terça-feira, 29 de setembro de 2026

Moisés Mendes: Nossa Senhora Aparecida, nos proteja

Um vídeo em que Flávio Bolsonaro associa o PT ao PCC foi mantido nas redes sociais por decisão de André Mendonça, na condição de ministro do TSE. Mas André Mendonça determinou que as redes sociais eliminassem postagens que associam grupos evangélicos genéricos a tentativas de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil.

Parece ser a mesma coisa, com decisões inversas, mas não é nem parecido. No primeiro caso, há imputação de associação criminosa do partido de Lula com o crime organizado. Uma insinuação criminosa disseminada às vésperas da eleição. O acusador é o candidato da extrema-direita.

No segundo caso, a maioria dos conteúdos trata de uma possível ameaça ao título da padroeira, com referência a grupos religiosos. Não há nome de partido, nem de candidato, nem de líderes religiosos. Mas tudo o que abordava a ameaça foi retirado do ar.

Assim foi decidido, segundo Mendonça, porque havia associação da informação com a figura de Flávio Bolsonaro. Com mais um detalhe desconsiderado: a notícia sobre o projeto que atinge a santa pode conter um erro de informação, mas não, na sua origem, uma tentativa deliberada de difamação de um candidato.

Todas as notícias com erros serão retiradas do ar, em nome do quê? Por que outras não foram eliminadas? Porque, explica Mendonça, no caso da acusação de vínculo do PCC com o PT, o vídeo tinha tom “evidentemente ficcional e caricato”. Aí, pode. Não seria nem fake news.

O que está configurado no ambiente do Judiciário no primeiro turno e pode se agravar no segundo é que teremos censura, mas nem sempre para os dois lados. E que sátira, humor e outros recursos de crítica serão considerados de acordo com quem satiriza ou é atingido pela ‘brincadeira’ com o PCC.

Tanto que outra decisão favorável à direita foi tomada por Kassio Nunes Marques contra a propaganda de Lula que associa Flávio Bolsonaro às rachadinhas e ao Banco Master. Há mentira ou desinformação nesse caso? Até os robôs da inteligência artificial me responderam que não. A propaganda foi retirada do ar.

Um outro exemplo recente de como figuras alinhadas à direita, dentro das altas Cortes, se comportam em situações envolvendo liberdades. Eduardo Bolsonaro foi condenado na semana passada pelo Supremo por ter acusado Tabata Amaral, em 2021, de fazer lobby para uma empresa de produtos de higiene. A deputada é autora do projeto para fornecimento de absorventes higiênicos a estudantes em situação de pobreza.

Sete ministros votaram pela condenação do deputado a um ano de detenção: Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Cármen Lúcia, Cristiano Zanin, Dias Toffoli, Gilmar Mendes e Edson Fachin. Três votaram contra: André Mendonça, Kassio Nunes Marques e Luiz Fux.

É um padrão que se repete nas mais variadas situações e deliberações, desde o momento em que ficou claro que há defensores da liberdade de expressão de acordo com quem se considera isento de sanções e censuras. Desde que seja da extrema-direita. E desde muito antes do julgamento dos golpistas.

Há gente com mais ou menos liberdade de expressão no Brasil. Os disseminadores de informações sobre a ameaça à santa poderiam ter sido censurados em massa pelo TSE? Todos produziram fake news? Se for assim, o TSE não fará outra coisa até o fim da eleição.

Como separar humor, sátira e/ou notícia errada de conteúdos deliberadamente produzidos com o objetivo de atingir os adversários com informações falsas? O episódio de Nossa Senhora é estranho, porque não se enquadra, na origem, nesses casos.

Não houve intenção deliberada de criar uma notícia falsa. A jornalista Maria Cristina Fernandes disse na GloboNews que um projeto que atingia a santa estava vivo, ou seja, poderia sair de uma gaveta a qualquer momento.

