Negacionismo
eleitoral se espalha como pandemia global e Trump é o ‘paciente zero’, afirma
diretor do Idea
O
avanço do negacionismo eleitoral pelo mundo adquiriu contornos de uma
verdadeira crise sanitária global, tendo como principal catalisador o
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A avaliação é do secretário-geral
do Instituto Internacional pela Democracia e Auxílio Eleitoral (Idea), o
costarriquenho Kevin Casas-Zamora. Em relatório publicado pela organização
intergovernamental sediada na Suécia, o órgão estabelece uma ligação direta
entre a deterioração democrática promovida pelo líder norte-americano e o
surgimento ou fortalecimento de movimentos autoritários em diversas partes do
globo, inclusive no Brasil, informa a
De
acordo com o levantamento do Idea — instituição que monitora o estado da
democracia mundial —, o ataque antidemocrático de 8 de janeiro de 2023 em
Brasília só ocorreu porque, dois anos antes, militantes incentivados por Trump
invadiram o Capitólio, em Washington, na tentativa de reverter a vitória
eleitoral de Joe Biden. Para Casas-Zamora, Trump atua como o “paciente zero”
dessa onda de contestação sem provas da integridade dos processos de votação,
fenômeno que assombra as democracias ocidentais há pelo menos cinco anos.
Apesar
dos alertas, o relatório deste ano do Idea aponta uma recuperação nos índices
democráticos do Brasil. O país subiu 12 posições na categoria “direitos” de
2025 para 2026. Segundo o diretor da instituição, a explicação para essa
melhora expressiva reside no chamado “efeito rebote”, visto que o país havia
sofrido uma queda abrupta nesses mesmos indicadores durante a gestão de Jair
Bolsonaro (PL), marcada por constantes ataques à liberdade de imprensa, à
credibilidade do sistema eleitoral e à independência do Poder Judiciário.
O
levantamento também aponta avanços no Estado de Direito no Brasil, colocando o
país à frente de nações como Argentina, Colômbia, Índia e Hungria. Questionado
sobre as críticas da extrema direita ao Judiciário brasileiro, Casas-Zamora
evitou se imiscuir na política interna, mas reconheceu que o Supremo Tribunal
Federal (STF) desempenhou um papel crucial no salvaguardo da democracia ao
garantir a integridade das urnas. Ele pontuou que o Brasil se tornou um exemplo
ao demonstrar que acusações infundadas que causam danos gratuitos às
instituições devem gerar custos políticos reais para quem as profere.
Sobre a
interferência dos Estados Unidos na América Latina e nas eleições brasileiras,
Casas-Zamora destacou que a ingerência Washington ganhou contornos muito mais
explícitos. Como exemplos, citou os apoios escancarados a candidaturas de
extrema direita na região, como a de Flávio Bolsonaro no Brasil, a promessa de
suporte financeiro ao governo de Javier Milei na Argentina em contexto
eleitoral e as incursões na Colômbia e em Honduras. Além das declarações
políticas, a pressão se estendeu aos processos judiciais brasileiros, como no
caso das tentativas de aliados do bolsonarismo de obter sanções americanas
contra magistrados do STF após a condenação de Jair Bolsonaro.
Apesar
do impacto nocivo das intervenções externas e do uso desproporcional de
recursos financeiros no equilíbrio dos pleitos, o secretário-geral ressalta
que, na ausência de provas de alteração direta no comportamento do eleitor,
deve-se presumir a transparência e a legitimidade das eleições no Brasil.
Ao
analisar um eventual cenário de vitória da extrema direita com Flávio
Bolsonaro, Casas-Zamora ponderou que a escolha do eleitorado por partidos dessa
vertente é fruto legítimo da vontade popular e sintoma do descontentamento com
a representatividade tradicional. Contudo, alertou que a ameaça real surge
quando tais grupos chegam ao poder, momento em que historicamente promovem um
ataque sistemático aos mecanismos institucionais de controle do exercício do
poder. Ele ressaltou que, se um eventual governo de Flávio repetir a conduta do
pai, há motivos concretos para temer retrocessos democráticos.
Por
fim, ao avaliar a fragilidade das instituições norte-americanas diante das
investidas de Donald Trump, Casas-Zamora citou a tese dos cientistas políticos
Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, autores de “Como as Democracias Morrem”, para
explicar que a estabilidade democrática depende essencialmente da autocontenção
e do respeito às regras não escritas por parte dos atores políticos. Quando um
líder recusa essas normas, a estrutura institucional se enfraquece. Ainda
assim, ressaltou que a independência judicial nos EUA, sustentada
principalmente por juízes de primeira instância, tem sido o principal pilar de
resistência contra os arroubos autoritários da Casa Branca.
