terça-feira, 29 de setembro de 2026

NÃO À BARBÁRIE!

As eleições presidenciais de 2026 são mais que apenas uma eleição. Trata-se de uma disputa entre os que querem a manutenção do Estado Democrático de Direito e as forças que pretendem colocar o Brasil como uma espécie de protetorado dos EUA, tentando devolver o país a uma condição neocolonial – como já está ocorrendo em outros países da América do Sul. O mundo vive uma onda avassaladora de contestação da democracia. Com a extrema direita à frente, o neofascismo apresenta-se aos eleitores como a restauração de uma antiga ordem em nome de “Deus, Pátria e Família”.

A extrema direita é, no entanto, o inverso de tudo o que apregoa. Sua transfiguração em “bem” resulta de operações de aplicação de técnicas de produção de imagem em tempos de pós-verdade e pós-vergonha, impulsionadas pela disseminação na internet. Ela faz com que uma parcela dos eleitores acredite que o mal é o bem, que a mentira é a verdade, que o mau é bom, que o ignorante é sábio. Técnicas antigas das disputas políticas, como atribuir seus próprios defeitos ao adversário, são empregadas à exaustão nas redes sociais.

Há, portanto, uma ação coordenada da extrema direita, no mundo e no Brasil. Suas lideranças políticas e os planejadores das suas ações sabem o que fazem e o que querem. O autocrata estadunidense estica suas garras sobre as nossas eleições. Eles têm consciência de que, para serem bem-sucedidos, precisam ocultar a barbárie que propõem.

Barbárie que, em nosso país, está expressa no rebento Flávio Bolsonaro. Reivindicando a herança maldita do pai, um negacionista de primeira hora, responsável pela morte de centenas de milhares de brasileiros abandonados à própria sorte na pandemia de covid-19, ele mostra-se aos eleitores como uma imagem invertida de Lula. Atribui ao inimigo suas próprias responsabilidades, como o vínculo com o crime organizado, os ataques à economia brasileira pelas tarifas impostas por Donald Trump, as ameaças à democracia e às liberdades, dentre tantas outras.

<><> As falsidades de Flávio Bolsonaro

Cada linha de seu discurso é imediatamente negada nas entrelinhas de suas ações. Discursa contra a corrupção, ao mesmo tempo em que cobra de um banqueiro que já estava usando tornozeleira eletrônica e que construiu seu império graças ao governo de seu pai a entrega de 134 milhões de reais para sua campanha. Tamanha desfaçatez evidencia o caráter do candidato. Caráter que, em tempos de pós-vergonha, ele e seus marqueteiros, usando técnicas de pós-verdade, tratam de transformar em virtude, como se fosse um combatente das causas da democracia e da liberdade.

Seus atos de campanha simulam a defesa de posições que ele nunca teve. Defende as mulheres enquanto nomeia um suspeito de estupro como seu vice. Justifica o “respeito” às mulheres com a afirmação de que teve duas filhas para ter quem cuide dele na velhice. Trata-se, certamente, herança de seu pai que se notabilizou “respeitando” as mulheres ao declarar: “Eu tenho cinco filhos. Foram quatro homens, mas na quinta eu dei uma fraquejada e veio uma mulher”. Compromete-se com o Bolsa Família enquanto manda um preposto ingressar na Justiça contra o aumento no valor do benefício. Seu deus é Mamon.

A aceitação institucional do bolsonarismo, permitindo que a apologia da tortura e evidentes agressões a direitos, como as perpetradas contra negros, mulheres, homossexuais, indígenas, dentre outros grupos sociais, inclusive partidários, tivessem trânsito livre no Parlamento e na sociedade, contribuiu para produzir a normalização democrática desses atos. Não agir, dentro das regras democráticas, para conter a intolerância foi um notável equívoco de nós, que defendemos a democracia.

Como resultado, abriu-se margem para o fortalecimento e o acúmulo de forças bolsonaristas no Poder Legislativo – o fisiologismo nunca esteve tão ideologizado –, no Poder Judiciário – do juiz de comarca ao Supremo Tribunal –, nas entidades profissionais – como a OAB e os conselhos de medicina –, sem mencionar as forças policiais militares, civis e federais – território há muito tempo ocupado pelo neofascismo brasileiro.

