IAs
no centro da nova disputa global: acelerar ou regulamentar
A
inteligência artificial está no centro das discussões internacionais nos
últimos dias. No encontro entre Donald Trump e Xi Jinping, a tecnologia aparece
como um dos principais temas da disputa entre Estados Unidos e China pelo
domínio tecnológico. Na Assembleia Geral da ONU, Trump também defendeu o avanço
da IA, reforçando tecnologias. Em seu discurso, chegou a propor que o termo
“inteligência artificial” seja substituído por “superinteligência”.
Tudo
isso após diversos alertas de pesquisadores do setor de tecnologia sobre
possíveis riscos à humanidade se não frearmos os avanços dessas ferramentas
digitais.
Mas,
para além do debate sobre esses discursos que apresentam a IA como uma ameaça
aos seres humanos ou como solução para todos os problemas sociais, o que está
em jogo nessa corrida tecnológica? Quem controla essas ferramentas, quem define
seus limites e quem se beneficia do seu desenvolvimento?
Para
discutir essas questões, o Pauta Pública desta semana recebe Veronyka
“Travahacker” Gimenes, programadora,
artista, ativista e comunicadora. Eleita uma das 100 pessoas mais influentes em
inteligência artificial do mundo em 2026 pela revista Time, e diretora da
plataforma Código Não Binário, Veronyka fala sobre a disputa entre Estados
Unidos e China, os desafios da regulamentação, a concentração de poder nas
grandes empresas de tecnologia e o que está em jogo para o Brasil.
“Nesse
ponto da superinteligência, apesar de ele [Trump] usar como marketing para esse
projeto autoritário e tecno-autoritário também, eu acho que tem algum sentido
usar isso ao nosso favor nas nossas discussões e nos nossos projetos de
regulação e combate às Big Techs.” E acrescenta: “Se não regularmos, as coisas
acabam chegando a limites inimagináveis”.
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Leia os principais pontos da conversa: .
• Durante o discurso na Assembleia Geral
da ONU, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que a corrida da
IA é pela vitória, que ele não pensa em desacelerar. Além disso, propôs a
mudança do termo “inteligência artificial”, que, segundo ele, soa falso, entre
aspas, para “superinteligência”. O que você pensa sobre essa fala?
A gente
está realmente passando por um momento singular, está passando por um momento
que falar sobre regulação, pressionar da maneira que for possível por
regulação, é ainda extremamente importante, ou talvez mais do que nunca. Nesse
ponto da superinteligência, apesar de ele usar como marketing para esse projeto
autoritário e tecno-autoritário também, eu acho que tem algum sentido usar isso
ao nosso favor nas nossas discussões e nos nossos projetos de regulação e
combate às Big Techs.
Para a
gente, que vem trabalhando contra as Big Techs há muito tempo, que vem
desenvolvendo software livre, a tecnologia aberta e pública parece um estágio
final de todas essas discussões. Finalmente esses temas estão na boca de todo
mundo, todo mundo tá sabendo falar sobre inteligência artificial, cada um em
uma página, mas falando. Todo mundo está sabendo a diferença, por exemplo, do
que é um projeto mais soberano, o que é um projeto que a gente acostumou a
chamar de capitalismo de plataforma ou coronelismo digital.
Tem
muito trabalho para avançar essa discussão, tornar isso mais claro para as
pessoas, mais detalhado, mas está sendo muito gratificante ver essas pautas
finalmente adquirindo relevância. Ser parte do debate público abre uma porta
interessante para falarmos, finalmente, de soberania digital – de soberania
nacional a partir da digital e tecnologia popular. É um momento de bastante
contraste, mas muito interessante.
• Recentemente um cientista que trabalha
com inteligência artificial na Anthropic, criadora do Claude, disse que existe
mais de 10% de risco da IA matar todos os seres humanos até o fim da próxima
década. Como podemos entender esse apocalipse da IA? O que é realmente perigoso
em tudo isso?
