terça-feira, 29 de setembro de 2026

Ana Dubeux: A fé no voto

Os debates estão acalorados, eu sei. Ouço e vejo o brandir das massas empunhando ideias e bandeiras como se tivessem protegendo a própria vida. De certa forma, estão. Defendem seu jeito de pensar, de existir e de se opor ao que não acreditam. Sei que, mesmo com esse barulho ensurdecedor, é preciso escutar um chamado maior. O mais importante deles é o grito de socorro da democracia. Tanto barulho só existe porque somos livres para gritar nossas escolhas. A quem pedimos quando todas as conquistas das últimas décadas são ameaçadas? Eu tenho incondicionalmente fé em Deus. Mas também tenho fé no voto. 

Quando vejo a fé romper o silêncio para pedir pela democracia e ser abruptamente silenciada, penso que estamos em outro estágio da civilização: a barbárie não poupa nem santos, que dirá a boa palavra. O que os bispos disseram de tão grave? Pediram pelo voto consciente, destacando pontos importantes, como a defesa da soberania, e alertando sobre a manipulação da fé. A meu ver, a CNBB ocupou lindamente o dever de informar aos cristãos. Ainda lançou um manifesto, em que diz: "A democracia é o chão comum onde nossas diferenças podem existir sem medo". A palavra ecoou mesmo diante da resistência imposta pelo poder dos que controlam algoritmos. Sabe por quê? Porque a verdade sempre encontra um caminho. Isso é obra de Deus, mas também dos humanos conscientes.

O post do manifesto diz assim: "Em um país marcado pela diversidade de crenças, tradições e formas de viver a fé, o diálogo é fundamental para construir uma sociedade em que cada pessoa tenha respeitado o direito de crer, não crer e viver com dignidade. Diante da intolerância religiosa, do racismo religioso e da desinformação, somos chamados a fortalecer valores como o respeito, a liberdade, o diálogo e a busca pelo bem comum". Parece fácil de assimilar, mas os que usam a fé para orquestrar o poder não conseguem engolir.

Convivo com católicos, evangélicos, praticantes de religiões de matriz africana e de outras manifestações de fé. Todos querem o mesmo: o direito de escolha e de livre expressão da sua fé. Não merecem ser enganados e roubados, como acontece em alguns templos escusos, que, na verdade, são fachadas para crimes e para a opressão de fiéis.

No sentido bíblico, a dignidade é o valor sagrado e a honra que cada ser humano possui por ter sido criado à imagem e semelhança de Deus. Está no livro sagrado. A dignidade não depende de riquezas, é um dom divino dado a todas as pessoas. Basta uma busca no Google para saber. A Bíblia professa ensinamentos, e a Constituição elenca direitos fundamentais, dignos e sagrados. São complementares para a nossa salvação e proteção.

Não precisamos pensar igual, podemos ter crenças diferentes e praticar rituais tão diversos como o país continental e miscigenado que somos. Podemos até não ter a fé religiosa e viver longe de todas as suas manifestações. Mas a fé na democracia deveria ser soberana, pois é o único espaço onde se celebra o respeito à diversidade, a abertura ao diálogo, à convivência pacífica com quem não necessariamente vive sob a mesma cartilha que nós. 

¨      Especialistas destacam a importância de cada voto na urna

Faltando cinco dias para o primeiro turno das eleições 2026, o Correio traz análises de especialistas, que destacam a importância do exercício do voto para a democracia. No próximo 4 de outubro, o Distrito Federal vai escolher deputados distritais, federais, senadores, governador e presidente. Analistas e cientistas políticos ressaltaram os impactos que o ato de votar e de não votar pode ter na qualidade de vida dos cidadãos e dos territórios onde moram.

"O voto universal é uma conquista histórica e deve ser valorizado. Quando retomamos a discussão sobre aquisição de direitos civis, políticos e sociais de cidadania, vemos que é por ele que a soberania popular se transforma em poder de decisão nas democracias representativas", analisou a cientista política e coordenadora-geral do Observatório do Congresso da Universidade de Brasília (UnB), Evelyn Apolinaria. "É ele que define quem ocupará os cargos, quem serão os responsáveis por formular leis, alocar recursos públicos e conduzir políticas de Estado", destacou. 

