terça-feira, 29 de setembro de 2026

Contraste: Por que parte do empresariado ainda teme Lula — e aceita Flávio

Depois de três governos lucrativos para bancos, indústria e agronegócio, a rejeição a Lula e a tolerância com um candidato antidemocrático revelam que a verdadeira disputa envolve salários, direitos, soberania e controle do Estado.

Há uma pergunta incômoda na eleição presidencial de 2026: por que parcelas do empresariado brasileiro, dos grandes grupos aos pequenos comerciantes, continuam temendo Luiz Inácio Lula da Silva depois de três mandatos, mas admitem votar em Flávio Bolsonaro?

O contraste é difícil de explicar apenas pela economia. Nos governos Lula, bancos lucraram, o agronegócio ampliou a produção e as exportações, empresas receberam crédito, a renda e o consumo cresceram e o país não promoveu qualquer ruptura com a propriedade privada. Ainda assim, Lula é apresentado em círculos empresariais como ameaça.

Flávio, por sua vez, é o herdeiro de um movimento que tentou impedir a alternância democrática do poder, atacou as urnas eletrônicas e conspirou contra o resultado eleitoral. Sua família articulou nos Estados Unidos pressões e sanções contra autoridades e interesses brasileiros. O senador carrega o caso das rachadinhas, relações históricas com personagens ligados às milícias do Rio de Janeiro e, mais recentemente, vínculos políticos e financeiros com Daniel Vorcaro, do Banco Master.

Nada disso impediu que ele fosse recebido por banqueiros, industriais e dirigentes de grandes empresas. Para parte do empresariado, a possibilidade de sua eleição parece menos assustadora do que um quarto mandato de Lula.

O paradoxo sugere que a divergência não se resume a crescimento, inflação ou segurança jurídica. Ela envolve a distribuição da riqueza, o poder dos trabalhadores, a soberania nacional e a definição de quem controla o Estado.

<><> O perigo que não se confirmou

Lula chegou pela primeira vez à Presidência, em 2003, cercado por previsões de fuga de capitais, estatização e desorganização econômica. Nada disso ocorreu. Seu governo preservou contratos, pagou a dívida, manteve a estrutura do sistema financeiro e conviveu com lucros empresariais elevados.

No terceiro mandato, tampouco houve ruptura. O governo aprovou a reforma tributária sobre o consumo, retomou a política industrial, ampliou o crédito do BNDES e lançou programas para infraestrutura, transição energética e agricultura. As entidades empresariais negociam diariamente com o governo e reivindicam recursos de suas políticas.

O agronegócio, embora reúna um dos núcleos mais hostis a Lula, solicitou R$ 518,2 bilhões para a agricultura empresarial no Plano Safra 2026/2027. A indústria pede financiamento público, proteção contra importações, incentivos fiscais, compras governamentais e apoio tecnológico.

Portanto, o temor a Lula não resulta de sua hostilidade à atividade empresarial. Os fatos mostram um presidente conciliador, disposto a combinar crescimento, lucro privado, emprego e políticas sociais. O incômodo aparece quando essa conciliação exige alguma contrapartida do capital.

<><> Do medo de Lula ao ódio ao PT

O antilulismo não começou com o mensalão nem com a Lava Jato. Em 1989, a origem nordestina, operária e pobre de Lula, sua pouca instrução formal, sua aparência e seu modo de falar foram convertidos em sinais de incapacidade e perigo. Representado como “feio”, “baixinho”, despreparado e ameaçador, ele rompia com a imagem socialmente aceita de quem estaria autorizado a governar o Brasil.

Fernando Collor oferecia a figura oposta: jovem, rico, bem-apresentado e diplomado, encarnava o filho idealizado por amplos setores da classe média. Sua origem numa família tradicional de políticos e empresários de comunicação aparecia como credencial, não como privilégio.

Em 1994, Fernando Henrique Cardoso reunia prestígio acadêmico, circulação internacional e pertencimento às elites intelectuais paulista e fluminense. Collor e FHC eram adversários muito diferentes, mas ambos correspondiam, cada qual à sua maneira, à figura do governante reconhecível pelas classes dominantes. Lula parecia invadir um espaço reservado a elas.

A desqualificação de Lula por sua origem social não explica sozinha as derrotas de 1989 e 1994. Conjuntura econômica, alianças, programas, campanhas, meios de comunicação e, em 1994, o Plano Real foram decisivos. Mas o contraste permitiu apresentar hierarquias sociais como diferenças naturais de preparo, competência e respeitabilidade.

A vitória de 2002 não eliminou essa rejeição. No mensalão, em 2005, crimes e práticas reais passaram a sustentar uma condenação mais abrangente: a corrupção deixou de ser apresentada como problema do sistema político e tornou-se, no discurso antipetista, característica essencial do PT, de Lula e até dos grupos sociais que haviam chegado ao governo com eles.

Durante o governo Dilma, as manifestações de 2013, a eleição apertada de 2014, a recessão, a Lava Jato e a campanha pelo impeachment transformaram aquela rejeição em identidade política de massas. Interesses econômicos, conservadorismo moral, ressentimento e hostilidade à ascensão dos pobres passaram a falar a mesma linguagem.

