Paulo
Nogueira Batista Jr.: “Se o Brasil elege Flávio, estaremos liquidados como
nação soberana”
O
economista Paulo Nogueira Batista Jr. afirmou que a eleição presidencial de
2026 coloca em disputa não apenas projetos econômicos e políticos internos, mas
também o grau de autonomia que o Brasil terá diante das grandes potências. Para
ele, uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro representaria uma mudança na
política externa brasileira em direção a um alinhamento com o governo de Donald
Trump.
A
avaliação foi feita em entrevista à TV 247, concedida após o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva usar, em seu discurso na 81ª Assembleia Geral das Nações
Unidas, a frase “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”. A formulação é o
título do livro publicado por Paulo Nogueira Batista Jr. em 2019, no qual o
economista reúne experiências de sua passagem pelo Fundo Monetário
Internacional (FMI) e pelo Novo Banco de Desenvolvimento, instituição criada
pelos BRICS. A referência de Lula à obra também foi registrada posteriormente
pela imprensa.
“Diria
que está ameaçada, sim, nas eleições, porque nós temos, de um lado, um
nacionalista moderado e, de outro, um entreguista. Só falta dizer ‘sou
entreguista’, porque dá todas as demonstrações de que quer se alinhar
estreitamente ao governo Trump”, afirmou Batista Jr., ao analisar as
consequências que atribui a uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro.
A
caracterização é uma avaliação política do economista. A partir dela, Batista
Jr. sustentou que o cenário internacional torna a definição da política externa
brasileira especialmente relevante. Segundo ele, a atual postura dos Estados
Unidos em relação à América Latina aumenta os riscos de um alinhamento
automático de Brasília com Washington.
“Isso é
um perigo. Sempre seria inconveniente, mas, nas condições atuais, em que o
governo americano atravessa uma fase de grande agressividade, se o Brasil elege
um presidente desse tipo, nós estamos liquidados como nação soberana”,
declarou.
A
questão da soberania ocupou parte central da entrevista. Batista Jr. relacionou
sua análise ao discurso feito por Lula na ONU. Na terça-feira (22), o
presidente afirmou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”, criticou a
ingerência externa em processos eleitorais e a divisão do mundo em zonas de
influência e defendeu que os países latino-americanos decidam seus caminhos sem
interferência estrangeira.
Batista
Jr. disse ter recebido com satisfação a referência à formulação que dá nome ao
seu livro. “Eu fiquei muito contente de ouvir o Lula dizer isso hoje. Foi o
plágio de que eu mais gostei na vida. Nunca gostei de plágio, mas esse aí eu
achei maravilhoso”, brincou.
O
economista, no entanto, argumentou que a preservação da autonomia brasileira
não depende apenas de declarações diplomáticas. Em sua avaliação, uma eventual
continuidade do governo Lula exigiria a combinação de uma política externa
diversificada com medidas voltadas à capacidade nacional de defesa.
“Nunca
a nossa soberania esteve tão ameaçada como está hoje”, afirmou Batista Jr.
Segundo ele, os Estados Unidos estariam buscando reafirmar sua predominância
sobre o Hemisfério Ocidental, em um movimento que, na interpretação do
economista, abrange toda a região “da Groenlândia até a Patagônia”.
Nesse
cenário, ele vê o Brasil como uma peça central. Para Batista Jr., o peso
territorial, econômico, demográfico e geopolítico brasileiro dificulta qualquer
projeto de hegemonia continental que não leve em consideração a posição de
Brasília.
“A
maneira mais fácil de dominar é elegendo um vassalo como Flávio, um Milei
brasileiro”, declarou, estabelecendo uma comparação entre Flávio Bolsonaro e o
presidente argentino Javier Milei. Trata-se, novamente, de uma avaliação
política feita pelo entrevistado sobre os dois dirigentes.
Questionado
sobre o que Lula deveria fazer caso conquiste um novo mandato, Batista Jr.
apontou a necessidade de ampliar relações internacionais e preservar a
participação brasileira em fóruns como os BRICS. “O Lula é um veterano, é um
político, um líder experimentado. Ele vai buscar alianças”, afirmou.
Na
entrevista à TV 247, o economista foi além da dimensão diplomática e econômica.
Para ele, o Brasil precisa rever sua política de defesa.
“O
fundamental, fundamental, é o Brasil se rearmar. É uma pena ter que dizer isso.
