Presidenciáveis
estão de olho no social, mas com ressalvas
Os
planos de governo dos candidatos à Presidência de direita compartilham da
premissa de que a transferência de renda em programas sociais deve ser um ponto
de partida e não o destino final das famílias vulneráveis. A assistência social
é vista como uma ponte que possibilita a autonomia econômica.
Com
exceção do plano de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o
cenário se repete no caso dos candidatos Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado
(PSD), Renan Santos (Missão), Romeu Zema (Novo) e Augusto Cury (Avante). Os
candidatos se comprometem com um aperfeiçoamento dos programas, combatendo
fraudes e desvios.
É o
caso de Flávio, que promete manter os programas atuais, com aprimoramentos da
gestão com correções de distorções. Lula defende a realização de conferências
para implantar e aprimorar políticas e programas sob responsabilidade federal.
Caiado
e Zema apontam para um cruzamento dos dados do Cadastro Único (CadÚnico) com
bases alternativas como uma forma de aprimoramento dos programas.
Cury e
Renan Santos, por outro lado, defendem que os impactos dessa assistência social
nas contas públicas devem ser considerados. Renan promete que, caso eleito, seu
primeiro ato será a aprovação de uma PEC de Transição que, entre outras
medidas, vai promover a desindexação de benefícios previdenciários e
assistenciais do salário mínimo, corrigindo-os apenas pela inflação.
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Bolsa Família
No caso
do Bolsa Família, principal programa de transferência de renda e assistência
social do Brasil, os presidenciáveis de direita já declararam que pretendem
manter a iniciativa, mas com alterações. Em eventos passados, Flávio Bolsonaro
disse que trata-se de um "direito adquirido" e que "ninguém tem
o direito de tocar ou de acabar com ele".
"Programas
sociais como o Bolsa Família não podem ser a última coisa que o governo faz por
alguém, têm que ser a primeira. Nós vamos garantir o Bolsa Família para as
pessoas que precisam e vamos oferecer muito mais, vamos melhorar a vida
delas", afirmou esta semana, no Nordeste.
Da
mesma forma, Caiado diz querer manter a rede de transferência de renda para
quem precisa, mas sugere uma regra de transição para quem ingressa no trabalho
formal ou amplia renda, reduzindo o benefício gradualmente e se conectando à
qualificação, creche e intermediação. "O Bolsa Família sempre será
mantido. Isso não é política de candidato à Presidência da República, é
política de Estado", disse o ex-governador de Goiás em evento em Brasília.
Romeu
Zema, por outro lado, sugere que adultos aptos permaneçam no programa apenas se
estiverem buscando emprego, estudando ou se qualificando profissionalmente. Com
isso, o benefício poderá ser suspenso se recusar vaga de trabalho sem
justificativa, exceto se forem responsáveis pelo cuidado de idosos, crianças
pequenas ou pessoas com deficiência.
Segundo
ele, o objetivo seria evitar uma geração de "imprestáveis". O
ex-governador de Minas Gerais também propôs a criação de uma premiação de R$ 5
mil para as famílias que superarem o limite de renda e conseguirem deixar
voluntariamente a dependência do programa.
Uma
"reforma total do sistema de assistencialismo" viria com a eleição de
Renan Santos. O plano de governo do candidato sugere uma contrapartida ao Bolsa
Família com um modelo chamado "Frentes Cidadãs", em que os
beneficiários participam de projetos "para o bem público".
"Nenhum
estado brasileiro terá mais gente no Bolsa Família do que no trabalho formal ao
fim do governo. (...) Adeus para muitas pessoas ao Bolsa Família, bem-vindo ao
mundo das pessoas que compram as coisas com o próprio dinheiro", disse
Renan quando oficializou a candidatura.
No
plano de governo, Cury defende que o Bolsa Família seja como renda para
impulsionar o empreendedorismo e a autonomia econômica das famílias. "Nós
vamos transformá-lo em um programa em que cada pessoa que assine a carteira ou
tenha uma microempresa não perca o benefício, pelo menos por um certo
tempo", explicou em evento nessa semana. O plano de governo ainda cita que
a emancipação dos beneficiários seria premiada com incentivos e taxas de juros
mais baixas.
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BPC
O BPC
(Benefício de Prestação Continuada) não é mencionado na maioria dos planos de
governo, mas as medidas propostas pelos candidatos transpassam o auxílio
financeiro de um salário mínimo mensal dado a idosos e a pessoas com
deficiência de baixa renda. Em 2025, o público gasto com o benefício atingiu R$
127,2 bilhões, o equivalente a 1% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.
