NÃO
À BARBÁRIE!
As
eleições presidenciais de 2026 são mais que apenas uma eleição. Trata-se de uma
disputa entre os que querem a manutenção do Estado Democrático de Direito e as
forças que pretendem colocar o Brasil como uma espécie de protetorado dos EUA,
tentando devolver o país a uma condição neocolonial – como já está ocorrendo em
outros países da América do Sul. O mundo vive uma onda avassaladora de
contestação da democracia. Com a extrema direita à frente, o neofascismo
apresenta-se aos eleitores como a restauração de uma antiga ordem em nome de
“Deus, Pátria e Família”.
A
extrema direita é, no entanto, o inverso de tudo o que apregoa. Sua
transfiguração em “bem” resulta de operações de aplicação de técnicas de
produção de imagem em tempos de pós-verdade e pós-vergonha, impulsionadas pela
disseminação na internet. Ela faz com que uma parcela dos eleitores acredite
que o mal é o bem, que a mentira é a verdade, que o mau é bom, que o ignorante
é sábio. Técnicas antigas das disputas políticas, como atribuir seus próprios
defeitos ao adversário, são empregadas à exaustão nas redes sociais.
Há,
portanto, uma ação coordenada da extrema direita, no mundo e no Brasil. Suas
lideranças políticas e os planejadores das suas ações sabem o que fazem e o que
querem. O autocrata estadunidense estica suas garras sobre as nossas eleições.
Eles têm consciência de que, para serem bem-sucedidos, precisam ocultar a
barbárie que propõem.
Barbárie
que, em nosso país, está expressa no rebento Flávio Bolsonaro. Reivindicando a
herança maldita do pai, um negacionista de primeira hora, responsável pela
morte de centenas de milhares de brasileiros abandonados à própria sorte na
pandemia de covid-19, ele mostra-se aos eleitores como uma imagem invertida de
Lula. Atribui ao inimigo suas próprias responsabilidades, como o vínculo com o
crime organizado, os ataques à economia brasileira pelas tarifas impostas por
Donald Trump, as ameaças à democracia e às liberdades, dentre tantas outras.
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As falsidades de Flávio Bolsonaro
Cada
linha de seu discurso é imediatamente negada nas entrelinhas de suas ações.
Discursa contra a corrupção, ao mesmo tempo em que cobra de um banqueiro que já
estava usando tornozeleira eletrônica e que construiu seu império graças ao
governo de seu pai a entrega de 134 milhões de reais para sua campanha. Tamanha
desfaçatez evidencia o caráter do candidato. Caráter que, em tempos de
pós-vergonha, ele e seus marqueteiros, usando técnicas de pós-verdade, tratam
de transformar em virtude, como se fosse um combatente das causas da democracia
e da liberdade.
Seus
atos de campanha simulam a defesa de posições que ele nunca teve. Defende as
mulheres enquanto nomeia um suspeito de estupro como seu vice. Justifica o
“respeito” às mulheres com a afirmação de que teve duas filhas para ter quem
cuide dele na velhice. Trata-se, certamente, herança de seu pai que se
notabilizou “respeitando” as mulheres ao declarar: “Eu tenho cinco filhos.
Foram quatro homens, mas na quinta eu dei uma fraquejada e veio uma mulher”.
Compromete-se com o Bolsa Família enquanto manda um preposto ingressar na
Justiça contra o aumento no valor do benefício. Seu deus é Mamon.
A
aceitação institucional do bolsonarismo, permitindo que a apologia da tortura e
evidentes agressões a direitos, como as perpetradas contra negros, mulheres,
homossexuais, indígenas, dentre outros grupos sociais, inclusive partidários,
tivessem trânsito livre no Parlamento e na sociedade, contribuiu para produzir
a normalização democrática desses atos. Não agir, dentro das regras
democráticas, para conter a intolerância foi um notável equívoco de nós, que
defendemos a democracia.
Como
resultado, abriu-se margem para o fortalecimento e o acúmulo de forças
bolsonaristas no Poder Legislativo – o fisiologismo nunca esteve tão
ideologizado –, no Poder Judiciário – do juiz de comarca ao Supremo Tribunal –,
nas entidades profissionais – como a OAB e os conselhos de medicina –, sem
mencionar as forças policiais militares, civis e federais – território há muito
tempo ocupado pelo neofascismo brasileiro.
