Marco
Bettine: As condições de existência do jogo democrático
Este
texto foi escrito em diálogo com o editorial “Não à barbárie!” do site A Terra
é Redonda. Compartilho de sua preocupação central com a defesa do Estado
democrático de direito e com os riscos que a extrema direita representa para a
democracia brasileira. O editorial também serviu de inspiração para a reflexão
que proponho aqui.
Mais do
que discutir apenas quem deve vencer uma eleição, interessa-me compreender uma
questão anterior e talvez ainda mais fundamental: o que acontece com a
democracia quando determinados atores aceitam suas regras apenas enquanto
acreditam que podem vencer?
A
pergunta desloca o problema da preferência por candidatos ou programas para as
próprias condições de existência do jogo democrático. Eleições pressupõem
adversários, conflitos, projetos incompatíveis e desejo de vitória. Mas
pressupõem igualmente algo menos celebrado: a possibilidade de perder. É
justamente aí que a democracia talvez encontre seu teste mais difícil.
É
relativamente fácil reconhecer as virtudes de uma eleição quando o resultado
confirma nossas expectativas. O vencedor pode celebrar as instituições,
reconhecer os árbitros e apresentar as regras que o conduziram ao poder como
expressão legítima da vontade popular. A questão se torna mais exigente quando
essas mesmas regras produzem a vitória do adversário. O que significa aceitar
democraticamente uma derrota?
A
pergunta permite distinguir duas maneiras muito diferentes de participar da
política. Em uma delas, entra-se na disputa para vencer, admitindo que o
adversário também pode ganhar. Na outra, aceita-se a competição enquanto existe
possibilidade de vitória; quando a derrota chega, o problema passa a ser o
próprio jogo.
Na
linguagem esportiva brasileira, a diferença é conhecida. Uma coisa é perder em
campo. Outra é perder em campo e tentar ganhar no tapetão. Há ainda uma
terceira possibilidade, mais radical: quando nem o tapetão consegue modificar o
placar, tentar acabar com o campeonato.
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Jogar para vencer
Democracia
não significa ausência de conflito. Partidos querem ganhar eleições, governos
procuram aprovar seus projetos, grupos sociais disputam recursos,
reconhecimento e poder. Candidatos constroem estratégias, atacam argumentos
adversários, formam alianças e exploram oportunidades. Nada disso é, por si
mesmo, antidemocrático.
Em
Democracy and the market, Adam Przeworski apresentou uma formulação decisiva
para compreender essa dinâmica. Democracias institucionalizam uma forma
peculiar de incerteza: conhecemos as regras gerais da disputa, mas não podemos
conhecer antecipadamente seu vencedor. Uma eleição cujo resultado estivesse
assegurado poderia conservar urnas, partidos e campanhas, mas perderia
exatamente aquilo que transforma esses procedimentos em competição política.
Há,
portanto, uma diferença fundamental entre conhecer as regras e conhecer o
resultado. As primeiras precisam possuir alguma estabilidade. O segundo precisa
permanecer aberto.
Adam
Przeworski chegou a sintetizar essa ideia dizendo que a democracia é um sistema
no qual partidos perdem eleições. A força da formulação está no verbo perder.
Uma democracia não se caracteriza apenas por produzir vencedores. Precisa
produzir derrotados que continuem existindo politicamente.
Quem
perde hoje permanece cidadão, oposição, partido, movimento ou candidato. Pode
fiscalizar o governo eleito, protestar contra suas políticas, organizar-se e
tentar vencer a próxima eleição. A derrota encerra uma decisão, mas não encerra
a disputa política. A democracia transforma o poder em algo temporariamente
conquistado, e não definitivamente apropriado.
É aqui
que Bernard Suits oferece uma ideia particularmente fecunda. Em The
grasshopper: games, life and utopia, jogar implica aceitar voluntariamente
determinados obstáculos sem os quais o próprio jogo deixaria de existir. No
golfe, seria muito mais eficiente pegar a bola com as mãos, caminhar até o
buraco e colocá-la dentro. O objetivo material teria sido atingido, mas ninguém
diria que houve uma partida de golfe.
O
resultado não pode ser separado dos meios permitidos para alcançá-lo.
Bernard
Suits denomina “atitude lusória” essa disposição para aceitar restrições porque
são justamente elas que tornam a prática possível. Francisco Javier López Frías
e Xavier Gimeno Monfort, em La oposición entre la razón instrumental y la
lúdica en la propuesta utópica de Bernard Suits, exploram a oposição entre uma
racionalidade que procura simplesmente os meios mais eficientes para alcançar o
objetivo e outra que reconhece valor nos limites constitutivos da prática.
Naturalmente,
democracia não é literalmente um jogo. Decisões políticas envolvem direitos,
recursos, oportunidades e condições concretas de vida. A analogia precisa ser
controlada. Mas uma propriedade da formulação de Bernard Suits ajuda a iluminar
a política.
Também
existem meios muito eficientes de conquistar ou conservar o poder: impedir
adversários de concorrer, controlar a imprensa, manipular votos, intimidar
opositores, capturar tribunais ou simplesmente recusar-se a entregar o governo.
