terça-feira, 29 de setembro de 2026

A desumanização do povo venezuelano

Em meados de julho deste ano o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) informou o fim da investigação aberta há um ano sobre as práticas comerciais brasileiras. Por considerar que adotamos práticas comerciais injustas, o USTR anunciou a aplicação de tarifas de 25% sobre um conjunto de produtos que exportamos aos Estados Unidos.

Ratificadas pelo presidente Donald Trump, as taxas entraram em vigor uma semana após o seu anúncio. Retomada dos ataques à economia brasileira, essa decisão recrudesceu a interferência do governo Donald Trump em nossa autodeterminação política. No ano passado, a economia e a autodeterminação política brasileiras já haviam sido alvo de ataques e interferências por parte do governo dos EUA.

Em março de 2025, Donald Trump impôs tarifas de 25% para todas as importações de aço e alumínio aos Estados Unidos. No mês seguinte, anunciou uma taxa-base de 10% sobre os produtos importados do Brasil, acrescida, em julho, de uma tarifa adicional de 40% a alguns produtos. Apesar de uma lista excetuando cerca de 700 itens, somou-se uma taxação de 50% aos produtos brasileiros, derrubada no início de 2026 pela Suprema Corte dos EUA.

Embora a imposição de taxações alfandegárias seja um componente ideológico do governo de Donald Trump e constitua estratégia geopolítica de coerção econômica e protecionismo, o que foi uma de suas principais promessas de campanha, os tarifaços impostos ao Brasil possuem elementos e atores políticos homólogos aos assédios, bloqueios e interferências estadunidenses impostos à economia e à política de Cuba e da Venezuela, aspecto deliberadamente não abordado pela maioria dos agentes do debate público nacional.

Há tempos as frações dominantes do debate político brasileiro estabeleceram a Venezuela como o lugar geométrico onde operam a redução da imaginação e do pensamento político e social. Com o objetivo de fixar a história recente como um referencial negativo e desvirtuado em relação à democracia, aos direitos humanos e à economia, operam a simplificação da realidade venezuelana. A experiência político-social do povo venezuelano foi sistematicamente convertida em um topos facilmente acessado quando se deseja interditar o debate recorrendo à operacionalização de ideias de “ameaça”, “crise”, “desamparo”, “fracasso”, “perigo”, “perversão”, “violência” e todos esses afetos e paixões do medo.

Todas as frações das direitas do campo político e os meios hegemônicos de comunicação erigiram sistematicamente este topos. Contribuindo ativamente para sua consolidação, articulam continuamente seus sentidos. Sob esta operação, a “Venezuela” foi forjada como o espécime perfeito do mal político iminente. Antes, haitianos (século XVIII), cubanos (século XX) e suas respectivas revoluções cumpriram esse papel.

Nas campanhas eleitorais de 2002 e 2010, José Serra (PSDB) afirmava a possibilidade de o Brasil virar uma “Venezuela” sob governos do Partido dos Trabalhadores (PT). Jair Bolsonaro (PL) recorreu sistematicamente a esse expediente em sua campanha de 2018 e durante seu mandato. Assim que assumiu, ele estabeleceu a frase “O socialismo expulsa, o Brasil acolhe” como lema oficial para promoção da ⁠Operação Acolhida, força-tarefa que desde 2018 atua no ordenamento da fronteira do Brasil com a Venezuela, em Roraima, e no abrigamento e interiorização de imigrantes venezuelanos.

Também grandes frações do centro e das esquerdas do campo político brasileiro se renderam a acessar o topos “Venezuela” em seus debates, recorrendo a absurdas comparações de Bolsonaro a Hugo Chávez (1954-2013) e defendendo um afastamento e, em alguns casos, rupturas em relação aos partidos, movimentos sociais e militantes da Revolução Bolivariana. Testemunhamos a lamentável capitulação de parte da esquerda brasileira diante do compromisso ético e prático de disputa e verificação contínua das consequências civilizacionais e das redenções e tentativas de interrupções de catástrofes que a Revolução Bolivariana tem sido capaz de fazer.

