A
desumanização do povo venezuelano
Em
meados de julho deste ano o Escritório do Representante Comercial dos Estados
Unidos (USTR, na sigla em inglês) informou o fim da investigação aberta há um
ano sobre as práticas comerciais brasileiras. Por considerar que adotamos
práticas comerciais injustas, o USTR anunciou a aplicação de tarifas de 25%
sobre um conjunto de produtos que exportamos aos Estados Unidos.
Ratificadas
pelo presidente Donald Trump, as taxas entraram em vigor uma semana após o seu
anúncio. Retomada dos ataques à economia brasileira, essa decisão recrudesceu a
interferência do governo Donald Trump em nossa autodeterminação política. No
ano passado, a economia e a autodeterminação política brasileiras já haviam
sido alvo de ataques e interferências por parte do governo dos EUA.
Em
março de 2025, Donald Trump impôs tarifas de 25% para todas as importações de
aço e alumínio aos Estados Unidos. No mês seguinte, anunciou uma taxa-base de
10% sobre os produtos importados do Brasil, acrescida, em julho, de uma tarifa
adicional de 40% a alguns produtos. Apesar de uma lista excetuando cerca de 700
itens, somou-se uma taxação de 50% aos produtos brasileiros, derrubada no
início de 2026 pela Suprema Corte dos EUA.
Embora
a imposição de taxações alfandegárias seja um componente ideológico do governo
de Donald Trump e constitua estratégia geopolítica de coerção econômica e
protecionismo, o que foi uma de suas principais promessas de campanha, os
tarifaços impostos ao Brasil possuem elementos e atores políticos homólogos aos
assédios, bloqueios e interferências estadunidenses impostos à economia e à
política de Cuba e da Venezuela, aspecto deliberadamente não abordado pela
maioria dos agentes do debate público nacional.
Há
tempos as frações dominantes do debate político brasileiro estabeleceram a
Venezuela como o lugar geométrico onde operam a redução da imaginação e do
pensamento político e social. Com o objetivo de fixar a história recente como
um referencial negativo e desvirtuado em relação à democracia, aos direitos
humanos e à economia, operam a simplificação da realidade venezuelana. A
experiência político-social do povo venezuelano foi sistematicamente convertida
em um topos facilmente acessado quando se deseja interditar o debate recorrendo
à operacionalização de ideias de “ameaça”, “crise”, “desamparo”, “fracasso”,
“perigo”, “perversão”, “violência” e todos esses afetos e paixões do medo.
Todas
as frações das direitas do campo político e os meios hegemônicos de comunicação
erigiram sistematicamente este topos. Contribuindo ativamente para sua
consolidação, articulam continuamente seus sentidos. Sob esta operação, a
“Venezuela” foi forjada como o espécime perfeito do mal político iminente.
Antes, haitianos (século XVIII), cubanos (século XX) e suas respectivas
revoluções cumpriram esse papel.
Nas
campanhas eleitorais de 2002 e 2010, José Serra (PSDB) afirmava a possibilidade
de o Brasil virar uma “Venezuela” sob governos do Partido dos Trabalhadores
(PT). Jair Bolsonaro (PL) recorreu sistematicamente a esse expediente em sua
campanha de 2018 e durante seu mandato. Assim que assumiu, ele estabeleceu a
frase “O socialismo expulsa, o Brasil acolhe” como lema oficial para promoção
da Operação Acolhida, força-tarefa
que desde 2018 atua no ordenamento da fronteira do Brasil com a Venezuela, em
Roraima, e no abrigamento e interiorização de imigrantes venezuelanos.
Também
grandes frações do centro e das esquerdas do campo político brasileiro se
renderam a acessar o topos “Venezuela” em seus debates, recorrendo a absurdas
comparações de Bolsonaro a Hugo Chávez (1954-2013) e defendendo um afastamento
e, em alguns casos, rupturas em relação aos partidos, movimentos sociais e
militantes da Revolução Bolivariana. Testemunhamos a lamentável capitulação de
parte da esquerda brasileira diante do compromisso ético e prático de disputa e
verificação contínua das consequências civilizacionais e das redenções e
tentativas de interrupções de catástrofes que a Revolução Bolivariana tem sido
capaz de fazer.