Para quem pretende apenas permanecer no poder, alguns desses atalhos podem
parecer mais eficazes. O problema é que já não constituem maneiras democráticas
de fazê-lo.
Daí a
ideia de atitude lusória democrática: disputar intensamente o poder e, ao mesmo
tempo, admitir antes do resultado que as mesmas regras que podem produzir minha
vitória podem produzir legitimamente a vitória do adversário.
Christopher
Anderson, André Blais, Shaun Bowler, Todd Donovan e Ola Listhaug mostraram em
Losers’ consent a importância do consentimento dos perdedores. Eleições
inevitavelmente produzem ganhadores e derrotados, e essa posição afeta a
confiança nas instituições e a satisfação com a democracia.
O
democrata não deseja perder. Pode considerar o programa adversário desastroso,
combatê-lo durante toda a campanha e continuar fazendo oposição depois da
eleição. O que não pode fazer é introduzir uma cláusula silenciosa segundo a
qual o jogo somente será legítimo caso produza sua própria vitória.
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Quando o resultado precisa estar errado
A
experiência brasileira de 2022 torna essa estrutura particularmente visível.
Meses
antes da eleição, Jair Bolsonaro intensificou os questionamentos sobre o
sistema eletrônico de votação. Em 18 de julho, numa reunião com embaixadores no
Palácio da Alvorada, voltou a colocar em dúvida a confiabilidade das urnas. No
julgamento que posteriormente o declarou inelegível, a maioria do Tribunal
Superior Eleitoral considerou que houve abuso de poder político e uso indevido
dos meios de comunicação; uma das posições registradas pelo tribunal destacou
que dúvidas haviam sido lançadas sem provas sobre as urnas e a Justiça
Eleitoral.
Houve
divergência no julgamento sobre a gravidade suficiente da conduta, mas o
resultado final foi de cinco votos a dois pela inelegibilidade.
Para o
argumento aqui desenvolvido, interessa sobretudo a temporalidade. A suspeita
sobre o resultado era construída antes de o resultado existir.
Se
apenas minha vitória comprova que uma eleição foi limpa, desaparece uma
condição elementar da competição. Formalmente, a incerteza permanece: ninguém
conhece o placar. Normativamente, porém, ela foi eliminada: somente um dos
resultados possíveis foi antecipadamente reconhecido como legítimo.
Depois
da derrota de Bolsonaro, o PL pediu uma verificação extraordinária das urnas
utilizadas no segundo turno. O TSE rejeitou o pedido por considerar que não
haviam sido apresentados indícios capazes de justificá-lo e manteve multa de R$
22,9 milhões por litigância de má-fé.
É
preciso fazer uma distinção importante. Recorrer à Justiça não é “tapetão” por
definição. Recursos, auditorias e investigações pertencem à democracia e podem
ser indispensáveis quando existem evidências de irregularidade. A questão está
em saber se a evidência produz a contestação ou se a derrota produz a
necessidade de encontrar uma evidência.
No
primeiro caso, fatos colocam determinado resultado sob suspeita. No segundo,
raciocina-se ao contrário: como perdi, deve existir alguma coisa capaz de
invalidar minha derrota.
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“Nós somos a maioria”
Marie-Hélène
Sa Vilas Boas oferece outra chave para compreender o caso brasileiro em seu
artigo “Nous sommes la majorité”: produire des données pour contester la
victoire de Lula au Brésil. Ao examinar materiais produzidos por apoiadores de
Bolsonaro depois da eleição, chama atenção para a força da afirmação “nós somos
a maioria”.
A frase
pode deixar de funcionar apenas como palavra de ordem política e adquirir
função epistemológica.
Se as
pessoas com quem convivo votam no mesmo candidato, meus grupos digitais estão
repletos de seus apoiadores, as manifestações que acompanho parecem gigantescas
e os vídeos que recebo confirmam continuamente sua força, a vitória adversária
pode começar a parecer não apenas indesejável, mas impossível.
A
comunidade passa a utilizar a própria experiência como medida da realidade. É
nesse ponto que bolhas informacionais e redes fechadas se tornam relevantes. O
problema não é simplesmente que nelas circulam informações falsas. Elas podem
produzir circuitos nos quais se compartilham também os critérios utilizados
para decidir o que merece ser considerado verdadeiro. A visibilidade interna do
grupo é confundida com a sociedade; a convicção compartilhada passa a valer
mais do que os mecanismos comuns de verificação.
Redes
sociais e aplicativos de mensagem não produzem automaticamente esse efeito. As
mesmas tecnologias permitem mobilização democrática, fiscalização, denúncia e
organização política. O problema começa quando o ambiente comunicacional
transforma um resultado específico em única confirmação admissível da
realidade.
O 8 de
janeiro de 2023 revelou até onde essa lógica poderia chegar. As sedes dos Três
Poderes foram invadidas e depredadas por grupos entre os quais havia
reivindicações de intervenção militar. Em julgamentos posteriores, o Supremo
Tribunal Federal condenou participantes por diferentes crimes; em vários casos,
a maioria da Corte considerou que os grupos buscavam derrubar o governo
democraticamente eleito.
