terça-feira, 29 de setembro de 2026

Paulo Nogueira Batista Jr.: “Se o Brasil elege Flávio, estaremos liquidados como nação soberana”

O economista Paulo Nogueira Batista Jr. afirmou que a eleição presidencial de 2026 coloca em disputa não apenas projetos econômicos e políticos internos, mas também o grau de autonomia que o Brasil terá diante das grandes potências. Para ele, uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro representaria uma mudança na política externa brasileira em direção a um alinhamento com o governo de Donald Trump.

A avaliação foi feita em entrevista à TV 247, concedida após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva usar, em seu discurso na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, a frase “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”. A formulação é o título do livro publicado por Paulo Nogueira Batista Jr. em 2019, no qual o economista reúne experiências de sua passagem pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo Novo Banco de Desenvolvimento, instituição criada pelos BRICS. A referência de Lula à obra também foi registrada posteriormente pela imprensa.

“Diria que está ameaçada, sim, nas eleições, porque nós temos, de um lado, um nacionalista moderado e, de outro, um entreguista. Só falta dizer ‘sou entreguista’, porque dá todas as demonstrações de que quer se alinhar estreitamente ao governo Trump”, afirmou Batista Jr., ao analisar as consequências que atribui a uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro.

A caracterização é uma avaliação política do economista. A partir dela, Batista Jr. sustentou que o cenário internacional torna a definição da política externa brasileira especialmente relevante. Segundo ele, a atual postura dos Estados Unidos em relação à América Latina aumenta os riscos de um alinhamento automático de Brasília com Washington.

“Isso é um perigo. Sempre seria inconveniente, mas, nas condições atuais, em que o governo americano atravessa uma fase de grande agressividade, se o Brasil elege um presidente desse tipo, nós estamos liquidados como nação soberana”, declarou.

A questão da soberania ocupou parte central da entrevista. Batista Jr. relacionou sua análise ao discurso feito por Lula na ONU. Na terça-feira (22), o presidente afirmou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”, criticou a ingerência externa em processos eleitorais e a divisão do mundo em zonas de influência e defendeu que os países latino-americanos decidam seus caminhos sem interferência estrangeira.

Batista Jr. disse ter recebido com satisfação a referência à formulação que dá nome ao seu livro. “Eu fiquei muito contente de ouvir o Lula dizer isso hoje. Foi o plágio de que eu mais gostei na vida. Nunca gostei de plágio, mas esse aí eu achei maravilhoso”, brincou.

O economista, no entanto, argumentou que a preservação da autonomia brasileira não depende apenas de declarações diplomáticas. Em sua avaliação, uma eventual continuidade do governo Lula exigiria a combinação de uma política externa diversificada com medidas voltadas à capacidade nacional de defesa.

“Nunca a nossa soberania esteve tão ameaçada como está hoje”, afirmou Batista Jr. Segundo ele, os Estados Unidos estariam buscando reafirmar sua predominância sobre o Hemisfério Ocidental, em um movimento que, na interpretação do economista, abrange toda a região “da Groenlândia até a Patagônia”.

Nesse cenário, ele vê o Brasil como uma peça central. Para Batista Jr., o peso territorial, econômico, demográfico e geopolítico brasileiro dificulta qualquer projeto de hegemonia continental que não leve em consideração a posição de Brasília.

“A maneira mais fácil de dominar é elegendo um vassalo como Flávio, um Milei brasileiro”, declarou, estabelecendo uma comparação entre Flávio Bolsonaro e o presidente argentino Javier Milei. Trata-se, novamente, de uma avaliação política feita pelo entrevistado sobre os dois dirigentes.

Questionado sobre o que Lula deveria fazer caso conquiste um novo mandato, Batista Jr. apontou a necessidade de ampliar relações internacionais e preservar a participação brasileira em fóruns como os BRICS. “O Lula é um veterano, é um político, um líder experimentado. Ele vai buscar alianças”, afirmou.

Na entrevista à TV 247, o economista foi além da dimensão diplomática e econômica. Para ele, o Brasil precisa rever sua política de defesa.

“O fundamental, fundamental, é o Brasil se rearmar. É uma pena ter que dizer isso. Seria muito melhor gastar no combate à miséria, combate à fome”, afirmou.