É preciso ter claro: Flávio Bolsonaro na presidência da República anistiará o pai, legitimando o fracassado golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023, e tornará Jair Bolsonaro presidente de fato. Não se trata de ser um governo de direita ou de um presidente desonesto e corrupto no governo. Trata-se, perigosamente, do crime organizado no poder. Reinstalados à frente da República, não cometerão o mesmo erro duas vezes: buscarão mudar o ordenamento jurídico do país e impor uma ditadura pela via eleitoral. Com a possibilidade de nomear quatro ministros ao STF, para somar aos três que já estão alinhados, além das aposentadorias e impeachments viabilizados por um Congresso fiel às suas determinações, o Sistema Judiciário restará emparedado por uma presidência autocrática e as eleições em 2030 estarão em xeque.

Permitir a eleição de Flávio Bolsonaro significa abrir as portas para a promoção de um desmonte radical das instituições, com a generalização de práticas de vigilância e controle social, travando as ações e lutas de movimentos sociais em defesa de direitos. Ao mesmo tempo, em todas as áreas, das reservas indígenas a áreas de preservação, tudo será liberado à exploração desenfreada do minério, da lavoura predatória e do capital financeiro. Marco Rubio terá toda a ascendência necessária para implementar o projeto MAGA no Brasil, pois Flávio Bolsonaro anunciou uma futura “equipe de transição” à disposição do governo de Donald Trump, nos Estados Unidos. O vende-pátria Eduardo Bolsonaro será o chanceler de uma semicolônia, e o Brasil passará a apoiar o genocídio em Gaza, a admitir a incorporação do Canadá e da Groenlândia pelos EUA, além de entregar as riquezas nacionais ao projeto MAGA. Haverá aumento dos feminicídios, do crime organizado e disseminação das milícias por todo o país.

O ultraliberalismo de inspiração mileiísta na economia fará a pobreza se ampliar, como ocorre hoje na Argentina, e voltaremos ao Mapa da Fome uma vez mais. O aparelhamento dos bancos públicos sepultará qualquer possibilidade de reindustrialização e de crescimento ambientalmente responsável. O SUS corre o risco de uma desestruturação irrecuperável e a educação pública atingirá os últimos patamares da plataformização do trabalho docente e da queda irrefreável dos níveis de aprendizagem. A universidade pública, como a conhecemos, não existirá mais e a ciência brasileira será afogada no discurso terraplanista dos bolsonaristas.

Assistiremos à privatização dos Correios, da Petrobras e das últimas empresas estratégicas, como os bancos públicos, com que o Estado brasileiro ainda conta para nortear a retomada do desenvolvimento. Veremos a total destruição dos direitos trabalhistas, o fim da previdência pública e assistiremos ao desamparo completo à velhice, aos pobres, aos doentes, às crianças carentes, aos que nada têm.

Mesmo burgueses fanáticos pela religião, ordem e família, como disse Marx em O 18 de Brumário, serão fuzilados por milicianos bêbados. E por pura diversão. O já frágil tecido social será desfeito não por uma suposta polarização, mas pela fragmentação social, cultural e territorial do Brasil. Nesse cenário, não é exagerado alertar para o risco até mesmo de desintegração da unidade territorial do país. Os EUA se apossarão, direta ou indiretamente, de regiões estratégicas, estabelecerão bases militares, controlarão os minerais críticos, o petróleo, a água e todas as riquezas que lhe interessarem.

<><> Defender Lula presidente e uma bancada progressista

Não se trata de defender o governo Lula, mas de impedir que a barbárie se instale no país. Desde o golpe institucional que levou à destituição de Dilma Rousseff, parlamentares sem compromisso com o interesse público constituem uma maioria que vem impondo retrocessos ao avanço da democracia no país. Suas pautas no Congresso Nacional têm origem em temas com grande audiência em redes sociais, mas pequena conexão com as políticas sociais e econômicas de interesse popular.

Essa maioria ocupa mais de 60% das cadeiras de deputados federais e senadores. É indispensável, para o avanço democrático, alterar esse cenário nestas eleições, invertendo-o. Daí a extrema relevância de não apenas eleger Lula, mas assegurar que conte com maioria no Congresso Nacional.  E mais. No complexo contexto federativo brasileiro, em que governadores detêm parcela significativa de poder, é igualmente importante que eleitores associem o voto em Lula ao voto em candidatos aos governos estaduais alinhados com o enfrentamento decidido, sem tréguas, ao avanço da extrema direita em todas as regiões do Brasil.