Acusações contra o PT foram generalizadas como prova de uma natureza criminosa, enquanto denúncias envolvendo forças conservadoras e, mais tarde, a família Bolsonaro foram relativizadas. O combate à corrupção tornou-se, assim, linguagem moral de uma oposição que possuía também conteúdo social e econômico.

<><> Quando o pobre deixa de ser apenas pobre

O problema não é propriamente combater a pobreza. Campanhas de caridade, doações e ações assistenciais são aceitas e até valorizadas pelo empresariado. A resistência cresce quando o pobre se transforma em cidadão com renda, direitos e capacidade de recusar condições degradantes.

A valorização do salário mínimo, a formalização do trabalho doméstico, as cotas, a expansão universitária e as transferências de renda alteram, mesmo moderadamente, as relações sociais. O trabalhador que encontra outras oportunidades pode exigir melhor salário. A empregada doméstica passa a ter direitos. O jovem pobre disputa a universidade e, depois, vaga no mercado de trabalho. O aumento do consumo popular pressiona preços e modifica prioridades.

É nesse sentido que se pode dizer, ironicamente, que para uma parcela das elites o problema do Brasil são os pobres e os trabalhadores — sobretudo quando melhoram de vida e conquistam poder de negociação.

O fim da escala 6×1 tornou o conflito explícito. Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria mostrou que 73% das indústrias rejeitam a redução legal da jornada para 40 horas e 57% são contrárias ao fim da escala. As empresas preveem aumento de custos e perda de competitividade. Para os trabalhadores, porém, a mudança significa descanso, saúde, convivência familiar e participação nos ganhos de produtividade.

O temor a Lula nasce também do que ele simboliza: a presença organizada do trabalho na política. Mesmo quando governa por meio da conciliação, sua trajetória recorda que salários, jornadas e direitos não são definidos exclusivamente pelos proprietários.

<><> A austeridade escolhe quem deve pagar

As razões declaradas pela oposição empresarial são conhecidas: crescimento da dívida, aumento de impostos, excesso de gastos, juros altos e insegurança jurídica. Os problemas existem e precisam ser enfrentados. Mas o discurso patronal seleciona causas e soluções.

Responsabilidade fiscal quase sempre aparece como contenção das políticas sociais, da Previdência, dos salários públicos e dos investimentos estatais. Raramente começa pela tributação de dividendos, patrimônio e heranças; pela revisão de subsídios empresariais; pelas renúncias fiscais; ou pelos juros pagos aos detentores da dívida.

A contradição fica evidente quando os mesmos setores que exigem austeridade reivindicam crédito subsidiado, seguro rural, proteção comercial, garantias para concessões, infraestrutura pública e benefícios tributários.

Essas demandas podem ser legítimas. O que elas demonstram é que o conflito não opõe Estado e mercado. O empresariado não deseja necessariamente um Estado menor, mas um Estado seletivo: forte para proteger contratos, financiar negócios e garantir a rentabilidade; limitado quando se trata de redistribuir renda, prestar serviços universais ou fortalecer trabalhadores.

<><> Por que Flávio parece aceitável

Flávio não precisa demonstrar maior compromisso com o desenvolvimento nacional. Basta oferecer sinais de que reduzirá impostos sobre o capital, enfraquecerá regulações, conterá direitos trabalhistas, privatizará empresas públicas e abrirá novos espaços à exploração privada.

Para o empresariado associado ao bolsonarismo, seu alinhamento com Donald Trump não constitui necessariamente um problema. A submissão internacional pode ser tolerada quando preserva interesses econômicos. A instabilidade democrática também pode parecer administrável se o governo mantiver a propriedade, reprimir movimentos sociais e limitar a capacidade de organização dos trabalhadores.

Até a corrupção é relativizada. Acusações contra o PT são apresentadas como prova de uma natureza irremediavelmente criminosa. Já as rachadinhas, as relações da família Bolsonaro com milicianos e os vínculos de Flávio com Vorcaro são tratados como questões secundárias, controvérsias judiciais ou obstáculos eleitorais superáveis.

Não se trata de afirmar que todos os empresários que conversam com Flávio apoiam suas práticas ou sua história. Grandes empresas procuram manter canais com todos os candidatos competitivos. Também há empresários democratas, desenvolvimentistas e apoiadores de Lula. Outros preferem uma candidatura de centro e veem riscos tanto em Lula quanto em Flávio.

O fato politicamente relevante é outro: uma parcela do capital estabelece uma hierarquia na qual a democracia, a soberania e a integridade pública podem valer menos do que a promessa de preservar privilégios econômicos e reduzir o poder do trabalho.

<><> O medo tem conteúdo material

Lula não ameaça abolir o capitalismo brasileiro. Seus três governos demonstram o contrário. O que ele ameaça, ainda que de maneira limitada e negociada, é a pretensão de determinados grupos de decidir sozinhos como a riqueza será distribuída e para onde serão direcionados os recursos do Estado.