Diante
desse cenário, o candidato Renan Santos, em especial, cita o programa ao propor
uma reforma dos benefícios para a contenção do deficit público. A PEC da
transição envolve a desindexação de benefícios assistenciais como o BPC e
previdenciários em relação ao salário mínimo, fazendo com que passem a ser
corrigidos apenas pela inflação.
Flávio
não menciona o BPC no plano de governo, mas propõe reeditar uma medida
provisória (MP) nos moldes da "MP Antifraude" de 2019, que exigiu a
revalidação anual dos descontos associativos na aposentadoria, cancelando
qualquer desconto feito sem o consentimento do aposentado.
Caiado,
por outro lado, quer simplificar a avaliação biopsicossocial — etapa
obrigatória para a concessão do BPC — e reduzir o tempo de espera no
atendimento para pessoas com deficiência. Tanto ele quanto Zema também defendem
o combate à fraude no acesso desse benefício. Cury, por sua vez, não menciona o
BPC em seu programa de governo.
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Minha Casa Minha Vida
O
presidente Lula promete manter e ampliar para todas as faixas de renda o Minha
Casa, Minha Vida (MCMV), programa habitacional do governo federal criado para
facilitar a compra da casa própria com taxas de juros menores e subsídios.
Os
demais candidatos pretendem reformular a política. Flávio Bolsonaro quer
retomar o Casa Verde e Amarela, uma versão do MCMV lançada pelo governo do
ex-presidente Jair Bolsonaro e substituída pelo governo Lula. As metas são 2,5
milhões de residências e a "menor taxa de juros possível no
financiamento".
Renan
Santos e Romeu Zema, por outro lado, acreditam que as moradias populares foram
historicamente construídas em áreas isoladas. Por isso, querem reformar o MCMV,
redirecionando recursos para a aquisição de imóveis em áreas urbanas que já
contam com infraestrutura consolidada. O candidato do Missão ainda propõe um
financiamento direto de projetos de desfavelização.
Caiado
não cita o MCMV no plano de governo, mas defende uma integração da produção
habitacional, urbanização, regularização fundiária, locação social e melhoria
de moradias. Priorizando famílias com crianças, mulheres vítimas de violência,
pessoas com deficiência e idosos, com localização próxima a emprego, transporte
e serviços.
Cury
também não cita o programa habitacional do governo, mas defende programas de
regularização fundiária, com a meta de regularizar até 5 milhões de moradias em
10 anos. O candidato também promete estimular cooperativas habitacionais,
capazes de organizar a compra de terrenos, a construção de moradias e o
planejamento de comunidades a custos mais acessíveis.
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Pé-de-Meia
Programa
de incentivo financeiro-educacional do governo federal lançado em 2024, o
Pé-de-Meia funciona como uma poupança para estudantes do ensino médio público.
Em seu plano de governo, Lula promete que, se reeleito, vai manter e aprimorar
a medida criada em sua gestão.
Romeu
Zema, por outro lado, sugere mudanças no programa ao vinculá-lo ao aprendizado
do aluno. O candidato pretende elevar a exigência de frequência escolar do
programa e premiar os estudantes de excelência ao fim do ensino médio com o
pagamento do valor máximo. Também será exigida uma nota mínima no Enem para o
recebimento da parcela.
Sem
citar o Pé-de-Meia, Caiado defende o aperfeiçoamento de incentivos financeiros
a estudantes de baixa renda com maior risco de abandono. Tais benefícios ainda
seriam integrados a orientação, saúde mental e formação profissional. Flávio
sugere a criação do Programa Acolher, em que alunos com bom desempenho são
remunerados para dar reforço aos colegas.
Os
candidatos Augusto Cury e Renan Santos não têm propostas de incentivos
financeiro-educacionais em seus planos de governo.
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Vale-gás
A
Tarifa Social de Energia Elétrica e o Vale-Gás são programas do governo federal
brasileiro criados para ajudar famílias de baixa renda a pagar por serviços
básicos essenciais. O primeiro é um desconto ou isenção na conta de luz para
residências de famílias de baixa renda. O segundo, um benefício que ajuda na
compra do botijão de gás de cozinha (13 kg) para famílias em situação de
vulnerabilidade.