Apesar
das diferenças de direção de cada uma dessas frações no movimento ou
referencial adotado em relação ao topos “Venezuela”, elas possuem como centro
de massa, ponto onde entram em situação de equilíbrio estático e que serve de
bastão de apoio para suas relações com a complexa diversidade venezuelana, a
simplificação da realidade política, econômica e social deste país, bem como um
desconhecimento histórico e cultural de seus povos, comunidades e comunas.
Daí os
equívocos de grande parte do trabalho realizado por analistas políticos acerca
dos tarifaços de Donald Trump sobre a economia brasileira e suas consequências.
As homologias entre as atuais situações políticas de Brasil e Venezuela não se
encontram na aproximação, no apoio e na defesa da Revolução Bolivariana e do
chavismo, onde os partidários de esquerda e de direita dos afetos e paixões do
medo agenciados pelo topos “Venezuela” diziam encontrar-se.
Ainda
assim, uma opacidade permanece a cobrir o espaço social onde se encontram as
circunstâncias e atores políticos que mais ativamente produziram decaimentos
políticos, econômicos e sociais na Venezuela e nos quais encontramos as
homologias com a produção do tarifaço e de outros ataques à autonomia política,
social e econômica do povo brasileiro.
Quando
tratamos dos governos dos Estados Unidos, a maior obscenidade sempre é a
próxima. Pouco mais de três meses após o “Dia da Libertação” (2/4/2025)
proclamado por Donald Trump, o mandatário ianque endereçou ao presidente Luís
Inácio Lula da Silva (PT) uma carta em que estão explícitas as coordenadas para
identificarmos os pontos estrutural e contingencialmente comuns a Brasil e
Venezuela.
Desde a
carta de 2026, Donald Trump estabeleceu retaliação econômica ao Brasil baseada
em acusações de censura e ingerência jurisdicional sobre big techs
estadunidenses; provocou ruptura comercial e deslegitimação da política
comercial brasileira; instituiu coerção econômica para subordinação produtiva e
desqualificação de nossa autonomia industrial; indicou adoção de escalada
retaliatória; e classificou um falso déficit comercial como “ameaça à
segurança nacional” dos Estados Unidos.
A
ofensiva contra o povo brasileiro é justificada em diferentes espaços como um
ineditismo da gestão de Donald Trump. Um equívoco diante da tradição da
política externa adotada pelos governantes do Estados Unidos. Quando Donald
Trump impôs os “tarifaços” e passou a tratar o Brasil como uma “ameaça à
segurança nacional”, repetiu o gesto de Barack Obama ao classificar a Venezuela
como uma “ameaça incomum e extraordinária” à segurança dos Estados Unidos, em
2015, renovando um decreto que serviu de base jurídica para o endurecimento das
sanções econômicas ao povo venezuelano.
O
governo dos EUA criou um conflito econômico com o Brasil e em seguida o elevou
a pretexto geopolítico para justificar unilateralismo e nos pressionar à
submissão total. Diante disso, a grande imprensa brasileira assumiu seu papel
histórico de fabricação artificial da opinião pública, defendendo seus
interesses e administrando a verdade como quem faz análise.
Essa
análise fragmentada e artificial da imprensa burguesa nacional não tem
permitido que emerja no debate público que as medidas impostas pelo governo dos
Estados Unidos ao povo brasileiro são homólogas àquelas tomadas em relação à
Revolução Bolivariana e, antes delas, à Revolução Cubana, bem como são
homólogas as assinaturas daqueles que atuam para estabelecê-las ou as apoiam.
Dois
pilares inconfessáveis sustentam essa situação, que é uma diretriz de negócio
na imprensa brasileira. O primeiro é a defesa de interesses econômicos e
políticos próprios, mas subordinados e dependentes da burguesia internacional.
O segundo é mais constrangedor, pois envolve ter que admitir que suas
narrativas sobre Venezuela e Cuba são unilaterais e factuais apenas na medida
em que servem à desestabilização de governos populares. Admitir que as sanções
impostas aos povos venezuelano e cubano são crimes de lesa-humanidade seria o
reconhecimento de ter as mãos metidas na ingerência externa que, como destacou
o presidente cubano Miguel Díaz-Canel em entrevista recente, asfixiam esses
povos, suas comunidades e territórios.