• Perfis-fantasmas violam regras do TSE e
impulsionam fake news contra o PT e Lula
Uma operação articulada por meio de
“perfis-fantasmas” nas redes sociais utilizou desinformação, inteligência
artificial e impulsionamentos pagos para atingir o presidente Lula e o PT logo
após as manifestações de 7 de Setembro, descumprindo as diretrizes
estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), segundo reportagem de
Ramiro Brites no Metrópoles.
As
publicações, veiculadas entre os dias 8 e 9 de setembro, permaneceram no ar por
apenas algumas horas antes de as contas serem sumariamente deletadas. Trata-se
de uma tática que se aproveita dos chamados “perfis-satélites” — contas
secundárias criadas no marketing digital para direcionar tráfego a perfis
principais —, adaptada para o cenário eleitoral como “perfis-fantasmas”. Esse
método injeta expressivos volumes de dinheiro em impulsionamentos, atinge
milhões de usuários e apaga os rastros rapidamente, evitando a identificação de
autoria, o recebimento de denúncias e a responsabilização formal das campanhas.
Dentre
os conteúdos propagados sem os devidos rótulos de identificação de IA ou a
inclusão de CNPJ de campanha — exigências formais para a propaganda eleitoral
—, destaca-se um vídeo antigo de Alfredo Gaspar (PL), candidato a
vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro (PL). Gravado provavelmente no
final de junho, quando o senador Jaques Wagner (PT-BA) deixou a liderança do
governo no Senado no âmbito das investigações do caso Banco Master, o material
traz Gaspar afirmando que “Lula é o pai do escândalo do Master”.
A
veiculação do vídeo mais de dois meses após a sua gravação gerou uma falsa
narrativa de que o senador baiano teria sido afastado a menos de um mês do
pleito eleitoral, omitindo o fato de que Jaques Wagner já estava fora do cargo
há 77 dias. A publicação contou com um investimento de até US$ 100 para
impulsionamento no Instagram, permanecendo ativa por duas horas e alcançando
mais de 1 milhão de usuários antes de a página ser excluída.
Paralelamente,
no próprio dia 8 de setembro, outra peça apócrifa produzida por meio de
inteligência artificial aludiu ao filme O Poderoso Chefão. A Animação colocou
como figuras centrais o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo proprietário do
Banco Master, o presidente Lula, o ex-ministro da Casa Civil e candidato ao
Senado pela Bahia, Rui Costa (PT-BA), e o próprio senador Jaques Wagner.
Na
gravação gerada por IA, o personagem de Vorcaro aparece sentado no colo de
Lula, acompanhado por uma narração que classifica o PT como o “eixo central” do
escândalo financeiro — omitindo que as investigações do caso envolvem quadros
de diversos partidos de diferentes espectros políticos, incluindo o próprio
Flávio Bolsonaro. A peça também violou a legislação ao não conter o rótulo
explicativo sobre o uso de inteligência artificial nem o CNPJ responsável.
Financiaram o impulsionamento inicial em reais, atingindo cerca de 80 mil
usuários em duas horas no ar.
No dia
seguinte, 9 de setembro, a mesma peça satírica produzida por IA foi republicada
por outro perfil-fantasma. Com um novo investimento de impulsionamento feito em
dólares, o vídeo permaneceu ativo por mais tempo — entre duas e quatro horas —
e ultrapassou a marca de 1 milhão de usuários alcançados na rede social.
Especialistas
alertam que a prática de criar e apagar contas de forma rápida e financiada
configura ofensa à honra de adversários políticos e pode ter sido orquestrada
por terceiros para beneficiar de forma irregular a candidatura da chapa
bolsonarista, ao burlar os mecanismos de fiscalização e integridade do processo
eleitoral estipulados pela Justiça Eleitoral.
• Às favas com os escrúpulos? Por Carlos
Carvalho
Em
dezembro de 1968, o ditador Costa e Silva reuniu seu governo com o objetivo de
promulgar o Ato Institucional nº 5 – o famigerado AI-5 – que endureceria a
ditadura civil-militar nascida no ano de 1964. Havia por parte do referido
ditador, conforme alguns pesquisadores, uma certa relutância em assinar o AI-5,
quando o ministro Jarbas Passarinho vomitou a frase: “Às favas, senhor
presidente, com os escrúpulos de consciência”. E assim, o Brasil foi mergulhado
num poço de sangue, desaparecimentos e assassinatos que ainda hoje atormentam e
assombram nossa nação.
Sessenta
e dois anos após o início da ditadura, muitos daqueles que a apoiaram ainda
estão zumbizando por aí, uma vez que não foram punidos, o que os empoderou a
tentar o golpe de Estado em 2022, que incluiu civis, militares, empresários,
políticos e empresas de comunicação. Chegamos ao ano de 2026. Velhos e novos
agentes da causa imperialista babam de raiva e tremem de desespero diante da
possibilidade de ficarem mais uma vez distantes do poder, ou seja, está cada
vez mais longe a possibilidade de entregar as riquezas naturais brasileiras ao
neocolonizador, em troca de um Green Card e um abraço no Pateta. Desprovidos de
carisma político, competência e inteligência, os avatares da mediocridade –
salve, Rita Lee! – se nutrem do ódio e da raiva que produzem, tendo em vista
que nada mais conseguem criar. São aqueles que, conforme Cazuza: “querem ser
sócios do Country e ir a Nova York fazer compras”. Assim, não é difícil
imaginar que devam dormir enrolados na bandeira do inimigo, sonhando com a
reedição da Escola das Américas, antro de formação dos torturadores e ditadores
que empestearam a América Latina por anos, deixando um rastro de sangue e
morte.
O
problema para eles, os filhotes da ditadura, como diria Leonel Brizola, é que
ainda estamos aqui, e que “a política adora a traição, mas detesta os
traidores”. E os esfaqueadores da pátria, parte constituinte da espinha dorsal
da tradicional família brasileira, como aqueles que agitavam as noites na boate
Madame Satã, que receberam mundos e fundos de um famoso agiota transformado em
banqueiro, e que a este devem até a alma, se unem, como sempre fizeram, em
escancarado ataque à soberania brasileira e a tudo aquilo que ela representa
para uma nação em desenvolvimento e para o seu povo, o mesmo povo que nunca
teve suas contas pagas por nenhum bandido engravatado, que não tem filhos
medíocres com contratos de milhões e não tem a mínima ideia de quanto custa ou
como se faz para comprar um parlamentar ou um magistrado.
As
eleições que se aproximam serão, provavelmente, o teste mais difícil para a
democracia brasileira. Será o momento de o povo brasileiro execrar aqueles que
mandam os escrúpulos às favas, e lembrar daqueles que dele cuidam, dos homens e
mulheres que estão preocupados em construir um país “e não abandoná-lo com uma
pasta de dólares” e que, mesmo na adversidade hostil do dia a dia nos
parlamentos, defendem “o sagrado pão dos filhos” da nossa gente. Nas eleições
que batem à nossa porta, nós, o povo, teremos a oportunidade de escolher entre
um estadista e um criminoso, entre um coronel ressentido e um progressista,
entre a democracia e a barbárie, entre a vida e a morte.
• Jogo, apostas e religião entram na
disputa presidencial para acompanhar o eleitor até as urnas. Por Marco Damiani
Pelas
vias do jogo e da religião, a eleição presidencial ganha em acirramento na reta
final da disputa. Sem medo de ser criticado por quebra de contratos, o
presidente Lula baixou uma carta ousada ao assinar, ontem, a medida provisória
que dá fim completo e imediato às bets no Brasil. O segmento reúne interesses
calculados em 100 bilhões de reais anuais pela entidade das operadoras de
apostas online, gera cerca de 15 mil empregos diretos e está imbricado com os
grandes clubes de futebol do País. Estima-se em 30 milhões de pessoas o público
em torno das apostas e jogos a dinheiro.
A
justificativa para o fim das bets é a de tapar um buraco por onde tem escorrido
boa parte da economia popular, gerando aumento no endividamento das famílias. O
movimento do governo está sendo correspondido pela grita das empresas
prejudicadas, que se defendem como vítimas de quebra de contratos. Os efeitos
eleitorais tendem a ser mistos, mas já está claro que o assunto tem peso
relevante para a definição do voto.
Como
elemento de impacto ainda mais forte na escolha a ser feita em 4 de outubro, a
questão religiosa entrou na reta final da campanha para acompanhar o eleitor
até a urna. A partir de posicionamentos nas redes sociais da Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em defesa da Igreja Católica, o debate
retroagiu para a lembrança de um projeto de lei bolsonarista de cassação do
status de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil. E escalou para uma
nova etapa de reflexão sobre a divisão e o ódio religioso no País.
Por sua
altíssima representatividade entre os católicos, o ícone de Nossa Senhora
Aparecida é um alvo antigo das correntes mais retrógradas das religiões
pentecostais, chamadas genericamente de evangélicas. O bolsonarismo tem nesses
núcleos de exploração financeira e propagação de ódio religioso uma de suas
bases mais sólidas de apoio. Não apenas os católicos, mas os democratas em
geral temem o poder destrutivo dos bolsonaristas contra os grandes símbolos da
cultura brasileira. A campanha de ódio contra a imagem de Nossa Senhora, que já
começava a ser formulada nas alas mais perigosas do bolsonarismo, se dá neste
contexto.
No
caldeirão da disputa presidencial, que tinha a corrupção patrocinada pelo banco
Master e a crise do STF como ingredientes principais até aqui, jogo e religião
entram agora para aumentar a fervura e a tensão sobre o pleito mais dramático
desde a redemocratização do País.
Fonte:
Brasil 247

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