A
potência emergente e o declínio imperial: a diplomacia necessária na era da
multipolaridade
A
visita do presidente chinês Xi Jinping aos Estados Unidos e sua recepção na
Casa Branca — acompanhada por salva de 21 tiros, guarda de honra, sobrevoo
militar, a deferência direta do presidente Donald Trump na porta do avião e o
oferecimento de um banquete de Estado, não deve ser interpretada como mero
protocolo. Trata-se do reconhecimento incontornável de uma transformação
profunda na geopolítica global: a consolidação irreversível do gigante asiático
como eixo estruturante da economia e da política internacional, em
contraposição a um império estadunidense acossado por seu próprio declínio
histórico.
Quando
a diplomacia estadunidense dispensa tamanha pompa a um líder estrangeiro, a
forma traduz o conteúdo político. Washington não age por simpatia ideológica
nem por generosidade internacionalista. Move-se por realpolitik. O império
reconhece, contra a sua própria vontade expansionista, que não é mais capaz de
ditar unilateralmente as regras do jogo global. A China ocupa hoje a posição
central na produção industrial mundial, no desenvolvimento de tecnologias de
ponta, no comércio internacional e na construção de alternativas financeiras e
políticas para as nações do Sul Global. Pretender ignorar a estatura de Pequim
não é apenas um erro tático; é uma impossibilidade prática.
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China exerce a diplomacia como ferramenta para a paz
Para a
China e para os povos que lutam contra a hegemonia imperialista, o fomento de
uma relação bilateral estável, construtiva, colaborativa e pacífica com os EUA
não representa uma capitulação ou uma ilusão quanto ao caráter do imperialismo.
Pelo contrário: a diplomacia firme, sóbria e pragmática é uma necessidade
estratégica indispensável. Em um mundo marcado por crises sistêmicas, a
manutenção de canais abertos entre as duas maiores potências econômicas do
planeta é uma salvaguarda em face dos impulsos belicistas do imperialismo
estadunidense.
Como
expressou o presidente Xi Jinping, a coexistência e o estabelecimento de uma
“estabilidade estratégica construtiva” são imperativos para conter a escalada
de confrontos. O empenho chinês em manter diálogos fluídos em áreas sensíveis,
como a economia, a segurança, os intercâmbios parlamentares e,
fundamentalmente, os canais de comunicação direta entre as Forças Armadas,
evidencia a maturidade de um país emergente que assume a responsabilidade de
preservar a paz mundial. Evitar o conflito direto e desarmar a célebre
“Armadilha de Tucídides” é o caminho racional para impedir que o desespero de
uma hegemonia em decadência envolva a humanidade em uma conflagração
catastrófica.
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O direito inalienável do emergente e a decadência do império
Washington
tenta frequentemente disfarçar uma política ostensiva de contenção e cerco à
República Popular da China. A competição estadunidense materializa-se em
sanções unilaterais, bloqueios tecnológicos, guerras fiscais, protecionismo e
manobras de provocação militar em zonas de soberania chinesa, como o Estreito
de Taiwan.
Trata-se
do comportamento típico de uma potência decadente que percebe a erosão de seu
monopólio histórico.
No
entanto, a emergência da China, sustentada pelo seu socialismo com
peculiaridades nacionais, planejamento de longo prazo e uma diplomacia pautada
pelo benefício mútuo, demonstrou que existem outros caminhos para o
desenvolvimento.
A China
tem o direito inalienável de crescer, de industrializar-se e de alcançar a
vanguarda científica e tecnológica. Esse direito estende-se a todos os povos
dos países anti-hegemônicos da Ásia, África e América Latina. A ascensão
chinesa é a alavanca que impulsiona a construção de uma nova ordem econômica e
política internacional, libertando os países em desenvolvimento da dependência
exclusiva das instituições financeiras de Washington e Bruxelas.
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A interdependência e os limites da chantagem ocidental
A
cúpula entre Xi e Trump traz à tona outra verdade inegável: a profunda
interdependência econômica entre as duas potências torna o custo de uma
retaliação permanente proibitivo para os próprios Estados Unidos. As cadeias
globais de suprimento, os fluxos de investimento e a estabilidade dos mercados
financeiros dependem diretamente da previsibilidade nas relações entre Pequim e
Washington.
Quando
o imperialismo tenta impor barreiras arbitrárias à China, acaba por
desestabilizar a sua própria economia interna, alimentando a inflação e
prejudicando os seus próprios trabalhadores e empresas. A posição chinesa em
defender a previsibilidade econômica e a manutenção das regras do comércio
multilateral é um ato de defesa do equilíbrio global. A cooperação proposta
pela China requer que o governo estadunidense abandone a mentalidade de “jogo
de soma zero”, em que o ganho de uma nação é visto obrigatoriamente como a
perda de outra.
