terça-feira, 29 de setembro de 2026

O “modelo Bukele”

Muito se tem falado sobre Nayib Bukele no período eleitoral brasileiro de 2026. Desde condutores de Uber tentando explicar as maravilhas que Bukele fez em El Salvador, passando pela mídia nacional e internacional fazendo reportagens sobre o “novo” país, até menções de candidatos presidenciais no Brasil propondo e se inspirando no “modelo Bukele” em seus planos de governo e em entrevistas; parece que Nayib Bukele tem as soluções para todos os problemas no Brasil. Mas o que é, realmente, esse “modelo Bukele” que tem sido amplamente abraçado pela ultradireita e timidamente criticado pela esquerda brasileira?

É importante entender que esse “modelo de segurança pública” está muito longe de ser uma política pública sustentável e baseada em fatos. Muito pelo contrário. A ordem pública instaurada por Nayib Bukele deriva de um pacto clandestino com as gangues, de um oportunismo eleitoral e da captura dos três poderes do Estado, o que confere uma plasticidade inerente às narrativas disseminadas e às ações implementadas, que se adaptam a diferentes aspectos da vida, como, por exemplo à economia (efeitos da adoção do Bitcoin), à religião (instrumentalização de discursos messiânicos), à vida cotidiana (militarização permanente de bairros) e ao lazer (entretenimento como legitimação)

Os resultados e a efetividade mostrados amplamente pelo político salvadorenho são simplesmente a ponta do iceberg, mas há muitos componentes submersos que não são percebidos: mais de 123,830 pessoas presas até junho de 2026 (representando um pouco mais de 2% da população do país); 554 casos de mortes no interior das prisões desde o inicio do Estado de Exceção em março de 2022 (mortes que o governo não reconhece); o governo utilizou mais de 622 milhões de dólares para comprar um aproximado de 7.743 bitcoins (que passaram a ter um valor aproximado de 492 milhões de dólares, ou seja, se gastou mais do que se ganhou); a mineração de metais a céu aberto voltou a ser legalizada em dezembro de 2024, colocando em risco as fontes de água que abastecem mais de 60% da população.

Outro exemplo disto é a posição que Nayib Bukele tem adotado em relação à população LGBTQIA+ desde que era prefeito da capital do país, São Salvador, até se reeleger inconstitucionalmente como presidente.

Em novembro de 2014, quando era candidato a prefeito de São Salvador, Nayib Bukele se vendia como uma pessoa progressista, chegando a afirmar que “a luta pelos direitos civis em nossa época é a luta da comunidade LGBTI” e que queria “estar do lado certo da história” em uma reunião com a Associação Geração Homens Trans El Salvador. Durante a reunião, Nayib Bukele prometeu que, uma vez que chegasse ao poder, eliminaria toda a discriminação no governo e nas instituições municipais, buscando mudar o tratamento que pessoas trans e travestis recebiam em espaços públicos por parte do Corpo de Agentes Metropolitanos (CAM), a força de segurança do município.

Nayib Bukele ganhou as eleições municipais com 53,6% dos votos sob a bandeira do partido de esquerda e ex-guerrilheiro, FMLN (Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional). Uma vez no poder, essas promessas não foram institucionalizadas de forma permanente no organograma da prefeitura. Apesar de ter criado a Secretaria Municipal da Mulher em 2016, as demandas da população LGBTQIA+ foram bloqueadas ou ignoradas pela administração.

Essa aproximação aos grupos LGBTQIA+ foi apenas uma utilização desses coletivos para obter maior apoio na campanha eleitoral. Ativistas têm denunciado que a reunião foi organizada pela própria equipe de campanha de Nayib Bukele. Devido à efetividade dessa primeira reunião, alguns coletivos foram convidados para a elaboração do seu plano de governo municipal, intitulado “Novas Ideias para os Novos Tempos”, que incluía o eixo “Cidade Inclusiva”. No entanto, quando Bukele chegou ao poder, recusou-se a continuar os diálogos com os coletivos, bem como a cumprir as promessas feitas.

Nessa postura de Nayib Bukele, observa-se como o oportunismo político encontra oportunidades políticas e se desenvolve em conjunto com a maleabilidade de suas ações. Bukele se vendeu como um “aliado” das populações LGBTQIA+ salvadorenhas para obter seu apoio na campanha eleitoral; ao mesmo tempo, buscou limitar as polêmicas ou confrontos diretos com grupos mais conservadores, como fundamentalistas religiosos ou grupos “pró-vida”, que também apoiavam sua campanha, ao não cumprir as promessas feitas aos coletivos.

Tudo isso foi possível graças a um manejo cuidadoso e planejado de suas mensagens nas redes sociais, que têm sido um eixo fundamental na consolidação de sua imagem, tanto nacional quanto internacionalmente.

