terça-feira, 29 de setembro de 2026

A ONU não resolve nada mas a Assembleia Geral revela um tesouro sobre o estado do mundo

O indômito discurso do presidente do Irã foi um tapa nas fuças do laranjão um dia após este, no mesmo pódio da Assembleia Geral das Nações Unidas, ameaçar aniquilar seu país. Masoud Pezeshkian lembrou os assassinatos planejados das 168 meninas em Minab, os ataques a hospitais, centros de pesquisa e instalações esportivas, além da morte traiçoeira do aiatolá Ali Khamenei pelos Estados Unidos e a força genocida sionista. Desmascarou a duplicidade de padrões de países que toleram a posse de bombas atômicas pela entidade israelense, mas exigem inspeções contra o programa atômico pacífico iraniano e usam diplomacia como biombo para disparar ataques de surpresa e pelas costas.

Fez questão de reafirmar a generosa e inquebrantável solidariedade a Gaza e à resistência palestina, estabelecendo que ataques ao Irã serão respondidos à altura.

Notável também foi a manifestação da presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, que agradeceu a Trump por ter retornado à diplomacia e à política.

Na verdade, mais importante do que sua fala foi sua presença. Depois do 3 de janeiro, Rodríguez estava ali, no pódio, sendo a representante institucional de seu país, que se recusa a imolar-se, como aconselham amigos e inimigos. Um definitivo, embora ainda crescente, reconhecimento internacional. Discurso em meio a uma complexa e incerta construção diplomática com a potência opressora, que mantém sequestrado, numa masmorra em Nova York, o presidente constitucional Nicolás Maduro e a primeira-dama Cilia Flores.

Não estavam naquela tribuna a socialite da Flórida, a panamenha Maria “Cori” Machado, nem seu marionete mambembe Edmundo González ou o desocupado Juan Guaidó, cujo “governo” fora reconhecido por dezenas de países ali presentes, alguns dos quais cederam ao aprendiz de usurpador a posse de bilhões em ativos venezuelanos.

A revolução bolivariana segue no poder. Segue apesar de submetida a uma campanha de calúnias. Acusam Delcy de traição a Maduro. De comandar uma entidade tutelada, numa guerra narrativa em que estão unidos Trump, a mídia internacional, a gangue de Corina e boa parcela da esquerda, tanto na Venezuela como fora dela, inclusive no Brasil.

Procuram impingir, a ela e aos outros líderes bolivarianos, a pecha de traidores.

Constrangida pelo fato de ter um presidente feito refém de outro país, Rodríguez conta com apoio de Maduro desde o cárcere. No discurso, agradeceu ao algoz; depois, encontrou-se com ele, quando fez sinais codificados (o V de Maduro e o punho fechado) de resistência na foto oficial. Vem celebrando acordos históricos com o opressor, rompendo o bloqueio, num jogo de perde e ganha em que os números e as condições não estão claros.

Em sua fala de machão decadente, Trump fez questão de dizer que se apropria de riquezas da Venezuela porque são despojos que cabem a um vencedor numa guerra. Essa é a narrativa que quer fazer passar como troféu, no lugar da humilhação de derrotado impotente frente a um Irã fortalecido e altaneiro.

Para além das palavras, porém, a negociação atual com Delcy materializa exatamente aquilo que Maduro perseguia ter com os Estados Unidos nos últimos anos.

Delcy dialoga com Trump do jeito que o próprio Maduro buscou e começou, antes de, em meio à negociação, ser sequestrado.

O sequestrador, que tem Maduro como refém, é o mesmo que, sob o emblema da vitória, reconhece agora o governo bolivariano como nenhum outro antes dele. Para não parecer perder, vende uma vitória total. De passagem, esvazia “Cori”, Guaidó e outras marionetes.

Delcy foi criticada pelos mesmos que elogiariam se fosse Lula a encontrar o laranjão.

Numa situação contraditória, em paz, Delcy, Diosdado Cabello e Jorge Rodríguez mantêm um país em paz. O poder segue nas mãos do bolivarianismo, fazendo e obtendo concessões da entidade mais maligna do planeta, enquanto vão reconstituindo a economia do país, que cresceu mais de 7% no primeiro semestre, apesar de ainda lutar com uma inflação muito alta. Venezuela e Irã vivem processos distintos em seus conflitos e negociações com os EUA, mas há espelhamentos.

Deixaram o plenário da ONU 77 países durante o discurso de Netanyahu. Junto com o Brasil, saíram Chile, Colômbia e Bolívia, governos de (extrema?) direita. Ficaram o Uruguai e a Argentina. Ficaram os Estados Unidos, de Trump, claro. A Venezuela, de Delcy, saiu.