É
preciso ter claro: Flávio Bolsonaro na presidência da República anistiará o
pai, legitimando o fracassado golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023, e
tornará Jair Bolsonaro presidente de fato. Não se trata de ser um governo de
direita ou de um presidente desonesto e corrupto no governo. Trata-se,
perigosamente, do crime organizado no poder. Reinstalados à frente da
República, não cometerão o mesmo erro duas vezes: buscarão mudar o ordenamento
jurídico do país e impor uma ditadura pela via eleitoral. Com a possibilidade
de nomear quatro ministros ao STF, para somar aos três que já estão alinhados,
além das aposentadorias e impeachments viabilizados por um Congresso fiel às
suas determinações, o Sistema Judiciário restará emparedado por uma presidência
autocrática e as eleições em 2030 estarão em xeque.
Permitir
a eleição de Flávio Bolsonaro significa abrir as portas para a promoção de um
desmonte radical das instituições, com a generalização de práticas de
vigilância e controle social, travando as ações e lutas de movimentos sociais
em defesa de direitos. Ao mesmo tempo, em todas as áreas, das reservas
indígenas a áreas de preservação, tudo será liberado à exploração desenfreada
do minério, da lavoura predatória e do capital financeiro. Marco Rubio terá
toda a ascendência necessária para implementar o projeto MAGA no Brasil, pois
Flávio Bolsonaro anunciou uma futura “equipe de transição” à disposição do
governo de Donald Trump, nos Estados Unidos. O vende-pátria Eduardo Bolsonaro
será o chanceler de uma semicolônia, e o Brasil passará a apoiar o genocídio em
Gaza, a admitir a incorporação do Canadá e da Groenlândia pelos EUA, além de
entregar as riquezas nacionais ao projeto MAGA. Haverá aumento dos
feminicídios, do crime organizado e disseminação das milícias por todo o país.
O
ultraliberalismo de inspiração mileiísta na economia fará a pobreza se ampliar,
como ocorre hoje na Argentina, e voltaremos ao Mapa da Fome uma vez mais. O
aparelhamento dos bancos públicos sepultará qualquer possibilidade de
reindustrialização e de crescimento ambientalmente responsável. O SUS corre o
risco de uma desestruturação irrecuperável e a educação pública atingirá os
últimos patamares da plataformização do trabalho docente e da queda irrefreável
dos níveis de aprendizagem. A universidade pública, como a conhecemos, não
existirá mais e a ciência brasileira será afogada no discurso terraplanista dos
bolsonaristas.
Assistiremos
à privatização dos Correios, da Petrobras e das últimas empresas estratégicas,
como os bancos públicos, com que o Estado brasileiro ainda conta para nortear a
retomada do desenvolvimento. Veremos a total destruição dos direitos
trabalhistas, o fim da previdência pública e assistiremos ao desamparo completo
à velhice, aos pobres, aos doentes, às crianças carentes, aos que nada têm.
Mesmo
burgueses fanáticos pela religião, ordem e família, como disse Marx em O 18 de
Brumário, serão fuzilados por milicianos bêbados. E por pura diversão. O já
frágil tecido social será desfeito não por uma suposta polarização, mas pela
fragmentação social, cultural e territorial do Brasil. Nesse cenário, não é
exagerado alertar para o risco até mesmo de desintegração da unidade
territorial do país. Os EUA se apossarão, direta ou indiretamente, de regiões
estratégicas, estabelecerão bases militares, controlarão os minerais críticos,
o petróleo, a água e todas as riquezas que lhe interessarem.
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Defender Lula presidente e uma bancada progressista
Não se
trata de defender o governo Lula, mas de impedir que a barbárie se instale no
país. Desde o golpe institucional que levou à destituição de Dilma Rousseff,
parlamentares sem compromisso com o interesse público constituem uma maioria
que vem impondo retrocessos ao avanço da democracia no país. Suas pautas no
Congresso Nacional têm origem em temas com grande audiência em redes sociais,
mas pequena conexão com as políticas sociais e econômicas de interesse popular.
Essa
maioria ocupa mais de 60% das cadeiras de deputados federais e senadores. É
indispensável, para o avanço democrático, alterar esse cenário nestas eleições,
invertendo-o. Daí a extrema relevância de não apenas eleger Lula, mas assegurar
que conte com maioria no Congresso Nacional. E mais. No complexo contexto
federativo brasileiro, em que governadores detêm parcela significativa de
poder, é igualmente importante que eleitores associem o voto em Lula ao voto em
candidatos aos governos estaduais alinhados com o enfrentamento decidido, sem
tréguas, ao avanço da extrema direita em todas as regiões do Brasil.
