A
arte de apenas viver: como os jovens podem viver sem precisar publicar
No
passado, diante da rotina árdua de trabalho e de cuidado com a família, muitos
aprenderam que o tempo livre era um território sagrado de descompressão. No
entanto, para quem navega pela rotina atual, muito guiada pelas redes sociais,
a linha entre descanso e obrigação tornou-se tênue. Escolher um livro, fazer
uma caminhada ou selecionar a trilha sonora do dia deixaram de ser meros
refúgios para se tornarem itens de uma lista de checagem. Em um cotidiano
hiperconectado e metrificado, o lazer atravessa uma crise silenciosa: a
transformação do prazer em performance.
Essa
invasão da lógica corporativa, que agora emerge no espaço privado, não acontece
da noite para o dia, mas é amplificada pelo ambiente digital. Segundo a
psicóloga Laura Palhano, sócia-proprietária do Instituto Ser Humano de
Psicologia e especialista em dependências digitais, a internet acelera essa
transição. "Aos poucos, fomos levando a lógica do trabalho para dentro da
vida pessoal. Descansar passou a precisar ser 'bem aproveitado', o exercício
virou meta, a leitura virou quantidade e até o lazer começou a exigir algum
tipo de desempenho", analisa.
De
acordo com a especialista, isso acontece quando o hobby deixa de ser uma
experiência de presença e passa a ser tratado como uma tarefa a ser cumprida,
mensurada ou transformada em resultado. O problema não está em gostar de
evoluir ou estabelecer metas, mas em sentir que até o tempo livre precisa
produzir alguma coisa. "Um hobby deveria permitir que a pessoa estivesse
ali por inteiro, observando cores, formatos, sons, sensações e emoções, sem a
obrigação de chegar a um resultado", destaca Laura.
Assim,
quando a lógica da produtividade invade esse espaço, o valor daquela vivência
deixa de ser predominantemente emocional e passa a ser associado à produção, ao
desempenho, ao dinheiro ou à exposição. Quando começo a pensar que preciso ler
determinado número de livros, manter uma sequência de treinos ou superar o meu
próprio desempenho constantemente, posso deixar de perceber a experiência em
si. O livro passa a ser um número, o exercício passa a ser uma sequência e a
música passa a ser uma estatística", acrescenta.
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A ditadura dos números
Para
quem vive essa dinâmica na pele, como a estudante de medicina e criadora de
conteúdo Giovanna Bandeira, 26 anos, a cobrança por performance se estende até
aos momentos que deveriam ser de relaxamento. "Não consigo ir para a
academia sem tirar uma foto e fico chateada se meu smartwatch não carregou para
registrar minhas métricas. É incoerente, né? Como posso fazer um treino ou uma
corrida sem tirar nenhuma foto e sem registrar meus dados no Strava?",
questiona Giovanna, lembrando que já chegou a correr mais rápido
"propositalmente porque o pace ia ficar feio no post".
Segundo
a jovem, principalmente no ramo da criação de conteúdo de estudo, existe uma
pressão inata por estar tornando seu tempo sempre produtivo. Para ela, até no
consumo de entretenimento,
é
preciso pensar bem no que vai ler ou assistir, pois se for considerado
culturalmente inferior a outros livros ou produções, essa atividade vai ser
vista como "perda de tempo".
"Até
hoje ainda sinto essa culpa quando passo muito tempo consumindo conteúdos
rápidos, como reels e YouTube, mas acho que menos por um olhar performático e
mais por essa menor conexão e repertório sociocultural", complementa
Giovanna. Agora, um pouco diferente de como era antes, a estudante vê que esse
mundo dos aplicativos, por exemplo, que ajudam a ditar performances, podem ser
usados com maior autocuidado. Uma espécie de dose não exagerada para que o
indivíduo não se perca nesse labirinto imaginário.
"A
vida já nos cobra demais. Eu me recuso a, voluntariamente, me submeter a mais
um sistema de métricas e números. Meus amigos se divertem com o tanto de coisa
imprevisível que ouço no Spotify. Quando virem minha atividade escutando Zezé
di Camargo, sou eu mesmo", brinca. Aplicativos de catalogação e resumo —
como Goodreads, Letterboxd, Strava e os balanços anuais de plataformas de
streaming — nasceram com a proposta de organizar e celebrar preferências.
Porém,
para muitos usuários, a funcionalidade descamba para a vigilância.
"Quantificar não é necessariamente um problema. O problema aparece quando
a métrica deixa de ser uma informação e passa a ser um instrumento de cobrança
e validação", alerta a psicóloga Juliana Gebrim. Esse hábito de
quantificar o cotidiano altera a própria percepção do tempo e das memórias.
"Em vez de lembrar do que viveu, a pessoa começa a lembrar do que
registrou e contabilizou", ressalta Juliana. O resultado é um sentimento
constante de insuficiência, no qual a experiência perde espaço para o
indicador.
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Desaprendendo a performance
A
designer de moda Luiza Dantas, 23, reconhece o impacto dessa busca por
validação externa ao escolher o que consumir. "O que você fala, ouve e lê
também reflete muito a forma como você quer que as pessoas lhe enxerguem. Por
isso, muitas vezes, você pensa 10 vezes antes de postar alguma coisa, porque
acaba se preocupando com a imagem que aquilo vai transmitir sobre você",
relata. Atualmente, ela tenta se desprender dessa perspectiva presa ao digital.
"Não
acredito que exista uma quantidade certa de cultura, informação ou hábitos que
alguém precise consumir para se sentir integrado. Cada pessoa tem seus próprios
interesses e ritmos. Muitas vezes, essa necessidade de provar que estamos
lendo, assistindo ou fazendo determinadas coisas vem mais da comparação com os
outros do que de uma vontade verdadeira", ressalta.
Assim,
Luiza conta que, agora, tenta se afastar um pouco dessa necessidade de
registrar tudo. No começo, parece estranho. Isso, de acordo com a jovem, porque
parece que aquilo não "contou" se ninguém viu ou se não ficou
registrado. "Mas, depois, a sensação é de liberdade. Fazer alguma coisa
simplesmente porque gosto, sem precisar transformar aquilo em uma meta ou
publicação, torna a experiência muito mais leve e verdadeira", completa. A
fronteira entre o desenvolvimento pessoal saudável e a chamada "produtividade
tóxica" reside justamente na capacidade de parar sem sentir culpa.
Segundo
Juliana Gebrim, no cultivo saudável de um interesse existe flexibilidade e
prazer genuíno. Na produtividade tóxica, contudo, impera o controle. "Até
quando a pessoa diz que está descansando, existe uma meta por trás: descansar
para produzir melhor depois, ler para melhorar o desempenho, treinar para
atingir determinado corpo. O descanso deixa de ter valor em si." Com isso,
mesmo que difícil, resgatar o sentido original dos hobbies exige um esforço
deliberado de desconexão e mudança de hábitos. Entretanto, a recompensa é poder
viver da maneira mais genuína e íntegra consigo mesmo.
Fonte:
Correio Braziliense

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