terça-feira, 29 de setembro de 2026

'Silêncio dos neurônios' ajuda a prever e evitar crises epilépticas

Uma equipe internacional de pesquisadores descobriu que o cérebro apresenta uma pausa prolongada na atividade dos neurônios momentos antes de uma crise epiléptica. Essa "calmaria" funciona como um marcador confiável para prever convulsões, permitindo intervenções que podem reduzir a duração das crises.

A descoberta, publicada na revista "Scientific Reports", abre novas perspectivas para o tratamento da epilepsia. A doença neurológica, que afeta cerca de 52 milhões de pessoas no mundo, é caracterizada por descargas elétricas anormais que causam convulsões.

Fernando da Silva Borges, pesquisador da Universidade Federal do ABC (UFABC) e coautor do artigo, explica que o silenciamento dos neurônios já havia sido observado. O novo estudo confirmou o fenômeno em pacientes e em modelos computacionais.

A pesquisa descreveu como a dinâmica dos canais de potássio, que atuam como freios para a excitabilidade elétrica, está ligada à sincronização neuronal antes e durante as crises. Isso permitiu explicar a formação do padrão neural e propor seu uso como biomarcador.

Em simulações, o uso do silêncio neuronal como gatilho para intervenções, como estímulos elétricos, reduziu a duração das crises em até 93%. O trabalho contou com pesquisadores da UEPG, USP, UFABC e da Universidade Estadual de Nova York, com apoio da FAPESP, CNPq e dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos.

Nova abordagem terapêutica

Dados indicam que entre 30% e 40% dos pacientes não respondem aos mais de 30 medicamentos aprovados para epilepsia. Nesses casos, uma alternativa é a estimulação cerebral, que modula os impulsos elétricos por meio de eletrodos implantados.

A nova descoberta permite unir um dispositivo e um tratamento já existentes. A ideia é prever e intervir antes que a tempestade neuronal aconteça.

O silêncio neuronal antecede uma crise entre 40 e 160 milissegundos. Segundo Borges, o tempo é curto, mas suficiente para disparar um estímulo elétrico de forma automatizada antes do início da convulsão.

Dispositivos atuais, como o estimulador do nervo vago, só detectam a crise quando ela já começou. A proposta é usar esse tipo de equipamento para identificar o novo biomarcador e acionar a neuromodulação antes que a crise ocorra.

Uma pequena corrente elétrica "acordaria" os neurônios, evitando que o fluxo de potássio nas células caia a níveis críticos. O estímulo afeta apenas 1% dos neurônios responsáveis por excitar a atividade cerebral, o que se mostrou suficiente para encurtar as convulsões.

“O dispositivo interviria, portanto, de forma preventiva e automatizada, utilizando a eletricidade para interromper o processo biológico que leva à crise antes mesmo de ela acontecer. Isso é um grande ganho, pois sabemos que as convulsões podem desencadear diversos tipos de sequelas. Evitar que elas ocorram é extremamente positivo para a saúde e a qualidade de vida dessas pessoas”, afirma Borges.

•        4 sinais que podem indicar crises de epilepsia

A epilepsia é um distúrbio neurológico caracterizado por crises recorrentes, que podem afetar qualquer pessoa e em qualquer idade. Embora a doença tenha tratamento, muitas pessoas ainda enfrentam dificuldades no diagnóstico e na compreensão da condição, tanto pela população geral quanto por parte de familiares e até profissionais de saúde.

Em 26 de março celebra-se o Dia Mundial de Conscientização da Epilepsia, cujo objetivo é reduzir o estigma que envolve a doença, como explica o Dr. Mario Braga, neurocirurgião e professor do curso de Medicina da Faculdade Pitágoras.

“As crises epilépticas podem ser imprevisíveis e, em muitos casos, bastante dramáticas. Quando uma pessoa presencia uma crise, pode ficar assustada ou sem saber como reagir. Esse medo pode ser amplificado pela falta de conhecimento sobre como lidar com a situação”, esclarece.

As crises podem variar significativamente de pessoa para pessoa, dependendo do tipo e da gravidade. Embora o primeiro sinal mais comum de epilepsia sejam as crises convulsivas, existem diferentes tipos delas, e é importante estar atento aos sintomas.

Entre os principais sinais que podem apontar para crises de epilepsia, estão:

>>>> 1. Crises tônicas-clônicas

Esse tipo de crise é o mais conhecido, caracterizado por perda de consciência e movimentos involuntários, como espasmos musculares, rigidez e tremores. A pessoa pode cair e, durante a crise, pode morder a língua ou ter dificuldade para respirar.

>>>> 2. Crises de ausência

Frequentemente observadas em crianças, essas crises são breves e podem ser confundidas com distração. A pessoa pode parecer “desligada” por alguns segundos, sem resposta aos estímulos ao seu redor. Não há movimentos visíveis, mas a pessoa perde temporariamente o contato com o ambiente.

>>>> 3. Crises parciais ou focais

Neste tipo de crise, a atividade elétrica anormal no cérebro afeta uma área específica. A pessoa pode apresentar sintomas como movimentos involuntários em um lado do corpo, sensações estranhas (como alucinações auditivas ou visuais) ou sensação de déjà-vu. O paciente pode também ter episódios de confusão após a crise.

>>>> 4. Alterações no comportamento ou consciência

Em alguns casos, a pessoa pode não ter convulsões evidentes, mas pode apresentar alterações temporárias no comportamento ou na consciência, como perda de memória ou estados de confusão.

<><> Como agir durante uma crise convulsiva

O Dr. Mario Braga explica que, durante as crises, é preciso manter a calma e garantir que a pessoa esteja segura, além de acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU). “Não tente segurar a pessoa ou impedir seus movimentos, pois isso pode causar lesões. Coloque um objeto macio sob a cabeça da pessoa para protegê-la de contusões […]”, ensina.

Além disso, o médico ressalta a importância de não colocar nada na boca do paciente. “Embora muitas pessoas acreditem que é necessário colocar algo na boca para evitar mordidas na língua, isso pode ser perigoso. Caso a crise dure mais de 5 minutos ou a pessoa não recupere a consciência, procure ajuda médica imediatamente”, destaca.

Tratamento para a epilepsia

Embora não haja cura para a epilepsia, o tratamento adequado pode ajudar a controlar as crises e geralmente inclui medicamentos antiepilépticos, que ajudam a reduzir a frequência e a gravidade das crises. Além disso, em alguns casos, opções como cirurgia, dieta balanceada ou estimulação elétrica podem ser recomendadas. O acompanhamento médico contínuo é essencial para ajustar o tratamento conforme necessário.

 

Fonte: Agência Fapesp/Correio Braziliense

 

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