Olha,
tem muita coisa. Se a gente for olhar simplesmente do lado da estrutura da
internet, você já tem uma série de elementos autônomos garantindo o
funcionamento da rede. Esses sistemas que fazem parte desse setor de internet
artificial não necessariamente têm supervisão humana, já que têm uma autonomia
integrada com sistemas autônomos. Agentes autônomos usados, por exemplo, por
pessoas mal-intencionadas, ou mesmo esses escapes que acontecem de
treinamentos, já teriam estrago considerável.
Essa
estrutura não é assim tão protegida quanto se imagina. A gente tem uma
fragilidade imensa, especialmente porque as defesas feitas para esse sistema
foram defesas feitas pensando em uma ação humana e a escala que a gente tem
hoje de ataques contra inteligência artificial é uma escala muito diferente. No
caso mesmo do Hugging Face [empresa que mantém uma enorme comunidade de código
aberto] ficou comprovado. Quando foram descobrir, já tinha acontecido milhares
de tentativas de ataque ou de uso do medo de informação de uma plataforma em
relação à outra.
Essas
defesas não estão assim tão garantidas, não é tranquilizador achar que pode ter
um botão de desligar os agentes ou pode ter um botão ali que controla a
estrutura da internet, todo o balanceamento de tráfego, etc. É importante
entender que o risco não é tanto a IA ganhando consciência, fazendo um tipo de
desdobramento de consciência. A própria velocidade desses ataques, quando
acontecem nesses sistemas de teste, já é um possível causador de catástrofe.
Porque essa velocidade, como eu falei, não é uma velocidade de ataques humanos.
E aí a
gente tem também essa característica do que falam sobre sandbox, que seria essa
caixa de areia, esse espaço onde os modelos são treinados. A gente precisa
imaginar isso mais como usina nuclear, como um tipo de organismo ali que a
gente cria, que vai controlar por uma certa estabilidade, mas que não é algo
totalmente seguro – assim como não foi com as usinas nucleares. Podem acontecer
nesses treinamentos esses escapes, esses vazamentos, não é algo que ‘as pessoas
falharam ali ao controlar’. Não necessariamente.
Há
alguns limites que a gente consegue chegar nesses bloqueios que quando você
está desenvolvendo um tipo de superinteligência, um tipo de inteligência
artificial muito potente, vai fatalmente ultrapassar esses bloqueios. Então tem
uma concorrência de potência que acaba por gerar um risco de vazamentos, por
isso que a gente vê essas figuras na frente das Big Techs reconhecendo o risco
e falando, ‘não, realmente, gente, o negócio aqui está feio’. A gente vai ter
cada vez mais vazamentos e pode acabar trazendo mais dano – seja para a própria
empresa, seja para a reputação das pessoas liderando as empresas, seja para a
internet. Acredito que por aí a gente já teria riscos consideráveis.
Mas não
é só isso, a gente tem duas coisas também interessantes no horizonte. Uma foi
essa criação de vírus artificiais, por sistema de inteligência artificial. Aqui
você vê a inteligência artificial ou as inteligências artificiais – como eu
prefiro chamar – conseguindo desenvolver soluções de biologia incríveis. Mas um
modelo descontrolado, ou alguma pessoa, algum grupo, utilizando esses modelos,
conseguindo fazer com que eles saiam das suas atribuições iniciais, dos seus
controles iniciais, pode ser muito danoso para a humanidade.
Tem um
caminho pela biologia também muito preocupante, já que as inteligências
artificiais conseguem já desenvolver vírus artificiais, por exemplo. E ainda
tem um outro cenário que é um pouco mais futurístico, mas não muito, que é o
cenário dos robôs. Até agora, é preciso um treinamento para que o robô
reproduza a ação. A partir da generalização, não mais. Isso vai aumentar essa
presença de sistemas inteligentes no mundo físico. Já temos sinais suficientes
para falar que o risco é grave e que a regulação precisa ser priorizada.
• Pensando também nestas eleições, muitos
candidatos vêm utilizando a retórica da IA salvadora, mágica, sanadora de
problemas pelo mundo. A extrema direita principalmente tem sido boa em
construir narrativas do tipo, mas sem explicar como vai fazer isso. Queria
saber como você ouve essa retórica e como ela se aplica à nossa situação, o que
a gente deveria estar discutindo agora no Brasil?