Assim
sendo, o mais realista agora é defender Lula, independentemente de suas
eventuais limitações e lutar corpo a corpo para que ele vença. Isso não é
impossível, nem improvável. A candidatura Lula tem uma marca social indelével,
uma agenda que dialoga com os muito pobres, mas também com os trabalhadores de
renda média: valorização do salário mínimo, ampliação dos benefícios sociais,
defesa do valor das aposentadorias, SUS, diminuição da jornada de trabalho,
isenção de imposto de renda e descontos progressivos para a “classe média”,
taxação de rendas elevadas e fundos dos super-ricos etc.
Por
estas razões, defendemos decididamente o voto em Lula e Geraldo Alckmin, como
um voto de nossas vidas, em defesa do Estado Democrático de Direito, da nossa
existência como nação, contra a barbárie, a autocracia e a neocolonização do
Brasil.
Não à
barbárie!
¨
O voto na periferia. Por Ulysses N. Campos
A cada
ciclo em que as urnas são abertas na periferia do capitalismo brasileiro,
repete-se o mesmo ritual de assombro nas redações dos grandes jornais e nos
gabinetes da sociologia tradicional. Diante de relatórios de campo que
descrevem o mesmo cidadão combinando a adesão eleitoral a Luiz Inácio Lula da
Silva com a atração visceral por candidaturas do bolsonarismo popular – ou a
celebração da expansão do Bolsa Família com a recusa peremptória da carteira de
trabalho assinada –, analistas apressam-se em diagnosticar o fenômeno sob o
signo da anomalia.
Fala-se
com frequência em alienação digital, dissonância cognitiva coletiva ou em uma
massa desorientada que teima em votar contra os próprios interesses objetivos
de classe.
Estas
tentativas de diagnóstico falham não por erro na execução da mensuração
estatística, mas pela seleção incorreta da ferramenta analítica. O que ocorre é
que a intelectualidade de gabinete construiu uma métrica unidimensional – uma
régua rígida e eurocêntrica que divide a realidade política entre uma esquerda
dos direitos coletivos universais e uma direita do livre mercado individualista
– e supõe que toda a vida social deva caber disciplinadamente dentro dessa
simetria abstrata.
Quando
a periferia brasileira transborda essas margens estreitas, a métrica quebra-se,
e o observador, por apego escolástico ao método idealizado, prefere
diagnosticar uma patologia mental nas massas a admitir a inadequação de sua
própria régua.
A razão
da periferia elude a métrica tradicional porque o sujeito social que hoje
redefine os equilíbrios de poder no país não é uma abstração deduzida de
manuais acadêmicos. Ele é o componente vivo do novo proletariado expandido: o
entregador de aplicativo que monitora em tempo real a oscilação algorítmica da
tarifa, o motorista de frota terceirizada, o microempreendedor individual
periférico e o policial militar que habita a mesma viela vulnerável.
Trata-se
de uma base social heterogênea e precarizada, unificada não por um vínculo
corporativo clássico, mas por uma mesma e inescapável órbita de espoliação
ditada pela usura do capital rentista e pela necessidade visceral de
sobrevivência biológica.
A
existência cotidiana desse sujeito é atravessada por duas forças objetivas que
a linguagem política tradicional insiste em tratar como excludentes, mas que na
materialidade da vida operam continuamente sobre o mesmo corpo histórico: a
urgência material da reprodução física da vida e a afirmação de novas demandas
soberanas sobre o próprio tempo.
Por um
vetor fundamental, esse trabalhador compreende, pela dor da carne e pela
memória histórica da escassez, a necessidade incontornável do assoalho de
proteção social. Ele não apenas apoia, mas exige e defende a valorização real
do salário mínimo (que atua como balizador do piso de remuneração informal), a
farmácia popular, o crédito subsidiado e o acesso à universidade pública para
seus filhos. Ele lê essas conquistas não como concessões paternalistas de
governantes ou favores de ocasião partidária, mas como recursos materiais
inegociáveis.
