Na
força da natureza: o benefício e os desafios das trilhas
O
hábito de caminhar ganha contornos e desafios completamente diferentes quando
se troca a esteira ou o asfalto pelos caminhos de terra, pedras e mata fechada.
Muito além da busca por paisagens e pelo contato direto com o meio ambiente, a
prática de trilhas vem se consolidando como um exercício completo, capaz de
exigir respostas metabólicas mais complexas do corpo e proporcionar um alívio
profundo para o estresse da rotina moderna nos dias atuais.
Diferente
do treino em superfícies planas, em que o movimento é mecânico e previsível, a
irregularidade do terreno exige que o organismo se adapte a cada passada. Essa
dinamicidade reflete-se diretamente no gasto de energia e na musculatura
recrutada durante o percurso. "Em comparação com a esteira ou o asfalto, a
caminhada em trilha pode gerar um gasto calórico até 30% maior, já que o solo
instável exige mais energia do corpo para manter o equilíbrio", explica a
educadora física e personal trainer Eliz Vessoni.
Segundo
a profissional, a modalidade aciona uma gama maior de músculos. "A
atividade envolve mais grupos musculares, pois exige acelerações, frenagens e
ajustes constantes, aumentando a ativação do core, incluindo abdômen e lombar,
além dos glúteos e dos músculos estabilizadores do tornozelo. Nas descidas, há
ainda um trabalho intenso dos quadríceps, já que a musculatura precisa frear o
peso do corpo a cada passo."
Eliz
Vessoni ressalta, ainda, que é importante pensar em pequenos ajustes de postura
a fim de evitar lesões comuns, como entorses e dores patelares, especialmente
para quem está começando. "Entre os erros mais comuns dos iniciantes estão
dar passos muito longos nas descidas e manter os joelhos travados, o que
transfere o impacto para a articulação. O ideal é utilizar passos mais curtos e
manter os joelhos levemente flexionados. Inclinar excessivamente o tronco para
a frente também pode gerar dores no joelho", destaca.
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A fuga da rotina
Para
além da resposta muscular e metabólica, o contato contínuo com a natureza atua
como um poderoso atenuante contra o estresse mental acumulado. Essa busca por
desacelerar a rotina foi o que impulsionou a praticante Ester Rocha, 24 anos, a
entrar nesse universo. "Fui fugir um pouco da rotina cansativa e
repetitiva do dia a dia, acalmar e descansar a mente do imediatismo que a gente
vive", conta. Para ela, enfrentar desafios como a trilha da Dolina dos
Maracanãs — que exige um rapel inicial de 70 metros e passagem por grutas
estreitas — exige controle psicológico, mas traz um retorno imediato.
"É
um desafio mental e físico, mas a recompensa é imediata, não tem vista mais
bonita. Renova a gente de uma forma que só quem faz entende", detalha a
jovem. De acordo com ela, além da descarga emocional, o contato e a conexão com
a natureza trazem alívios inimagináveis. Conhecer lugares, viver experiências e
construir um espírito de camaradagem com outros praticantes são outros fatores
que se somam a essa atividade.
No
entanto, para além de todos os benefícios, é de extrema importância tentar
conter os danos. Por já estar acostumada com a rotina de treinos e ser adepta
de outros esportes, o condicionamento físico de Ester lhe proporciona mais
vantagens. Ainda assim, a segurança e o preparo devem estar em primeiro lugar,
já que muitos lugares exigem um alto grau de atenção, sobretudo pelas
dificuldades de algumas trilhas.
Encarar
terrenos acidentados exige atenção dobrada para evitar acidentes e sobrecarga
nas articulações. Joelhos, tornozelos e quadris são as áreas mais impactadas
pelas mudanças bruscas de relevo. Segundo Lucas Bayer, personal trainer e dono
do Studio Bayer, um dos erros mais frequentes entre os iniciantes é tentar
encarar travessias complexas sem uma preparação prévia ou errar na mecânica do
movimento.
