terça-feira, 29 de setembro de 2026

Índia aposta em inteligência artificial para todos e mira desenvolvimento inclusivo até 2047

A Índia está construindo uma estratégia de inteligência artificial baseada no princípio de “IA para todos”, com o objetivo de democratizar o acesso à tecnologia, reduzir desigualdades e utilizar as novas ferramentas digitais para enfrentar alguns dos principais desafios sociais e econômicos do país. A iniciativa está vinculada ao horizonte de desenvolvimento da Índia até 2047, ano em que o país completará um século de independência. A avaliação é de Anirban Sarma, diretor da Digital Societies Initiative do Observer Research Foundation (ORF), e da Dra. Vanita Sharma, assessora de Iniciativas Estratégicas da Reliance Foundation. Em análise sobre o desenvolvimento da inteligência artificial na Índia, os especialistas destacam que o país busca combinar inovação tecnológica, infraestrutura compartilhada, capacitação da população e aplicações práticas voltadas às necessidades das comunidades.

O avanço ocorre em um momento de rápida expansão do ecossistema indiano de IA. A Índia já ocupa posições de destaque internacional em competências profissionais e dinamismo do setor, enquanto empresas ampliam a adoção de soluções baseadas em inteligência artificial e startups atraem investimentos. Estimativas citadas pelos autores indicam que a tecnologia poderá acrescentar cerca de US$ 1,7 trilhão à economia indiana até 2035. Um dos pilares dessa estratégia é a construção de infraestrutura acessível. Por meio de sua missão nacional de inteligência artificial, o governo indiano disponibiliza capacidade computacional subsidiada e desenvolve repositórios compartilhados de dados e modelos. A intenção é diminuir as barreiras de entrada para startups, universidades, pesquisadores, empresas e instituições públicas, evitando que o desenvolvimento da IA fique restrito às grandes corporações capazes de financiar infraestrutura própria.

A prioridade, no entanto, não é apenas desenvolver modelos cada vez mais sofisticados. A Índia procura transformar a inteligência artificial em instrumento para resolver problemas concretos. Projetos já exploram aplicações em áreas como agricultura, saúde, educação, gestão de desastres, sistema de Justiça e inclusão social, criando soluções que, segundo Sarma e Sharma, também poderão ser adaptadas às necessidades de outros países em desenvolvimento. Essa característica torna a experiência indiana especialmente relevante para o Sul Global. Muitos dos desafios enfrentados pela Índia — grande diversidade linguística, desigualdade de renda, diferenças regionais, conectividade limitada e necessidade de oferecer serviços públicos em grande escala — também estão presentes em países da África, América Latina e outras regiões da Ásia. Tecnologias desenvolvidas nessas condições podem, portanto, produzir modelos mais facilmente replicáveis em outras economias emergentes.

<><> IA em centenas de línguas

A diversidade linguística aparece como um dos grandes desafios e, ao mesmo tempo, como um dos campos mais promissores da experiência indiana. Modelos treinados com dados locais, sistemas de tradução e interfaces adaptadas aos diferentes idiomas buscam permitir que pessoas que não dominam o inglês também tenham acesso aos benefícios da inteligência artificial. A estratégia é acompanhada por programas de formação destinados a preparar cidadãos não apenas para utilizar ferramentas de IA, mas também para participar de sua criação. Dessa forma, o país procura ampliar a base social capaz de produzir inovação tecnológica e evitar que a nova economia digital aprofunde desigualdades já existentes.

Os projetos analisados por Sarma e Sharma também indicam que a tecnologia funciona melhor quando é construída em diálogo com as próprias comunidades. Em vez de simplesmente introduzir uma ferramenta externa, iniciativas bem-sucedidas procuram integrar a inteligência artificial a serviços e instituições nos quais os usuários já confiam, além de desenvolver interfaces adequadas aos idiomas, à realidade cultural e às condições materiais de cada região. Outro princípio considerado fundamental é a manutenção da supervisão humana. Sistemas de IA podem analisar grandes quantidades de dados, identificar padrões e produzir recomendações, mas decisões sensíveis não devem ser automaticamente transferidas aos algoritmos. Áreas como cuidados veterinários ou definição de beneficiários de políticas sociais, por exemplo, exigem mecanismos de revisão humana.

