terça-feira, 29 de setembro de 2026

Marcia Carmo: Aliados de Bolsonaro, governos da extrema-direita mostram resultados negativos de suas gestões

As gestões dos presidentes da Argentina, Javier Milei, e do Chile, José Antonio Kast, têm em comum, hoje, os resultados negativos dos desempenhos econômicos nos dois países. E ainda a impopularidade dos dois presidentes.

<><> Ressalvas

Milei e Kast já demostraram intensa proximidade com os Bolsonaro. Milei subiu no palco do candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro, na convenção do PL em São Paulo e continua destilando seu ódio contra o presidente Lula. Kast, por sua vez, já disse, mais de uma vez que se o Brasil vai bem, o Chile irá bem. Hoje, os dois presidentes, Milei e Kast, não vão nada bem.

<><> Recessão

Na semana passada, o Indec (equivalente ao IBGE) informou que a

economia argentina caiu quase 3% (2,9%) no mês de julho em relação ao mês anterior, junho. O comércio encolheu 5,1% e a indústria 4,6%. A retração da economia argentina foi de 1,4% na comparação com julho do ano passado. Para economistas, a Argentina pode ter entrado na espiral de recessão. Na sexta-feira, o JP Morgan, por exemplo, corrigiu de 2,7% para 1,5% a perspectiva de crescimento da economia argentina neste ano e informou à sua rede de clientes que a Argentina entrará em recessão no próximo trimestre do ano, como informou a imprensa local. Como observou uma fonte da área econômica de Buenos Aires, a fórmula de Milei para a economia começa a gerar desconfiança até entre os que comungam ou simpatizam com suas ideias. Motivos: a esperada enxurrada de investimentos externos não chega, apesar do severo ajuste, e o consumo não decola. Também na semana passada, o Indec informou que a pobreza aumentou de 28,2% para 32,3% no primeiro semestre.

<><> Milei argumenta

Com cerca de 30% a 35% de apoio popular, dependendo da pesquisa de opinião, Milei começou a dizer que a economia vai dar bons resultados em 2028. Ou seja, depois da eleição presidencial de 2027, ano que vem, quando claramente buscará a reeleição, apesar da sua impopularidade e da realidade econômica e social do país.

<><> Chile

Neste domingo, a pesquisa chilena Pulso Ciudadano mostrou que o presidente Kast tem apenas 28,2% de aprovação e sua rejeição chega a quase 60% (57,6%). Os números são similares a de outros levantamentos, como o da Cadem, também de Santiago. Pelo menos dois fatos afetam a imagem de Kast que tem pouco mais de seis meses de governo: a queda da economia e a preocupação com a segurança pública. Além da falta de empatia aos problemas sociais, como observam líderes da esquerda chilena. Com a contagem regressiva para a eleição brasileira, estas realidades dos governos da extrema-direita poderiam ser mais e mais difundidas…

•        Já se pode afirmar o sucesso da ingerência dos EUA nas eleições brasileiras. Por Fernando Horta

Democracias, diz a teoria, são o governo de muitos. Diferente de regimes ditatoriais em que todas as instâncias do Estado estão submetidas às decisões diretas ou influência imediata de um ou um conjunto de poucas pessoas ligadas a uma liderança sem legitimidade democrática, nas democracias há um padrão complexo e interconectado de decisões e de responsabilidades. Essa fragmentação não apenas de quem detém o poder, mas de quem aplica os diversos poderes da república é – em sentido teórico – uma garantia contra o arbítrio.

Se muitos operam os poderes, muitos são também os pontos de pressão que podem ser aplicados quando há interesse em decisões diferentes daquelas que o tomador de decisão – deixado sem pressão – tomaria. Se Nunes Marques fosse deixado apenas com sua consciência ele teria desempatado o julgamento dos precatórios das indústrias açucareiras em favor do Banco Master? Nunca saberemos, mas certamente ter um contrato de 427 milhões assinado com interlocutores próximos geram 427 milhões de razões novas para o voto em favor de Vorcaro. E razões eloquentes.

O mesmo pensamento acontece em todo sujeito que opera o poder público. Cada decisão (de fazer ou deixar de fazer algo) pode ser alvo de pressões externas. Tomemos a ABIN, por exemplo, criada em 1999 para ser uma espécie de “inteligência civil” (em oposição ao famigerado SNI de Golbery e Figueiredo) a agência nunca conseguiu se livrar da tutela militar. Seja porque estava submetida ao inútil GSI ou porque tem seu diretor escolhidos dos quadros da PF (que funciona por hierarquização quasi-militar). A ABIN está com orçamento cortado, seu direito indiciado ainda pelas confusões do ex-governo bolsonaro, seus funcionários ameaçando greves, enfrentando insegurança jurídica sobre sua cadeia de comando e resposta e sem um detalhamento claro sobre um plano de carreira para seus servidores. Ainda assim, com todos esses problemas, foi a única das instituições brasileiras a nomear os EUA e avisar da ingerência estrangeira durante as eleições. Poderia ter se calado.

