O
“modelo Bukele”
Muito
se tem falado sobre Nayib Bukele no período eleitoral brasileiro de 2026. Desde
condutores de Uber tentando explicar as maravilhas que Bukele fez em El
Salvador, passando pela mídia nacional e internacional fazendo reportagens
sobre o “novo” país, até menções de candidatos presidenciais no Brasil propondo
e se inspirando no “modelo Bukele” em seus planos de governo e em entrevistas;
parece que Nayib Bukele tem as soluções para todos os problemas no Brasil. Mas
o que é, realmente, esse “modelo Bukele” que tem sido amplamente abraçado pela
ultradireita e timidamente criticado pela esquerda brasileira?
É
importante entender que esse “modelo de segurança pública” está muito longe de
ser uma política pública sustentável e baseada em fatos. Muito pelo contrário.
A ordem pública instaurada por Nayib Bukele deriva de um pacto clandestino com
as gangues, de um oportunismo eleitoral e da captura dos três poderes do
Estado, o que confere uma plasticidade inerente às narrativas disseminadas e às
ações implementadas, que se adaptam a diferentes aspectos da vida, como, por
exemplo à economia (efeitos da adoção do Bitcoin), à religião
(instrumentalização de discursos messiânicos), à vida cotidiana (militarização
permanente de bairros) e ao lazer (entretenimento como legitimação)
Os
resultados e a efetividade mostrados amplamente pelo político salvadorenho são
simplesmente a ponta do iceberg, mas há muitos componentes submersos que não
são percebidos: mais de 123,830 pessoas presas até junho de 2026 (representando
um pouco mais de 2% da população do país); 554 casos de mortes no interior das
prisões desde o inicio do Estado de Exceção em março de 2022 (mortes que o
governo não reconhece); o governo utilizou mais de 622 milhões de dólares para
comprar um aproximado de 7.743 bitcoins (que passaram a ter um valor aproximado
de 492 milhões de dólares, ou seja, se gastou mais do que se ganhou); a
mineração de metais a céu aberto voltou a ser legalizada em dezembro de 2024,
colocando em risco as fontes de água que abastecem mais de 60% da população.
Outro
exemplo disto é a posição que Nayib Bukele tem adotado em relação à população
LGBTQIA+ desde que era prefeito da capital do país, São Salvador, até se
reeleger inconstitucionalmente como presidente.
Em
novembro de 2014, quando era candidato a prefeito de São Salvador, Nayib Bukele
se vendia como uma pessoa progressista, chegando a afirmar que “a luta pelos
direitos civis em nossa época é a luta da comunidade LGBTI” e que queria “estar
do lado certo da história” em uma reunião com a Associação Geração Homens Trans
El Salvador. Durante a reunião, Nayib Bukele prometeu que, uma vez que chegasse
ao poder, eliminaria toda a discriminação no governo e nas instituições
municipais, buscando mudar o tratamento que pessoas trans e travestis recebiam
em espaços públicos por parte do Corpo de Agentes Metropolitanos (CAM), a força
de segurança do município.
Nayib
Bukele ganhou as eleições municipais com 53,6% dos votos sob a bandeira do
partido de esquerda e ex-guerrilheiro, FMLN (Frente Farabundo Martí de
Libertação Nacional). Uma vez no poder, essas promessas não foram
institucionalizadas de forma permanente no organograma da prefeitura. Apesar de
ter criado a Secretaria Municipal da Mulher em 2016, as demandas da população
LGBTQIA+ foram bloqueadas ou ignoradas pela administração.
Essa
aproximação aos grupos LGBTQIA+ foi apenas uma utilização desses coletivos para
obter maior apoio na campanha eleitoral. Ativistas têm denunciado que a reunião
foi organizada pela própria equipe de campanha de Nayib Bukele. Devido à
efetividade dessa primeira reunião, alguns coletivos foram convidados para a
elaboração do seu plano de governo municipal, intitulado “Novas Ideias para os
Novos Tempos”, que incluía o eixo “Cidade Inclusiva”. No entanto, quando Bukele
chegou ao poder, recusou-se a continuar os diálogos com os coletivos, bem como
a cumprir as promessas feitas.
Nessa
postura de Nayib Bukele, observa-se como o oportunismo político encontra
oportunidades políticas e se desenvolve em conjunto com a maleabilidade de suas
ações. Bukele se vendeu como um “aliado” das populações LGBTQIA+ salvadorenhas
para obter seu apoio na campanha eleitoral; ao mesmo tempo, buscou limitar as
polêmicas ou confrontos diretos com grupos mais conservadores, como
fundamentalistas religiosos ou grupos “pró-vida”, que também apoiavam sua
campanha, ao não cumprir as promessas feitas aos coletivos.
Tudo
isso foi possível graças a um manejo cuidadoso e planejado de suas mensagens
nas redes sociais, que têm sido um eixo fundamental na consolidação de sua
imagem, tanto nacional quanto internacionalmente.