Em
evento organizado pelo Centro de Estudios para la Democracia Socialista (Cedes)
no início de agosto, Elías Jaua, que foi vice-presidente de Hugo Chávez,
relembrou as várias vezes em que a direita venezuelana desconheceu resultados
de eleições legítimas, promoveu enfrentamentos e confrontações, e pediu ou
apoiou sanções econômicas e intervenções militares e paramilitares.
No
Brasil, essa maneira de fazer política encontrou no bolsonarismo uma forma
explícita de anulação sistemática de capacidades críticas ou independentes.
Nossa imaginação política e social foi vertiginosamente vilipendiada ao ponto
de cerca de um quarto da população não se importar em dispor à tutela externa a
sua consciência política e a sua liberdade de organização. Tal qual personagens
da direita venezuelana como Henrique Capriles, Juan Guaidó ou María Corina
Machado, a família Bolsonaro e seus associados agem progressivamente em conluio
com os interesses estadunidenses.
Ao
mesmo tempo em que legitima cada ato contrário à democracia radical
venezuelana, a grande imprensa brasileira operou uma falsa simetria entre Jair
Bolsonaro e Hugo Chávez, fingindo não enxergar o abismo intelectual, cultural,
social e de comprometimento com a justiça social e com os condenados da terra
que separa o homem do capitão. A comparação correta, que a imprensa insiste em
ocultar, é aquela que alinha as direitas nos dois países, as quais, no Brasil,
apoiaram o golpe contra Dilma Rousseff, embarcaram no bolsonarismo,
sequestraram o orçamento público e destroem, dia após dia, a confiança nas
políticas públicas.
Certa
vez, o historiador Tony Leão da Costa me disse que a busca por paralelos justos
na história da América Latina e do Caribe nunca poderia nos levar de Bolsonaro
a Chávez, mas aos Fujimori, no Peru, ou aos Duvalier, no Haiti. Nesses três
casos, temos famílias e governos marcados pela degradação institucional, pela
corrupção sistêmica, pelo terror e pela violência extrema.
Os
trinta anos de governo dos Duvalier no Haiti estão no quadro da experiência
social de isolamento político, sanções e dívidas coloniais que foi imposto ao
país como uma punição por seu povo ter empreendido uma revolução anticolonial
que assombra as elites mundiais até hoje. Atualmente, o mesmo método está sendo
aplicado ao povo venezuelano, confiscando seu petróleo e ouro e impondo-lhe uma
reestruturação financeira que irá condená-lo a pagar uma dívida de US$ 240
bilhões por cinquenta anos, o que implica o asfixiamento de sua economia.
O
geógrafo Yves Lacoste (1929-2026) denominou “geografismo” a prática discursiva
que substitui as pessoas pelos territórios, personificando países e
desumanizando seus povos e comunidades. Sempre que aciona o topos “Venezuela”,
a grande imprensa brasileira incorre nesta prática, legitimando os ataques
imperialistas ao povo venezuelano por meio de sanções, bloqueio financeiro,
confisco de ativos, deslegitimação midiática e ameaça militar, práticas também
direcionadas para os nossos próprios povos, comunidades e territórios.
¨
Ao vencedor, os despojos: a lei do mais forte quer
voltar. Por Luis Pellegrini
Há
frases que são apenas frases. E há frases que abrem uma janela para dentro da
cabeça de quem as pronuncia. Na terça feira 22 de setembro, ao discursar logo
após a fala do Presidente Lula em plena cerimônia de abertura dos trabalhos na
Assembleia Geral da ONU, Donald Trump pronunciou uma dessas frases: “To
the victor belong the spoils” – Ao vencedor pertencem os despojos -, uma frase
que cheira a império, típica de situações quando a força passa a ser
apresentada como fonte de direito.