¨      Na ONU, Lula defende a multipolaridade contra a lei da selva

Na abertura da 81ª Assembleia Geral da ONU, Lula fez da tribuna nova-iorquina o palco de uma disputa que não tem os Estados Unidos como alvo evidente. Sem citar Donald Trump uma única vez, o presidente brasileiro descreveu com precisão o mundo que o unilateralismo estadunidense está construindo.

O diagnóstico é duro. Lula afirmou que a ONU vive o momento mais crítico desde que ocupou aquela tribuna pela primeira vez, em 2003, com um Conselho de Segurança paralisado pelo direito de veto e uma credibilidade internacional em queda livre.

É nesse cenário de perigoso vácuo institucional que a manipulação se instala. Lula nomeou o fenômeno sem meias palavras: tarifas usadas como armas de coerção e chantagem, uma Organização Mundial do Comércio “respirando por aparelhos” e governos que capitulam diante da força bruta.

O presidente foi direto ao afirmar que essas concessões à lei do mais forte já passaram dos limites. Sua contraposição foi clara: diante do unilateralismo, advogou pelo multilateralismo; diante da subordinação, pela soberania.

É aqui que se revela o estadista, não o nacionalista reativo. Lula não apresentou a defesa da soberania como recusa ao mundo, mas como pré-condição para participar dele em pé de igualdade — a soberania como alicerce de uma ordem baseada em regras, não como substituto dela.

A frase “o Brasil não cabe no quintal de ninguém” resumiu essa recusa à hierarquia imperial nas Américas. A expressão não é original de Lula: ecoa o título do livro de Paulo Nogueira Batista Jr., que já tratava da subordinação latino-americana à hegemonia estadunidense. Ao repeti-la na tribuna da ONU, Lula filiou seu discurso a uma tradição de pensamento crítico sobre as assimetrias de poder no continente.

Nessa mesma linha, ele rejeitou tanto a tutela militar quanto a ingerência em processos eleitorais de vizinhos, citando Venezuela, Nicarágua, Cuba e Haiti como territórios onde potências externas insistem em interferir. Referência, aliás, ainda mais relevante diante da iminência de eleições no Brasil.

No mesmo movimento, porém, Lula recusou o isolacionismo. Ao tratar do crime organizado transnacional, defendeu cooperação entre Estados — como o centro de policiamento internacional criado em Manaus com os nove países amazônicos — em vez de vigilância militar unilateral, numa oposição explícita à lógica de porta-aviões patrulhando águas alheias.

A crítica ao tarifaço contra a economia brasileira reforçou o argumento. Mesmo sob pressão comercial direta de Washington, Lula destacou que o país baterá novo recorde de exportações neste ano — um dado usado para desmontar a lógica de que a subordinação é o único caminho viável.

O discurso também projetou um horizonte de acordos e instituições multilaterais como alternativa concreta à imposição unilateral. Lula citou o Grupo de Amigos da Paz, criado com a China para mediar a guerra na Ucrânia, e defendeu a diplomacia como única saída possível para os conflitos em curso — inclusive a guerra em Gaza, tratada com dureza ao mencionar o genocídio cometido pelo regime sionista de Benjamin Netanyahu e os ataques ao Tribunal Penal Internacional.

Na área climática, essa visão de futuro compartilhado ganhou contornos concretos. Lula cobrou a retomada da agenda ambiental, hoje ausente do G7 e do G20, e apresentou o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, lançado na COP30 em Belém, como prova de que crescimento econômico e redução de emissões são compatíveis — outro terreno em que cooperação internacional, não força unilateral, produz resultado.

O apelo à regulação das big techs e à defesa do Pix contra pressões de multinacionais amplia essa mesma disputa para o campo digital. Lula descreveu um neoliberalismo digital sem limites promovido por tecno-oligarcas com poderes superiores aos de muitas nações, sem freios éticos, cobrando regras multilaterais via ONU e seu Painel Científico sobre Inteligência Artificial, em vez de deixar o mundo — uma vez mais — à mercê da lei do mais forte. Lula desenhou, portanto, a arquitetura de um mundo multipolar em que a defesa intransigente dos interesses brasileiros caminha junto com o investimento em leis, acordos e instituições — o oposto exato da lei da selva que ele vê, sob a perigosa égide da decadente potência do Norte, se espalhar pelo sistema internacional.