Seria muito melhor gastar no combate à miséria, combate à fome”, afirmou.
Batista
Jr. justificou sua posição pelo volume de recursos naturais e estratégicos
existentes no território brasileiro. Na avaliação dele, a ausência de
capacidade de defesa compatível com as dimensões e os recursos do país aumenta
sua vulnerabilidade em períodos de tensão internacional.
“A
verdade é que, no nosso cenário, numa situação em que o Brasil tem amplos
recursos naturais, críticos, de toda sorte, é um objeto de cobiça. Se esse
grande país, rico como é, não souber se defender, não puder se defender, vai
ser um convite à agressão”, declarou.
O
economista deixou claro que não defende o abandono da tradição diplomática
brasileira de solução pacífica das controvérsias. Sua tese é que capacidade
militar e política externa pacifista não seriam incompatíveis.
“O
Brasil continuará sempre pacifista”, disse.
Batista
Jr. argumentou ainda que o país não deveria partir da premissa de que receberia
auxílio militar de parceiros internacionais em uma situação de confronto. Mesmo
mantendo relações próximas com integrantes dos BRICS, ele considera que a
estratégia brasileira deve partir da capacidade própria de defesa.
“Vamos
ter que contar, sobretudo, com nós mesmos, porque ninguém, os amigos, entre
aspas, parceiros, os BRICS, vai lutar aqui, hein? Na minha opinião, posso estar
enganado, espero estar enganado. Nós estaremos sozinhos”, afirmou.
Para o
economista, essa discussão exige mudanças que ultrapassam a aquisição de
equipamentos militares. Ele defendeu uma revisão mais ampla da doutrina de
segurança nacional, da formação nas escolas militares e do planejamento
estratégico brasileiro.
Batista
Jr. observou que o Brasil não enfrenta uma guerra de grandes proporções em seu
território desde o século XIX, circunstância que, em sua avaliação, contribuiu
para afastar o debate sobre a defesa da agenda cotidiana do país. Ele comparou
essa experiência com a de países que sofreram conflitos e intervenções externas
ao longo dos séculos XX e XXI.
A
preocupação expressa pelo economista ocorre no mesmo momento em que Lula coloca
a soberania no centro de sua mensagem internacional. Na Assembleia Geral, o
presidente afirmou que a América Latina voltou a presenciar interferências
externas em processos eleitorais e “investidas neocoloniais” sobre recursos
estratégicos. “O Brasil continuará sendo um país soberano. Ninguém nos afastará
desse caminho”, declarou Lula.
O
discurso também defendeu maior integração regional e relações internacionais
baseadas em desenvolvimento e cooperação. “Precisamos de parceiros com uma
agenda positiva que fomente o desenvolvimento”, afirmou o presidente na ONU.
Para
Batista Jr., esse princípio precisa se converter em uma estratégia de longo
prazo. Em sua avaliação, a eleição presidencial determinará qual será a
orientação brasileira diante da disputa entre grandes potências: uma política
de autonomia, diversificação de parceiros e fortalecimento da capacidade
nacional ou uma aproximação maior com Washington.
Ao
transformar essa questão no eixo de sua análise, o economista retomou a tese
que orienta seu livro e que Lula levou à tribuna da ONU: a de que as dimensões
e os interesses do Brasil exigem uma política externa própria, sem alinhamento
automático com nenhuma potência.
• Alysson Mascaro: “Os que se dizem
patriotas são os que vendem o Brasil”
Em uma
profunda reflexão sobre a encruzilhada política e existencial do Brasil
contemporâneo, o jurista, filósofo e professor Alysson Leandro Mascaro,
concedeu uma contundente entrevista presencial aos estúdios da TV 247.
Analisando o acirramento eleitoral e a paralisia do Ocidente, Mascaro apontou
que a retórica ufanista da extrema-direita serve de biombo ideológico para
encobrir a subordinação total do país aos interesses estrangeiros. “Aqueles que
se chamam patriotas, no caso do Brasil, são exatamente os que vendem a pátria”,
sentenciou.
Para
Mascaro, o fenômeno que sustenta a sobrevida da extrema-direita e o empate nas
disputas eleitorais não pode ser lido apenas por métricas econômicas ou
indicadores estatísticos de curto prazo. Trata-se de uma dinâmica organizada
pelos “afetos de ressentimento” gerados pelo próprio capitalismo neoliberal em
crise.