O medo empresarial é ideológico, mas não é imaginário. Ele possui conteúdo material. Salários maiores reduzem margens de lucro quando não são acompanhados por investimentos que visem aumento de produtividade. Direitos trabalhistas limitam o poder do empregador. Impostos progressivos alcançam patrimônios e rendas elevadas. Empresas públicas restringem oportunidades de apropriação privada. Políticas sociais disputam espaço no orçamento com juros, subsídios e benefícios fiscais.

Essa é a chave do aparente paradoxo. Para parte do empresariado, Lula representa um risco distributivo; Flávio, apesar de todos os seus riscos, representa uma oportunidade econômica e política.

A verdadeira pergunta da eleição não é por que empresários discordam de Lula. Em uma democracia, a divergência é legítima. A pergunta é por que a defesa de seus interesses econômicos permite a alguns relativizar ameaças à democracia, à soberania e à própria legalidade.

Na próxima matéria da série: como a dependência de commodities, o rentismo e o baixo investimento privado em tecnologia produziram uma burguesia que parece ter desistido de construir o futuro do país.

•        Elite brasileira achou seu fascista “moderado”. Por Eduardo Guimarães

Vendo o empenho da autoproclamada “imprensa profissional” em defender alguém que, até a semana passada, afirmava, sem parar, que Lula é “abortista”, “não acredita em Deus”, é ligado a “terroristas” e “narcotraficantes”, perguntamo-nos:

O que é, diabos, que Flávio Bolsonaro prometeu à elite branca monarquista e entreguista para ela normalizar um político desonesto e envolvido com bandidos até o pescoço?

As redações de Globos, Folhas, Vejas, Estadões, Metrópoles etc. estão escandalizadas com a acusação a Flávio Bolsonaro de que ele planeja destituir Nossa Senhora Aparecida do título de Padroeira do Brasil por não estar envolvido no projeto de lei de 2007 de um deputado-pastor.

Primeiro, que não é bem assim. Em dezembro de 2007, o então deputado federal Professor Victório Galli (PMDB-MT) apresentou o Projeto de Lei 2.623/2007, que alterava a Lei 6.802/1980 — a norma que instituiu o feriado de 12 de outubro e reconheceu Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil.

O texto substituía a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos” e trocava “culto público e oficial” por “homenagem oficial”.

O feriado seria mantido.

Na justificativa, Galli, pastor evangélico, alegou que o Estado laico não deveria ter padroeiro nacional e que a mudança promoveria igualdade religiosa.

Claro que o Estado laico vale menos que nada para quem é aliado de um candidato a presidente que prometeu, há poucos dias, que, eleito, decretará que o Brasil é um país “cristão” – no sentido de evangélico.

O projeto foi rejeitado por unanimidade na Comissão de Educação e Cultura em julho de 2008 e arquivado em 22 de agosto daquele ano, após o encerramento do prazo para recurso, com base no artigo 133 do Regimento Interno da Câmara.

A proposta, porém, voltou a circular nas redes em 2026 e foi associada ao senador Flávio Bolsonaro, que negou intenção de alterar o título da santa.

Contudo, a ligação política existe porque Galli integrou o governo de Jair Bolsonaro como assessor especial da Presidência em 2019 e, nas eleições de 2026, apoia a candidatura presidencial de Flávio, além de concorrer a deputado federal pelo PP-MT.

Vale dizer, em benefício da honestidade intelectual, que o arquivamento de 2008 não pode ser revertido. Qualquer iniciativa semelhante exigiria a apresentação de um projeto novo. Ponto.

Contudo, à luz da proposta de Flávio de que, caso seja eleito, “DECRETARÁ” o protestantismo cristão como religião oficial no país, é lícito inferir que coisas como aquele projeto possam voltar à baila.

Além disso, Flávio Bolsonaro tem espalhado tantas fake news sobre Lula sem que haja escandalização midiática sequer parecida que se torna inescapável inferir, também, que a naturalização de alguém como ele tem uma explicação muito singela.

Nem vamos nos deter no entreguismo a Donald Trump, como na proposta de montar, se eleito, uma “equipe de transição” para anotar as determinações do Império para o Brasil chamar de suas.

Até porque, a “imprensa profissional” advoga, dia após dia, políticas públicas muito parecidas, ainda que mais voltadas a beneficiar banqueiros e grandes empresários locais.

Mas quem haverá de negar que as aspirações ditatoriais americanas provocam, desde sempre, um vergar de colunas cervicais nos nossos “editores profissionais”?

Normalizar Flávio Bolsonaro como o jornalismo corporativo vem fazendo, portanto, encontra explicação no fato de que ele é muito mais malandro que o pai e, portanto, não irá brigar com uma imprensa que só é profissional mesmo em promover a desigualdade neoliberal.

Essa imprensa que se ajoelhou ante uma ditadura sanguinária para a qual transportava presos políticos das masmorras a câmaras de tortura teria aceitado Bolsonaro se ele não brigasse consigo sem razão, pois ambos vendem a mãe por dinheiro.

 

Fonte: Por Benedito Tadeu César, em Brasil 247

 

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