Assim sendo, o mais realista agora é defender Lula, independentemente de suas eventuais limitações e lutar corpo a corpo para que ele vença. Isso não é impossível, nem improvável. A candidatura Lula tem uma marca social indelével, uma agenda que dialoga com os muito pobres, mas também com os trabalhadores de renda média: valorização do salário mínimo, ampliação dos benefícios sociais, defesa do valor das aposentadorias, SUS, diminuição da jornada de trabalho, isenção de imposto de renda e descontos progressivos para a “classe média”, taxação de rendas elevadas e fundos dos super-ricos etc.

Por estas razões, defendemos decididamente o voto em Lula e Geraldo Alckmin, como um voto de nossas vidas, em defesa do Estado Democrático de Direito, da nossa existência como nação, contra a barbárie, a autocracia e a neocolonização do Brasil.

Não à barbárie!

¨      O voto na periferia. Por Ulysses N. Campos

A cada ciclo em que as urnas são abertas na periferia do capitalismo brasileiro, repete-se o mesmo ritual de assombro nas redações dos grandes jornais e nos gabinetes da sociologia tradicional. Diante de relatórios de campo que descrevem o mesmo cidadão combinando a adesão eleitoral a Luiz Inácio Lula da Silva com a atração visceral por candidaturas do bolsonarismo popular – ou a celebração da expansão do Bolsa Família com a recusa peremptória da carteira de trabalho assinada –, analistas apressam-se em diagnosticar o fenômeno sob o signo da anomalia.

Fala-se com frequência em alienação digital, dissonância cognitiva coletiva ou em uma massa desorientada que teima em votar contra os próprios interesses objetivos de classe.

Estas tentativas de diagnóstico falham não por erro na execução da mensuração estatística, mas pela seleção incorreta da ferramenta analítica. O que ocorre é que a intelectualidade de gabinete construiu uma métrica unidimensional – uma régua rígida e eurocêntrica que divide a realidade política entre uma esquerda dos direitos coletivos universais e uma direita do livre mercado individualista – e supõe que toda a vida social deva caber disciplinadamente dentro dessa simetria abstrata.

Quando a periferia brasileira transborda essas margens estreitas, a métrica quebra-se, e o observador, por apego escolástico ao método idealizado, prefere diagnosticar uma patologia mental nas massas a admitir a inadequação de sua própria régua.

A razão da periferia elude a métrica tradicional porque o sujeito social que hoje redefine os equilíbrios de poder no país não é uma abstração deduzida de manuais acadêmicos. Ele é o componente vivo do novo proletariado expandido: o entregador de aplicativo que monitora em tempo real a oscilação algorítmica da tarifa, o motorista de frota terceirizada, o microempreendedor individual periférico e o policial militar que habita a mesma viela vulnerável.

Trata-se de uma base social heterogênea e precarizada, unificada não por um vínculo corporativo clássico, mas por uma mesma e inescapável órbita de espoliação ditada pela usura do capital rentista e pela necessidade visceral de sobrevivência biológica.

A existência cotidiana desse sujeito é atravessada por duas forças objetivas que a linguagem política tradicional insiste em tratar como excludentes, mas que na materialidade da vida operam continuamente sobre o mesmo corpo histórico: a urgência material da reprodução física da vida e a afirmação de novas demandas soberanas sobre o próprio tempo.

Por um vetor fundamental, esse trabalhador compreende, pela dor da carne e pela memória histórica da escassez, a necessidade incontornável do assoalho de proteção social. Ele não apenas apoia, mas exige e defende a valorização real do salário mínimo (que atua como balizador do piso de remuneração informal), a farmácia popular, o crédito subsidiado e o acesso à universidade pública para seus filhos. Ele lê essas conquistas não como concessões paternalistas de governantes ou favores de ocasião partidária, mas como recursos materiais inegociáveis.

