Leonardo
Attuch: O eleitor brasileiro está a menos de uma semana da escolha mais fácil
de sua vida
O
eleitor brasileiro está a menos de uma semana de uma escolha que, talvez como
poucas vezes em nossa história recente, permite comparar não apenas dois
candidatos, mas duas biografias, duas experiências políticas e duas concepções
de Brasil. De um lado está Luiz Inácio Lula da Silva, um personagem que
atravessou praticamente meio século da história brasileira. Líder sindical,
fundador do maior partido de esquerda da América Latina, deputado constituinte
e presidente da República por três mandatos, Lula chega a esta eleição depois
de ter comandado novamente o país durante quatro anos e, portanto, com uma obra
concreta que pode ser julgada pelos brasileiros.
Do
outro está Flávio Bolsonaro, cuja principal credencial política deriva de seu
sobrenome e de sua ligação com o movimento político criado pelo pai, Jair
Bolsonaro. Sua trajetória parlamentar e política está disponível para o
escrutínio público, assim como suas posições, seus votos, suas controvérsias e
o legado do campo político que representa. É legítimo que cada brasileiro faça
sua própria comparação, mas essa comparação não pode prescindir dos resultados
concretos produzidos pelos diferentes projetos que disputam o comando do país.
No
terceiro mandato de Lula, o Brasil alcançou os menores índices de desemprego de
sua série histórica, enquanto a economia cresceu acima de diversas previsões
pessimistas feitas no início do governo. O combate à pobreza e à insegurança
alimentar voltou ao centro das políticas públicas, o Brasil saiu novamente do
Mapa da Fome, o BNDES recuperou protagonismo no financiamento do
desenvolvimento e a Petrobras voltou a ocupar posição central na estratégia
brasileira de energia, investimentos e industrialização. São resultados que
podem e devem ser confrontados com as dificuldades ainda existentes, mas que
formam um balanço concreto do período.
Na
política externa, o Brasil voltou a participar ativamente das grandes
discussões internacionais. Reconstruiu relações com seus vizinhos, aprofundou
sua participação no BRICS, retomou protagonismo nas discussões ambientais e
procurou manter relações simultaneamente construtivas com Estados Unidos,
China, União Europeia, Rússia e o conjunto do Sul Global. Mais importante
ainda, Lula recolocou a soberania nacional no centro do debate político
brasileiro, justamente num momento em que o mundo se torna mais instável e a
competição entre as grandes potências se intensifica.
Em um
cenário marcado pela volta das guerras comerciais, pela disputa tecnológica e
pela crescente utilização de tarifas, sanções e instrumentos financeiros como
mecanismos de pressão política, o presidente brasileiro passou a defender uma
ideia elementar: o Brasil deve cooperar com todos, mas subordinar-se a ninguém.
É provavelmente nesse terreno que aparece uma das características mais
marcantes do Lula que chega a esta eleição. Aos 80 anos, ele demonstra uma
compreensão do sistema internacional que resulta não apenas da experiência
política, mas de décadas de convivência com chefes de Estado, empresários,
sindicalistas, intelectuais e movimentos sociais de praticamente todas as
regiões do planeta.
Pode-se
concordar ou discordar de Lula, de suas escolhas econômicas ou de suas posições
internacionais, mas é difícil ignorar a dimensão histórica de sua trajetória e
a experiência acumulada ao longo dela. Lula chega ao fim do terceiro mandato no
auge de sua maturidade política e intelectual, depois de ter participado
diretamente das grandes transformações brasileiras das últimas cinco décadas e
de ter construído relações pessoais com algumas das principais lideranças
mundiais de diferentes gerações.
Naturalmente,
o terceiro mandato também deixa problemas importantes, e talvez o principal
deles seja a trajetória da dívida pública. O crescimento do endividamento
brasileiro exige responsabilidade fiscal, crescimento econômico e uma
estratégia capaz de reduzir progressivamente a relação entre dívida e PIB sem
sacrificar investimentos públicos nem destruir políticas sociais. Não é um
problema pequeno, mas tampouco é um desafio desconhecido por Lula e por uma
equipe econômica que terá de enfrentá-lo nos próximos anos.
Em seu
segundo mandato, o Brasil combinou crescimento, redução da relação entre dívida
líquida e PIB, acumulação de reservas internacionais e conquista do grau de
investimento pelas principais agências internacionais de classificação de
risco. Isso evidentemente não significa que a história vá se repetir
automaticamente, porque as circunstâncias nacionais e internacionais são
diferentes, mas demonstra que equilíbrio fiscal, crescimento econômico e
inclusão social não precisam ser objetivos incompatíveis.
É
exatamente por isso que esta eleição deveria ser discutida menos como uma
guerra de identidades políticas e mais como uma comparação de trajetórias. De
um lado, está um presidente cuja biografia inclui a reconstrução democrática do
movimento sindical, a Constituinte, três mandatos presidenciais, políticas
sociais que transformaram o país e uma projeção internacional que poucos
líderes brasileiros alcançaram. Do outro, Flávio Bolsonaro, senador pelo Rio de
Janeiro e herdeiro político do movimento de extrema-direita criado por seu pai,
marcado por violência, negacionismo e isolamento internacional do Brasil.
