Ana
Dubeux: A fé no voto
Os
debates estão acalorados, eu sei. Ouço e vejo o brandir das massas empunhando
ideias e bandeiras como se tivessem protegendo a própria vida. De certa forma,
estão. Defendem seu jeito de pensar, de existir e de se opor ao que não
acreditam. Sei que, mesmo com esse barulho ensurdecedor, é preciso escutar um
chamado maior. O mais importante deles é o grito de socorro da democracia.
Tanto barulho só existe porque somos livres para gritar nossas escolhas. A quem
pedimos quando todas as conquistas das últimas décadas são ameaçadas? Eu tenho
incondicionalmente fé em Deus. Mas também tenho fé no voto.
Quando
vejo a fé romper o silêncio para pedir pela democracia e ser abruptamente
silenciada, penso que estamos em outro estágio da civilização: a barbárie não
poupa nem santos, que dirá a boa palavra. O que os bispos disseram de tão
grave? Pediram pelo voto consciente, destacando pontos importantes, como a
defesa da soberania, e alertando sobre a manipulação da fé. A meu ver, a CNBB
ocupou lindamente o dever de informar aos cristãos. Ainda lançou um manifesto,
em que diz: "A democracia é o chão comum onde nossas diferenças podem
existir sem medo". A palavra ecoou mesmo diante da resistência imposta
pelo poder dos que controlam algoritmos. Sabe por quê? Porque a verdade sempre
encontra um caminho. Isso é obra de Deus, mas também dos humanos conscientes.
O post
do manifesto diz assim: "Em um país marcado pela diversidade de crenças,
tradições e formas de viver a fé, o diálogo é fundamental para construir uma
sociedade em que cada pessoa tenha respeitado o direito de crer, não crer e
viver com dignidade. Diante da intolerância religiosa, do racismo religioso e
da desinformação, somos chamados a fortalecer valores como o respeito, a
liberdade, o diálogo e a busca pelo bem comum". Parece fácil de assimilar,
mas os que usam a fé para orquestrar o poder não conseguem engolir.
Convivo
com católicos, evangélicos, praticantes de religiões de matriz africana e de
outras manifestações de fé. Todos querem o mesmo: o direito de escolha e de
livre expressão da sua fé. Não merecem ser enganados e roubados, como acontece
em alguns templos escusos, que, na verdade, são fachadas para crimes e para a
opressão de fiéis.
No
sentido bíblico, a dignidade é o valor sagrado e a honra que cada ser humano
possui por ter sido criado à imagem e semelhança de Deus. Está no livro
sagrado. A dignidade não depende de riquezas, é um dom divino dado a todas as
pessoas. Basta uma busca no Google para saber. A Bíblia professa ensinamentos,
e a Constituição elenca direitos fundamentais, dignos e sagrados. São
complementares para a nossa salvação e proteção.
Não
precisamos pensar igual, podemos ter crenças diferentes e praticar rituais tão
diversos como o país continental e miscigenado que somos. Podemos até não ter a
fé religiosa e viver longe de todas as suas manifestações. Mas a fé na
democracia deveria ser soberana, pois é o único espaço onde se celebra o
respeito à diversidade, a abertura ao diálogo, à convivência pacífica com quem
não necessariamente vive sob a mesma cartilha que nós.
¨ Especialistas
destacam a importância de cada voto na urna
Faltando
cinco dias para o primeiro turno das eleições 2026, o Correio traz análises de
especialistas, que destacam a importância do exercício do voto para a
democracia. No próximo 4 de
outubro,
o Distrito Federal vai escolher deputados distritais, federais, senadores,
governador e presidente. Analistas e cientistas políticos ressaltaram os
impactos que o ato de votar e de não votar pode ter na qualidade de vida dos
cidadãos e dos territórios onde moram.
"O
voto universal é uma conquista histórica e deve ser valorizado. Quando
retomamos a discussão sobre aquisição de direitos civis, políticos e sociais de
cidadania, vemos que é por ele que a soberania popular se transforma em poder
de decisão nas democracias representativas", analisou a cientista política
e coordenadora-geral do Observatório do Congresso da Universidade de Brasília
(UnB), Evelyn Apolinaria. "É ele que define quem ocupará os cargos, quem
serão os responsáveis por formular leis, alocar recursos públicos e conduzir
políticas de Estado", destacou.
Cientista
político e professor da Universidade Católica de Brasília, Valdir Pucci
reforçou que o voto é importante porque é a manifestação da soberania popular.