Como podem saltar das gavetas as propostas de anistia para Bolsonaro, os generais e os manés. Como podem ressuscitar centenas de projetos que o fascismo deixou hibernando à espera de uma reversão no ambiente político.

Nossa Senhora Aparecida tem uma espada sobre sua coroa. É uma espada permanente. Assim como todos os que enfrentam a extrema-direita têm fuzis apontados para seus peitos. São ameaças reais, concretas, públicas, repetidas à exaustão.

A padroeira do Brasil pode perder seu título de protetora do país, mas todos os que discordam do bolsonarismo estão sob ameaças mais assustadoras. Um combo de ameaças. E todos sabemos quais são. Nos proteja, Nossa Senhora da Conceição Aparecida.

(Este texto foi escrito por um jornalista santeiro, que tem na transcendência do poder de santas e santos um dos seus vínculos simbólicos e afetivos com a memória das mulheres que o protegeram na infância e na adolescência).

•        Pastor de Flávio Bolsonaro defende “destronar” Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil

 O pastor J. B. Carvalho, líder da igreja Comunidade das Nações e figura próxima da família Bolsonaro, defende o fim do reconhecimento de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil e sustenta que o feriado nacional de 12 de outubro é ilegal, segundo reportagem do DCM.

A relação entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o bispo evangélico transcende a aliança política e religiosa. O parlamentar se converteu à denominação em 2022 e passou pelo primeiro batismo sob os ritos da igreja em 2024, ao lado da esposa, Fernanda. O vínculo se estendeu também a Jair Bolsonaro (PL). Em novembro de 2025, enquanto o pai estava preso na Superintendência da Polícia Federal no Distrito Federal, Flávio presenteou o ex-mandatário com o livro “Metanoia – A Chave Está Em Sua Mente”, de autoria de Carvalho e publicado pela Editora Chara em 2018. Além disso, na véspera do aniversário de 70 anos de Jair Bolsonaro, o pastor participou de uma transmissão ao vivo com a família e prestou apoio público: “Minha solidariedade ao nosso eterno Presidente Jair Bolsonaro. Tenho certeza que ele fará a travessia desse momento difícil que está atravessando e que com certeza sairá do outro lado”.

A posição crítica de Carvalho à Igreja Católica e aos símbolos religiosos na vida pública foi registrada no livro “A Bomba”, publicado em 2001. Na obra, o religioso questiona a legislação que consagra Nossa Senhora Aparecida e afirma categoricamente que “a lei que estabelece Aparecida como padroeira no Brasil é ilegal”. O pastor sustenta que não há “amparo constitucional para determinar que a deusa mariana seja imposta a toda uma nação como padroeira”, alegando que “o Brasil não possui mais ligação entre Igreja e Estado”.

Para fundamentar a tese de que a data comemorativa não tem validade jurídica, o autor cita a separação entre Estado e religião instaurada pela Constituição de 1891, acompanhada pelas Cartas de 1934, 1937, 1946, 1967/69 e 1988. “Por esta razão o feriado de 12 de outubro é ilegal”, escreve no livro.

Além dos questionamentos jurídicos, o líder evangélico convoca uma mobilização religiosa contra a devoção católica no país. “Já que o Brasil por lei não é mais um país católico, está na hora de destronarmos a Rainha em nossa nação e servir ao Deus verdadeiro”, defende Carvalho em um dos trechos da obra. Ele faz um apelo aos fiéis para que “Aparecida não seja mais Senhora em nossa nação” e para que “Jesus Cristo seja nosso Único Senhor no Brasil”.

No texto, a diferenciação teológica é apresentada com ataques diretos às práticas católicas e à figura de Maria. Carvalho declara que “Maria não é senhora, porque no cristianismo não existe senhora, só existe Senhor” e acrescenta que “a igreja romana inventou a adoração a Maria para substituir a adoração da Mãe Pagã”. Segundo o pastor, “no verdadeiro cristianismo Jesus está no centro, Ele está em evidência, tão somente Ele e mais ninguém”, em contraposição ao que chama de marianismo: “na religião pagã a mãe tem a supremacia, como hoje também o tem no marianismo católico”.

