terça-feira, 29 de setembro de 2026

A potência emergente e o declínio imperial: a diplomacia necessária na era da multipolaridade

A visita do presidente chinês Xi Jinping aos Estados Unidos e sua recepção na Casa Branca — acompanhada por salva de 21 tiros, guarda de honra, sobrevoo militar, a deferência direta do presidente Donald Trump na porta do avião e o oferecimento de um banquete de Estado, não deve ser interpretada como mero protocolo. Trata-se do reconhecimento incontornável de uma transformação profunda na geopolítica global: a consolidação irreversível do gigante asiático como eixo estruturante da economia e da política internacional, em contraposição a um império estadunidense acossado por seu próprio declínio histórico.

Quando a diplomacia estadunidense dispensa tamanha pompa a um líder estrangeiro, a forma traduz o conteúdo político. Washington não age por simpatia ideológica nem por generosidade internacionalista. Move-se por realpolitik. O império reconhece, contra a sua própria vontade expansionista, que não é mais capaz de ditar unilateralmente as regras do jogo global. A China ocupa hoje a posição central na produção industrial mundial, no desenvolvimento de tecnologias de ponta, no comércio internacional e na construção de alternativas financeiras e políticas para as nações do Sul Global. Pretender ignorar a estatura de Pequim não é apenas um erro tático; é uma impossibilidade prática.

<><> China exerce a diplomacia como ferramenta para a paz

Para a China e para os povos que lutam contra a hegemonia imperialista, o fomento de uma relação bilateral estável, construtiva, colaborativa e pacífica com os EUA não representa uma capitulação ou uma ilusão quanto ao caráter do imperialismo. Pelo contrário: a diplomacia firme, sóbria e pragmática é uma necessidade estratégica indispensável. Em um mundo marcado por crises sistêmicas, a manutenção de canais abertos entre as duas maiores potências econômicas do planeta é uma salvaguarda em face dos impulsos belicistas do imperialismo estadunidense. 

Como expressou o presidente Xi Jinping, a coexistência e o estabelecimento de uma “estabilidade estratégica construtiva” são imperativos para conter a escalada de confrontos. O empenho chinês em manter diálogos fluídos em áreas sensíveis, como a economia, a segurança, os intercâmbios parlamentares e, fundamentalmente, os canais de comunicação direta entre as Forças Armadas, evidencia a maturidade de um país emergente que assume a responsabilidade de preservar a paz mundial. Evitar o conflito direto e desarmar a célebre “Armadilha de Tucídides” é o caminho racional para impedir que o desespero de uma hegemonia em decadência envolva a humanidade em uma conflagração catastrófica.

<><> O direito inalienável do emergente e a decadência do império

Washington tenta frequentemente disfarçar uma política ostensiva de contenção e cerco à República Popular da China. A competição estadunidense materializa-se em sanções unilaterais, bloqueios tecnológicos, guerras fiscais, protecionismo e manobras de provocação militar em zonas de soberania chinesa, como o Estreito de Taiwan.

Trata-se do comportamento típico de uma potência decadente que percebe a erosão de seu monopólio histórico. 

No entanto, a emergência da China, sustentada pelo seu socialismo com peculiaridades nacionais, planejamento de longo prazo e uma diplomacia pautada pelo benefício mútuo, demonstrou que existem outros caminhos para o desenvolvimento.

A China tem o direito inalienável de crescer, de industrializar-se e de alcançar a vanguarda científica e tecnológica. Esse direito estende-se a todos os povos dos países anti-hegemônicos da Ásia, África e América Latina. A ascensão chinesa é a alavanca que impulsiona a construção de uma nova ordem econômica e política internacional, libertando os países em desenvolvimento da dependência exclusiva das instituições financeiras de Washington e Bruxelas.

<><> A interdependência e os limites da chantagem ocidental

A cúpula entre Xi e Trump traz à tona outra verdade inegável: a profunda interdependência econômica entre as duas potências torna o custo de uma retaliação permanente proibitivo para os próprios Estados Unidos. As cadeias globais de suprimento, os fluxos de investimento e a estabilidade dos mercados financeiros dependem diretamente da previsibilidade nas relações entre Pequim e Washington.