Na semana que a toda a mídia volta a mostrar a ingerência norte-americana não como um “se”, mas como um “já agora” nenhuma das instituições responsáveis fala algo. Menção aqui ao eloquente e tonitroante CDCiber (Centro de Defesa Cibernética) que durante o governo Bolsonaro (sob controle do General Héber Portella) fez um carnaval de ataques às urnas denunciando tudo o que não tinha provas para denunciar contra a eleição de 2022. Toda aquela energia e mobilização contra o “inimigo interno” agora é só silêncio. Aliás, é pior. Entre 21 e 25 de setembro – agora – o exército participou de um exercício chamado “Guardião Cibernético” em conjunto com outras 14 nações (que ninguém sabe quem são porque a lista não foi divulgada) para nos proteger de “ataques cibernéticos complexos e coordenados” com zero menção à ingerência estrangeira ou eleição.

O ataque de André Mendonça no STF, PF e Procuradoria Geral (com o relatório ilegal apresentado no dia 15) desabilitou de uma só vez – como mostra o quadro acima – todo nosso bloco de defesa do judiciário. O STF, a PF e o MP estão paralisados com uma única ação de um indivíduo. Isso, aliás, está previsto na lei de terrorismo. Mendonça, Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro se enquadram perfeitamente no que a lei anti-terrorismo delimita. Se a investigação proposta por Mendonça sobre Moraes tivesse seguido os trâmites normais, mantida em sigilo, autorizada pelo Supremo com parecer da PGR estava tudo certo. Quando é feita de forma espalhafatosa, sem provas, para gerar manchetes de jornais e termina pela desabilitação do STF da sua função de comandar a proteção brasileira contra a ingerência dos EUA em nossa eleição, então ela é sim uma ação terrorista que impossibilita um dos poderes de cumprir sua função de proteger o Estado brasileiro. Tem o mesmo peso funcional do que uma bomba explodindo um aeroporto e talvez até mais.

Quanto mais eu olho o cenário, mais percebo que toda essa engenharia não foi pensada na mansão de Flávio Bolsonaro em Brasília que é seu QG de campanha. Financiada pelo BRB que iria comprar o banco master de forma opaca e com autorização pessoal de Ibaneis. Quanto mais estudo, mais me convenço que essa engenharia de ataques às nossas instituições foi pensada em Washington e com ajuda de elementos internos como o MEC da Fundação Lehmann e os contratos da Palantir no Brasil. Ainda essa semana se dão conta de novas empresas de inteligência ligadas ao vice presidente Vance chegando ao Brasil. Devem vir para tomar posse antecipada e já começarem a transição. Estamos de fato desprotegidos. Parece que as instituições estão esperando apenas o presidente Lula perder. Inativas, sonolentas, desmotivadas. Ou talvez com algumas milhões de motivações em dinheiro vivo?

Se ganharmos essa eleição que o presidente Lula mapeie esse momento e que nenhum chefe de instituição que nos deixou nessa semana desprotegido fique no cargo. De covardia já basta a vasta história do regime militar. E que a ABIN receba o reconhecimento que merece. E vire órgão de inteligência civil, com carreira, verba e ligada à presidência da República e a ninguém mais.

•        O espelho do poder. Por Renata Medeiros

A extrema direita não vive apenas de ideias. Vive também de afetos. E talvez seja justamente por isso que sua força política não possa ser compreendida apenas pela racionalidade dos seus discursos. Há alguma coisa anterior à escolha política: o ressentimento, a sensação de perda, a humilhação e o desejo de recuperar, ainda que imaginariamente, uma potência que se sente roubada.

É aqui que a cientista política norte-americana Wendy Brown nos ajuda a pensar o presente. Em sua crítica à racionalidade neoliberal, Brown mostra como a corrosão do mundo comum e a transformação de sujeitos em indivíduos concorrentes produzem uma experiência de desamparo político. Quando o espaço público deixa de ser percebido como lugar de construção coletiva, a frustração não desaparece. Ela procura um culpado.

Freud já havia percebido que a identificação pode oferecer ao indivíduo algo que ele não encontra em si mesmo. O líder passa a funcionar como uma espécie de espelho: nele, o sujeito enxerga a força que gostaria de possuir, a autoridade que gostaria de exercer, a potência que sente ter perdido. Não recebe essa potência de fato. Recebe sua imagem.