<><> Tecnologia precisa chegar a quem não tem computador

A democratização da IA também depende da capacidade de superar limitações básicas de infraestrutura. Em comunidades onde a internet é instável ou o acesso a computadores é reduzido, soluções exclusivamente baseadas em serviços sofisticados na nuvem podem ampliar, em vez de reduzir, a exclusão digital. Por isso, iniciativas indianas vêm explorando ferramentas capazes de funcionar offline, aplicações adaptadas a telefones celulares e diferentes formas de interação que não dependam necessariamente de computadores pessoais. A lógica é fazer com que a tecnologia se adapte às condições dos usuários, e não exigir que as comunidades se adaptem previamente às exigências da tecnologia. A expansão acelerada da inteligência artificial, entretanto, também produz novos desafios. Grandes centros de dados demandam quantidades significativas de energia e água, colocando questões ambientais no centro do debate. Ao mesmo tempo, será necessário estabelecer mecanismos capazes de garantir segurança, equidade, preços acessíveis e retorno para as comunidades cujos dados, idiomas e conhecimentos são utilizados no treinamento dos modelos.

A experiência indiana também aponta para a importância das parcerias entre Estado, empresas e organizações da sociedade civil. A combinação de infraestrutura pública, conhecimento tecnológico privado e experiência das organizações que atuam diretamente nas comunidades pode reduzir custos e acelerar a transformação de projetos experimentais em serviços disponíveis para milhões de pessoas. Mais do que participar da corrida internacional pelos modelos mais poderosos, a estratégia indiana sugere uma concepção distinta para o futuro da inteligência artificial: medir seu sucesso também pela capacidade de melhorar serviços públicos, ampliar oportunidades e alcançar populações historicamente excluídas das grandes transformações tecnológicas.

Para países do Sul Global, a experiência pode representar uma referência importante. Em vez de serem apenas consumidores das tecnologias produzidas pelas grandes potências digitais, países emergentes podem desenvolver modelos próprios, treinados com seus dados, adaptados às suas línguas e orientados para seus desafios sociais. É nessa combinação entre soberania tecnológica, inclusão e cooperação que a Índia pretende transformar a inteligência artificial em uma ferramenta de desenvolvimento.

¨      Índia usa acordos comerciais para ampliar inclusão de pequenas empresas e mulheres

A Índia está ampliando o papel de seus acordos de livre comércio (FTAs) para transformá-los em instrumentos não apenas de abertura de mercados e redução de tarifas, mas também de inclusão econômica, geração de empregos e fortalecimento de pequenas empresas e da participação feminina no comércio internacional. A análise é de Sunaina Kumar, diretora do Centre for New Economic Diplomacy (CNED) e pesquisadora sênior do Observer Research Foundation (ORF), e do Dr. Soumya Bhowmick, pesquisador e vice-diretor do CNED, também ligado ao ORF. Segundo os especialistas, os acordos comerciais mais recentes negociados pela Índia mostram uma evolução em relação aos tratados tradicionais, incorporando compromissos relacionados a pequenas empresas, igualdade de gênero, desenvolvimento sustentável e cooperação econômica.

A mudança é especialmente relevante porque as micro, pequenas e médias empresas respondem por 48,58% das exportações indianas. Apesar desse peso expressivo, essas companhias enfrentam obstáculos proporcionalmente maiores para acessar os mercados internacionais, como custos de financiamento, exigências de certificação, padrões técnicos e complexidade das regras de origem. Na prática, isso significa que a simples redução das tarifas não garante uma distribuição equilibrada dos benefícios proporcionados pelo comércio internacional. Grandes empresas dispõem de departamentos jurídicos, financeiros e técnicos capazes de cumprir as exigências dos mercados externos, enquanto pequenos produtores e exportadores precisam arcar com custos fixos que podem tornar inviável uma operação internacional.

<><> Mulheres ainda têm participação reduzida no comércio

Outro desafio apontado pelos pesquisadores é a desigualdade de gênero. Embora a participação das mulheres indianas na força de trabalho tenha aumentado, menos de 5% das trabalhadoras atuam diretamente no comércio e em serviços relacionados. A presença feminina também continua limitada em posições de gestão e em atividades como obtenção de financiamento e negociação direta com compradores internacionais. Os acordos comerciais mais recentes procuram enfrentar parte desse problema. Tratados negociados pela Índia com parceiros como Reino Unido, União Europeia, Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA) e Omã incorporam, em diferentes graus, medidas relacionadas a pequenas empresas, desenvolvimento sustentável, cooperação econômica e participação das mulheres.

Os mecanismos, entretanto, não são uniformes. O acordo entre Índia e Reino Unido prevê um capítulo específico dedicado à igualdade de gênero e a criação de um grupo de trabalho sobre o tema. Já o entendimento com a União Europeia contempla medidas destinadas a favorecer a participação feminina, mas não estabelece um capítulo específico nem um grupo de trabalho dedicado exclusivamente à questão. Para Kumar e Bhowmick, a diferença demonstra que incluir princípios de igualdade nos textos dos acordos é apenas o primeiro passo. Para produzir efeitos concretos, esses compromissos precisam ser acompanhados por instrumentos de implementação, acompanhamento e avaliação dos resultados.