"Está na Constituição que todo poder emana do povo e que ele é exercido
pelos representantes eleitos. O mais importante é saber que cabe à
população a escolha dos seus representantes e que estes devem agir em nome da
soberania popular. Talvez o mais importante é lembrar à população que ela não
escolhe quem vai comandá-la e, sim, quem vai representar seus interesses junto
ao Estado, portanto, votar é importante para sempre destacar que é a população
que escolhe os caminhos da sociedade, e o voto é essa manifestação",
enfatizou.
Evelyn relembrou
que, no passado, o direito ao voto não era de todos. "No século 19,
mulheres e trabalhadores não podiam votar em diversos países onde existia uma
república. E mesmo assim, a vida dessas pessoas era fortemente impactada por
decisões tomadas por pessoas eleitas por meio da escolha de quem podia
votar", frisou. "A importância do voto decorre tanto da dimensão
individual, pois é o exercício de um direito conquistado historicamente, quanto
da dimensão coletiva, pois a soma das escolhas individuais determina a
composição dos Poderes e, por consequência, os rumos das políticas públicas nos
anos seguintes", acrescentou Evelyn.
A
cientista ressaltou que votos brancos, nulos e a abstenção reduzem a
representatividade do resultado eleitoral em relação ao conjunto da população
apta a votar. "Quando esse contingente é expressivo, amplia-se o risco de
que os eleitos reflitam as preferências de uma parcela menor e mais mobilizada
do eleitorado, e não da totalidade da sociedade. Esse fenômeno pode gerar um
viés de participação e um deficit da legitimidade do processo", avaliou
Evelyn. "Dependendo do cenário, pode até impactar a governabilidade e
enfraquecer o vínculo de responsabilização entre representantes e
representados, já que os mandatos sustentados por parcelas menores do
eleitorado tendem a enfrentar maior contestação de sua legitimidade ao longo do
mandato", completou.
"Quanto
mais as pessoas votarem, mais legítimo é o processo eleitoral e a escolha de
quem vai nos representar. Quando muitos deixam de votar ou votam branco ou
nulo, o prejuízo é justamente na qualidade da democracia e na legitimidade dos
escolhidos. Agora, importante destacar que a quantidade/porcentagem de ausentes
ou de votos brancos/nulos não muda a legalidade dos eleitos. Aqueles que
votarem irão decidir a eleição, independente do total de votos válidos",
analisou Valdir Pucci.
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Transformação
No
Brasil, o voto é obrigatório para maiores de 18 anos e facultativo para os
analfabetos, maiores de 70, além de jovens de 16 e 17 anos. A obrigatoriedade
do voto, prevista na Constituição, busca fortalecer o processo eleitoral,
preservar a ampla participação popular e assegurar que os governantes eleitos
reflitam a vontade da maioria. Cientistas políticos ressaltaram que o voto é
uma ferramenta de transformação.
"Do
ponto de vista jurídico, o voto é um direito político. Do ponto de vista
político e social, contudo, o voto também é um instrumento de transformação,
pois é por meio dele que demandas de diferentes grupos sociais podem ser
traduzidas em representação e, posteriormente, em políticas públicas. A
histórica sub-representação de determinados grupos nos espaços de poder ilustra
como o voto, quando exercido de forma consciente e organizada, pode alterar a
composição e as prioridades das instituições ao longo do tempo", afirmou
Evelyn Apolinaria.
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Estímulo à participação
Os
especialistas reconheceram um cenário atual de desconfiança nas instituições e
na política, associados a fatores como percepção de corrupção, insatisfação com
o desempenho de governos anteriores ou, até mesmo, o descolamento entre a
agenda política e as demandas cotidianas da população. "Entre as medidas
frequentemente apontadas pela literatura de ciência política para mitigar esse
quadro, estão o fortalecimento da transparência e da prestação de contas dos
órgãos públicos; a ampliação da educação política e cívica, especialmente
voltada a jovens eleitores; a promoção de canais de participação social entre
os pleitos eleitorais, para além do voto e o aprimoramento da comunicação
institucional sobre o funcionamento e as competências de cada esfera de poder,
de modo a reduzir a percepção de distanciamento entre eleitor e
representante", listou Evelyn.
"O
estímulo ao voto é algo que pode acontecer por meio de educação formal e ações
da própria sociedade civil organizada na cobrança de ações concretas das
instituições e da política que venham a exigir melhorias na qualidade de vida
da população. Temos que entender os políticos mais como representantes e menos
como deputados, senadores, governadores", completou Valdir Pucci.
Fonte:
Correio Braziliense

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