Não foi
um detalhe retórico. Não foi uma tirada de efeito. A frase apareceu no contexto
em que Trump celebrava a ação militar americana na Venezuela, a captura de
Nicolás Maduro e os interesses econômicos associados ao petróleo venezuelano. O
presidente americano também reafirmou que os Estados Unidos recorrerão ao seu
poder militar para defender aquilo que considera interesses vitais dos Estados
Unidos no hemisfério. “Ao vencedor pertencem os despojos” não é uma frase
inocente. Ela pertence a uma humanidade antiga, brutal, na qual a guerra não
terminava quando o inimigo era derrotado. A guerra terminava quando o vencedor
saqueava a cidade, tomava suas riquezas, escravizava seus habitantes e repartia
os despojos. Era a lógica dos impérios. A lógica de Roma e das conquistas
coloniais; a dos piratas saqueadores de navios: “repartir o butim”; a lógica
segundo a qual quem possui a espada possui também o direito de decidir o
destino dos outros.
O mundo
moderno tentou, com enorme dificuldade, escapar dessa lógica. Depois de duas
guerras mundiais, o planeta criou instituições, tratados e normas para
estabelecer uma ideia revolucionária: a força não cria automaticamente o
direito. A própria ONU – Organização das Nações Unidas – foi criada em 1945,
logo depois da Segunda Guerra Mundial, para tentar impedir que o planeta
continuasse sendo governado pela lei do mais forte. Parece quase inconcebível
que, agora, num dos seus habituais surtos de mentalidade retrógrada, Trump
tenha a ousadia de afrontar o próprio espírito criador da organização e subir
ao púlpito do plenário da ONU para afirmar exatamente o contrário.
Na
reunião de 24 de setembro, nesta mesma assembleia geral da ONU, quando
Netanyahu subiu à tribuna para falar, bem mais da metade das delegações se
retirou do plenário em ato de protesto. Deveriam ter feito o mesmo quando Trump
pronunciou sua malfadada frase. O presidente norte-americano
parece não saber que vencer não é ter razão. Esta ignorância é um problema
sério. Uma vitória militar estabelece quem venceu uma guerra. Não estabelece
quem tinha razão. Um exército pode derrotar outro exército. Isso é um fato. Mas
daí não decorre que possa ficar com o território, os recursos naturais ou a
riqueza do derrotado. Essa distinção é a própria essência da civilização
jurídica.
Poder
fazer não significa ter o direito de fazer. Quando essa diferença desaparece, a
política internacional regressa à pré-história do direito. O mais forte toma. O
mais fraco perde. E depois alguém escreve a história para explicar por que o
vencedor estava certo. Há ainda algo particularmente incômodo na escolha da
palavra “despojos”. Porque Trump não estava falando de uma medalha, de um
troféu esportivo ou de uma disputa metafórica. Estava falando de recursos
naturais. De petróleo. De um país, a Venezuela, que possui algumas das maiores
reservas petrolíferas do planeta.
A
associação entre força militar, vitória política e acesso aos recursos do
vencido dá à frase um significado que ultrapassa a provocação retórica. E isso
é precisamente o que torna o episódio tão perturbador. Durante décadas,
presidentes americanos procuraram apresentar as intervenções externas dos
Estados Unidos como ações relacionadas à segurança, à democracia, à
estabilidade ou à defesa de interesses estratégicos. Trump introduz uma
franqueza diferente, e bem mais grave: Vencemos. Logo, os despojos são nossos.
A frase desnuda uma lógica de poder que normalmente a diplomacia procura
esconder atrás de palavras mais elegantes. E onde essa frase foi pronunciada?
Na ONU. Há algo quase teatral nessa cena. No palco das Nações Unidas, onde se
fala em soberania, direito internacional, autodeterminação dos povos e solução
pacífica dos conflitos, o presidente da maior potência militar do planeta
proclama uma antiga regra de guerra: o vencedor leva o butim.
É
difícil imaginar símbolo mais eloquente da crise do multilateralismo. O
secretário-geral António Guterres, em seu último discurso à Assembleia Geral,
pediu justamente o fim das guerras, o fortalecimento das instituições
internacionais e uma nova governança global. De um lado, a tentativa de
reconstruir regras comuns. Do outro, a afirmação nua da força. É o choque entre
dois mundos. Para Trump, o mundo é dos vencedores. Sua frase revela uma
concepção hierárquica do planeta. Existem os que mandam. Existem os que
obedecem. Existem os que possuem força para impor condições. E existem aqueles
que precisam aceitar as condições impostas. Essa é uma visão profundamente
transacional das relações internacionais. Não pergunta primeiro: “Isso é
legítimo?” Pergunta: “Isso funciona?” Não pergunta: “Temos o direito de fazer
isso?” Pergunta: “Quem poderá nos impedir?”
