Contraste:
Por que parte do empresariado ainda teme Lula — e aceita Flávio
Depois
de três governos lucrativos para bancos, indústria e agronegócio, a rejeição a
Lula e a tolerância com um candidato antidemocrático revelam que a verdadeira
disputa envolve salários, direitos, soberania e controle do Estado.
Há uma
pergunta incômoda na eleição presidencial de 2026: por que parcelas do
empresariado brasileiro, dos grandes grupos aos pequenos comerciantes,
continuam temendo Luiz Inácio Lula da Silva depois de três mandatos, mas
admitem votar em Flávio Bolsonaro?
O
contraste é difícil de explicar apenas pela economia. Nos governos Lula, bancos
lucraram, o agronegócio ampliou a produção e as exportações, empresas receberam
crédito, a renda e o consumo cresceram e o país não promoveu qualquer ruptura
com a propriedade privada. Ainda assim, Lula é apresentado em círculos
empresariais como ameaça.
Flávio,
por sua vez, é o herdeiro de um movimento que tentou impedir a alternância
democrática do poder, atacou as urnas eletrônicas e conspirou contra o
resultado eleitoral. Sua família articulou nos Estados Unidos pressões e
sanções contra autoridades e interesses brasileiros. O senador carrega o caso
das rachadinhas, relações históricas com personagens ligados às milícias do Rio
de Janeiro e, mais recentemente, vínculos políticos e financeiros com Daniel
Vorcaro, do Banco Master.
Nada
disso impediu que ele fosse recebido por banqueiros, industriais e dirigentes
de grandes empresas. Para parte do empresariado, a possibilidade de sua eleição
parece menos assustadora do que um quarto mandato de Lula.
O
paradoxo sugere que a divergência não se resume a crescimento, inflação ou
segurança jurídica. Ela envolve a distribuição da riqueza, o poder dos
trabalhadores, a soberania nacional e a definição de quem controla o Estado.
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O perigo que não se confirmou
Lula
chegou pela primeira vez à Presidência, em 2003, cercado por previsões de fuga
de capitais, estatização e desorganização econômica. Nada disso ocorreu. Seu
governo preservou contratos, pagou a dívida, manteve a estrutura do sistema
financeiro e conviveu com lucros empresariais elevados.
No
terceiro mandato, tampouco houve ruptura. O governo aprovou a reforma
tributária sobre o consumo, retomou a política industrial, ampliou o crédito do
BNDES e lançou programas para infraestrutura, transição energética e
agricultura. As entidades empresariais negociam diariamente com o governo e
reivindicam recursos de suas políticas.
O
agronegócio, embora reúna um dos núcleos mais hostis a Lula, solicitou R$ 518,2
bilhões para a agricultura empresarial no Plano Safra 2026/2027. A indústria
pede financiamento público, proteção contra importações, incentivos fiscais,
compras governamentais e apoio tecnológico.
Portanto,
o temor a Lula não resulta de sua hostilidade à atividade empresarial. Os fatos
mostram um presidente conciliador, disposto a combinar crescimento, lucro
privado, emprego e políticas sociais. O incômodo aparece quando essa
conciliação exige alguma contrapartida do capital.
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Do medo de Lula ao ódio ao PT
O
antilulismo não começou com o mensalão nem com a Lava Jato. Em 1989, a origem
nordestina, operária e pobre de Lula, sua pouca instrução formal, sua aparência
e seu modo de falar foram convertidos em sinais de incapacidade e perigo.
Representado como “feio”, “baixinho”, despreparado e ameaçador, ele rompia com
a imagem socialmente aceita de quem estaria autorizado a governar o Brasil.
Fernando
Collor oferecia a figura oposta: jovem, rico, bem-apresentado e diplomado,
encarnava o filho idealizado por amplos setores da classe média. Sua origem
numa família tradicional de políticos e empresários de comunicação aparecia
como credencial, não como privilégio.