<><> Setores intensivos em trabalho podem gerar oportunidades

A expansão das exportações indianas pode beneficiar especialmente setores intensivos em mão de obra, nos quais pequenas empresas e mulheres têm maior possibilidade de participação. Entre eles estão têxteis, vestuário, joias, alimentos processados, couro, produtos marinhos e horticultura. O acesso preferencial a grandes mercados pode aumentar as exportações e estimular a criação de empregos nesses segmentos. No entanto, os pesquisadores ressaltam que os benefícios dependerão da capacidade das empresas menores de superar barreiras relacionadas ao crédito, à certificação, aos padrões sanitários e técnicos e à conexão com compradores internacionais.

Existe também um problema de informação. A ausência de dados suficientemente detalhados sobre o porte e a propriedade das empresas exportadoras dificulta avaliar se os benefícios concedidos pelos acordos estão efetivamente chegando às micro e pequenas companhias e aos negócios liderados por mulheres. Sem esse acompanhamento, um acordo comercial pode produzir crescimento agregado das exportações sem necessariamente ampliar a inclusão econômica. Grandes empresas podem capturar parcela significativa dos benefícios enquanto pequenos produtores continuam enfrentando dificuldades para entrar nas cadeias globais de valor.

<><> Regras ambientais criam novos desafios

A crescente incorporação de padrões ambientais ao comércio internacional adiciona outra camada de complexidade. Mecanismos como o ajuste de carbono adotado pela União Europeia e as regras europeias contra produtos associados ao desmatamento exigem sistemas de rastreamento, produção de dados e comprovação de conformidade ambiental. Embora essas medidas tenham objetivos ambientais, seus custos podem pesar proporcionalmente mais sobre empresas menores, que frequentemente não dispõem de equipes especializadas ou recursos financeiros suficientes para cumprir as novas exigências. Sem políticas de apoio, padrões mais rigorosos podem acabar funcionando como barreiras adicionais à entrada de pequenos exportadores nos mercados desenvolvidos. Por isso, Kumar e Bhowmick defendem que a política comercial seja acompanhada por financiamento acessível, capacitação, infraestrutura de testes e certificação, facilitação digital do comércio e produção de dados detalhados sobre quem efetivamente se beneficia dos acordos.

A experiência indiana aponta, assim, para uma transformação mais ampla da política comercial. Os acordos de livre comércio deixam de ser avaliados exclusivamente pelo volume de exportações ou pela redução de tarifas e passam a ser observados também por sua capacidade de gerar empregos, integrar pequenas empresas às cadeias globais e ampliar a participação econômica das mulheres. O desafio será transformar os compromissos negociados nos tratados em resultados mensuráveis. Para a Índia, que procura ampliar sua integração à economia mundial sem deixar de lado seus objetivos de desenvolvimento, o sucesso dessa nova geração de acordos dependerá justamente de como os ganhos do comércio serão distribuídos dentro do país.

¨      China e Índia buscam administrar rivalidade e evitar novas rupturas, aponta análise da Vivekananda International Foundation

A visita do presidente chinês, Xi Jinping, a Nova Délhi nos dias 12 e 13 de setembro, durante a cúpula dos BRICS, em Nova Déli, a primeira em sete anos e também a primeira desde o confronto de Galwan, em 2020, marcou uma nova etapa na tentativa de estabilização das relações entre China e Índia. A avaliação, no entanto, é de que o encontro não representou um “reset” nas relações entre as duas potências asiáticas, mas uma tentativa pragmática de administrar divergências e evitar novas rupturas. A análise é de Rahul Pandey, pesquisador associado da Vivekananda International Foundation (VIF), que examinou fontes em língua chinesa para identificar como a visita de Xi e a atual aproximação sino-indiana são percebidas pela comunidade estratégica de Pequim. Segundo Pandey, apesar da melhora do ambiente diplomático, acadêmicos chineses continuam cautelosos diante das profundas divergências que marcaram a relação bilateral nos últimos anos.

A posição oficial chinesa é mais otimista. Durante o encontro entre Xi e o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, Pequim enfatizou que China e Índia devem enxergar uma à outra como “parceiras, e não rivais” e como oportunidades de desenvolvimento, em vez de ameaças. A estratégia chinesa está apoiada em quatro prioridades: percepção estratégica adequada, cooperação mutuamente benéfica, administração das divergências — incluindo a questão fronteiriça — e maior coordenação nas instituições multilaterais.