Quando o imperialismo tenta impor barreiras arbitrárias à China, acaba por desestabilizar a sua própria economia interna, alimentando a inflação e prejudicando os seus próprios trabalhadores e empresas. A posição chinesa em defender a previsibilidade econômica e a manutenção das regras do comércio multilateral é um ato de defesa do equilíbrio global. A cooperação proposta pela China requer que o governo estadunidense abandone a mentalidade de “jogo de soma zero”, em que o ganho de uma nação é visto obrigatoriamente como a perda de outra.

<><> A multipolaridade é irrefreável

A cúpula de Washington marca um momento divisor de águas. Os Estados Unidos enfrentam o dilema histórico de aceitar uma convivência em um mundo multipolar ou isolar-se em sua própria retórica de dominação ultrapassada. A ascensão da China e a consolidação dos países emergentes não são fenômenos passageiros, mas a marcha inequívoca da história. O futuro não pertence à hegemonia unilateral de um império em declínio, mas a um novo equilíbrio de forças, uma etapa em que as forças progressistas acumulam forças para a conquista de transformações mais profundas no mundo. 

¨      Xi e Trump abrem nova conjuntura histórica para China e EUA

A reunião entre o presidente da China, Xi Jinping, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em 24 de setembro, na Casa Branca, abriu uma nova etapa nas relações entre os dois países. Para consolidar o entendimento político, Pequim e Washington terão de produzir resultados concretos em áreas como comércio, inteligência artificial e intercâmbio entre jovens. Essa é a avaliação do jornal Global Times em editorial.

Segundo o jornal chinês, o encontro em Washington deu sequência ao consenso alcançado pelos dois presidentes em Pequim, em maio, sobre a construção de uma relação bilateral construtiva e marcada pela estabilidade estratégica. O editorial sustenta que a expectativa agora é saber como os governos transformarão essa orientação em decisões capazes de resistir às divergências entre as duas potências.

Na Casa Branca, Xi defendeu uma relação com a cooperação como eixo principal, competição moderada, diferenças administráveis e compromisso com a paz. De acordo com o Global Times, o presidente chinês apresentou essa visão como um caminho para que os dois países convivam de forma estável e pediu sua aplicação prática em diferentes setores e níveis de governo.

O editorial destaca que a ênfase na execução já estava presente na reunião de maio. Na ocasião, Xi afirmou que o entendimento não deveria ficar restrito a uma formulação política. Em Washington, voltou a defender o envolvimento dos órgãos públicos e demais setores dos dois países na implementação gradual do consenso. Para o jornal, medidas específicas, mesmo de alcance limitado, podem ajudar a construir confiança ao longo do tempo.

<><> Comércio é apontado como teste para o entendimento

As relações econômicas e comerciais aparecem no editorial como um dos principais testes da nova orientação. Embora tenham concentrado disputas nos últimos anos, elas também revelam a complementaridade das duas economias e os interesses compartilhados por empresas e consumidores.

O Global Times afirma que a China mantém sua abertura a investimentos e à atuação de companhias americanas. Em contrapartida, defende que os Estados Unidos ofereçam tratamento justo às empresas chinesas, com regras transparentes e previsíveis. Na avaliação do jornal, a ampliação dos interesses econômicos comuns tornaria a relação comercial menos vulnerável a novas tensões.

A inteligência artificial é apresentada como outra frente possível de aproximação. O editorial observa que China e Estados Unidos têm capacidades relevantes no desenvolvimento e na aplicação da tecnologia, mas enfrentam riscos semelhantes, entre eles o uso indevido dos sistemas e a perda de controle sobre seus efeitos. O texto cita resoluções sobre o tema apoiadas pelos dois países na Assembleia Geral da ONU e a existência de canais de diálogo como sinais de que há espaço para cooperação.

Nesse campo, o jornal propõe intercâmbios contínuos sobre benefícios e riscos da IA, começando por assuntos de interesse mútuo. Uma comunicação mais frequente, argumenta o editorial, poderia reduzir erros de avaliação entre as potências e contribuir para a discussão de regras internacionais para a tecnologia.

<><> Intercâmbio juvenil e Taiwan integram a agenda

O fortalecimento dos vínculos entre as sociedades também ocupa lugar central no texto. Xi anunciou um convite para que 100 mil jovens americanos visitem a China, ao longo dos próximos cinco anos, em programas de intercâmbio e estudo. O Global Times vê na iniciativa uma oportunidade de ampliar o conhecimento recíproco, ao lado de parcerias entre cidades e de outras formas de contato direto entre cidadãos.