Apesar das diferenças de direção de cada uma dessas frações no movimento ou referencial adotado em relação ao topos “Venezuela”, elas possuem como centro de massa, ponto onde entram em situação de equilíbrio estático e que serve de bastão de apoio para suas relações com a complexa diversidade venezuelana, a simplificação da realidade política, econômica e social deste país, bem como um desconhecimento histórico e cultural de seus povos, comunidades e comunas.

Daí os equívocos de grande parte do trabalho realizado por analistas políticos acerca dos tarifaços de Donald Trump sobre a economia brasileira e suas consequências. As homologias entre as atuais situações políticas de Brasil e Venezuela não se encontram na aproximação, no apoio e na defesa da Revolução Bolivariana e do chavismo, onde os partidários de esquerda e de direita dos afetos e paixões do medo agenciados pelo topos “Venezuela” diziam encontrar-se.

Ainda assim, uma opacidade permanece a cobrir o espaço social onde se encontram as circunstâncias e atores políticos que mais ativamente produziram decaimentos políticos, econômicos e sociais na Venezuela e nos quais encontramos as homologias com a produção do tarifaço e de outros ataques à autonomia política, social e econômica do povo brasileiro.

Quando tratamos dos governos dos Estados Unidos, a maior obscenidade sempre é a próxima. Pouco mais de três meses após o “Dia da Libertação” (2/4/2025) proclamado por Donald Trump, o mandatário ianque endereçou ao presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT) uma carta em que estão explícitas as coordenadas para identificarmos os pontos estrutural e contingencialmente comuns a Brasil e Venezuela.

Desde a carta de 2026, Donald Trump estabeleceu retaliação econômica ao Brasil baseada em acusações de censura e ingerência jurisdicional sobre big techs estadunidenses; provocou ruptura comercial e deslegitimação da política comercial brasileira; instituiu coerção econômica para subordinação produtiva e desqualificação de nossa autonomia industrial; indicou adoção de escalada retaliatória; e classificou um falso déficit comercial  como “ameaça à segurança nacional” dos Estados Unidos.

A ofensiva contra o povo brasileiro é justificada em diferentes espaços como um ineditismo da gestão de Donald Trump. Um equívoco diante da tradição da política externa adotada pelos governantes do Estados Unidos. Quando Donald Trump impôs os “tarifaços” e passou a tratar o Brasil como uma “ameaça à segurança nacional”, repetiu o gesto de Barack Obama ao classificar a Venezuela como uma “ameaça incomum e extraordinária” à segurança dos Estados Unidos, em 2015, renovando um decreto que serviu de base jurídica para o endurecimento das sanções econômicas ao povo venezuelano.

O governo dos EUA criou um conflito econômico com o Brasil e em seguida o elevou a pretexto geopolítico para justificar unilateralismo e nos pressionar à submissão total. Diante disso, a grande imprensa brasileira assumiu seu papel histórico de fabricação artificial da opinião pública, defendendo seus interesses e administrando a verdade como quem faz análise.

Essa análise fragmentada e artificial da imprensa burguesa nacional não tem permitido que emerja no debate público que as medidas impostas pelo governo dos Estados Unidos ao povo brasileiro são homólogas àquelas tomadas em relação à Revolução Bolivariana e, antes delas, à Revolução Cubana, bem como são homólogas as assinaturas daqueles que atuam para estabelecê-las ou as apoiam.

Dois pilares inconfessáveis sustentam essa situação, que é uma diretriz de negócio na imprensa brasileira. O primeiro é a defesa de interesses econômicos e políticos próprios, mas subordinados e dependentes da burguesia internacional. O segundo é mais constrangedor, pois envolve ter que admitir que suas narrativas sobre Venezuela e Cuba são unilaterais e factuais apenas na medida em que servem à desestabilização de governos populares. Admitir que as sanções impostas aos povos venezuelano e cubano são crimes de lesa-humanidade seria o reconhecimento de ter as mãos metidas na ingerência externa que, como destacou o presidente cubano Miguel Díaz-Canel em entrevista recente, asfixiam esses povos, suas comunidades e territórios.

