terça-feira, 29 de setembro de 2026

Negacionismo eleitoral se espalha como pandemia global e Trump é o ‘paciente zero’, afirma diretor do Idea

O avanço do negacionismo eleitoral pelo mundo adquiriu contornos de uma verdadeira crise sanitária global, tendo como principal catalisador o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A avaliação é do secretário-geral do Instituto Internacional pela Democracia e Auxílio Eleitoral (Idea), o costarriquenho Kevin Casas-Zamora. Em relatório publicado pela organização intergovernamental sediada na Suécia, o órgão estabelece uma ligação direta entre a deterioração democrática promovida pelo líder norte-americano e o surgimento ou fortalecimento de movimentos autoritários em diversas partes do globo, inclusive no Brasil, informa a

De acordo com o levantamento do Idea — instituição que monitora o estado da democracia mundial —, o ataque antidemocrático de 8 de janeiro de 2023 em Brasília só ocorreu porque, dois anos antes, militantes incentivados por Trump invadiram o Capitólio, em Washington, na tentativa de reverter a vitória eleitoral de Joe Biden. Para Casas-Zamora, Trump atua como o “paciente zero” dessa onda de contestação sem provas da integridade dos processos de votação, fenômeno que assombra as democracias ocidentais há pelo menos cinco anos.

Apesar dos alertas, o relatório deste ano do Idea aponta uma recuperação nos índices democráticos do Brasil. O país subiu 12 posições na categoria “direitos” de 2025 para 2026. Segundo o diretor da instituição, a explicação para essa melhora expressiva reside no chamado “efeito rebote”, visto que o país havia sofrido uma queda abrupta nesses mesmos indicadores durante a gestão de Jair Bolsonaro (PL), marcada por constantes ataques à liberdade de imprensa, à credibilidade do sistema eleitoral e à independência do Poder Judiciário.

O levantamento também aponta avanços no Estado de Direito no Brasil, colocando o país à frente de nações como Argentina, Colômbia, Índia e Hungria. Questionado sobre as críticas da extrema direita ao Judiciário brasileiro, Casas-Zamora evitou se imiscuir na política interna, mas reconheceu que o Supremo Tribunal Federal (STF) desempenhou um papel crucial no salvaguardo da democracia ao garantir a integridade das urnas. Ele pontuou que o Brasil se tornou um exemplo ao demonstrar que acusações infundadas que causam danos gratuitos às instituições devem gerar custos políticos reais para quem as profere.

Sobre a interferência dos Estados Unidos na América Latina e nas eleições brasileiras, Casas-Zamora destacou que a ingerência Washington ganhou contornos muito mais explícitos. Como exemplos, citou os apoios escancarados a candidaturas de extrema direita na região, como a de Flávio Bolsonaro no Brasil, a promessa de suporte financeiro ao governo de Javier Milei na Argentina em contexto eleitoral e as incursões na Colômbia e em Honduras. Além das declarações políticas, a pressão se estendeu aos processos judiciais brasileiros, como no caso das tentativas de aliados do bolsonarismo de obter sanções americanas contra magistrados do STF após a condenação de Jair Bolsonaro.

Apesar do impacto nocivo das intervenções externas e do uso desproporcional de recursos financeiros no equilíbrio dos pleitos, o secretário-geral ressalta que, na ausência de provas de alteração direta no comportamento do eleitor, deve-se presumir a transparência e a legitimidade das eleições no Brasil.

Ao analisar um eventual cenário de vitória da extrema direita com Flávio Bolsonaro, Casas-Zamora ponderou que a escolha do eleitorado por partidos dessa vertente é fruto legítimo da vontade popular e sintoma do descontentamento com a representatividade tradicional. Contudo, alertou que a ameaça real surge quando tais grupos chegam ao poder, momento em que historicamente promovem um ataque sistemático aos mecanismos institucionais de controle do exercício do poder. Ele ressaltou que, se um eventual governo de Flávio repetir a conduta do pai, há motivos concretos para temer retrocessos democráticos.

Por fim, ao avaliar a fragilidade das instituições norte-americanas diante das investidas de Donald Trump, Casas-Zamora citou a tese dos cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, autores de “Como as Democracias Morrem”, para explicar que a estabilidade democrática depende essencialmente da autocontenção e do respeito às regras não escritas por parte dos atores políticos. Quando um líder recusa essas normas, a estrutura institucional se enfraquece. Ainda assim, ressaltou que a independência judicial nos EUA, sustentada principalmente por juízes de primeira instância, tem sido o principal pilar de resistência contra os arroubos autoritários da Casa Branca.