Batista Jr. justificou sua posição pelo volume de recursos naturais e estratégicos existentes no território brasileiro. Na avaliação dele, a ausência de capacidade de defesa compatível com as dimensões e os recursos do país aumenta sua vulnerabilidade em períodos de tensão internacional.

“A verdade é que, no nosso cenário, numa situação em que o Brasil tem amplos recursos naturais, críticos, de toda sorte, é um objeto de cobiça. Se esse grande país, rico como é, não souber se defender, não puder se defender, vai ser um convite à agressão”, declarou.

O economista deixou claro que não defende o abandono da tradição diplomática brasileira de solução pacífica das controvérsias. Sua tese é que capacidade militar e política externa pacifista não seriam incompatíveis.

“O Brasil continuará sempre pacifista”, disse.

Batista Jr. argumentou ainda que o país não deveria partir da premissa de que receberia auxílio militar de parceiros internacionais em uma situação de confronto. Mesmo mantendo relações próximas com integrantes dos BRICS, ele considera que a estratégia brasileira deve partir da capacidade própria de defesa.

“Vamos ter que contar, sobretudo, com nós mesmos, porque ninguém, os amigos, entre aspas, parceiros, os BRICS, vai lutar aqui, hein? Na minha opinião, posso estar enganado, espero estar enganado. Nós estaremos sozinhos”, afirmou.

Para o economista, essa discussão exige mudanças que ultrapassam a aquisição de equipamentos militares. Ele defendeu uma revisão mais ampla da doutrina de segurança nacional, da formação nas escolas militares e do planejamento estratégico brasileiro.

Batista Jr. observou que o Brasil não enfrenta uma guerra de grandes proporções em seu território desde o século XIX, circunstância que, em sua avaliação, contribuiu para afastar o debate sobre a defesa da agenda cotidiana do país. Ele comparou essa experiência com a de países que sofreram conflitos e intervenções externas ao longo dos séculos XX e XXI.

A preocupação expressa pelo economista ocorre no mesmo momento em que Lula coloca a soberania no centro de sua mensagem internacional. Na Assembleia Geral, o presidente afirmou que a América Latina voltou a presenciar interferências externas em processos eleitorais e “investidas neocoloniais” sobre recursos estratégicos. “O Brasil continuará sendo um país soberano. Ninguém nos afastará desse caminho”, declarou Lula.

O discurso também defendeu maior integração regional e relações internacionais baseadas em desenvolvimento e cooperação. “Precisamos de parceiros com uma agenda positiva que fomente o desenvolvimento”, afirmou o presidente na ONU.

Para Batista Jr., esse princípio precisa se converter em uma estratégia de longo prazo. Em sua avaliação, a eleição presidencial determinará qual será a orientação brasileira diante da disputa entre grandes potências: uma política de autonomia, diversificação de parceiros e fortalecimento da capacidade nacional ou uma aproximação maior com Washington.

Ao transformar essa questão no eixo de sua análise, o economista retomou a tese que orienta seu livro e que Lula levou à tribuna da ONU: a de que as dimensões e os interesses do Brasil exigem uma política externa própria, sem alinhamento automático com nenhuma potência.

•        Alysson Mascaro: “Os que se dizem patriotas são os que vendem o Brasil”

Em uma profunda reflexão sobre a encruzilhada política e existencial do Brasil contemporâneo, o jurista, filósofo e professor Alysson Leandro Mascaro, concedeu uma contundente entrevista presencial aos estúdios da TV 247. Analisando o acirramento eleitoral e a paralisia do Ocidente, Mascaro apontou que a retórica ufanista da extrema-direita serve de biombo ideológico para encobrir a subordinação total do país aos interesses estrangeiros. “Aqueles que se chamam patriotas, no caso do Brasil, são exatamente os que vendem a pátria”, sentenciou.

Para Mascaro, o fenômeno que sustenta a sobrevida da extrema-direita e o empate nas disputas eleitorais não pode ser lido apenas por métricas econômicas ou indicadores estatísticos de curto prazo. Trata-se de uma dinâmica organizada pelos “afetos de ressentimento” gerados pelo próprio capitalismo neoliberal em crise.