Em
1994, Fernando Henrique Cardoso reunia prestígio acadêmico, circulação
internacional e pertencimento às elites intelectuais paulista e fluminense.
Collor e FHC eram adversários muito diferentes, mas ambos correspondiam, cada
qual à sua maneira, à figura do governante reconhecível pelas classes
dominantes. Lula parecia invadir um espaço reservado a elas.
A
desqualificação de Lula por sua origem social não explica sozinha as derrotas
de 1989 e 1994. Conjuntura econômica, alianças, programas, campanhas, meios de
comunicação e, em 1994, o Plano Real foram decisivos. Mas o contraste permitiu
apresentar hierarquias sociais como diferenças naturais de preparo, competência
e respeitabilidade.
A
vitória de 2002 não eliminou essa rejeição. No mensalão, em 2005, crimes e
práticas reais passaram a sustentar uma condenação mais abrangente: a corrupção
deixou de ser apresentada como problema do sistema político e tornou-se, no
discurso antipetista, característica essencial do PT, de Lula e até dos grupos
sociais que haviam chegado ao governo com eles.
Durante
o governo Dilma, as manifestações de 2013, a eleição apertada de 2014, a
recessão, a Lava Jato e a campanha pelo impeachment transformaram aquela
rejeição em identidade política de massas. Interesses econômicos,
conservadorismo moral, ressentimento e hostilidade à ascensão dos pobres
passaram a falar a mesma linguagem.
Acusações
contra o PT foram generalizadas como prova de uma natureza criminosa, enquanto
denúncias envolvendo forças conservadoras e, mais tarde, a família Bolsonaro
foram relativizadas. O combate à corrupção tornou-se, assim, linguagem moral de
uma oposição que possuía também conteúdo social e econômico.
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Quando o pobre deixa de ser apenas pobre
O
problema não é propriamente combater a pobreza. Campanhas de caridade, doações
e ações assistenciais são aceitas e até valorizadas pelo empresariado. A
resistência cresce quando o pobre se transforma em cidadão com renda, direitos
e capacidade de recusar condições degradantes.
A
valorização do salário mínimo, a formalização do trabalho doméstico, as cotas,
a expansão universitária e as transferências de renda alteram, mesmo
moderadamente, as relações sociais. O trabalhador que encontra outras
oportunidades pode exigir melhor salário. A empregada doméstica passa a ter
direitos. O jovem pobre disputa a universidade e, depois, vaga no mercado de
trabalho. O aumento do consumo popular pressiona preços e modifica prioridades.
É nesse
sentido que se pode dizer, ironicamente, que para uma parcela das elites o
problema do Brasil são os pobres e os trabalhadores — sobretudo quando melhoram
de vida e conquistam poder de negociação.
O fim
da escala 6×1 tornou o conflito explícito. Pesquisa da Confederação Nacional da
Indústria mostrou que 73% das indústrias rejeitam a redução legal da jornada
para 40 horas e 57% são contrárias ao fim da escala. As empresas preveem
aumento de custos e perda de competitividade. Para os trabalhadores, porém, a
mudança significa descanso, saúde, convivência familiar e participação nos
ganhos de produtividade.
O temor
a Lula nasce também do que ele simboliza: a presença organizada do trabalho na
política. Mesmo quando governa por meio da conciliação, sua trajetória recorda
que salários, jornadas e direitos não são definidos exclusivamente pelos
proprietários.
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A austeridade escolhe quem deve pagar
As
razões declaradas pela oposição empresarial são conhecidas: crescimento da
dívida, aumento de impostos, excesso de gastos, juros altos e insegurança
jurídica. Os problemas existem e precisam ser enfrentados. Mas o discurso
patronal seleciona causas e soluções.
Responsabilidade
fiscal quase sempre aparece como contenção das políticas sociais, da
Previdência, dos salários públicos e dos investimentos estatais. Raramente
começa pela tributação de dividendos, patrimônio e heranças; pela revisão de
subsídios empresariais; pelas renúncias fiscais; ou pelos juros pagos aos
detentores da dívida.