"Um
erro muito comum é dar passadas muito grandes, principalmente nas descidas. A
pessoa tenta 'frear' o corpo e acaba aumentando bastante a sobrecarga nos
joelhos", alerta o treinador. "O ideal é dar passos menores, olhar
alguns metros à frente para identificar o terreno e não tentar manter uma
velocidade constante a qualquer custo", ensina. Para quem deseja migrar da
rotina de academia para as trilhas sem sustos, a recomendação é investir em um
treino de fortalecimento específico pelo menos duas vezes por semana.
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Estratégia e resultado
O
praticante Leuson Oliveira Rodrigues, 27 anos, que começou nas trilhas de
bicicleta antes de migrar para as caminhadas e escaladas, encontrou na
atividade uma dinâmica diferente da lógica de trabalho tradicional. "Eu me
sentia bem no silêncio da mata fechada, me renova pelo simples fato de viver
longe da grande correria da cidade, dos ônibus lotados, do trânsito
caótico", relata Leuson. "Diferente do desafio urbano, em que você
corre dia após dia para receber uma recompensa no final do mês, o desafio da trilha
me dava um retorno mais agradável e rápido", compara.
Para
ele, há sempre um tesouro no fim desse mapa. Uma vista ou uma cachoeira que
seja ajuda nos perrengues positivos dessas tantas caminhadas que Leuson já fez.
Até hoje, a experiência mais marcante foi a subida da Pedra da Gávea, no Rio de
Janeiro, com mais de 840 metros de altitude, onde enfrentou desgaste físico
pela pressão e temperatura e o desafio mental ao cruzar o trecho íngreme
conhecido como Carrasqueira.
"A
exaustão corporal encontra a preocupação mental, os dois se unem e é o momento
de maior decisão sobre continuar ou não. Mas a decisão de continuar foi
acertada, porque mais uma vez a recompensa imediata vem por meio da linda vista
que o pico oferece", acrescenta Leuson. E outro fato que, claro, contribui
bastante nesses momentos, são os equipamentos de segurança necessários para as
trilhas.
Em
percursos com lama, pedras soltas ou grandes inclinações, o uso de calçados
adequados e equipamentos de apoio deixa de ser mera preferência estética e
passa a ser fundamental para a integridade física do praticante. "O
calçado, para mim, é um dos principais itens de segurança da trilha. Não é
simplesmente colocar um tênis confortável. Ele precisa ser adequado ao terreno,
ter boa aderência e oferecer estabilidade para o pé e o tornozelo", alerta
Bayer. "Um calçado inadequado pode aumentar bastante o risco de escorregar
ou torcer o tornozelo."
Já no
caso dos bastões de caminhada, o uso pode aliviar significativamente a
sobrecarga articular e auxiliar no equilíbrio. Eliz Vessoni lembra que eles
chegam a reduzir o impacto muscular nas articulações inferiores. "Os
bastões de caminhada podem retirar até 30% da carga sobre os joelhos durante as
descidas e também auxiliam na propulsão durante as subidas. Eles deixam de ser
apenas um acessório e passam a representar um recurso de segurança
principalmente em descidas íngremes, terrenos escorregadios ou quando o
praticante está carregando uma mochila pesada."
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Planejamento nutricional
O
desgaste térmico e a desidratação são fatores que podem comprometer a
performance e a saúde do praticante ao longo do trajeto. Eliz Vessoni recomenda
o consumo fracionado durante a caminhada. "A recomendação é consumir entre
500ml e 750ml de água por hora, distribuídos em pequenos goles ao longo do
percurso. Em trilhas com duração superior a uma hora e meia ou realizadas em
condições de calor, podem ser utilizados sais ou eletrólitos para ajudar a
evitar cãibras e desidratação grave", explica. Para a reposição
energética, ela sugere o consumo de 30g a 60g de carboidratos por hora,
intercalando opções como géis, paçocas, mariolas ou biscoitos salgados para não
enjoar o paladar.
Fonte:
Correio Braziliense

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