Cientista político e professor da Universidade Católica de Brasília, Valdir Pucci reforçou que o voto é importante porque é a manifestação da soberania popular. "Está na Constituição que todo poder emana do povo e que ele é exercido pelos representantes eleitos. O mais importante é saber que cabe à população a escolha dos seus representantes e que estes devem agir em nome da soberania popular. Talvez o mais importante é lembrar à população que ela não escolhe quem vai comandá-la e, sim, quem vai representar seus interesses junto ao Estado, portanto, votar é importante para sempre destacar que é a população que escolhe os caminhos da sociedade, e o voto é essa manifestação", enfatizou. 

Evelyn relembrou que, no passado, o direito ao voto não era de todos. "No século 19, mulheres e trabalhadores não podiam votar em diversos países onde existia uma república. E mesmo assim, a vida dessas pessoas era fortemente impactada por decisões tomadas por pessoas eleitas por meio da escolha de quem podia votar", frisou. "A importância do voto decorre tanto da dimensão individual, pois é o exercício de um direito conquistado historicamente, quanto da dimensão coletiva, pois a soma das escolhas individuais determina a composição dos Poderes e, por consequência, os rumos das políticas públicas nos anos seguintes", acrescentou Evelyn.

A cientista ressaltou que votos brancos, nulos e a abstenção reduzem a representatividade do resultado eleitoral em relação ao conjunto da população apta a votar. "Quando esse contingente é expressivo, amplia-se o risco de que os eleitos reflitam as preferências de uma parcela menor e mais mobilizada do eleitorado, e não da totalidade da sociedade. Esse fenômeno pode gerar um viés de participação e um deficit da legitimidade do processo", avaliou Evelyn. "Dependendo do cenário, pode até impactar a governabilidade e enfraquecer o vínculo de responsabilização entre representantes e representados, já que os mandatos sustentados por parcelas menores do eleitorado tendem a enfrentar maior contestação de sua legitimidade ao longo do mandato", completou.

"Quanto mais as pessoas votarem, mais legítimo é o processo eleitoral e a escolha de quem vai nos representar. Quando muitos deixam de votar ou votam branco ou nulo, o prejuízo é justamente na qualidade da democracia e na legitimidade dos escolhidos. Agora, importante destacar que a quantidade/porcentagem de ausentes ou de votos brancos/nulos não muda a legalidade dos eleitos. Aqueles que votarem irão decidir a eleição, independente do total de votos válidos", analisou Valdir Pucci. 

<><> Transformação

No Brasil, o voto é obrigatório para maiores de 18 anos e facultativo para os analfabetos, maiores de 70, além de jovens de 16 e 17 anos. A obrigatoriedade do voto, prevista na Constituição, busca fortalecer o processo eleitoral, preservar a ampla participação popular e assegurar que os governantes eleitos reflitam a vontade da maioria. Cientistas políticos ressaltaram que o voto é uma ferramenta de transformação. 

"Do ponto de vista jurídico, o voto é um direito político. Do ponto de vista político e social, contudo, o voto também é um instrumento de transformação, pois é por meio dele que demandas de diferentes grupos sociais podem ser traduzidas em representação e, posteriormente, em políticas públicas. A histórica sub-representação de determinados grupos nos espaços de poder ilustra como o voto, quando exercido de forma consciente e organizada, pode alterar a composição e as prioridades das instituições ao longo do tempo", afirmou Evelyn Apolinaria.

<><> Estímulo à participação

Os especialistas reconheceram um cenário atual de desconfiança nas instituições e na política, associados a fatores como percepção de corrupção, insatisfação com o desempenho de governos anteriores ou, até mesmo, o descolamento entre a agenda política e as demandas cotidianas da população. "Entre as medidas frequentemente apontadas pela literatura de ciência política para mitigar esse quadro, estão o fortalecimento da transparência e da prestação de contas dos órgãos públicos; a ampliação da educação política e cívica, especialmente voltada a jovens eleitores; a promoção de canais de participação social entre os pleitos eleitorais, para além do voto e o aprimoramento da comunicação institucional sobre o funcionamento e as competências de cada esfera de poder, de modo a reduzir a percepção de distanciamento entre eleitor e representante", listou Evelyn.

"O estímulo ao voto é algo que pode acontecer por meio de educação formal e ações da própria sociedade civil organizada na cobrança de ações concretas das instituições e da política que venham a exigir melhorias na qualidade de vida da população. Temos que entender os políticos mais como representantes e menos como deputados, senadores, governadores", completou Valdir Pucci.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

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