É uma
diferença monumental. Porque, quando a segunda pergunta substitui a primeira, a
política internacional deixa de ser regida por princípios e passa a ser regida
pela correlação de forças. E se todos pensarem assim? Esta é a pergunta que
deveria ser feita. Se a lógica de Trump for aceita como princípio geral,
qualquer potência suficientemente forte poderá dizer: “Eu venci. Portanto, os
recursos são meus.” A China poderia dizê-lo. A Rússia poderia dizê-lo. A Índia
poderia dizê-lo. Qualquer potência regional poderia dizê-lo. E os países
menores? Teriam apenas uma alternativa: torcer para nunca se tornarem
suficientemente interessantes para alguém mais poderoso.
É assim
que nasce uma ordem internacional hobbesiana (relativa a Thomas Hobbes –
1588-1679 – filósofo materialista e político inglês, para quem o absolutismo é
a forma ideal e mais eficaz de governo). Para Hobbes, cada Estado deve procurar
acumular força e poder suficientes para não ser o próximo a virar
despojo. O resultado não é paz. É uma corrida permanente pela capacidade
de intimidar. É fazer da ameaça um instrumento de diplomacia.
O
restante do discurso de Trump reforça essa impressão. Falando do Irã, o
presidente americano apresentou como possibilidade a “aniquilação” da República
Islâmica caso não seja alcançado um acordo. Pode-se discutir a política
iraniana, o programa nuclear, a segurança regional e os interesses – legítimos
ou não – dos Estados Unidos. Mas existe uma diferença entre ameaçar para
negociar e transformar a destruição do adversário em linguagem normal da diplomacia.
Quando um presidente fala de “aniquilação” diante da Assembleia Geral da ONU, a
palavra deixa de ser apenas uma ameaça dirigida ao adversário. Ela também
revela uma concepção de poder: Eu posso destruir. Portanto, você deve negociar.
É a diplomacia da pistola sobre a mesa. O perigo de uma civilização governada
pela vitória
Talvez
o aspecto mais profundo da questão esteja justamente aí. O problema não é que
Trump seja um líder forte. Democracias precisam de Estados capazes de defender
seus interesses. O problema começa quando a força deixa de ser um instrumento
submetido à lei e passa a ser apresentada como fonte da própria legitimidade. Esse
é o salto perigoso. Porque, se a vitória confere direitos, então a derrota
implica perda de direitos. Se o vencedor tem direito aos despojos, o vencido
não tem direito à propriedade. Se a força produz legitimidade, a lei passa a
ser apenas aquilo que o poderoso consegue impor. E, nesse mundo, nenhuma
soberania está realmente protegida. A história já nos mostrou esse filme: O
colonialismo europeu foi construído, em larga medida, sobre uma lógica
semelhante. Conquistar, ocupar, extrair, administrar. E depois construir uma
justificativa moral para a conquista.
A
humanidade levou séculos para compreender que riqueza não é justificativa,
força não é justiça e vitória não é sinônimo de legitimidade. A frase de Trump
parece retirar uma camada de verniz dessa velha lógica. Ela diz em voz alta
aquilo que o poder imperial normalmente procura dizer em voz baixa. O que
realmente está em disputa? No fundo, portanto, não é apenas o destino da
Venezuela. É a própria ideia de civilização internacional que está em disputa.
Queremos
um mundo em que até os poderosos estejam submetidos a regras? Ou um mundo em
que as regras sejam determinadas por quem possui poder suficiente para
ignorá-las? Queremos uma comunidade internacional baseada na negociação? Ou uma
arena em que cada potência acumula armas para garantir que ninguém possa tomar
seus próprios despojos?
A
pergunta, afinal, é brutalmente simples: queremos voltar ao mundo em que o
vencedor escreve a lei?
Fonte:
Por Amarildo Ferreira Júnior, em A Terra é Redonda

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