•        Perfis-fantasmas violam regras do TSE e impulsionam fake news contra o PT e Lula

 Uma operação articulada por meio de “perfis-fantasmas” nas redes sociais utilizou desinformação, inteligência artificial e impulsionamentos pagos para atingir o presidente Lula e o PT logo após as manifestações de 7 de Setembro, descumprindo as diretrizes estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), segundo reportagem de Ramiro Brites no Metrópoles.

As publicações, veiculadas entre os dias 8 e 9 de setembro, permaneceram no ar por apenas algumas horas antes de as contas serem sumariamente deletadas. Trata-se de uma tática que se aproveita dos chamados “perfis-satélites” — contas secundárias criadas no marketing digital para direcionar tráfego a perfis principais —, adaptada para o cenário eleitoral como “perfis-fantasmas”. Esse método injeta expressivos volumes de dinheiro em impulsionamentos, atinge milhões de usuários e apaga os rastros rapidamente, evitando a identificação de autoria, o recebimento de denúncias e a responsabilização formal das campanhas.

Dentre os conteúdos propagados sem os devidos rótulos de identificação de IA ou a inclusão de CNPJ de campanha — exigências formais para a propaganda eleitoral —, destaca-se um vídeo antigo de Alfredo Gaspar (PL), candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro (PL). Gravado provavelmente no final de junho, quando o senador Jaques Wagner (PT-BA) deixou a liderança do governo no Senado no âmbito das investigações do caso Banco Master, o material traz Gaspar afirmando que “Lula é o pai do escândalo do Master”.

A veiculação do vídeo mais de dois meses após a sua gravação gerou uma falsa narrativa de que o senador baiano teria sido afastado a menos de um mês do pleito eleitoral, omitindo o fato de que Jaques Wagner já estava fora do cargo há 77 dias. A publicação contou com um investimento de até US$ 100 para impulsionamento no Instagram, permanecendo ativa por duas horas e alcançando mais de 1 milhão de usuários antes de a página ser excluída.

Paralelamente, no próprio dia 8 de setembro, outra peça apócrifa produzida por meio de inteligência artificial aludiu ao filme O Poderoso Chefão. A Animação colocou como figuras centrais o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo proprietário do Banco Master, o presidente Lula, o ex-ministro da Casa Civil e candidato ao Senado pela Bahia, Rui Costa (PT-BA), e o próprio senador Jaques Wagner.

Na gravação gerada por IA, o personagem de Vorcaro aparece sentado no colo de Lula, acompanhado por uma narração que classifica o PT como o “eixo central” do escândalo financeiro — omitindo que as investigações do caso envolvem quadros de diversos partidos de diferentes espectros políticos, incluindo o próprio Flávio Bolsonaro. A peça também violou a legislação ao não conter o rótulo explicativo sobre o uso de inteligência artificial nem o CNPJ responsável. Financiaram o impulsionamento inicial em reais, atingindo cerca de 80 mil usuários em duas horas no ar.

No dia seguinte, 9 de setembro, a mesma peça satírica produzida por IA foi republicada por outro perfil-fantasma. Com um novo investimento de impulsionamento feito em dólares, o vídeo permaneceu ativo por mais tempo — entre duas e quatro horas — e ultrapassou a marca de 1 milhão de usuários alcançados na rede social.

Especialistas alertam que a prática de criar e apagar contas de forma rápida e financiada configura ofensa à honra de adversários políticos e pode ter sido orquestrada por terceiros para beneficiar de forma irregular a candidatura da chapa bolsonarista, ao burlar os mecanismos de fiscalização e integridade do processo eleitoral estipulados pela Justiça Eleitoral.

•        Às favas com os escrúpulos? Por Carlos Carvalho

Em dezembro de 1968, o ditador Costa e Silva reuniu seu governo com o objetivo de promulgar o Ato Institucional nº 5 – o famigerado AI-5 – que endureceria a ditadura civil-militar nascida no ano de 1964. Havia por parte do referido ditador, conforme alguns pesquisadores, uma certa relutância em assinar o AI-5, quando o ministro Jarbas Passarinho vomitou a frase: “Às favas, senhor presidente, com os escrúpulos de consciência”. E assim, o Brasil foi mergulhado num poço de sangue, desaparecimentos e assassinatos que ainda hoje atormentam e assombram nossa nação.