 Em evento organizado pelo Centro de Estudios para la Democracia Socialista (Cedes) no início de agosto, Elías Jaua, que foi vice-presidente de Hugo Chávez, relembrou as várias vezes em que a direita venezuelana desconheceu resultados de eleições legítimas, promoveu enfrentamentos e confrontações, e pediu ou apoiou sanções econômicas e intervenções militares e paramilitares.

No Brasil, essa maneira de fazer política encontrou no bolsonarismo uma forma explícita de anulação sistemática de capacidades críticas ou independentes. Nossa imaginação política e social foi vertiginosamente vilipendiada ao ponto de cerca de um quarto da população não se importar em dispor à tutela externa a sua consciência política e a sua liberdade de organização. Tal qual personagens da direita venezuelana como Henrique Capriles, Juan Guaidó ou María Corina Machado, a família Bolsonaro e seus associados agem progressivamente em conluio com os interesses estadunidenses.

Ao mesmo tempo em que legitima cada ato contrário à democracia radical venezuelana, a grande imprensa brasileira operou uma falsa simetria entre Jair Bolsonaro e Hugo Chávez, fingindo não enxergar o abismo intelectual, cultural, social e de comprometimento com a justiça social e com os condenados da terra que separa o homem do capitão. A comparação correta, que a imprensa insiste em ocultar, é aquela que alinha as direitas nos dois países, as quais, no Brasil, apoiaram o golpe contra Dilma Rousseff, embarcaram no bolsonarismo, sequestraram o orçamento público e destroem, dia após dia, a confiança nas políticas públicas.

Certa vez, o historiador Tony Leão da Costa me disse que a busca por paralelos justos na história da América Latina e do Caribe nunca poderia nos levar de Bolsonaro a Chávez, mas aos Fujimori, no Peru, ou aos Duvalier, no Haiti. Nesses três casos, temos famílias e governos marcados pela degradação institucional, pela corrupção sistêmica, pelo terror e pela violência extrema.

Os trinta anos de governo dos Duvalier no Haiti estão no quadro da experiência social de isolamento político, sanções e dívidas coloniais que foi imposto ao país como uma punição por seu povo ter empreendido uma revolução anticolonial que assombra as elites mundiais até hoje. Atualmente, o mesmo método está sendo aplicado ao povo venezuelano, confiscando seu petróleo e ouro e impondo-lhe uma reestruturação financeira que irá condená-lo a pagar uma dívida de US$ 240 bilhões por cinquenta anos, o que implica o asfixiamento de sua economia.

O geógrafo Yves Lacoste (1929-2026) denominou “geografismo” a prática discursiva que substitui as pessoas pelos territórios, personificando países e desumanizando seus povos e comunidades. Sempre que aciona o topos “Venezuela”, a grande imprensa brasileira incorre nesta prática, legitimando os ataques imperialistas ao povo venezuelano por meio de sanções, bloqueio financeiro, confisco de ativos, deslegitimação midiática e ameaça militar, práticas também direcionadas para os nossos próprios povos, comunidades e territórios.

¨      Ao vencedor, os despojos: a lei do mais forte quer voltar. Por Luis Pellegrini

Há frases que são apenas frases. E há frases que abrem uma janela para dentro da cabeça de quem as pronuncia. Na terça feira 22 de setembro, ao discursar logo após a fala do Presidente Lula em plena cerimônia de abertura dos trabalhos na Assembleia Geral da ONU,  Donald Trump pronunciou uma dessas frases: “To the victor belong the spoils” – Ao vencedor pertencem os despojos -, uma frase que cheira a império, típica de situações quando a força passa a ser apresentada como fonte de direito.