¨      China defende multilateralismo e propõe cooperação global para enfrentar desafios comuns

A China defendeu o fortalecimento do multilateralismo e uma maior cooperação entre as nações para enfrentar conflitos, desigualdades e os desafios globais. Em discurso na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, o vice-presidente chinês Han Zheng afirmou que Pequim trabalhará com todos os países para construir uma “comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade”, informou a Xinhua. A participação de Han na Assembleia Geral ocorreu entre 24 e 26 de setembro.

Segundo Han, o cenário internacional é marcado pela persistência de conflitos geopolíticos, pelo aumento das diferenças de desenvolvimento entre países e pela multiplicação de desafios que não podem ser solucionados isoladamente. Nesse contexto, o vice-presidente apresentou as quatro iniciativas globais formuladas pelo presidente Xi Jinping — Desenvolvimento, Segurança, Civilização e Governança Global — como parte da proposta chinesa para enfrentar esses problemas e reformar o sistema de governança internacional.

Na área de segurança, Han defendeu a preservação do sistema internacional centrado nas Nações Unidas e da ordem internacional estabelecida após a Segunda Guerra Mundial. Segundo ele, disputas entre países devem ser solucionadas pelo diálogo e pela consulta, com respeito à Carta da ONU e ao direito internacional. O vice-presidente também se posicionou contra ações militares unilaterais realizadas sem autorização do Conselho de Segurança e afirmou que as grandes potências têm responsabilidade especial na preservação da paz.

<><> Desenvolvimento e Sul Global

O desenvolvimento ocupou posição central no discurso chinês. Han defendeu uma parceria internacional baseada em igualdade e inclusão, com prioridade para redução da pobreza, segurança alimentar e transição energética. Também cobrou dos países desenvolvidos o cumprimento de compromissos de financiamento para o desenvolvimento e para o enfrentamento das mudanças climáticas.

A China também voltou a destacar a necessidade de ampliar a representação e a voz dos países do Sul Global nas instituições internacionais. Segundo Han, eventuais reformas das Nações Unidas devem fortalecer a organização e aumentar sua capacidade de responder às transformações do sistema internacional, preservando ao mesmo tempo o princípio da igualdade soberana entre os Estados.

A redução da desigualdade tecnológica foi outro ponto abordado. Ao tratar da inteligência artificial, Han defendeu uma abordagem centrada nas pessoas, capaz de utilizar a tecnologia para o desenvolvimento e para o bem comum. Para o governo chinês, a expansão da IA deve ser acompanhada de esforços para diminuir a desigualdade digital e distribuir seus benefícios de maneira mais ampla.

Na economia, o vice-presidente criticou o protecionismo e defendeu a preservação do sistema multilateral de comércio centrado na Organização Mundial do Comércio. Segundo ele, nenhum país consegue se desenvolver plenamente sem um ambiente internacional aberto e cooperativo.

<><> Diálogo entre diferentes civilizações

Han também relacionou a estabilidade internacional ao respeito à diversidade cultural e política. A posição apresentada por Pequim é de que os países devem respeitar os caminhos de desenvolvimento escolhidos por outros povos e ampliar o diálogo entre diferentes civilizações, evitando preconceitos ideológicos e tentativas de estabelecer modelos universais.

Nesse sentido, a China sustenta que países grandes e pequenos devem participar em condições de igualdade da governança internacional e que decisões sobre problemas globais precisam ser construídas por meio de consultas. Pequim também defende reformas destinadas a tornar o sistema internacional mais representativo dos países em desenvolvimento.

O vice-presidente lembrou ainda que 2026 marca 55 anos da restauração do assento da República Popular da China nas Nações Unidas, determinada pela Resolução 2758 da Assembleia Geral em 1971. Han afirmou que, desde então, seu país tem procurado contribuir para a estabilidade internacional, o desenvolvimento econômico e a ampliação da participação dos países em desenvolvimento na governança mundial.

Segundo dados apresentados por Han, a China respondeu por aproximadamente 30% do crescimento econômico mundial nos últimos anos e mobilizou mais de US$ 23 bilhões por meio da Iniciativa de Desenvolvimento Global. O país também concedeu acesso com tarifa zero aos produtos provenientes dos países africanos e das nações menos desenvolvidas com as quais mantém relações diplomáticas.

Ao encerrar sua participação, Han reafirmou a visão de Pequim de que os grandes desafios contemporâneos exigem mais cooperação internacional, e não menos. A proposta chinesa, segundo o vice-presidente, passa pelo fortalecimento das Nações Unidas, pelo diálogo para a solução de conflitos, pelo desenvolvimento compartilhado e pela construção de uma ordem internacional em que os países do Sul Global tenham maior participação nas decisões.