A trajetória política de Nayib Bukele revela uma transição calculada entre a construção discursiva de uma liderança progressista e a consolidação de um projeto autoritário que esvazia os compromissos políticos com os princípios democráticos.

Sua mudança progressiva que começa em 2017 com sua expulsão do FMLN e se consolida com a legalização de seu próprio partido de corte neoliberal, Nuevas Ideas, em 2018, não implicou apenas uma ruptura organizacional, mas também uma mutação e uma revelação narrativa: de autoproclamado aliado da “luta pelos direitos civis do nosso tempo”, ele passou a reduzir as demandas políticas da população LGBTQIA+ a menções tangenciais em seu programa de governo para o período presidencial constitucional, o Plan Cuscatlán.

Nayib Bukele foi eleito presidente em 2019 sob a bandeira de GANA (Grande Aliança pela Unidade Nacional), um partido conservador de direita. O início de seu governo foi marcado pela eliminação da Secretaria de Inclusão Social e pela transferência das questões LGBTQIA+ ao Ministério da Cultura. Essa foi uma mudança decisiva, pois substituiu uma instituição com responsabilidades específicas por uma unidade com funções meramente administrativas e discursivas, desprovida de qualquer capacidade efetiva de influenciar políticas públicas.

A trajetória das identidades LGBTQIA+ sob o governo de Nayib Bukele em El Salvador aponta para um cenário de profunda marginalização estrutural. A deriva autoritária do regime revela que, sob o pretexto de modernização e eficiência, houve um desmantelamento institucional sistemático dos mecanismos básicos que permitiam às pessoas LGBTQIA+ se expressarem, ainda que minimamente, como sujeitos de direitos.

Esse apagamento não é meramente administrativo; faz parte de uma estratégia de controle social, na qual a invisibilidade política opera como meio de neutralizar as categorias de orientação sexual, identidade de gênero e expressão de gênero da cena pública.

Na prática, isso significa que o Estado salvadorenho, sob Nayib Bukele, relegou identidades sexuais e de gênero dissidentes a um espaço de subcidadania, em que sua existência é tolerada apenas na medida em que não desafiam a ordem sexual, moral, estética e política do regime.

A eliminação de instituições governamentais com capacidade de influenciar a questão (como a Secretaria de Inclusão Social), a ausência de legislação que garanta o reconhecimento institucional de identidades diversas, redução do tema a atividades culturais periféricas, a censura estatal velada a expressões artísticas dissidentes e o fechamento de espaços de encontro e troca para pessoas LGBTQIA+ consolidam o que poderia ser chamado de um modelo de “armário institucional autoritário”.

Esse modelo foi estruturado por meio dos autoataques institucionais do Ministério da Educação para eliminar, em outubro de 2022, a política nacional de Educação Integral da Sexualidade, que, no mínimo, ensinava a existência de diferentes orientações sexuais. O Ministério da Saúde removeu, em fevereiro de 2024, as categorias “transgênero”, “bissexual” e “HSH” (homens que fazem sexo com homens) de diversos documentos e protocolos institucionais, por meio da estratégia de “atualização” das políticas institucionais.

Esse modelo de armário institucional autoritário foi consolidado pela declaração pública de Bukele na conferência do CPAC (Conservative Political Action Conference) de 2024, na qual afirmou que a “ideologia de gênero” seria combatida durante seu segundo mandato presidencial inconstitucional.

Se essa tendência continuar, o futuro imediato não será tanto o desaparecimento das identidades LGBTQIA+ em El Salvador, que resistem nas margens e em redes comunitárias, quanto sua transformação em objetos de suspeita, criminalização e perseguição dentro de um Estado que normaliza corpos, prazeres e subjetividades de acordo com princípios nada democráticos. Esse é o modelo Bukele que se esconde por trás da propaganda nas redes digitais.

Na América Latina, é evidente que, sob líderes autoritários com forte apoio popular, a estigmatização das diferenças sexuais e de gênero se torna terreno fértil para a mobilização de discursos de ódio. Em El Salvador, a reeleição inconstitucional de Bukele em 2024 abriu a possibilidade de que essa estratégia de apagamento institucional se intensifique, tanto cultural quanto juridicamente, por meio de omissões deliberadas, censura sutil e crescente criminalização de expressões dissidentes, além da violência perpetrada pelas forças de segurança pública contra membros da população LGBTQIA+.

Em resumo, a trajetória das identidades LGBTQIA+ sob o governo de Nayib Bukele está se configurando como uma transição da inclusão simbólica para a exclusão estrutural, em que a negação de direitos se entrelaça com a produção de subjetividades dóceis e a consolidação de um Estado penal máximo que define quais vidas são reconhecíveis e quais devem ser apagadas. Este é o modelo que a direita quer transferir para o Brasil.

 

Fonte: Por Brandon Martínez Serrano, Amaral Arevalo e Marco Aurélio Máximo Prado, em A Terra é Redonda

 

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