Para esse trabalhador, o lulismo opera como uma tecnologia institucional de navegação comprovada – uma engenharia política capaz de arrancar do orçamento público a proteção contra a indigência sem desorganizar o funcionamento básico da economia. Sob esse aspecto, ele é e continuará sendo a âncora material do bloco popular, forçando a máquina do Estado a responder ao imperativo ético da comida no prato.

Simultaneamente, atua um segundo vetor estruturante: a percepção prática e incontornável de que a engrenagem estatal opera cotidianamente em desfavor de sua sobrevivência imediata. A inserção desse trabalhador no circuito produtivo dá-se em um território onde o emprego fabril fordista clássico dos anos 1970 foi desmantelado.

No lugar das grandes linhas de montagem, o que restou não foi o vazio, mas a selva desregulada da sobrevivência autônoma e hipervulnerável. Nesse chão concreto, o Estado burguês nunca se apresentou como o garantidor idílico do bem-estar social, mas sim como uma máquina cartorial asfixiante, um sistema tributário regressivo que encarece o arroz e o combustível na bomba, e um aparato de segurança pública simultaneamente punitivo, violento e incapaz de assegurar a tranquilidade elementar das ruas.

Diante dessa crueza infraestrutural, o trabalhador desenvolve uma rigorosa e calculada estratégia de arbitragem material. Ele não é vítima passiva de narrativas manipulatórias; é um estrategista implacável de sua própria conservação. Quando esse agente adota o léxico do empreendedorismo e recusa a tutela sindical tradicional, não está aderindo romanticamente à cartilha neoliberal; está afirmando a sua soberania sobre a gestão do próprio tempo contra a perspectiva humilhante da servidão sob um patrão local arbitrário.

Quando demanda rigor penal e busca meios de autodefesa física, não opera sob histeria reacionária, mas sob o cálculo objetivo de quem precisa garantir que sua motocicleta – sua ferramenta de trabalho e único lastro material de sobrevivência – não seja roubada na esquina desprovida de iluminação pública.

A adesão periférica ao discurso antissistêmico não constitui, portanto, conversão ideológica ao extremismo doutrinário; o bolsonarismo popular funcionou como o sequestro tático dessa legítima indignação material. A sua aversão ao caos social e à instabilidade institucional não expressa um conservadorismo moral idealista, mas sim o cálculo de autodefesa biológica de quem não possui colchão patrimonial ou herança familiar para suportar solavancos econômicos prolongados.

O eleitor periférico, sob essa luz, não está dividido nem alienado: ele transcendeu a dicotomia analítica convencional. À semelhança do célebre paradoxo da mecânica quântica formulado por Erwin Schrödinger, no qual um sistema pode existir simultaneamente em múltiplos estados até que uma medição interfira no fenômeno, esse eleitor opera em deliberada superposição de estados políticos.

Ele aciona a engenharia do lulismo como tecnologia de blindagem do estômago e garantia da reprodução material primária; e aciona o bolsonarismo popular como aríete de enfrentamento contra a burocracia estatal e as elites tradicionais que asfixiam sua liberdade de trabalho e esmagam sua margem de renda.

A recente e vigorosa mobilização de massas pelo fim da escala de trabalho 6×1 forneceu a validação empírica definitiva dessa agência soberana. A exigência pelo encerramento de uma rotina laboral que esgota a vida não desceu dos palanques tradicionais nem foi tutelada por burocracias de gabinete: brotou diretamente das entranhas da base trabalhadora conectada.

Tendo conquistado um piso mínimo de dignidade biológica nas últimas décadas, a massa crítica periférica agora cobra o salto qualitativo: exige tempo livre, reivindica a soberania sobre o próprio corpo e recusa o esgotamento físico contínuo como destino natural imposto pelo capital.

O novo proletariado brasileiro nunca esteve aprisionado na caixa teórica desenhada por seus pretensos educadores de classe média. Ele é quem observa, julga e tensiona o tabuleiro a partir de suas próprias urgências materiais de existência.

A razão da periferia elude a métrica tradicional não porque seja irracional ou caótica, mas porque ela é a manifestação da práxis em seu estado mais puro: uma inteligência de classe implacável que subordina toda a superestrutura política e suas disputas discursivas ao único axioma que verdadeiramente importa para quem vive do próprio esforço – a preservação incondicional e a expansão soberana da vida humana.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

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