Sessenta e dois anos após o início da ditadura, muitos daqueles que a apoiaram ainda estão zumbizando por aí, uma vez que não foram punidos, o que os empoderou a tentar o golpe de Estado em 2022, que incluiu civis, militares, empresários, políticos e empresas de comunicação. Chegamos ao ano de 2026. Velhos e novos agentes da causa imperialista babam de raiva e tremem de desespero diante da possibilidade de ficarem mais uma vez distantes do poder, ou seja, está cada vez mais longe a possibilidade de entregar as riquezas naturais brasileiras ao neocolonizador, em troca de um Green Card e um abraço no Pateta. Desprovidos de carisma político, competência e inteligência, os avatares da mediocridade – salve, Rita Lee! – se nutrem do ódio e da raiva que produzem, tendo em vista que nada mais conseguem criar. São aqueles que, conforme Cazuza: “querem ser sócios do Country e ir a Nova York fazer compras”. Assim, não é difícil imaginar que devam dormir enrolados na bandeira do inimigo, sonhando com a reedição da Escola das Américas, antro de formação dos torturadores e ditadores que empestearam a América Latina por anos, deixando um rastro de sangue e morte.

O problema para eles, os filhotes da ditadura, como diria Leonel Brizola, é que ainda estamos aqui, e que “a política adora a traição, mas detesta os traidores”. E os esfaqueadores da pátria, parte constituinte da espinha dorsal da tradicional família brasileira, como aqueles que agitavam as noites na boate Madame Satã, que receberam mundos e fundos de um famoso agiota transformado em banqueiro, e que a este devem até a alma, se unem, como sempre fizeram, em escancarado ataque à soberania brasileira e a tudo aquilo que ela representa para uma nação em desenvolvimento e para o seu povo, o mesmo povo que nunca teve suas contas pagas por nenhum bandido engravatado, que não tem filhos medíocres com contratos de milhões e não tem a mínima ideia de quanto custa ou como se faz para comprar um parlamentar ou um magistrado.

As eleições que se aproximam serão, provavelmente, o teste mais difícil para a democracia brasileira. Será o momento de o povo brasileiro execrar aqueles que mandam os escrúpulos às favas, e lembrar daqueles que dele cuidam, dos homens e mulheres que estão preocupados em construir um país “e não abandoná-lo com uma pasta de dólares” e que, mesmo na adversidade hostil do dia a dia nos parlamentos, defendem “o sagrado pão dos filhos” da nossa gente. Nas eleições que batem à nossa porta, nós, o povo, teremos a oportunidade de escolher entre um estadista e um criminoso, entre um coronel ressentido e um progressista, entre a democracia e a barbárie, entre a vida e a morte.

•        Jogo, apostas e religião entram na disputa presidencial para acompanhar o eleitor até as urnas. Por Marco Damiani

Pelas vias do jogo e da religião, a eleição presidencial ganha em acirramento na reta final da disputa. Sem medo de ser criticado por quebra de contratos, o presidente Lula baixou uma carta ousada ao assinar, ontem, a medida provisória que dá fim completo e imediato às bets no Brasil. O segmento reúne interesses calculados em 100 bilhões de reais anuais pela entidade das operadoras de apostas online, gera cerca de 15 mil empregos diretos e está imbricado com os grandes clubes de futebol do País. Estima-se em 30 milhões de pessoas o público em torno das apostas e jogos a dinheiro.

A justificativa para o fim das bets é a de tapar um buraco por onde tem escorrido boa parte da economia popular, gerando aumento no endividamento das famílias. O movimento do governo está sendo correspondido pela grita das empresas prejudicadas, que se defendem como vítimas de quebra de contratos. Os efeitos eleitorais tendem a ser mistos, mas já está claro que o assunto tem peso relevante para a definição do voto.

Como elemento de impacto ainda mais forte na escolha a ser feita em 4 de outubro, a questão religiosa entrou na reta final da campanha para acompanhar o eleitor até a urna. A partir de posicionamentos nas redes sociais da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em defesa da Igreja Católica, o debate retroagiu para a lembrança de um projeto de lei bolsonarista de cassação do status de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil. E escalou para uma nova etapa de reflexão sobre a divisão e o ódio religioso no País.

Por sua altíssima representatividade entre os católicos, o ícone de Nossa Senhora Aparecida é um alvo antigo das correntes mais retrógradas das religiões pentecostais, chamadas genericamente de evangélicas. O bolsonarismo tem nesses núcleos de exploração financeira e propagação de ódio religioso uma de suas bases mais sólidas de apoio. Não apenas os católicos, mas os democratas em geral temem o poder destrutivo dos bolsonaristas contra os grandes símbolos da cultura brasileira. A campanha de ódio contra a imagem de Nossa Senhora, que já começava a ser formulada nas alas mais perigosas do bolsonarismo, se dá neste contexto.

No caldeirão da disputa presidencial, que tinha a corrupção patrocinada pelo banco Master e a crise do STF como ingredientes principais até aqui, jogo e religião entram agora para aumentar a fervura e a tensão sobre o pleito mais dramático desde a redemocratização do País.

 

Fonte: Brasil 247

 

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