A argumentação de Carvalho utiliza a contagem das rezas do terço para reforçar suas duras críticas. “No terço, a Ave Maria é repetida cinquenta e três vezes enquanto que o Pai Nosso seis vezes. Quem tem a centralidade neste culto é a mãe e não o filho”, escreve. O autor associa a veneração mariana a tradições antigas ao classificar a imagem da padroeira como a “imagem escura de uma deusa” e indicar que “a adoração à Maria é o paralelo da adoração pagã às divindades femininas”. Ele faz ainda um alerta sobre potenciais punições divinas: “Deus odeia o culto a Rainha dos Céus. Uma das grandes razões para as pragas que estão por vir à terra é o culto à Rainha dos Céus. Deus odeia a veneração a esta entidade. E por razão da insistência em cultuá-Ia, Deus fará o mesmo que fez com Israel no passado às nações”.

Apesar da interpretação teológica e jurídica exposta por Carvalho, o feriado e a titulação possuem amparo na legislação federal vigente. A data de 12 de outubro foi oficializada como feriado nacional consagrado a Nossa Senhora Aparecida pela Lei nº 6.802, sancionada em 30 de junho de 1980 pelo então presidente João Figueiredo. O texto legal teve origem no Projeto de Lei nº 220/1979, de autoria do deputado Jorge Arbage, e permanece em vigor sem qualquer revogação na Câmara dos Deputados.

•        TV Aparecida se pronuncia após polêmica com Flávio Bolsonaro e a Padroeira do Brasil

TV Aparecida, canal oficial da Igreja Católica com sede em Aparecida, em São Paulo, se pronunciou diante da polêmica envolvendo o candidato do PL à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, e Nossa Senhora Aparecida.

Flávio Bolsonaro é acusado de articular com grupos fundamentalistas para, caso seja eleito presidente, retirar o título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida. O senador nega e acusa a GloboNews de disseminar essa informação, que ele classifica como “falsa”.

De maneira sutil, a TV Aparecida, por meio de seu perfil no X, postou um vídeo com imagens de Nossa Senhora Aparecida e uma mensagem sobre cuidado e viver com fé:

“Consagrar-se é renovar, todos os dias, o desejo de viver a fé com o coração aberto à vontade de Deus, contando com a intercessão e o cuidado de Maria.

Que Nossa Senhora Aparecida nos ajude a fortalecer essa entrega e a seguir com fé em cada passo da nossa caminhada.”

<><> Simone Tebet reage à polêmica de Flávio Bolsonaro com Nossa Senhora Aparecida

Nas últimas 12 horas, não se fala em outra coisa: uma suposta articulação de Flávio Bolsonaro (PL) com grupos fundamentalistas para que, caso seja eleito presidente do Brasil, retire o título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida.

Sob pressão, Flávio Bolsonaro conversou com a imprensa durante uma atividade no Rio de Janeiro, negou que vá retirar o título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida e responsabilizou a GloboNews pelo que classificou como “fake news”.

Com a dúvida pairando sobre Flávio Bolsonaro, uma série de políticos reagiu em defesa de Nossa Senhora Aparecida, entre eles a ex-ministra do Planejamento e candidata ao Senado por São Paulo, Simone Tebet.

Simone Tebet compartilhou uma imagem de dentro da Basílica de Nossa Senhora Aparecida, na qual aparece rezando, com a seguinte legenda:

“Que Nossa Senhora Aparecida proteja o Brasil.”

<><> Alckmin se pronuncia após polêmicas com Nossa Senhora: “notícias lamentáveis”

O vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou nesta sexta-feira (25) que o governo Lula pretende preservar as tradições religiosas e o respeito às diferentes religiões no Brasil. A manifestação ocorre em meio à repercussão de uma polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida e a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República.