Não foi um detalhe retórico. Não foi uma tirada de efeito. A frase apareceu no contexto em que Trump celebrava a ação militar americana na Venezuela, a captura de Nicolás Maduro e os interesses econômicos associados ao petróleo venezuelano. O presidente americano também reafirmou que os Estados Unidos recorrerão ao seu poder militar para defender aquilo que considera interesses vitais dos Estados Unidos no hemisfério. “Ao vencedor pertencem os despojos” não é uma frase inocente. Ela pertence a uma humanidade antiga, brutal, na qual a guerra não terminava quando o inimigo era derrotado. A guerra terminava quando o vencedor saqueava a cidade, tomava suas riquezas, escravizava seus habitantes e repartia os despojos.  Era a lógica dos impérios. A lógica de Roma e das conquistas coloniais; a dos piratas saqueadores de navios: “repartir o butim”; a lógica segundo a qual quem possui a espada possui também o direito de decidir o destino dos outros.

O mundo moderno tentou, com enorme dificuldade, escapar dessa lógica. Depois de duas guerras mundiais, o planeta criou instituições, tratados e normas para estabelecer uma ideia revolucionária: a força não cria automaticamente o direito. A própria ONU – Organização das Nações Unidas – foi criada em 1945, logo depois da Segunda Guerra Mundial, para tentar impedir que o planeta continuasse sendo governado pela lei do mais forte. Parece quase inconcebível que, agora, num dos seus habituais surtos de mentalidade retrógrada, Trump tenha a ousadia de afrontar o próprio espírito criador da organização e subir ao púlpito do plenário da ONU para afirmar exatamente o contrário.

Na reunião de 24 de setembro, nesta mesma assembleia geral da ONU, quando Netanyahu subiu à tribuna para falar, bem mais da metade das delegações se retirou do plenário em ato de protesto. Deveriam ter feito o mesmo quando Trump pronunciou sua malfadada frase.    O presidente norte-americano parece não saber que vencer não é ter razão. Esta ignorância é um problema sério. Uma vitória militar estabelece quem venceu uma guerra. Não estabelece quem tinha razão. Um exército pode derrotar outro exército. Isso é um fato. Mas daí não decorre que possa ficar com o território, os recursos naturais ou a riqueza do derrotado. Essa distinção é a própria essência da civilização jurídica.

Poder fazer não significa ter o direito de fazer. Quando essa diferença desaparece, a política internacional regressa à pré-história do direito. O mais forte toma. O mais fraco perde. E depois alguém escreve a história para explicar por que o vencedor estava certo. Há ainda algo particularmente incômodo na escolha da palavra “despojos”. Porque Trump não estava falando de uma medalha, de um troféu esportivo ou de uma disputa metafórica. Estava falando de recursos naturais. De petróleo. De um país, a Venezuela, que possui algumas das maiores reservas petrolíferas do planeta.

A associação entre força militar, vitória política e acesso aos recursos do vencido dá à frase um significado que ultrapassa a provocação retórica. E isso é precisamente o que torna o episódio tão perturbador. Durante décadas, presidentes americanos procuraram apresentar as intervenções externas dos Estados Unidos como ações relacionadas à segurança, à democracia, à estabilidade ou à defesa de interesses estratégicos. Trump introduz uma franqueza diferente, e bem mais grave: Vencemos. Logo, os despojos são nossos. A frase desnuda uma lógica de poder que normalmente a diplomacia procura esconder atrás de palavras mais elegantes. E onde essa frase foi pronunciada? Na ONU. Há algo quase teatral nessa cena. No palco das Nações Unidas, onde se fala em soberania, direito internacional, autodeterminação dos povos e solução pacífica dos conflitos, o presidente da maior potência militar do planeta proclama uma antiga regra de guerra: o vencedor leva o butim.

É difícil imaginar símbolo mais eloquente da crise do multilateralismo. O secretário-geral António Guterres, em seu último discurso à Assembleia Geral, pediu justamente o fim das guerras, o fortalecimento das instituições internacionais e uma nova governança global. De um lado, a tentativa de reconstruir regras comuns. Do outro, a afirmação nua da força. É o choque entre dois mundos. Para Trump, o mundo é dos vencedores. Sua frase revela uma concepção hierárquica do planeta. Existem os que mandam. Existem os que obedecem. Existem os que possuem força para impor condições. E existem aqueles que precisam aceitar as condições impostas. Essa é uma visão profundamente transacional das relações internacionais. Não pergunta primeiro: “Isso é legítimo?” Pergunta: “Isso funciona?” Não pergunta: “Temos o direito de fazer isso?” Pergunta: “Quem poderá nos impedir?”