A
contradição fica evidente quando os mesmos setores que exigem austeridade
reivindicam crédito subsidiado, seguro rural, proteção comercial, garantias
para concessões, infraestrutura pública e benefícios tributários.
Essas
demandas podem ser legítimas. O que elas demonstram é que o conflito não opõe
Estado e mercado. O empresariado não deseja necessariamente um Estado menor,
mas um Estado seletivo: forte para proteger contratos, financiar negócios e
garantir a rentabilidade; limitado quando se trata de redistribuir renda,
prestar serviços universais ou fortalecer trabalhadores.
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Por que Flávio parece aceitável
Flávio
não precisa demonstrar maior compromisso com o desenvolvimento nacional. Basta
oferecer sinais de que reduzirá impostos sobre o capital, enfraquecerá
regulações, conterá direitos trabalhistas, privatizará empresas públicas e
abrirá novos espaços à exploração privada.
Para o
empresariado associado ao bolsonarismo, seu alinhamento com Donald Trump não
constitui necessariamente um problema. A submissão internacional pode ser
tolerada quando preserva interesses econômicos. A instabilidade democrática
também pode parecer administrável se o governo mantiver a propriedade, reprimir
movimentos sociais e limitar a capacidade de organização dos trabalhadores.
Até a
corrupção é relativizada. Acusações contra o PT são apresentadas como prova de
uma natureza irremediavelmente criminosa. Já as rachadinhas, as relações da
família Bolsonaro com milicianos e os vínculos de Flávio com Vorcaro são
tratados como questões secundárias, controvérsias judiciais ou obstáculos
eleitorais superáveis.
Não se
trata de afirmar que todos os empresários que conversam com Flávio apoiam suas
práticas ou sua história. Grandes empresas procuram manter canais com todos os
candidatos competitivos. Também há empresários democratas, desenvolvimentistas
e apoiadores de Lula. Outros preferem uma candidatura de centro e veem riscos
tanto em Lula quanto em Flávio.
O fato
politicamente relevante é outro: uma parcela do capital estabelece uma
hierarquia na qual a democracia, a soberania e a integridade pública podem
valer menos do que a promessa de preservar privilégios econômicos e reduzir o
poder do trabalho.
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O medo tem conteúdo material
Lula
não ameaça abolir o capitalismo brasileiro. Seus três governos demonstram o
contrário. O que ele ameaça, ainda que de maneira limitada e negociada, é a
pretensão de determinados grupos de decidir sozinhos como a riqueza será
distribuída e para onde serão direcionados os recursos do Estado.
O medo
empresarial é ideológico, mas não é imaginário. Ele possui conteúdo material.
Salários maiores reduzem margens de lucro quando não são acompanhados por
investimentos que visem aumento de produtividade. Direitos trabalhistas limitam
o poder do empregador. Impostos progressivos alcançam patrimônios e rendas
elevadas. Empresas públicas restringem oportunidades de apropriação privada.
Políticas sociais disputam espaço no orçamento com juros, subsídios e
benefícios fiscais.
Essa é
a chave do aparente paradoxo. Para parte do empresariado, Lula representa um
risco distributivo; Flávio, apesar de todos os seus riscos, representa uma
oportunidade econômica e política.
A
verdadeira pergunta da eleição não é por que empresários discordam de Lula. Em
uma democracia, a divergência é legítima. A pergunta é por que a defesa de seus
interesses econômicos permite a alguns relativizar ameaças à democracia, à
soberania e à própria legalidade.
Na
próxima matéria da série: como a dependência de commodities, o rentismo e o
baixo investimento privado em tecnologia produziram uma burguesia que parece
ter desistido de construir o futuro do país.
