Marcia
Carmo: Aliados de Bolsonaro, governos da extrema-direita mostram resultados
negativos de suas gestões
As
gestões dos presidentes da Argentina, Javier Milei, e do Chile, José Antonio
Kast, têm em comum, hoje, os resultados negativos dos desempenhos econômicos
nos dois países. E ainda a impopularidade dos dois presidentes.
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Ressalvas
Milei e
Kast já demostraram intensa proximidade com os Bolsonaro. Milei subiu no palco
do candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro, na convenção do PL em São Paulo e
continua destilando seu ódio contra o presidente Lula. Kast, por sua vez, já
disse, mais de uma vez que se o Brasil vai bem, o Chile irá bem. Hoje, os dois
presidentes, Milei e Kast, não vão nada bem.
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Recessão
Na
semana passada, o Indec (equivalente ao IBGE) informou que a
economia
argentina caiu quase 3% (2,9%) no mês de julho em relação ao mês anterior,
junho. O comércio encolheu 5,1% e a indústria 4,6%. A retração da economia
argentina foi de 1,4% na comparação com julho do ano passado. Para economistas,
a Argentina pode ter entrado na espiral de recessão. Na sexta-feira, o JP
Morgan, por exemplo, corrigiu de 2,7% para 1,5% a perspectiva de crescimento da
economia argentina neste ano e informou à sua rede de clientes que a Argentina
entrará em recessão no próximo trimestre do ano, como informou a imprensa
local. Como observou uma fonte da área econômica de Buenos Aires, a fórmula de
Milei para a economia começa a gerar desconfiança até entre os que comungam ou
simpatizam com suas ideias. Motivos: a esperada enxurrada de investimentos
externos não chega, apesar do severo ajuste, e o consumo não decola. Também na
semana passada, o Indec informou que a pobreza aumentou de 28,2% para 32,3% no
primeiro semestre.
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Milei argumenta
Com
cerca de 30% a 35% de apoio popular, dependendo da pesquisa de opinião, Milei
começou a dizer que a economia vai dar bons resultados em 2028. Ou seja, depois
da eleição presidencial de 2027, ano que vem, quando claramente buscará a
reeleição, apesar da sua impopularidade e da realidade econômica e social do
país.
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Chile
Neste
domingo, a pesquisa chilena Pulso Ciudadano mostrou que o presidente Kast tem
apenas 28,2% de aprovação e sua rejeição chega a quase 60% (57,6%). Os números
são similares a de outros levantamentos, como o da Cadem, também de Santiago.
Pelo menos dois fatos afetam a imagem de Kast que tem pouco mais de seis meses
de governo: a queda da economia e a preocupação com a segurança pública. Além
da falta de empatia aos problemas sociais, como observam líderes da esquerda
chilena. Com a contagem regressiva para a eleição brasileira, estas realidades
dos governos da extrema-direita poderiam ser mais e mais difundidas…
• Já se pode afirmar o sucesso da
ingerência dos EUA nas eleições brasileiras. Por Fernando Horta
Democracias,
diz a teoria, são o governo de muitos. Diferente de regimes ditatoriais em que
todas as instâncias do Estado estão submetidas às decisões diretas ou
influência imediata de um ou um conjunto de poucas pessoas ligadas a uma
liderança sem legitimidade democrática, nas democracias há um padrão complexo e
interconectado de decisões e de responsabilidades. Essa fragmentação não apenas
de quem detém o poder, mas de quem aplica os diversos poderes da república é –
em sentido teórico – uma garantia contra o arbítrio.
Se
muitos operam os poderes, muitos são também os pontos de pressão que podem ser
aplicados quando há interesse em decisões diferentes daquelas que o tomador de
decisão – deixado sem pressão – tomaria. Se Nunes Marques fosse deixado apenas
com sua consciência ele teria desempatado o julgamento dos precatórios das
indústrias açucareiras em favor do Banco Master? Nunca saberemos, mas
certamente ter um contrato de 427 milhões assinado com interlocutores próximos
geram 427 milhões de razões novas para o voto em favor de Vorcaro. E razões
eloquentes.
O mesmo
pensamento acontece em todo sujeito que opera o poder público. Cada decisão (de
fazer ou deixar de fazer algo) pode ser alvo de pressões externas. Tomemos a
ABIN, por exemplo, criada em 1999 para ser uma espécie de “inteligência civil”
(em oposição ao famigerado SNI de Golbery e Figueiredo) a agência nunca
conseguiu se livrar da tutela militar. Seja porque estava submetida ao inútil
GSI ou porque tem seu diretor escolhidos dos quadros da PF (que funciona por
hierarquização quasi-militar). A ABIN está com orçamento cortado, seu direito
indiciado ainda pelas confusões do ex-governo bolsonaro, seus funcionários
ameaçando greves, enfrentando insegurança jurídica sobre sua cadeia de comando
e resposta e sem um detalhamento claro sobre um plano de carreira para seus
servidores. Ainda assim, com todos esses problemas, foi a única das
instituições brasileiras a nomear os EUA e avisar da ingerência estrangeira
durante as eleições. Poderia ter se calado.