É o
tecno-solucionismo, e a gente viu a extrema direita abraçar muitas dessas
fronteiras tecnológicas por muito tempo, com blockchain, bitcoin, é bem comum.
E tem bem a ver também com as identidades que estão por trás da extrema direita
– a gente tá falando basicamente de homens cis, héteros, brancos – e a relação
com a tecnologia é muito intrínseca para essas figuras, elas dominam esse
setor. E o tecno-solucionismo acaba tendo algumas oscilações também.
Eu vi,
por exemplo, em um discurso de um desses eventos em São Francisco, um dos CEOs
– inclusive, da direção de algum governo do Oriente Médio, alguma potência de
combustíveis fósseis – elogiando a IA para tudo. Mas ele disse que tem uma
coisa que a IA não faz bem. A IA não faz bem previsão meteorológica. Previsão
meteorológica, questões do clima, não acreditem em IA.
Por
quê? Uma pessoa que é uma das principais fornecedoras de combustíveis fósseis
do mundo, obviamente não vai confiar nas previsões da IA sobre crises
climáticas, o que mostra que a IA não está tão errada assim sobre isso.
No
geral, é isso, uma visão da inteligência artificial muito voltada à tal da
valoração, essa história de ir aumentando o valor das soluções, das empresas. A
gente tem um cenário muito estranho, onde o presidente dos Estados Unidos é
também acionista de uma Big Tech, então é óbvio que ele vai fazer essa defesa
das soluções. Inclusive quando a direção fala, ‘olha, está saindo do controle,
melhor parar’, ele fala, ‘não, tem que continuar, estou achando ótimo’. Surreal
o que está acontecendo, essas relações extremamente capitalistas que acontecem
entre Bigs Techs e líderes políticos da extrema direita.
Ao
mesmo tempo, eu provoco que a gente se empodere dessas tecnologias para que
elas resolvam os nossos problemas, porque a gente pode cair, às vezes, num
cenário que na recusa dessa tecnologia, vamos ficar sem sistemas. Por exemplo,
a questão dos data centers. Se os data centers que servem às big techs acabam
por trazer esses modelos extrativistas para o Brasil, a gente vai criar nossos
data centers, para as nossas tecnologias, para os nossos sistemas. Agora, a
gente está falando de nuvem soberana no governo, que é também uma grande
conquista de décadas de insistência nossa de que não era para usar Microsoft,
Big Tech, para os nossos dados, para o SUS, etc.
Então,
finalmente, temos algum avanço na questão da nuvem soberana. A gente precisa se
empoderar das tecnologias, entender como elas funcionam, fazer com que elas se
tornem tão familiares para a gente quanto é para essas pessoas. Precisamos
saber falar nos detalhes para conseguir montar saídas. No caso qual é o data
center que podemos montar para as nossas soluções, comunitárias, públicas?
Utilizamos de organizações que não sejam, simplesmente, fins lucrativos das Big
Techs. Como eles podem fazer a refrigeração da maneira que não vai causar
desperdício de água? A questão da poluição sonora, ambiental, tudo isso, a
gente precisa criar a solução.
A gente
tem que criar alternativas, tem que conseguir criar organizações que sejam
semelhantes a essas que a gente tá consumindo os serviços, consumindo a
infraestrutura. Esse é o único jeito. Eu sempre falei que a regulação é tapar o
sol com a peneira. A gente tem que batalhar por ela, mas ainda é muito pouco
perto do que a gente precisa como sociedade.
É
sempre bom olhar para a China, ver o que eles estão fazendo, todo o projeto
nacional de Data Centers, que leva parte do importante deles para os desertos,
para aproveitar a energia dos ventos, energia solar. Tem todo esse planejamento
estatal – claro, ali é um outro modelo de sociedade, de governança, mas é
importante a gente olhar para lá e ver o que eles estão fazendo para tentar
reproduzir de alguma maneira isso aqui nas características da nossa sociedade.
Fonte:
Por Andrea DiP, Sofia Amaral, Ricardo Terto, Stela Diogo e Natália Perez, da
Agencia Pública

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