“A
economia capitalista ocidental estagnou e certas classes médias não avançam
mais. As pessoas nascem, vivem, morrem e sentem que não exercem sua plenitude.
Esta forma de morrer aos poucos vai gerando inconformidade, um afeto de que o
mundo anda errado. E todo aquele que tenta buscar uma alteração social positiva
passa a gerar ressentimento”, explicou.
Nesse
contexto, segundo o jurista, qualquer ascensão dos mais pobres — como o acesso
a viagens de avião ou a entrada dos filhos de trabalhadores na universidade — é
percebida pela classe média decadente não como progresso coletivo, mas como
perda de distinção e de privilégio. “No ressentimento, os piores seres humanos
são os que fazem gozar o ressentido. Coloca-se o pior no poder porque o cidadão
médio pensa: ‘se ele é presidente, eu sou melhor do que ele’.”
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O patriotismo de fancaria e a entrega do país
Ao
aprofundar a contradição entre o discurso ufanista e a prática econômica,
Mascaro foi taxativo ao apontar a alienação dos setores que vestem verde e
amarelo enquanto promovem o desmonte da soberania.
“Como é
que uma pessoa que dá o país para o exterior explorar, que beija a bandeira dos
Estados Unidos, vive em paz consigo mesma? Ela precisa fazer um autoengano de
que é patriota. Então ela beija a bandeira do Brasil, veste a camisa da CBF e
assume uma postura moralista”, afirmou. Ele citou exemplos concretos de
desmonte nacional, como a tentativa de entrega da Embraer à norte-americana
Boeing e o estrangulamento de projetos industriais e tecnológicos autóctones.
“É um patriotismo de fancaria. O moralismo e esse falso patriotismo são formas
de tentar compensar a completa paralisia e a incapacidade de construir um
projeto nacional soberano.”
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A ilusão com o Judiciário e a armadilha institucional
Outro
ponto nevrálgico abordado por Mascaro foi a relação de setores progressistas
com o Supremo Tribunal Federal (STF). Para o filósofo — autor de Crise e Golpe
—, a crise de legitimidade da Suprema Corte não começou nos embates recentes
contra o bolsonarismo, mas se arrasta há décadas, passando pelo Mensalão, pela
conivência com a Operação Lava Jato e pelo golpe parlamentar contra Dilma
Rousseff em 2016.
“Quem é
de uma leitura concreta, materialista e marxista, nunca alimentou ilusões com o
Judiciário. O Judiciário é um elemento do Estado, e o Estado é uma forma do
capital. Não tem como o Judiciário ser emancipador e libertar uma sociedade se
ele é, em sua essência, a manutenção das condições do capitalismo”, advertiu.
Mascaro
alertou que a esquerda caiu em uma armadilha ao assumir o papel de mera
defensora das instituições vigentes: “O mais confortável para a esquerda foi
achar que, no momento em que o relógio parado marca a hora que lhe favorece —
como ao prender Bolsonaro —, deve-se deixar tudo a cargo da Justiça, em vez de
fazer o trabalho de convencimento, de luta social e de consciência política.
Quando a esquerda se organiza exclusivamente em termos de defesa das
instituições, ela perde a capacidade de insurgir-se contra a própria ordem que
perpetua a miséria. É aí que a direita passa por ‘antissistema’ e a esquerda
passa por defensora do sistema.”
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A disputa moral e a segurança pública
Ao
projetar os caminhos para romper a paralisia política, Mascaro rechaçou a tese
de que a resposta reside em convergir para um “centro desidratado” — fórmula
que combina corte de direitos sociais com o moralismo de conveniência da
Avenida Faria Lima. Para ele, é preciso “dobrar a aposta” tanto na economia
popular quanto na disputa ética.
O
jurista ilustrou sua tese abordando o debate sobre a segurança pública e
criticando a abordagem tradicional dos setores liberais: “O policial foi
formado sob a fantasia de ser o herói, o corajoso. A esquerda liberal diz que
ele não deve matar o pobre, e com razão, mas faz isso de forma abstrata,
fazendo com que a corporação se afaste e ache que a esquerda ‘defende bandido’.
Eu digo o oposto: bater em pobre na favela é a maior covardia que existe.
Coragem de verdade é enfrentar os donos do poder: o banqueiro, o latifundiário,
o grande sonegador que lava bilhões, o imperialismo. Quer ser herói? Seja herói
enfrentando quem realmente esmaga o povo brasileiro.”
Fonte:
Brasil 247

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