<><> Confiança continua sendo principal obstáculo

Entre os especialistas chineses, porém, prevalece uma avaliação mais cautelosa. Há um reconhecimento de que as relações se afastaram do ambiente de confronto estabelecido após os choques no vale de Galwan, mas poucos analistas descrevem a atual fase como uma verdadeira redefinição dos vínculos bilaterais. Em vez disso, falam em estabilização cautelosa, reaproximação econômica pragmática e continuidade da competição estratégica. Lin Minwang, vice-diretor do Instituto de Estudos Internacionais da Universidade Fudan, avalia que as relações melhoraram em termos gerais, mas considera que reconstruir a confiança continua sendo um dos problemas mais difíceis. Divergências históricas, a disputa fronteiriça e as consequências políticas dos confrontos recentes enfraqueceram as bases sociais e políticas da relação. Cúpulas de alto nível podem estabilizar os vínculos, mas não são suficientes para apagar anos de desconfiança.

A economia aparece como um dos principais motores da reaproximação. Xie Chao, pesquisador do Centro de Estudos do Sul da Ásia da Universidade Fudan, relaciona a mudança de ambiente ao debate ocorrido na própria Índia sobre os custos econômicos da confrontação com a China. Setores da indústria eletrônica indiana, por exemplo, manifestaram preocupação com os impactos das restrições às empresas chinesas sobre a produção e o emprego. Segundo essa interpretação, Nova Délhi continua interessada em desenvolver sua própria capacidade industrial e diminuir uma dependência excessiva da China, mas enfrenta dificuldades porque empresas chinesas ocupam posições importantes em segmentos como máquinas, componentes, eletrônicos, energias renováveis e cadeias industriais. A retomada seletiva das relações econômicas com Pequim seria, portanto, compatível com uma estratégia indiana de diversificação.

<><> Índia busca coexistir e competir

Liu Zongyi, diretor do Centro de Estudos do Sul da Ásia do Instituto de Estudos Internacionais de Xangai, utiliza a expressão “coexistência competitiva” para descrever a estratégia indiana. Em sua avaliação, a Índia não pretende realizar um desacoplamento econômico completo da China, mas também não deseja ingressar no campo estratégico de Pequim. Nova Délhi procura manter o diálogo enquanto continua competindo com a China nos terrenos econômico, político e estratégico.

Nesse contexto, o BRICS oferece um espaço especialmente relevante. O bloco permite que China e Índia cooperem em áreas como finanças, comércio, pagamentos transfronteiriços, moedas locais, clima e financiamento do desenvolvimento mesmo quando persistem divergências sobre fronteiras, investimentos, tecnologia e estratégias regionais. A cooperação, porém, continuará sujeita a negociações e disputas, sem eliminar automaticamente os pontos de atrito. A participação indiana no BRICS tampouco deve ser interpretada como um afastamento dos Estados Unidos. Zhu Jiejin, da Universidade Fudan, considera que a Índia procura se posicionar como um polo autônomo no sistema internacional, preservando liberdade de movimento entre diferentes centros de poder. Assim, uma melhora nas relações com Pequim não significa necessariamente distanciamento de Washington, da Europa, do Japão ou de outros parceiros do Indo-Pacífico. Essa autonomia ajuda a explicar por que a Índia consegue participar simultaneamente de diferentes arranjos internacionais. O objetivo de Nova Délhi, nessa interpretação, seria evitar dependência excessiva de qualquer grande potência e preservar espaço para defender seus próprios interesses em uma ordem internacional cada vez mais multipolar.

<><> Competição sem ruptura

A leitura oficial de Pequim enfatiza as possibilidades de cooperação. Durante o encontro em Nova Délhi, Xi e Modi concordaram que China e Índia devem se enxergar como parceiras, e não adversárias. Analistas chineses também destacam que os encontros sucessivos entre os dois líderes — em Kazan, em 2024; Tianjin, em 2025; e Nova Délhi, em 2026 — indicam maior continuidade do diálogo político entre as duas maiores nações da Ásia. Para Pandey, a visita de Xi não significou um retorno ao período de maior otimismo nas relações sino-indianas, mas tampouco pode ser reduzida a um encontro meramente cerimonial. Ela faz parte de uma tentativa mais modesta e potencialmente relevante de estabelecer regras para administrar a rivalidade. A comunidade estratégica chinesa parece reconhecer que a Índia dificilmente se alinhará a Pequim, assim como Nova Délhi não aceitará que suas preocupações de segurança sejam simplesmente ignoradas. O terreno possível para a relação passa, portanto, por permitir que a competição continue sem provocar sucessivos colapsos políticos e diplomáticos — uma fórmula de coexistência que pode ganhar importância não apenas para China e Índia, mas também para o BRICS e para o conjunto do Sul Global.

 

Fonte: Brasil 247

 

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