Na
semana que a toda a mídia volta a mostrar a ingerência norte-americana não como
um “se”, mas como um “já agora” nenhuma das instituições responsáveis fala
algo. Menção aqui ao eloquente e tonitroante CDCiber (Centro de Defesa
Cibernética) que durante o governo Bolsonaro (sob controle do General Héber
Portella) fez um carnaval de ataques às urnas denunciando tudo o que não tinha
provas para denunciar contra a eleição de 2022. Toda aquela energia e
mobilização contra o “inimigo interno” agora é só silêncio. Aliás, é pior.
Entre 21 e 25 de setembro – agora – o exército participou de um exercício
chamado “Guardião Cibernético” em conjunto com outras 14 nações (que ninguém
sabe quem são porque a lista não foi divulgada) para nos proteger de “ataques
cibernéticos complexos e coordenados” com zero menção à ingerência estrangeira
ou eleição.
O
ataque de André Mendonça no STF, PF e Procuradoria Geral (com o relatório
ilegal apresentado no dia 15) desabilitou de uma só vez – como mostra o quadro
acima – todo nosso bloco de defesa do judiciário. O STF, a PF e o MP estão
paralisados com uma única ação de um indivíduo. Isso, aliás, está previsto na
lei de terrorismo. Mendonça, Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro se enquadram
perfeitamente no que a lei anti-terrorismo delimita. Se a investigação proposta
por Mendonça sobre Moraes tivesse seguido os trâmites normais, mantida em
sigilo, autorizada pelo Supremo com parecer da PGR estava tudo certo. Quando é
feita de forma espalhafatosa, sem provas, para gerar manchetes de jornais e
termina pela desabilitação do STF da sua função de comandar a proteção
brasileira contra a ingerência dos EUA em nossa eleição, então ela é sim uma
ação terrorista que impossibilita um dos poderes de cumprir sua função de
proteger o Estado brasileiro. Tem o mesmo peso funcional do que uma bomba
explodindo um aeroporto e talvez até mais.
Quanto
mais eu olho o cenário, mais percebo que toda essa engenharia não foi pensada
na mansão de Flávio Bolsonaro em Brasília que é seu QG de campanha. Financiada
pelo BRB que iria comprar o banco master de forma opaca e com autorização
pessoal de Ibaneis. Quanto mais estudo, mais me convenço que essa engenharia de
ataques às nossas instituições foi pensada em Washington e com ajuda de
elementos internos como o MEC da Fundação Lehmann e os contratos da Palantir no
Brasil. Ainda essa semana se dão conta de novas empresas de inteligência
ligadas ao vice presidente Vance chegando ao Brasil. Devem vir para tomar posse
antecipada e já começarem a transição. Estamos de fato desprotegidos. Parece
que as instituições estão esperando apenas o presidente Lula perder. Inativas,
sonolentas, desmotivadas. Ou talvez com algumas milhões de motivações em
dinheiro vivo?
Se
ganharmos essa eleição que o presidente Lula mapeie esse momento e que nenhum
chefe de instituição que nos deixou nessa semana desprotegido fique no cargo.
De covardia já basta a vasta história do regime militar. E que a ABIN receba o
reconhecimento que merece. E vire órgão de inteligência civil, com carreira,
verba e ligada à presidência da República e a ninguém mais.
• O espelho do poder. Por Renata Medeiros
A
extrema direita não vive apenas de ideias. Vive também de afetos. E talvez seja
justamente por isso que sua força política não possa ser compreendida apenas
pela racionalidade dos seus discursos. Há alguma coisa anterior à escolha
política: o ressentimento, a sensação de perda, a humilhação e o desejo de
recuperar, ainda que imaginariamente, uma potência que se sente roubada.
É aqui
que a cientista política norte-americana Wendy Brown nos ajuda a pensar o
presente. Em sua crítica à racionalidade neoliberal, Brown mostra como a
corrosão do mundo comum e a transformação de sujeitos em indivíduos
concorrentes produzem uma experiência de desamparo político. Quando o espaço
público deixa de ser percebido como lugar de construção coletiva, a frustração
não desaparece. Ela procura um culpado.
Freud
já havia percebido que a identificação pode oferecer ao indivíduo algo que ele
não encontra em si mesmo. O líder passa a funcionar como uma espécie de
espelho: nele, o sujeito enxerga a força que gostaria de possuir, a autoridade
que gostaria de exercer, a potência que sente ter perdido. Não recebe essa
potência de fato. Recebe sua imagem.