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A multipolaridade é irrefreável
A
cúpula de Washington marca um momento divisor de águas. Os Estados Unidos
enfrentam o dilema histórico de aceitar uma convivência em um mundo multipolar
ou isolar-se em sua própria retórica de dominação ultrapassada. A ascensão da
China e a consolidação dos países emergentes não são fenômenos passageiros, mas
a marcha inequívoca da história. O futuro não pertence à hegemonia unilateral
de um império em declínio, mas a um novo equilíbrio de forças, uma etapa em que
as forças progressistas acumulam forças para a conquista de transformações mais
profundas no mundo.
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Xi e Trump abrem nova conjuntura histórica para China e
EUA
A
reunião entre o presidente da China, Xi Jinping, e o presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump, em 24 de setembro, na Casa Branca, abriu uma nova etapa
nas relações entre os dois países. Para consolidar o entendimento político,
Pequim e Washington terão de produzir resultados concretos em áreas como
comércio, inteligência artificial e intercâmbio entre jovens. Essa é a
avaliação do jornal Global Times em editorial.
Segundo
o jornal chinês, o encontro em Washington deu sequência ao consenso alcançado
pelos dois presidentes em Pequim, em maio, sobre a construção de uma relação
bilateral construtiva e marcada pela estabilidade estratégica. O editorial
sustenta que a expectativa agora é saber como os governos transformarão essa
orientação em decisões capazes de resistir às divergências entre as duas
potências.
Na Casa
Branca, Xi defendeu uma relação com a cooperação como eixo principal,
competição moderada, diferenças administráveis e compromisso com a paz. De
acordo com o Global Times, o presidente chinês apresentou essa visão
como um caminho para que os dois países convivam de forma estável e pediu sua
aplicação prática em diferentes setores e níveis de governo.
O
editorial destaca que a ênfase na execução já estava presente na reunião de
maio. Na ocasião, Xi afirmou que o entendimento não deveria ficar restrito a
uma formulação política. Em Washington, voltou a defender o envolvimento dos
órgãos públicos e demais setores dos dois países na implementação gradual do
consenso. Para o jornal, medidas específicas, mesmo de alcance limitado, podem
ajudar a construir confiança ao longo do tempo.
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Comércio é apontado como teste para o entendimento
As
relações econômicas e comerciais aparecem no editorial como um dos principais
testes da nova orientação. Embora tenham concentrado disputas nos últimos anos,
elas também revelam a complementaridade das duas economias e os interesses
compartilhados por empresas e consumidores.
O Global
Times afirma que a China mantém sua abertura a investimentos e à atuação de
companhias americanas. Em contrapartida, defende que os Estados Unidos ofereçam
tratamento justo às empresas chinesas, com regras transparentes e previsíveis.
Na avaliação do jornal, a ampliação dos interesses econômicos comuns tornaria a
relação comercial menos vulnerável a novas tensões.
A
inteligência artificial é apresentada como outra frente possível de
aproximação. O editorial observa que China e Estados Unidos têm capacidades
relevantes no desenvolvimento e na aplicação da tecnologia, mas enfrentam
riscos semelhantes, entre eles o uso indevido dos sistemas e a perda de
controle sobre seus efeitos. O texto cita resoluções sobre o tema apoiadas
pelos dois países na Assembleia Geral da ONU e a existência de canais de
diálogo como sinais de que há espaço para cooperação.
Nesse
campo, o jornal propõe intercâmbios contínuos sobre benefícios e riscos da IA,
começando por assuntos de interesse mútuo. Uma comunicação mais frequente,
argumenta o editorial, poderia reduzir erros de avaliação entre as potências e
contribuir para a discussão de regras internacionais para a tecnologia.
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Intercâmbio juvenil e Taiwan integram a agenda
O
fortalecimento dos vínculos entre as sociedades também ocupa lugar central no
texto. Xi anunciou um convite para que 100 mil jovens americanos visitem a
China, ao longo dos próximos cinco anos, em programas de intercâmbio e estudo.
O Global Times vê na iniciativa uma oportunidade de ampliar o
conhecimento recíproco, ao lado de parcerias entre cidades e de outras formas
de contato direto entre cidadãos.