O editorial ressalta, por outro lado, que a cooperação dependerá da administração das diferenças políticas. Nesse ponto, identifica Taiwan como a questão mais sensível da relação bilateral. O jornal defende que Washington respeite as preocupações de Pequim sobre soberania e integridade territorial e mantenha sua oposição à independência da ilha. Trata-se de uma posição expressa pelo editorial, que a apresenta como condição para uma base mais sólida de entendimento estratégico.

Ao chamar o momento de nova “conjuntura histórica”, o Global Times atribui peso à diplomacia conduzida diretamente por Xi e Trump, e afirma que a continuidade do processo dependerá do trabalho dos governos após a reunião. A avaliação do jornal é que acordos sucessivos, acompanhados da solução de problemas específicos, poderão dar conteúdo à visão anunciada pelos presidentes e produzir efeitos para os dois países e para o cenário internacional.

¨      Xi e Trump acertam relação de estabilidade estratégica entre China e EUA, aponta chanceler chinês

Os presidentes da China, Xi Jinping, e dos Estados Unidos, Donald Trump, concordaram em construir uma relação de estabilidade estratégica baseada em respeito, equidade e reciprocidade. O entendimento foi apresentado pelo ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, após a visita de Estado de Xi aos EUA, realizada de 23 a 25 de setembro. Segundo o ministro, os líderes também discutiram comércio, inteligência artificial e questões internacionais.

Em entrevista coletiva relatada pelo Global Times, Wang afirmou que os encontros ocorreram em um ambiente de respeito mútuo e permitiram uma discussão aprofundada sobre o futuro da relação bilateral. Para a diplomacia chinesa, o acordo sobre a estabilidade estratégica foi o principal resultado político da viagem.

Wang explicou que, na formulação apresentada por Pequim, o respeito inclui a soberania, a integridade territorial, os sistemas políticos e os caminhos de desenvolvimento de cada país. A equidade pressupõe negociar divergências e buscar benefícios para ambos os lados, enquanto a reciprocidade exige que as preocupações de China e EUA sejam tratadas em condições de igualdade.

O chanceler atribuiu importância ao contato direto entre Xi e Trump. De acordo com ele, desde o início do segundo mandato do presidente americano, os dois tiveram três encontros presenciais e cinco conversas por telefone. Wang avaliou que essa interlocução se tornou um recurso central para administrar a relação entre as duas potências.

Na área econômica, Xi defendeu a ampliação das frentes de cooperação e a redução dos pontos de atrito. Wang disse que os Estados Unidos devem oferecer tratamento justo às empresas chinesas e resolver disputas por meio de diálogo e negociação, de modo a dar maior estabilidade ao comércio bilateral.

Os presidentes também encarregaram os órgãos de aplicação da lei dos dois países de reforçar a cooperação contra o crime transnacional. Ao tratar da crise de abuso de fentanil nos Estados Unidos, Wang sustentou que ela não foi causada pela China e afirmou que Pequim tem colaborado com Washington para enfrentá-la.

No campo da inteligência artificial, Xi e Trump concordaram em utilizar os mecanismos bilaterais de diálogo sobre o tema e em trabalhar para prevenir o uso indevido da tecnologia. Segundo Wang, os líderes discutiram como aproveitar as capacidades de cada país nessa área.

A visita incluiu medidas voltadas à aproximação entre as populações. Xi anunciou um convite para que 100 mil jovens americanos participem de programas de intercâmbio e estudo na China ao longo dos próximos cinco anos. Wang mencionou ainda a chegada prevista dos pandas Ping Ping e Fu Shuang ao Zoológico de Atlanta.

Na agenda internacional, os presidentes concordaram em fortalecer a coordenação sobre temas de interesse comum. De acordo com o chanceler, Xi apoiou a retomada do diálogo entre Estados Unidos e Irã e defendeu negociações que possam levar a um acordo abrangente sobre a questão nuclear iraniana.

Wang também afirmou que China e Estados Unidos, como membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, compartilham a responsabilidade de defender a ordem internacional estabelecida após a Segunda Guerra Mundial. Ele relacionou esse compromisso ao 80º aniversário da abertura dos Julgamentos de Tóquio, celebrado neste ano.

No quarto trimestre, a China sediará a reunião de líderes econômicos da APEC, e os Estados Unidos receberão a cúpula de líderes do G20. Segundo Wang, Xi e Trump confirmaram apoio mútuo aos encontros, que integrarão a próxima etapa da cooperação entre os dois governos.

 

Fonte: Por José Reinaldo Carvalho, em Brasil 247

 

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