Caiado
e Flávio se comprometem em manter e aperfeiçoar a gratuidade da energia
elétrica para as famílias de baixa renda. Embora não cite nominalmente o termo
Tarifa Social, Zema propõe baixar a conta de luz de todos os brasileiros por
meio de um choque de corte em encargos e subsídios. Os três defendem medidas
para reduzir o preço do gás de cozinha.
Renan
Santos e Augusto Cury não trazem propostas ou referências diretas aos
benefícios em suas diretrizes de governo.
• Os efeitos negativos das emendas na
política de saúde. Por Marcelo Barenco
Nossa
Constituição criou um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo.
Universal, integral e gratuito, o sistema único nasceu com o propósito de
concretizar o direito fundamental à saúde, transformando-o de um privilégio até
então restrito a alguns cidadãos em um direito dirigido a todos, sem distinção.
O
próprio constituinte, consciente do limite estrutural do sistema, admitiu
expressamente a possibilidade de participação da iniciativa privada, mas foi
claro: desde que de forma complementar, não podendo substituí-lo. Com isso, o
texto constitucional estabeleceu que o fortalecimento da rede pública de saúde
deve ter prioridade em relação ao apoio complementar da iniciativa privada. Mas
o que se tem visto nos últimos anos é uma inversão dessa lógica.
Em vez
de consolidar a rede existente, gestores têm adotado como política pública a
celebração sucessiva de termos de fomento ou convênios com as chamadas
organizações da sociedade civil, para a realização de consultas, exames e
outros procedimentos de menor complexidade, muitas das vezes por meio das
conhecidas carretas da saúde. É a política de saúde sendo gerida por emendas
parlamentares.
À
primeira vista, esse modelo pode parecer eficiente, principalmente para os
próprios usuários, que recebem o esperado atendimento. No entanto, essa solução
resolve os problemas de gestão a curto prazo, mas deixa intactos os problemas
estruturais. Com isso, o Estado deixa de ampliar sua capacidade de atendimento
e de fortalecer seu capital humano, e passa a depender permanentemente da
contratação de terceiros para executar atividades tipicamente estatais. O que
deveria ser a exceção, passa a ser a regra.
Essa
mudança de rota na política pública de saúde não parece apta a gerar bons
resultados a médio e longo prazos. Cada programa financiado por emendas
parlamentares representa um equipamento de saúde que deixa de ser adquirido,
investimentos em infraestrutura nos hospitais que deixam de ser realizados,
tecnologias e modernização dos serviços próprios que deixam de ser aplicadas.
Em vez
de fortalecer a rede de saúde, financia-se uma estrutura temporária que
desaparece ao fim da vigência de cada termo de fomento ou convênio. Aos poucos,
a gestão deixa de enxergar seus servidores como protagonistas da política
pública e passa a tratá-los como uma estrutura insuficiente que precisa ser
constantemente substituída por prestadores de serviço externos.
Há,
ainda, outro problema invisível aos olhos de quem não conhece o sistema de
saúde, mas igualmente grave. As consultas e exames terceirizados, de baixa
complexidade, são justamente os procedimentos que dão início ao fluxo de
usuários dentro do sistema único de saúde. E quando esses serviços passam a ser
executados por entidades não integradas ao planejamento da rede pública, o
usuário acaba sendo lançado no limbo assistencial, e a média e a alta
complexidades, que não receberam os investimentos adequados, permanecem cada
vez mais sobrecarregadas.
Dobram-se
ou triplicam-se os indicadores de consultas realizadas e exames executados, mas
as filas das cirurgias e procedimentos especializados continuam crescendo.
Resolve-se aquilo que é mais simples de contratar, enquanto permanecem sem
solução os desafios que exigem estrutura pública consolidada. A crescente
influência das emendas parlamentares no planejamento da saúde tem efeitos
negativos. São celebrados apenas porque existe recurso disponível, e não
necessariamente porque é a principal necessidade do sistema de saúde. A
política pública deixa de ser conduzida por critérios técnicos para se adaptar
às oportunidades orçamentárias e às prioridades políticas de cada momento.
É um
ciclo vicioso. As emendas, que deveriam ser instrumentos complementares de
gestão, transformam-se no eixo central da política pública de saúde. O futuro
do sistema único de saúde deve ser garantido pela modernização da
infraestrutura dos hospitais, pela incorporação de novas tecnologias, pela
valorização dos servidores públicos e pelo fortalecimento da capacidade de
oferecer assistência direta aos cidadãos. A saúde complementar existe para
fortalecer o SUS, nunca para substituí-lo.
Fonte:
Correio Braziliense

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