O
editorial ressalta, por outro lado, que a cooperação dependerá da administração
das diferenças políticas. Nesse ponto, identifica Taiwan como a questão mais
sensível da relação bilateral. O jornal defende que Washington respeite as
preocupações de Pequim sobre soberania e integridade territorial e mantenha sua
oposição à independência da ilha. Trata-se de uma posição expressa pelo
editorial, que a apresenta como condição para uma base mais sólida de
entendimento estratégico.
Ao
chamar o momento de nova “conjuntura histórica”, o Global Times atribui
peso à diplomacia conduzida diretamente por Xi e Trump, e afirma que a
continuidade do processo dependerá do trabalho dos governos após a reunião. A
avaliação do jornal é que acordos sucessivos, acompanhados da solução de
problemas específicos, poderão dar conteúdo à visão anunciada pelos presidentes
e produzir efeitos para os dois países e para o cenário internacional.
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Xi e Trump acertam relação de estabilidade estratégica
entre China e EUA, aponta chanceler chinês
Os
presidentes da China, Xi Jinping, e dos Estados Unidos, Donald Trump,
concordaram em construir uma relação de estabilidade estratégica baseada em
respeito, equidade e reciprocidade. O entendimento foi apresentado pelo
ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, após a visita de Estado de Xi
aos EUA, realizada de 23 a 25 de setembro. Segundo o ministro, os líderes
também discutiram comércio, inteligência artificial e questões internacionais.
Em
entrevista coletiva relatada pelo Global Times, Wang afirmou que os
encontros ocorreram em um ambiente de respeito mútuo e permitiram uma discussão
aprofundada sobre o futuro da relação bilateral. Para a diplomacia chinesa, o
acordo sobre a estabilidade estratégica foi o principal resultado político da
viagem.
Wang
explicou que, na formulação apresentada por Pequim, o respeito inclui a
soberania, a integridade territorial, os sistemas políticos e os caminhos de
desenvolvimento de cada país. A equidade pressupõe negociar divergências e
buscar benefícios para ambos os lados, enquanto a reciprocidade exige que as
preocupações de China e EUA sejam tratadas em condições de igualdade.
O
chanceler atribuiu importância ao contato direto entre Xi e Trump. De acordo
com ele, desde o início do segundo mandato do presidente americano, os dois
tiveram três encontros presenciais e cinco conversas por telefone. Wang avaliou
que essa interlocução se tornou um recurso central para administrar a relação
entre as duas potências.
Na área
econômica, Xi defendeu a ampliação das frentes de cooperação e a redução dos
pontos de atrito. Wang disse que os Estados Unidos devem oferecer tratamento
justo às empresas chinesas e resolver disputas por meio de diálogo e
negociação, de modo a dar maior estabilidade ao comércio bilateral.
Os
presidentes também encarregaram os órgãos de aplicação da lei dos dois países
de reforçar a cooperação contra o crime transnacional. Ao tratar da crise de
abuso de fentanil nos Estados Unidos, Wang sustentou que ela não foi causada
pela China e afirmou que Pequim tem colaborado com Washington para enfrentá-la.
No
campo da inteligência artificial, Xi e Trump concordaram em utilizar os
mecanismos bilaterais de diálogo sobre o tema e em trabalhar para prevenir o
uso indevido da tecnologia. Segundo Wang, os líderes discutiram como aproveitar
as capacidades de cada país nessa área.
A
visita incluiu medidas voltadas à aproximação entre as populações. Xi anunciou
um convite para que 100 mil jovens americanos participem de programas de
intercâmbio e estudo na China ao longo dos próximos cinco anos. Wang mencionou
ainda a chegada prevista dos pandas Ping Ping e Fu Shuang ao Zoológico de
Atlanta.
Na
agenda internacional, os presidentes concordaram em fortalecer a coordenação
sobre temas de interesse comum. De acordo com o chanceler, Xi apoiou a retomada
do diálogo entre Estados Unidos e Irã e defendeu negociações que possam levar a
um acordo abrangente sobre a questão nuclear iraniana.
Wang
também afirmou que China e Estados Unidos, como membros permanentes do Conselho
de Segurança da ONU, compartilham a responsabilidade de defender a ordem
internacional estabelecida após a Segunda Guerra Mundial. Ele relacionou esse
compromisso ao 80º aniversário da abertura dos Julgamentos de Tóquio, celebrado
neste ano.
No
quarto trimestre, a China sediará a reunião de líderes econômicos da APEC, e os
Estados Unidos receberão a cúpula de líderes do G20. Segundo Wang, Xi e Trump
confirmaram apoio mútuo aos encontros, que integrarão a próxima etapa da
cooperação entre os dois governos.
Fonte:
Por José Reinaldo Carvalho, em Brasil 247

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