“A economia capitalista ocidental estagnou e certas classes médias não avançam mais. As pessoas nascem, vivem, morrem e sentem que não exercem sua plenitude. Esta forma de morrer aos poucos vai gerando inconformidade, um afeto de que o mundo anda errado. E todo aquele que tenta buscar uma alteração social positiva passa a gerar ressentimento”, explicou.

Nesse contexto, segundo o jurista, qualquer ascensão dos mais pobres — como o acesso a viagens de avião ou a entrada dos filhos de trabalhadores na universidade — é percebida pela classe média decadente não como progresso coletivo, mas como perda de distinção e de privilégio. “No ressentimento, os piores seres humanos são os que fazem gozar o ressentido. Coloca-se o pior no poder porque o cidadão médio pensa: ‘se ele é presidente, eu sou melhor do que ele’.”

<><> O patriotismo de fancaria e a entrega do país

Ao aprofundar a contradição entre o discurso ufanista e a prática econômica, Mascaro foi taxativo ao apontar a alienação dos setores que vestem verde e amarelo enquanto promovem o desmonte da soberania.

“Como é que uma pessoa que dá o país para o exterior explorar, que beija a bandeira dos Estados Unidos, vive em paz consigo mesma? Ela precisa fazer um autoengano de que é patriota. Então ela beija a bandeira do Brasil, veste a camisa da CBF e assume uma postura moralista”, afirmou. Ele citou exemplos concretos de desmonte nacional, como a tentativa de entrega da Embraer à norte-americana Boeing e o estrangulamento de projetos industriais e tecnológicos autóctones. “É um patriotismo de fancaria. O moralismo e esse falso patriotismo são formas de tentar compensar a completa paralisia e a incapacidade de construir um projeto nacional soberano.”

<><> A ilusão com o Judiciário e a armadilha institucional

Outro ponto nevrálgico abordado por Mascaro foi a relação de setores progressistas com o Supremo Tribunal Federal (STF). Para o filósofo — autor de Crise e Golpe —, a crise de legitimidade da Suprema Corte não começou nos embates recentes contra o bolsonarismo, mas se arrasta há décadas, passando pelo Mensalão, pela conivência com a Operação Lava Jato e pelo golpe parlamentar contra Dilma Rousseff em 2016.

“Quem é de uma leitura concreta, materialista e marxista, nunca alimentou ilusões com o Judiciário. O Judiciário é um elemento do Estado, e o Estado é uma forma do capital. Não tem como o Judiciário ser emancipador e libertar uma sociedade se ele é, em sua essência, a manutenção das condições do capitalismo”, advertiu.

Mascaro alertou que a esquerda caiu em uma armadilha ao assumir o papel de mera defensora das instituições vigentes: “O mais confortável para a esquerda foi achar que, no momento em que o relógio parado marca a hora que lhe favorece — como ao prender Bolsonaro —, deve-se deixar tudo a cargo da Justiça, em vez de fazer o trabalho de convencimento, de luta social e de consciência política. Quando a esquerda se organiza exclusivamente em termos de defesa das instituições, ela perde a capacidade de insurgir-se contra a própria ordem que perpetua a miséria. É aí que a direita passa por ‘antissistema’ e a esquerda passa por defensora do sistema.”

<><> A disputa moral e a segurança pública

Ao projetar os caminhos para romper a paralisia política, Mascaro rechaçou a tese de que a resposta reside em convergir para um “centro desidratado” — fórmula que combina corte de direitos sociais com o moralismo de conveniência da Avenida Faria Lima. Para ele, é preciso “dobrar a aposta” tanto na economia popular quanto na disputa ética.

O jurista ilustrou sua tese abordando o debate sobre a segurança pública e criticando a abordagem tradicional dos setores liberais: “O policial foi formado sob a fantasia de ser o herói, o corajoso. A esquerda liberal diz que ele não deve matar o pobre, e com razão, mas faz isso de forma abstrata, fazendo com que a corporação se afaste e ache que a esquerda ‘defende bandido’. Eu digo o oposto: bater em pobre na favela é a maior covardia que existe. Coragem de verdade é enfrentar os donos do poder: o banqueiro, o latifundiário, o grande sonegador que lava bilhões, o imperialismo. Quer ser herói? Seja herói enfrentando quem realmente esmaga o povo brasileiro.”

 

Fonte: Brasil 247

 

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