Para
esse trabalhador, o lulismo opera como uma tecnologia institucional de
navegação comprovada – uma engenharia política capaz de arrancar do orçamento
público a proteção contra a indigência sem desorganizar o funcionamento básico
da economia. Sob esse aspecto, ele é e continuará sendo a âncora material do
bloco popular, forçando a máquina do Estado a responder ao imperativo ético da
comida no prato.
Simultaneamente,
atua um segundo vetor estruturante: a percepção prática e incontornável de que
a engrenagem estatal opera cotidianamente em desfavor de sua sobrevivência
imediata. A inserção desse trabalhador no circuito produtivo dá-se em um
território onde o emprego fabril fordista clássico dos anos 1970 foi
desmantelado.
No
lugar das grandes linhas de montagem, o que restou não foi o vazio, mas a selva
desregulada da sobrevivência autônoma e hipervulnerável. Nesse chão concreto, o
Estado burguês nunca se apresentou como o garantidor idílico do bem-estar
social, mas sim como uma máquina cartorial asfixiante, um sistema tributário
regressivo que encarece o arroz e o combustível na bomba, e um aparato de
segurança pública simultaneamente punitivo, violento e incapaz de assegurar a
tranquilidade elementar das ruas.
Diante
dessa crueza infraestrutural, o trabalhador desenvolve uma rigorosa e calculada
estratégia de arbitragem material. Ele não é vítima passiva de narrativas
manipulatórias; é um estrategista implacável de sua própria conservação. Quando
esse agente adota o léxico do empreendedorismo e recusa a tutela sindical
tradicional, não está aderindo romanticamente à cartilha neoliberal; está
afirmando a sua soberania sobre a gestão do próprio tempo contra a perspectiva
humilhante da servidão sob um patrão local arbitrário.
Quando
demanda rigor penal e busca meios de autodefesa física, não opera sob histeria
reacionária, mas sob o cálculo objetivo de quem precisa garantir que sua
motocicleta – sua ferramenta de trabalho e único lastro material de
sobrevivência – não seja roubada na esquina desprovida de iluminação pública.
A
adesão periférica ao discurso antissistêmico não constitui, portanto, conversão
ideológica ao extremismo doutrinário; o bolsonarismo popular funcionou como o
sequestro tático dessa legítima indignação material. A sua aversão ao caos
social e à instabilidade institucional não expressa um conservadorismo moral
idealista, mas sim o cálculo de autodefesa biológica de quem não possui colchão
patrimonial ou herança familiar para suportar solavancos econômicos
prolongados.
O
eleitor periférico, sob essa luz, não está dividido nem alienado: ele
transcendeu a dicotomia analítica convencional. À semelhança do célebre
paradoxo da mecânica quântica formulado por Erwin Schrödinger, no qual um
sistema pode existir simultaneamente em múltiplos estados até que uma medição
interfira no fenômeno, esse eleitor opera em deliberada superposição de estados
políticos.
Ele
aciona a engenharia do lulismo como tecnologia de blindagem do estômago e
garantia da reprodução material primária; e aciona o bolsonarismo popular como
aríete de enfrentamento contra a burocracia estatal e as elites tradicionais
que asfixiam sua liberdade de trabalho e esmagam sua margem de renda.
A
recente e vigorosa mobilização de massas pelo fim da escala de trabalho 6×1
forneceu a validação empírica definitiva dessa agência soberana. A exigência
pelo encerramento de uma rotina laboral que esgota a vida não desceu dos
palanques tradicionais nem foi tutelada por burocracias de gabinete: brotou
diretamente das entranhas da base trabalhadora conectada.
Tendo
conquistado um piso mínimo de dignidade biológica nas últimas décadas, a massa
crítica periférica agora cobra o salto qualitativo: exige tempo livre,
reivindica a soberania sobre o próprio corpo e recusa o esgotamento físico
contínuo como destino natural imposto pelo capital.
O novo
proletariado brasileiro nunca esteve aprisionado na caixa teórica desenhada por
seus pretensos educadores de classe média. Ele é quem observa, julga e tensiona
o tabuleiro a partir de suas próprias urgências materiais de existência.
A razão
da periferia elude a métrica tradicional não porque seja irracional ou caótica,
mas porque ela é a manifestação da práxis em seu estado mais puro: uma
inteligência de classe implacável que subordina toda a superestrutura política
e suas disputas discursivas ao único axioma que verdadeiramente importa para
quem vive do próprio esforço – a preservação incondicional e a expansão
soberana da vida humana.
Fonte:
A Terra é Redonda

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