É uma diferença monumental. Porque, quando a segunda pergunta substitui a primeira, a política internacional deixa de ser regida por princípios e passa a ser regida pela correlação de forças. E se todos pensarem assim? Esta é a pergunta que deveria ser feita. Se a lógica de Trump for aceita como princípio geral, qualquer potência suficientemente forte poderá dizer: “Eu venci. Portanto, os recursos são meus.” A China poderia dizê-lo. A Rússia poderia dizê-lo. A Índia poderia dizê-lo. Qualquer potência regional poderia dizê-lo. E os países menores? Teriam apenas uma alternativa: torcer para nunca se tornarem suficientemente interessantes para alguém mais poderoso.

É assim que nasce uma ordem internacional hobbesiana (relativa a Thomas Hobbes – 1588-1679 – filósofo materialista e político inglês, para quem o absolutismo é a forma ideal e mais eficaz de governo). Para Hobbes, cada Estado deve procurar acumular força e poder suficientes para não ser o próximo a virar despojo.  O resultado não é paz. É uma corrida permanente pela capacidade de intimidar. É fazer da ameaça um instrumento de diplomacia. 

O restante do discurso de Trump reforça essa impressão. Falando do Irã, o presidente americano apresentou como possibilidade a “aniquilação” da República Islâmica caso não seja alcançado um acordo. Pode-se discutir a política iraniana, o programa nuclear, a segurança regional e os interesses – legítimos ou não – dos Estados Unidos. Mas existe uma diferença entre ameaçar para negociar e transformar a destruição do adversário em linguagem normal da diplomacia. Quando um presidente fala de “aniquilação” diante da Assembleia Geral da ONU, a palavra deixa de ser apenas uma ameaça dirigida ao adversário. Ela também revela uma concepção de poder: Eu posso destruir. Portanto, você deve negociar. É a diplomacia da pistola sobre a mesa. O perigo de uma civilização governada pela vitória

Talvez o aspecto mais profundo da questão esteja justamente aí. O problema não é que Trump seja um líder forte. Democracias precisam de Estados capazes de defender seus interesses. O problema começa quando a força deixa de ser um instrumento submetido à lei e passa a ser apresentada como fonte da própria legitimidade. Esse é o salto perigoso. Porque, se a vitória confere direitos, então a derrota implica perda de direitos. Se o vencedor tem direito aos despojos, o vencido não tem direito à propriedade. Se a força produz legitimidade, a lei passa a ser apenas aquilo que o poderoso consegue impor. E, nesse mundo, nenhuma soberania está realmente protegida. A história já nos mostrou esse filme: O colonialismo europeu foi construído, em larga medida, sobre uma lógica semelhante. Conquistar, ocupar, extrair, administrar. E depois construir uma justificativa moral para a conquista.

A humanidade levou séculos para compreender que riqueza não é justificativa, força não é justiça e vitória não é sinônimo de legitimidade. A frase de Trump parece retirar uma camada de verniz dessa velha lógica. Ela diz em voz alta aquilo que o poder imperial normalmente procura dizer em voz baixa. O que realmente está em disputa? No fundo, portanto, não é apenas o destino da Venezuela. É a própria ideia de civilização internacional que está em disputa.

Queremos um mundo em que até os poderosos estejam submetidos a regras? Ou um mundo em que as regras sejam determinadas por quem possui poder suficiente para ignorá-las? Queremos uma comunidade internacional baseada na negociação? Ou uma arena em que cada potência acumula armas para garantir que ninguém possa tomar seus próprios despojos?

A pergunta, afinal, é brutalmente simples: queremos voltar ao mundo em que o vencedor escreve a lei?

 

Fonte: Por Amarildo Ferreira Júnior, em A Terra é Redonda

 

Nenhum comentário: