoras fossem devastadas.
Companhias brasileiras que competiam internacionalmente em engenharia pesada
foram destruídas ou dramaticamente reduzidas, milhares de fornecedores foram
atingidos e uma cadeia produtiva inteira sofreu consequências que o País sente
até hoje.
Milhões
de trabalhadores pagaram uma conta que não era deles. Projetos foram
interrompidos, investimentos desapareceram, famílias perderam renda e a
capacidade brasileira de competir em grandes obras de infraestrutura no
exterior foi duramente atingida.
A Globo
não apenas cobriu a Lava Jato. Transformou-a num espetáculo permanente e seus
protagonistas em heróis nacionais. Procuradores e juízes passaram a ocupar o
imaginário brasileiro como integrantes de uma cruzada moral supostamente acima
da política, das garantias individuais e, em determinados momentos, do próprio
escrutínio jornalístico que deveria acompanhar qualquer concentração
extraordinária de poder.
Foi
nesse ambiente que surgiu o infame PowerPoint de Deltan Dallagnol. Lula
aparecia no centro de uma teia de acusações que, reproduzida massivamente pela
imprensa e pela televisão, produziu perante milhões de brasileiros uma
condenação política antes mesmo da condenação judicial. A presunção de
inocência foi substituída pela presunção televisiva de culpa.
Em
abril de 2018, a ofensiva atingiu seu objetivo principal. Lula foi condenado
por Sergio Moro, preso por 580 dias e impedido de disputar a eleição
presidencial daquele ano, na qual aparecia como favorito. Jair Bolsonaro venceu
aquela eleição e, poucas semanas depois, o juiz que havia condenado o principal
adversário do candidato vencedor abandonou a magistratura para se tornar
ministro da Justiça do novo governo.
Mais
tarde, o Supremo Tribunal Federal anulou as condenações de Lula e declarou
Sergio Moro parcial no processo do tríplex. São fatos de uma gravidade
histórica extraordinária. O principal candidato à Presidência foi retirado da
eleição, o beneficiário político de sua ausência chegou ao Planalto e o juiz
responsável pela condenação tornou-se ministro desse mesmo governo.
Sem a
destruição política de Lula e sua exclusão da eleição de 2018, o fascismo e o
bolsonarismo provavelmente não teriam chegado à Presidência da República. A
Globo pode ter posteriormente entrado em conflito com Jair Bolsonaro,
especialmente quando seu governo passou a atacá-la diretamente, mas isso não
apaga sua responsabilidade na criação do ambiente político que tornou possível
a ascensão da extrema direita. O fascismo bolsonarista não caiu do céu:
germinou no terreno preparado pela criminalização generalizada da política,
pela destruição da confiança nas instituições e pela transformação da Lava Jato
numa cruzada moral.
A
história produziu então uma de suas grandes ironias. O homem que havia sido
preso, impedido de disputar uma eleição e submetido durante anos a um processo
de destruição de reputação recuperou seus direitos políticos, derrotou
Bolsonaro nas urnas e voltou à Presidência da República. Lula retornou ao
Palácio do Planalto depois de sobreviver a uma das maiores operações de
perseguição política da história brasileira recente.
Mesmo
depois de tudo o que sofreu, Lula não transformou seu terceiro mandato numa
guerra contra a Globo. Ao contrário, procurou estabelecer uma relação
civilizada, institucional e pragmática com o maior conglomerado de comunicação
do País. Compreendeu que governar o Brasil exige diálogo inclusive com aqueles
que trabalharam contra seu projeto político e contra sua própria liberdade.
Na
sabatina da Globo, Lula cobrou algo elementar: um pedido de desculpas pela
forma como foi tratado durante a Lava Jato e, em particular, pelo espetáculo do
PowerPoint que ajudou a apresentá-lo aos brasileiros como culpado antes de
qualquer julgamento definitivo. Não pediu censura, não pediu submissão e não
pediu que a imprensa deixasse de investigar governos. Pediu apenas que uma
instituição com enorme poder reconhecesse os próprios erros diante dos fatos
revelados pela história.
A
resposta chegou neste domingo: “Não há do que se desculpar”.
Pronto.
Caíram as máscaras e, com elas, qualquer ilusão de que a Globo estivesse
disposta a fazer um acerto de contas sério com sua própria história. O grupo
que levou quase meio século para admitir que errou ao apoiar o golpe de 1964
agora se recusa a reconhecer qualquer responsabilidade pelo ambiente político e
midiático que ajudou a construir durante a Lava Jato.
A
questão, evidentemente, transcende Lula e diz respeito a projetos de Brasil. De
um lado, existe historicamente um projeto de construção de uma nação soberana,
industrializada, socialmente integrada, capaz de controlar seus recursos
estratégicos, reduzir desigualdades e exercer autonomia no sistema
internacional. Esse impulso apareceu, com suas diferentes características e
contradições, em Getúlio Vargas, João Goulart e, mais recentemente, nos
governos Lula e Dilma.
Do
outro lado está o projeto de um Brasil subordinado, dependente, socialmente
desigual, financeirizado e permanentemente condicionado pelos interesses de
suas elites econômicas e pelos centros internacionais de poder. Sempre que
esses dois projetos entraram em choque, a Globo soube de que lado ficar.
Combateu Getúlio, apoiou o golpe contra João Goulart, prosperou durante a
ditadura, apoiou a derrubada de Dilma, transformou a Lava Jato em espetáculo e
ajudou a construir o ambiente que levou Lula à prisão e o retirou da eleição de
2018.
A Globo
pode até afirmar que não deve desculpas. Os brasileiros têm o direito de olhar
para sua história e chegar à conclusão oposta. Deve desculpas pelo apoio ao
golpe de 1964, como ela própria finalmente reconheceu em 2013; deve uma
autocrítica profunda por seu papel na crise que culminou no golpe parlamentar
contra Dilma; deve explicações pela transformação da Lava Jato em espetáculo
permanente; e deve refletir sobre sua participação na construção do ambiente
que permitiu a prisão de Lula, sua exclusão da eleição e a posterior ascensão
do bolsonarismo.
Depois
de Getúlio, 1964, junho de 2013, 2016, Lava Jato e 2018, já não há espaço para
ilusões. Lula tentou construir uma relação civilizada e pragmática depois de
retornar à Presidência. A Globo respondeu neste domingo que “não há do que se
desculpar”.
Que
assim seja. Cada um escolheu seu lugar na história.
A Globo
está onde sempre esteve: contra as forças populares, contra os interesses
nacionais e, portanto, contra o Brasil e os brasileiros.
Jeferson Miola: Em números — Globo
favorece Flávio Bolsonaro
Terminei
artigo sobre a entrevista do presidente Lula no Jornal Nacional dizendo que “a
Globo se condenou a fazer com Flávio Bolsonaro o mesmo tipo de entrevista
inquisitorial e policialesca, com perguntas insistentes durante um longo tempo
sobre a ficha criminal do gângster”.
Disse
ainda que, “se não fizer isso, que seria o mínimo de isonomia jornalística, a
Globo assumirá que a entrevista do Lula terá sido uma poderosa peça de
propaganda contra sua reeleição”.
A
entrevista de Flávio Bolsonaro no Jornal Nacional não deixa dúvidas sobre a
escolha da Globo de se perfilar ao lado de Donald Trump, Marco Rubio e
Bolsonaros na guerra para impedir a reeleição de Lula.
Os
entrevistadores César Tralli e Renata Vasconcellos dispensaram tratamentos
distintos ao Lula e a Flávio. Tiveram uma condescendência escandalosa com as
omissões, contradições e mentiras deslavadas do gângster-filho.
A
diferença de tratamento não ficou restrita à incisividade e vilania das
perguntas, mas é comprovada nas estatísticas das duas entrevistas, que
confirmam a decisão editorial e institucional da Globo de prejudicar Lula e
favorecer Flávio Bolsonaro.
Praticamente
metade do tempo da entrevista de Lula, ou seja, 18min 50seg, 47,1% da duração
total, foi utilizado para fustigá-lo em relação à corrupção. E com uma
abordagem agressiva, inquisitorial e condenatória:
Os
jornalistas sacrificaram a abordagem de temas essenciais, como a ameaça
estrangeira ao país, terras raras, juros, SUS etc., para fixar a idéia de
associação de Lula e do PT com corrupção.
Mas,
por outro lado, o arquicorrupto Flávio, cuja trajetória pessoal e familiar é
marcada por ilícitos e corrupção com mandatos parlamentares, foi inquirido
sobre corrupção em apenas 31,1% do tempo total da entrevista, durante 11min e
55seg – 7 minutos a menos que Lula. Algo inexplicável em relação a quem é
beneficiário da maior fraude financeira do país.
O
disparate é enorme também em relação à quantidade de perguntas feitas aos
candidatos sobre corrupção. O JN inquiriu Lula o dobro de vezes que questionou
Flávio: em 10 das 15 perguntas. A cada três perguntas feitas a Lula, duas foram
sobre corrupção:
Devem
ser lembradas, ainda, as interrupções e réplicas feitas pela dupla de
jornalistas da Globo a Lula na inquirição sobre corrupção, postura não
observada em relação a Flávio.
Um
momento específico da entrevista de Flávio evidenciou a conduta totalmente
faccional dos entrevistadores. Foi na pergunta sobre a proximidade dele com
Rodrigo Bacellar, o deputado aliado preso por envolvimento com o Comando
Vermelho.
O
questionamento com a resposta durou apenas 38 segundos [sim, 38 segundos!], sem
que Tralli e Renata o interpelassem, como fizeram repetidamente com Lula.
A
jornalista Neide Duarte, que trabalhou 42 anos na Globo, criticou duramente a
opção falsificadora e manipuladora da Globo na entrevista de Lula. Ela disse:
“vocês [Globo] continuam nessa batalha para derrubar Lula. Descaradamente
agora”.
A Globo
tirou o simulacro de imparcialidade e isonomia e vestiu a camiseta do time do
Trump, dos Bolsonaro e da extrema-direita. Entrou com tudo na eleição para
tentar impedir o quarto mandato de Lula.
Fonte:
Por Leonardo Attuf, em Brasil 247/Viomundo

Nenhum comentário:
Postar um comentário