• Elite brasileira achou seu fascista
“moderado”. Por Eduardo Guimarães
Vendo o
empenho da autoproclamada “imprensa profissional” em defender alguém que, até a
semana passada, afirmava, sem parar, que Lula é “abortista”, “não acredita em
Deus”, é ligado a “terroristas” e “narcotraficantes”, perguntamo-nos:
O que
é, diabos, que Flávio Bolsonaro prometeu à elite branca monarquista e
entreguista para ela normalizar um político desonesto e envolvido com bandidos
até o pescoço?
As
redações de Globos, Folhas, Vejas, Estadões, Metrópoles etc. estão
escandalizadas com a acusação a Flávio Bolsonaro de que ele planeja destituir
Nossa Senhora Aparecida do título de Padroeira do Brasil por não estar
envolvido no projeto de lei de 2007 de um deputado-pastor.
Primeiro,
que não é bem assim. Em dezembro de 2007, o então deputado federal Professor
Victório Galli (PMDB-MT) apresentou o Projeto de Lei 2.623/2007, que alterava a
Lei 6.802/1980 — a norma que instituiu o feriado de 12 de outubro e reconheceu
Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil.
O texto
substituía a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros
católicos apostólicos romanos” e trocava “culto público e oficial” por
“homenagem oficial”.
O
feriado seria mantido.
Na
justificativa, Galli, pastor evangélico, alegou que o Estado laico não deveria
ter padroeiro nacional e que a mudança promoveria igualdade religiosa.
Claro
que o Estado laico vale menos que nada para quem é aliado de um candidato a
presidente que prometeu, há poucos dias, que, eleito, decretará que o Brasil é
um país “cristão” – no sentido de evangélico.
O
projeto foi rejeitado por unanimidade na Comissão de Educação e Cultura em
julho de 2008 e arquivado em 22 de agosto daquele ano, após o encerramento do
prazo para recurso, com base no artigo 133 do Regimento Interno da Câmara.
A
proposta, porém, voltou a circular nas redes em 2026 e foi associada ao senador
Flávio Bolsonaro, que negou intenção de alterar o título da santa.
Contudo,
a ligação política existe porque Galli integrou o governo de Jair Bolsonaro
como assessor especial da Presidência em 2019 e, nas eleições de 2026, apoia a
candidatura presidencial de Flávio, além de concorrer a deputado federal pelo
PP-MT.
Vale
dizer, em benefício da honestidade intelectual, que o arquivamento de 2008 não
pode ser revertido. Qualquer iniciativa semelhante exigiria a apresentação de
um projeto novo. Ponto.
Contudo,
à luz da proposta de Flávio de que, caso seja eleito, “DECRETARÁ” o
protestantismo cristão como religião oficial no país, é lícito inferir que
coisas como aquele projeto possam voltar à baila.
Além
disso, Flávio Bolsonaro tem espalhado tantas fake news sobre Lula sem que haja
escandalização midiática sequer parecida que se torna inescapável inferir,
também, que a naturalização de alguém como ele tem uma explicação muito
singela.
Nem
vamos nos deter no entreguismo a Donald Trump, como na proposta de montar, se
eleito, uma “equipe de transição” para anotar as determinações do Império para
o Brasil chamar de suas.
Até
porque, a “imprensa profissional” advoga, dia após dia, políticas públicas
muito parecidas, ainda que mais voltadas a beneficiar banqueiros e grandes
empresários locais.
Mas
quem haverá de negar que as aspirações ditatoriais americanas provocam, desde
sempre, um vergar de colunas cervicais nos nossos “editores profissionais”?
Normalizar
Flávio Bolsonaro como o jornalismo corporativo vem fazendo, portanto, encontra
explicação no fato de que ele é muito mais malandro que o pai e, portanto, não
irá brigar com uma imprensa que só é profissional mesmo em promover a
desigualdade neoliberal.
Essa
imprensa que se ajoelhou ante uma ditadura sanguinária para a qual transportava
presos políticos das masmorras a câmaras de tortura teria aceitado Bolsonaro se
ele não brigasse consigo sem razão, pois ambos vendem a mãe por dinheiro.
Fonte:
Por Benedito Tadeu César, em Brasil 247

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