Em publicação no Instagram, Alckmin afirmou ter recebido mensagens de católicos preocupados com as notícias que circulam desde quinta-feira (24).

“Tenho recebido mensagens de católicos preocupados com os rumos do país e com as notícias lamentáveis que estão circulando desde o dia de ontem”, escreveu o vice-presidente.

“Preciso esclarecer que enquanto o presidente Lula e eu estivermos governando esse país, as tradições religiosas, tão sagradas para as famílias brasileiras, estarão protegidas e preservadas”, acrescentou.

Alckmin também afirmou que o Brasil deve manter o respeito às diferentes religiões e preservar as tradições católicas.

“Defendemos que o Brasil é um país que tem respeito por todas as religiões e capaz de conservar pacificamente as tradições católicas”, afirmou.

<><> A polêmica sobre Nossa Senhora Aparecida

A manifestação ocorre após a circulação de informações associando a candidatura de Flávio Bolsonaro a uma antiga proposta para alterar o reconhecimento legal de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil.

O projeto, porém, não é de autoria de Flávio Bolsonaro. Trata-se do PL 2.623/2007, apresentado pelo então deputado federal Victório Galli. A proposta pretendia substituir, na legislação relativa ao feriado de 12 de outubro, a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. O texto foi arquivado pela Câmara em 2008.

Galli, pastor evangélico e integrante da bancada evangélica durante sua passagem pela Câmara, posteriormente ocupou o cargo de assessor especial da Presidência durante o governo Jair Bolsonaro, entre fevereiro e junho de 2019. A relação política entre Galli e o ex-presidente voltou a ser mencionada no contexto da atual polêmica.

Na quinta-feira (24), Flávio Bolsonaro negou que tenha qualquer plano para retirar de Nossa Senhora Aparecida a condição de Padroeira do Brasil. A informação que circulava nas redes sociais foi posteriormente corrigida pela GloboNews, que havia associado o tema à atual disputa eleitoral.

A própria Revista Fórum destacou que o projeto original é de Galli e não de Flávio Bolsonaro. O episódio, portanto, envolve uma proposta antiga, já arquivada, que voltou ao debate em razão da atual campanha presidencial.

<><> Bispos defendem soberania e democracia

A fala de Alckmin também ocorre poucos dias depois de manifestações de integrantes da Igreja Católica em defesa da soberania nacional e da democracia.

Em vídeo divulgado pelo Regional Norte 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o cardeal Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus, afirmou que o voto é uma garantia da democracia. O bispo auxiliar Samuel Ferreira, por sua vez, destacou a defesa da “soberania do Brasil, da nossa Amazônia e de nossas riquezas e bens”.

A discussão sobre soberania também apareceu em uma homilia de Dom Orlando Brandes, arcebispo emérito de Aparecida. Durante celebração no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, o religioso afirmou que os brasileiros deveriam escolher seus candidatos de acordo com a própria consciência e pensando no bem comum.

“Vamos defender a nossa soberania. Nenhum poder de fora, seja quem for, não deve mandar aqui. Aqui é nossa soberania, aqui é nossa casa, aqui é nossa pátria”, afirmou Brandes.

A defesa da soberania não está restrita às manifestações individuais de bispos. A Comissão Episcopal para a Ação Sociotransformadora da CNBB promove, desde o início de setembro, a série “Eleições 2026: Ação Sociotransformadora por Soberania”, apresentada como uma iniciativa apartidária voltada à participação democrática e à reflexão sobre interferências externas na política brasileira.

Em sua manifestação desta sexta, Alckmin não mencionou diretamente Flávio Bolsonaro, Victório Galli ou a proposta de 2007. A mensagem se concentrou na garantia de que, sob seu governo e o de Lula, as tradições religiosas seriam preservadas, ao mesmo tempo em que reafirmou o respeito às diferentes religiões existentes no país.

 

Fonte: Brasil 247/Fórum

 

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