A
trajetória política de Nayib Bukele revela uma transição calculada entre a
construção discursiva de uma liderança progressista e a consolidação de um
projeto autoritário que esvazia os compromissos políticos com os princípios
democráticos.
Sua
mudança progressiva que começa em 2017 com sua expulsão do FMLN e se consolida
com a legalização de seu próprio partido de corte neoliberal, Nuevas Ideas, em
2018, não implicou apenas uma ruptura organizacional, mas também uma mutação e
uma revelação narrativa: de autoproclamado aliado da “luta pelos direitos civis
do nosso tempo”, ele passou a reduzir as demandas políticas da população
LGBTQIA+ a menções tangenciais em seu programa de governo para o período
presidencial constitucional, o Plan Cuscatlán.
Nayib
Bukele foi eleito presidente em 2019 sob a bandeira de GANA (Grande Aliança
pela Unidade Nacional), um partido conservador de direita. O início de seu
governo foi marcado pela eliminação da Secretaria de Inclusão Social e pela
transferência das questões LGBTQIA+ ao Ministério da Cultura. Essa foi uma
mudança decisiva, pois substituiu uma instituição com responsabilidades
específicas por uma unidade com funções meramente administrativas e
discursivas, desprovida de qualquer capacidade efetiva de influenciar políticas
públicas.
A
trajetória das identidades LGBTQIA+ sob o governo de Nayib Bukele em El
Salvador aponta para um cenário de profunda marginalização estrutural. A deriva
autoritária do regime revela que, sob o pretexto de modernização e eficiência,
houve um desmantelamento institucional sistemático dos mecanismos básicos que
permitiam às pessoas LGBTQIA+ se expressarem, ainda que minimamente, como
sujeitos de direitos.
Esse
apagamento não é meramente administrativo; faz parte de uma estratégia de
controle social, na qual a invisibilidade política opera como meio de
neutralizar as categorias de orientação sexual, identidade de gênero e
expressão de gênero da cena pública.
Na
prática, isso significa que o Estado salvadorenho, sob Nayib Bukele, relegou
identidades sexuais e de gênero dissidentes a um espaço de subcidadania, em que
sua existência é tolerada apenas na medida em que não desafiam a ordem sexual,
moral, estética e política do regime.
A
eliminação de instituições governamentais com capacidade de influenciar a
questão (como a Secretaria de Inclusão Social), a ausência de legislação que
garanta o reconhecimento institucional de identidades diversas, redução do tema
a atividades culturais periféricas, a censura estatal velada a expressões
artísticas dissidentes e o fechamento de espaços de encontro e troca para
pessoas LGBTQIA+ consolidam o que poderia ser chamado de um modelo de “armário
institucional autoritário”.
Esse
modelo foi estruturado por meio dos autoataques institucionais do Ministério da
Educação para eliminar, em outubro de 2022, a política nacional de Educação
Integral da Sexualidade, que, no mínimo, ensinava a existência de diferentes
orientações sexuais. O Ministério da Saúde removeu, em fevereiro de 2024, as
categorias “transgênero”, “bissexual” e “HSH” (homens que fazem sexo com
homens) de diversos documentos e protocolos institucionais, por meio da
estratégia de “atualização” das políticas institucionais.
Esse
modelo de armário institucional autoritário foi consolidado pela declaração
pública de Bukele na conferência do CPAC (Conservative Political Action
Conference) de 2024, na qual afirmou que a “ideologia de gênero” seria
combatida durante seu segundo mandato presidencial inconstitucional.
Se essa
tendência continuar, o futuro imediato não será tanto o desaparecimento das
identidades LGBTQIA+ em El Salvador, que resistem nas margens e em redes
comunitárias, quanto sua transformação em objetos de suspeita, criminalização e
perseguição dentro de um Estado que normaliza corpos, prazeres e subjetividades
de acordo com princípios nada democráticos. Esse é o modelo Bukele que se
esconde por trás da propaganda nas redes digitais.
Na
América Latina, é evidente que, sob líderes autoritários com forte apoio
popular, a estigmatização das diferenças sexuais e de gênero se torna terreno
fértil para a mobilização de discursos de ódio. Em El Salvador, a reeleição
inconstitucional de Bukele em 2024 abriu a possibilidade de que essa estratégia
de apagamento institucional se intensifique, tanto cultural quanto
juridicamente, por meio de omissões deliberadas, censura sutil e crescente
criminalização de expressões dissidentes, além da violência perpetrada pelas
forças de segurança pública contra membros da população LGBTQIA+.
Em
resumo, a trajetória das identidades LGBTQIA+ sob o governo de Nayib Bukele
está se configurando como uma transição da inclusão simbólica para a exclusão
estrutural, em que a negação de direitos se entrelaça com a produção de
subjetividades dóceis e a consolidação de um Estado penal máximo que define
quais vidas são reconhecíveis e quais devem ser apagadas. Este é o modelo que a
direita quer transferir para o Brasil.
Fonte:
Por Brandon Martínez Serrano, Amaral Arevalo e Marco Aurélio Máximo Prado, em A
Terra é Redonda

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