A
sequência é importante: disputar o jogo, preparar antecipadamente a suspeita
sobre uma eventual derrota, recusar o resultado, buscar meios para impedir seus
efeitos e, no limite, atacar as instituições responsáveis pela continuidade da
própria competição.
O
tapetão deixa então de ser suficiente. Passa-se a colocar em questão o
campeonato.
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Quando a pressão vem de fora
A
eleição de 2026 acrescenta um problema novo a essa discussão: a possibilidade
de que a disputa sobre a legitimidade do resultado receba também estímulos
externos.
Esse
ponto exige precisão. Não é possível apresentar como fato consumado uma
interferência de Donald Trump destinada a determinar o resultado brasileiro. O
que existe é uma controvérsia crescente, sustentada por episódios concretos,
acusações de autoridades brasileiras e de parlamentares norte-americanos e
negativas do próprio governo dos Estados Unidos.
Em
julho de 2026, o Brasil negou vistos a dois funcionários do Departamento de
Estado que pretendiam visitar o país para discutir, entre outros temas, a
integridade das eleições e a liberdade de expressão. O governo brasileiro
avaliou que a visita, naquele contexto, poderia ser politicamente
instrumentalizada. O Departamento de Estado rejeitou essa interpretação,
afirmando que se tratava de uma visita rotineira e que era infundada a acusação
de que existiria uma manobra para enfraquecer as eleições brasileiras.
Em
setembro, a Folha de S. Paulo confirmou a existência de um documento enviado
pelo governo de Donald Trump às autoridades brasileiras durante as negociações
comerciais de 2025. Entre as propostas norte-americanas estava uma declaração
segundo a qual o Brasil deveria assegurar eleições livres e justas e não
limitar arbitrariamente a participação de “dissidentes políticos”. Jair
Bolsonaro não era citado nominalmente no documento.
Poucos
dias depois, a preocupação passou a ser formulada também dentro dos Estados
Unidos. Trinta deputados democratas e o senador Bernie Sanders enviaram uma
carta ao secretário de Estado, Marco Rubio, afirmando enxergar uma “aparente”
tentativa de interferência nas eleições brasileiras.
Mencionaram
tarifas, sanções e iniciativas diplomáticas e perguntaram explicitamente se o
governo norte-americano se comprometeria a respeitar o processo eleitoral e o
resultado das urnas. O Departamento de Estado não havia respondido à carta
quando o episódio foi noticiado; anteriormente, o governo norte-americano havia
negado estar tentando interferir na eleição brasileira.
Em
2022, a deslegitimação preventiva do resultado foi construída sobretudo dentro
da política brasileira. Em 2026, aparece uma preocupação adicional: a
possibilidade de que uma potência estrangeira empregue instrumentos econômicos,
diplomáticos ou discursivos capazes de interferir no ambiente da disputa ou de
reforçar narrativas sobre quais resultados deveriam ser reconhecidos.
Se a
democracia pressupõe que os competidores aceitem previamente a possibilidade de
perder, nenhuma potência externa deveria possuir o poder de decidir qual
derrota nacional é aceitável ou qual vencedor merece reconhecimento. A vontade
dos jogadores externos não pode substituir o placar produzido pelas
instituições constitucionalmente responsáveis pela eleição.
É nesse
ponto que retorno ao editorial “Não à barbárie!”, de A Terra é Redonda, que
inspirou a redação deste ensaio. Compartilho sua preocupação com a defesa do
Estado democrático de direito diante dos riscos colocados pela extrema direita.
Mas procurei chegar a essa questão por outro caminho: perguntando quais são as
condições mínimas para que adversários continuem pertencendo ao mesmo jogo
democrático.
A
resposta proposta ao longo deste texto é simples apenas na aparência.
Democracia exige mais do que eleições, tribunais, partidos e regras formais.
Exige uma disposição dos participantes para reconhecer que essas regras
continuam válidas quando produzem aquilo que eles menos desejavam: a própria
derrota.
Talvez
seja essa a dimensão mais elementar, e ao mesmo tempo mais difícil, daquilo que
chamei aqui de atitude lusória democrática: jogar seriamente para vencer,
sabendo que se pode perder, e reconhecer que a continuidade do jogo vale mais
do que a garantia antecipada da própria vitória.
Ao
final deste percurso, cabe apenas tornar explícita a posição pessoal a partir
da qual escrevo. O argumento desenvolvido nestas páginas não pretende
transformar uma preferência eleitoral em demonstração teórica. Trata-se, antes,
de afirmar que a defesa das instituições democráticas, da legitimidade das
eleições e do direito de vencedores e derrotados continuarem disputando
politicamente constitui, para mim, uma exigência fundamental.
Registro,
por isso, ao final, minha posição pessoal nesta eleição. O voto em Lula e
Geraldo Alckmin.
Fonte:
A Terra é Redonda

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