É aí que a política da extrema direita encontra terreno fértil. Ela oferece ao ressentido não necessariamente uma saída para sua falta, mas alguém sobre quem descarregá-la. O outro passa a ser o responsável por tudo aquilo que não deu certo: o pobre, o estrangeiro, a esquerda, as instituições, a imprensa, o Judiciário, qualquer um que possa ocupar o lugar do inimigo.

A política deixa de ser disputa entre projetos e passa a ser uma guerra moral. E, nessa guerra, quanto maior a humilhação do outro, maior parece ser a própria força.

Flávio Bolsonaro é uma expressão particularmente reveladora desse fenômeno. Não porque seja apenas mais um candidato da direita, mas porque carrega a herança política de um movimento que transformou o ressentimento em identidade e a agressividade em linguagem de poder. A aparência de força importa tanto quanto o conteúdo da política. Talvez por isso a imagem do candidato de sunga branca, faixa presidencial e pose de galã de propaganda de verão tenha produzido tanto riso. Mas o ridículo não deveria nos distrair do que existe por trás dele.

A sunga é ridícula. A política que ela ajuda a encenar não é.

Porque, quando olhamos para as alianças e para os personagens que orbitam esse projeto, o problema deixa de ser estético. Em fevereiro, Flávio escolheu para integrar seu palanque no Rio o prefeito Márcio Canella, que havia nomeado dois condenados por práticas de milícia para secretarias municipais. Em julho, Canella foi alvo de busca e apreensão da Polícia Federal em investigação sobre lavagem de dinheiro.

Agora, em setembro, uma reportagem da Folha revelou que uma assessora de Flávio negociou, em 2023, a liberação de emendas parlamentares com Robson Calixto, o “Peixe”, condenado pelo STF por integrar a milícia envolvida no assassinato de Marielle Franco. Segundo a reportagem, a Polícia Federal apontou a assessora como interlocutora direta do miliciano no gabinete do senador e identificou indícios de proximidade entre Calixto e o próprio Flávio. A defesa do candidato afirma que os repasses foram legais e seguiram critérios técnicos.

Não se trata de atribuir a Flávio, o mitômano, crimes cometidos por terceiros. Trata-se de perguntar o que significa politicamente a escolha de alianças, interlocutores e companhias. E também de lembrar que essa não é uma história inteiramente nova: quando deputado estadual, Flávio condecorou Adriano da Nóbrega, apontado pelas autoridades como chefe de milícia.

É nesse ponto que a psicanálise encontra a política de maneira quase brutal. O discurso da ordem pode conviver com a proximidade de estruturas que vivem da violência. A promessa de segurança pode caminhar ao lado de relações com aqueles que fizeram da intimidação um instrumento de poder. O discurso contra o crime não impede, necessariamente, a convivência política com personagens que transitam no seu entorno.

O que está em jogo, portanto, não é apenas quem ocupará o Palácio do Planalto. É que tipo de Estado se pretende construir a partir dele.

É isso que acontece quando o Estado deixa de ser percebido como um bem comum e passa a ser imaginado como propriedade de um grupo.

A consequência é a transformação da República em patrimônio dos vencedores, dos aliados, dos que chegaram mais perto do poder. E talvez seja essa a imagem mais precisa para o projeto que se desenha: o Planalto convertido numa espécie de Versailles tropical, com sua corte, seus privilégios, seus súditos e suas alianças improváveis — enquanto, do lado de fora, permanece o país real.

A fantasia de potência, nesse caso, não é apenas individual. Ela se torna projeto de poder. O líder promete restaurar a grandeza perdida, devolver orgulho aos humilhados e impor respeito aos que se sentem desprezados. Mas, por trás dessa promessa, pode estar apenas a velha operação do ressentimento: transformar a própria impotência em desejo de domínio.

Freud chamou atenção para a agressividade que pode atravessar os vínculos humanos. Wendy Brown nos ajuda a compreender como determinadas formas de organização política podem transformar essa agressividade em energia pública. A extrema direita faz justamente essa operação quando converte frustração em ódio, medo em autoridade e ressentimento em programa político.

Por isso, talvez seja um erro rir demais da sunga branca.

Ela é apenas a imagem mais grotesca de uma fantasia muito mais séria: a fantasia de que o poder existe para devolver a alguns aquilo que eles acreditam ter perdido — ainda que, para isso, seja preciso transformar o Estado em propriedade privada de uma tribo política.

E uma República não sobrevive quando deixa de ser de todos.

 

Fonte: Brasil 247

 

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