É aí
que a política da extrema direita encontra terreno fértil. Ela oferece ao
ressentido não necessariamente uma saída para sua falta, mas alguém sobre quem
descarregá-la. O outro passa a ser o responsável por tudo aquilo que não deu
certo: o pobre, o estrangeiro, a esquerda, as instituições, a imprensa, o
Judiciário, qualquer um que possa ocupar o lugar do inimigo.
A
política deixa de ser disputa entre projetos e passa a ser uma guerra moral. E,
nessa guerra, quanto maior a humilhação do outro, maior parece ser a própria
força.
Flávio
Bolsonaro é uma expressão particularmente reveladora desse fenômeno. Não porque
seja apenas mais um candidato da direita, mas porque carrega a herança política
de um movimento que transformou o ressentimento em identidade e a agressividade
em linguagem de poder. A aparência de força importa tanto quanto o conteúdo da
política. Talvez por isso a imagem do candidato de sunga branca, faixa
presidencial e pose de galã de propaganda de verão tenha produzido tanto riso.
Mas o ridículo não deveria nos distrair do que existe por trás dele.
A sunga
é ridícula. A política que ela ajuda a encenar não é.
Porque,
quando olhamos para as alianças e para os personagens que orbitam esse projeto,
o problema deixa de ser estético. Em fevereiro, Flávio escolheu para integrar
seu palanque no Rio o prefeito Márcio Canella, que havia nomeado dois
condenados por práticas de milícia para secretarias municipais. Em julho,
Canella foi alvo de busca e apreensão da Polícia Federal em investigação sobre
lavagem de dinheiro.
Agora,
em setembro, uma reportagem da Folha revelou que uma assessora de Flávio
negociou, em 2023, a liberação de emendas parlamentares com Robson Calixto, o
“Peixe”, condenado pelo STF por integrar a milícia envolvida no assassinato de
Marielle Franco. Segundo a reportagem, a Polícia Federal apontou a assessora
como interlocutora direta do miliciano no gabinete do senador e identificou
indícios de proximidade entre Calixto e o próprio Flávio. A defesa do candidato
afirma que os repasses foram legais e seguiram critérios técnicos.
Não se
trata de atribuir a Flávio, o mitômano, crimes cometidos por terceiros.
Trata-se de perguntar o que significa politicamente a escolha de alianças,
interlocutores e companhias. E também de lembrar que essa não é uma história
inteiramente nova: quando deputado estadual, Flávio condecorou Adriano da
Nóbrega, apontado pelas autoridades como chefe de milícia.
É nesse
ponto que a psicanálise encontra a política de maneira quase brutal. O discurso
da ordem pode conviver com a proximidade de estruturas que vivem da violência.
A promessa de segurança pode caminhar ao lado de relações com aqueles que
fizeram da intimidação um instrumento de poder. O discurso contra o crime não
impede, necessariamente, a convivência política com personagens que transitam
no seu entorno.
O que
está em jogo, portanto, não é apenas quem ocupará o Palácio do Planalto. É que
tipo de Estado se pretende construir a partir dele.
É isso
que acontece quando o Estado deixa de ser percebido como um bem comum e passa a
ser imaginado como propriedade de um grupo.
A
consequência é a transformação da República em patrimônio dos vencedores, dos
aliados, dos que chegaram mais perto do poder. E talvez seja essa a imagem mais
precisa para o projeto que se desenha: o Planalto convertido numa espécie de
Versailles tropical, com sua corte, seus privilégios, seus súditos e suas
alianças improváveis — enquanto, do lado de fora, permanece o país real.
A
fantasia de potência, nesse caso, não é apenas individual. Ela se torna projeto
de poder. O líder promete restaurar a grandeza perdida, devolver orgulho aos
humilhados e impor respeito aos que se sentem desprezados. Mas, por trás dessa
promessa, pode estar apenas a velha operação do ressentimento: transformar a
própria impotência em desejo de domínio.
Freud
chamou atenção para a agressividade que pode atravessar os vínculos humanos.
Wendy Brown nos ajuda a compreender como determinadas formas de organização
política podem transformar essa agressividade em energia pública. A extrema
direita faz justamente essa operação quando converte frustração em ódio, medo
em autoridade e ressentimento em programa político.
Por
isso, talvez seja um erro rir demais da sunga branca.
Ela é
apenas a imagem mais grotesca de uma fantasia muito mais séria: a fantasia de
que o poder existe para devolver a alguns aquilo que eles acreditam ter perdido
— ainda que, para isso, seja preciso transformar o Estado em propriedade
privada de uma tribo política.
E uma
República não sobrevive quando deixa de ser de todos.
Fonte:
Brasil 247

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