¨      Irã insiste em solução diplomática após Trump rejeitar plano de paz

O governo do Irã reiterou neste domingo (27) que apenas a diplomacia pode resolver o conflito com os Estados Unidos e Israel, após o presidente norte-americano Donald Trump declarar que rejeitou a proposta iraniana para reabrir o Estreito de Ormuz e encerrar os combates na região, informa a agência de notícias Reuters.

“Nossas condições são claras, e qualquer movimento no sentido de reabrir o Estreito de Ormuz está condicionado ao cumprimento dessas condições”, afirmou o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, em publicação nas redes sociais. “Apenas uma solução negociada pode nos tirar desse impasse”, completou o diplomata.

A proposta de paz de Teerã foi apresentada na semana passada durante a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, e transmitida às autoridades norte-americanas por meio de mediadores do Catar. O plano estabelecia uma contagem regressiva de sete dias para a reabertura do estreito e uma pausa nos combates regionais.

Segundo Araqchi, a aprovação do plano inicial permitiria que as partes em conflito iniciassem conversações mais amplas. “Se houver seriedade do lado dos EUA para chegar a um acordo e reabrir o Estreito de Ormuz, tudo está preparado agora”, disse o chanceler a jornalistas na ONU, ressaltando que a pauta posterior incluiria “assuntos mutuamente acordados”.

No entanto, Trump afirmou no sábado (26) à imprensa que recusou o plano e alegou que o desespero financeiro impulsiona a busca dos iranianos por um entendimento sobre a rota marítima. “Eles querem fazer um acordo para abrir o Estreito de Ormuz imediatamente porque estão perdendo muito feio”, declarou o presidente dos EUA a jornalistas na Casa Branca.

Apesar do posicionamento público de Trump, a diplomacia iraniana afirmou que a negativa não foi formalmente repassada pelos canais de mediação. “Estamos aguardando que os mediadores nos transmitam as posições definitivas, e tomaremos uma decisão com base nelas”, explicou Araqchi.

<><> Bloqueio e bastidores em Washington

Os Estados Unidos mantêm um bloqueio econômico ao Irã com o objetivo de pressionar Teerã a interromper ataques contra embarcações no Estreito de Ormuz. Os incidentes reduziram drasticamente o tráfego comercial pela região, embora Washington afirme repetidamente ter o controle da via navegável.

O jornal The Wall Street Journal revelou que Trump rejeitou a proposta iraniana por ceticismo de que Teerã vá atender às suas exigências. Segundo autoridades norte-americanas citadas pelo periódico, o presidente disse à sua equipe que considera provável uma nova campanha de bombardeios após as eleições parlamentares de novembro nos EUA.

Por outro lado, declarações de outros representantes do governo norte-americano divergiram do tom do presidente, classificando as conversas indiretas promovidas pelos mediadores como “positivas e construtivas”.

O comandante-em-chefe do Exército do Irã, Amir Hatami, alertou que o conflito atingiu uma etapa crítica e decisiva, deixando claro que Teerã não aceitará ficar impedido de comercializar enquanto forças estrangeiras utilizam as rotas marítimas estratégicas da região. “Se o Irã não puder negociar, se o Irã não puder viver, ninguém poderá negociar ou viver”, disse o comandante militar em declarações transmitidas pela mídia estatal iraniana.

<><> Impactos no mercado global e a questão nuclear

O impasse no Estreito de Ormuz já dura sete meses e causa sérias perturbações no fluxo internacional de petróleo, afetando a economia global e levando o Irã a dialogar também com a Arábia Saudita sobre a segurança no canal.

As potenciais conversações posteriores poderiam incluir o programa nuclear iraniano. Trump citou a prevenção de que Teerã adquira uma bomba nuclear como um dos principais objetivos ao iniciar a guerra, além de buscar encerrar a capacidade do Irã de atacar vizinhos e criar condições para que a população iraniana derrube seus líderes.

Contudo, uma autoridade sênior do governo iraniano declarou à agência Reuters que o país não mostrará flexibilidade nem cederá em relação aos seus direitos nucleares, o que inclui a continuação do enriquecimento de urânio e a recusa em enviar seu estoque altamente enriquecido para fora do território.

Em entrevista ao programa “Face the Nation“, da emissora norte-americana CBS, o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, reforçou a disposição do país para o diálogo sobre o programa nuclear e outros temas, mas rejeitou qualquer tipo de intimidação. “O Irã não busca a guerra, mas se defenderá contra pressões, ameaças e ataques”, declarou Pezeshkian, reiterando que seu país já concordou que “não devemos desenvolver armas nucleares”.

 

Fonte: Por Mario Vitor Santos, em Brasil 247

 

Nenhum comentário: