‘Candidata
do garimpo’ a deputada federal foi investigada em operação da PF em Rondônia
sobre ouro ilegal
“CHEGOU
A HORA de Rondônia ter alguém em Brasília que conhece o garimpo por dentro.” É
com esse mote que Tânia Sena apresenta sua candidatura a deputada federal pelo
Podemos em Rondônia.
Filha
de garimpeiro e advogada de formação, ela já foi presidente da Coogam
(Cooperativa dos Garimpeiros da Amazônia), com sede em Manaus (AM) e
escritórios espalhados por estados da região Norte. Ao TSE (Tribunal Superior
Eleitoral), declarou patrimônio de R$ 2,48 milhões — o principal bem é uma
draga de garimpo avaliada em R$ 2 milhões.
Tânia
promete levar “as demandas do setor ao Congresso” e defende uma regularização
mais ágil para “quem quer trabalhar e produzir dentro da legalidade”. Em suas
falas públicas, diferencia o garimpo legal do ilegal.
“Quando
existe o garimpo ilegal não tem nota fiscal não tem ouro rastreado, não
consegue gerar riqueza para o nosso estado”, disse em entrevista a um produtor
de conteúdo digital.
A
candidata, porém, já apareceu em uma investigação da Polícia Federal sobre
extração e comercialização ilegal de ouro.
O nome
de Tânia consta do inquérito da Operação Aerogold, após fretar uma aeronave que
decolou do Amazonas e pousou em Porto Velho, Rondônia, em novembro de 2020.
Segundo
a PF, ela aguardava o desembarque quando um dos passageiros do voo foi preso em
flagrante transportando 3 kg de ouro sem registro. Tania foi indiciada por
lavagem de dinheiro e chegou a ser detida temporariamente em setembro de 2022.
A prisão foi revogada cinco dias depois.
A
Coogam, entidade já presidida pela candidata, também acumula suspeitas de
problemas ambientais, por supostamente operar um “garimpo fantasma” no rio
Tapajós, no Pará, de acordo com denúncia do Greenpeace Brasil publicada em
agosto deste ano.
A
cooperativa teria declarado a extração de 4,5 kg de ouro da área, avaliados em
mais de R$ 2 milhões. A análise de imagens de satélite e um sobrevoo realizado
pela organização ambiental, no entanto, não teriam identificado atividade
garimpeira no local.
Segundo
o Greenpeace, a Coogam detém outras licenças no limite da Terra Indígena
Munduruku, no Pará, em área que pode afetar cerca de 30 aldeias nas imediações.
A
cooperativa também tem áreas embargadas (interditadas e proibidas para uso)
pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais
Renováveis).
Em
2023, a unidade da Coogam em Itaituba, no Pará, foi multada em R$ 3 milhões por
operar draga de garimpo no rio Tapajós, em desacordo com a licença de operação.
No auto
de infração, os fiscais alertaram para o “aumento da turbidez da água, cujo
impacto tende a ser maior quando o empreendimento realiza uma atividade não
prevista pela licença”.
A
Repórter Brasil procurou Tânia e a Coogam, mas não recebeu resposta até o
fechamento desta matéria.
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‘Rei do Ouro’ também foi alvo da operação da PF
Em
novembro de 2020, a Polícia Federal apreendeu 3,12 kg de ouro sem documentação
no aeroclube de Porto Velho.
O metal
estava na bagagem de um dos passageiros de uma aeronave proveniente do
Amazonas. De acordo com relatório da PF acessado pela reportagem, Tânia
aguardava a chegada do voo, fretado por ela própria por R$ 25,5 mil.
Em
depoimento à PF, a candidata afirmou que havia contratado a aeronave para levar
peças de draga ao Amazonas e trazer uma amiga para a capital rondoniense. Aos
investigadores, disse desconhecer a presença do ouro no avião e negou qualquer
participação no transporte do minério.
A
investigação da Operação Aerogold apontou um esquema envolvendo garimpeiros,
atravessadores e empresários.
Segundo
informações fornecidas pela ANM (Agência Nacional de Mineração), o município de
Japurá não tinha nenhuma PLG (Permissão de Lavra Garimpeira) para a extração de
ouro registrada em seu território.
Após
uma vistoria em áreas autorizadas da Coogam, técnicos da agência apontaram
“grandes evidências” de que ouro produzido sem permissão em outras regiões
estaria sendo “esquentado” (legalizado) por meio dessas autorizações.
Com o
avanço das investigações, a PF deflagrou a Operação Aerogold em setembro de
2022. Foram cumpridos 43 mandados de busca e apreensão e 18 mandados de prisão
em Rondônia, Amazonas, Acre, Pará, Mato Grosso e São Paulo. Tânia esteve entre
os alvos de prisão temporária da operação. A medida fo revogada cinco dias
depois.
Um dos
presos temporariamente na operação foi o empresário Dirceu Santos Frederico
Sobrinho, então presidente da Associação Nacional do Ouro e sócio-administrador
da FD’Gold Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários.
Conhecido
como o “rei do ouro”, Sobrinho já havia sido investigado por suspeitas de
comprar minério extraído ilegalmente das terras indígenas Yanomami, em Roraima,
e Munduruku e Kayapó, no Pará, conforme revelou uma reportagem da Repórter
Brasil publicada em 2022.
Segundo
o relatório da PF, a relação entre Sobrinho e Tânia era comercial. Em
depoimento, ela afirmou que conhecia o empresário e que vendia ouro à FD’Gold.
Dados
obtidos com a quebra do sigilo bancário mostraram que a empresa transferiu R$
621,6 mil para Tânia entre dezembro de 2019 e março de 2021.
Ainda
segundo a PF, Tânia teria movimentado aproximadamente R$ 23,8 milhões entre
2018 e 2021, valor incompatível com sua
renda declarada, de acordo com os investigadores.
Tânia
afirmou que os recursos eram provenientes do garimpo e que as operações tinham
notas fiscais. O relatório final ressalta, no entanto, que seria necessária uma
perícia para verificar se a quantidade de ouro comercializada era compatível
com as movimentações financeiras.
Fonte:
Repórter Brasil

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