Há
ainda outras candidaturas, que cumprem um papel legítimo numa democracia e
representam segmentos reais da sociedade brasileira. Entretanto, as pesquisas
disponíveis nesta reta final mostram uma disputa fortemente concentrada nos
dois principais candidatos, ainda que haja diferenças entre institutos e
cenários e que somente as urnas possam determinar o resultado. A chamada
terceira via, pelo menos até aqui, não conseguiu romper essa polarização nem
construir uma alternativa com dimensão eleitoral semelhante à dos dois campos
predominantes.
A
eleição coloca, portanto, diante dos brasileiros uma comparação
excepcionalmente concreta. Não se trata de escolher entre duas promessas
abstratas de futuro: um dos candidatos governou o Brasil por doze anos e pode
ser avaliado por aquilo que efetivamente realizou, enquanto o outro representa
a continuidade de uma experiência política igualmente conhecida pelos
brasileiros. O eleitor dispõe de informações abundantes sobre ambos, conhece
suas histórias, seus aliados, seus adversários, suas realizações e suas
controvérsias e conhece também o Brasil produzido por cada projeto político.
Daqui a
uma semana, cada cidadão entrará sozinho na cabine de votação para tomar sua
decisão. Depois de uma campanha marcada por enorme polarização e por uma
quantidade quase sufocante de informações, talvez a melhor maneira de encarar
esse momento seja justamente voltar ao essencial: comparar biografias,
resultados, projetos de país e a capacidade demonstrada por cada candidato para
exercer a Presidência da República. Poucas vezes o eleitor brasileiro encontrou
diante de si uma escolha tão simples, que consiste em conferir ao presidente
Lula a oportunidade de seguir trabalhando pelo povo brasileiro e por uma ordem
internacional mais justa.
• Renato Janine Ribeiro: O eleitor
desencantado
Penso
que o grande problema da política brasileira é que estamos há tanto tempo
vivendo um ambiente de denúncias ininterruptas que boa parte da população
perdeu toda e qualquer esperança nela. Cresce assim a figura do eleitor
desencantado, que já não acredita que o voto possa melhorar coisa alguma.
Esse
ambiente de denuncismo começa com a Lava Jato e depois se prolonga a tal ponto
que hoje a maior parte da cobertura jornalística das campanhas é para saber
quem se relacionou, e de que modo, com o banqueiro Daniel Vorcaro, que
atualmente encarna todo desvio de dinheiro público que possa haver. Quando
Flávio Bolsonaro disse que o dinheiro que pretendia sacar do banqueiro era
público e não privado, ninguém acreditou. Mas o problema não está aí.
O
problema é que, quando todos os atores da política passam a ser vistos como de
alguma forma corruptos, o voto é desprezado. Wanderley Guilherme dos Santos
chamou a atenção para o fato de que a Operação Lava Jato criminalizava a
atuação política. É verdade: a questão, por exemplo, de trocar votos por verbas
para tal ou qual cidade do interior – que faz absolutamente parte da ação
política – passou a ser tão obscena quanto sacar dinheiro para vantagem
pessoal, o que realmente é errado ética e legalmente.
Disso
resulta que hoje, quando o ministro Flávio Dino cobra as justificativas para as
despesas incorridas por alguma verba parlamentar, isso não causa grande
diferença. O que ele procura não é criminalizar toda emenda parlamentar; quer
simplesmente distinguir o joio do trigo, distinguir as emendas que efetivamente
vão beneficiar alguma coisa, que fazem sentido, e aquelas que não fazem.
Vamos a
um exemplo: cidades pequenas e pobres têm pago cachês na ordem de R$ 1 milhão
para cantores sertanejos, quase sempre de extrema-direita, quando lhes falta o
básico na área de educação e saúde. Isso faz diferença na cabeça de uma parte
da população? Talvez não faça.
Como
elas já esperam o pior do político, são capazes de considerar melhor um show
que as divertiu por algumas horas e lhes deu conversa por alguns dias, que
colocou sua cidade no horizonte por um tempo, do que a falta de remédios na
farmácia pública, que talvez já achem inevitável.
Parte
disso começou com “vote em Tiririca, pior que está não fica”: eleger um
palhaço, que nos seus mandatos não realizou absolutamente nada. Isso é absurdo,
mas não é tão diferente de eleger um Flávio Bolsonaro, que ao longo de seus
mandatos não fez aprovar nenhum projeto de lei seu que beneficiasse a
sociedade, enquanto, nos comícios, dança.
Assim,
a grande questão hoje não é simplesmente escolher direita ou esquerda. É saber
se vamos retomar a crença no voto e na política. Boa parte do eleitorado se
desencantou do voto; acredita que qualquer voto vai resultar simplesmente na
mudança do ladrão na política.
Neste
contexto, defender o voto em Lula não é só defender o voto num candidato
progressista; é defender o voto em alguém que ainda propõe a política como via
de solução para a sociedade brasileira. Mas alguém pode perguntar: por que Lula
e não Ronaldo Caiado, e não Romeu Zema, e não algum nome de uma direita
radical, que talvez beire o extremismo, mas pelo menos não é bolsonarista?
Pela
simples razão de que Lula é o mais consistente na defesa da ideia de que o
voto, de que a política, constitui meio para conseguir duas grandes finalidades
importantes.
A
primeira finalidade é nacional: a defesa da soberania dentro de um quadro
democrático, o que significa não apenas nos defender contra Donald Trump, que
quer roubar nossos minerais, mas também defender o direito da maior parte da
população de escolher seu destino. É, portanto, a defesa da própria democracia.
A
segunda grande finalidade é a questão social. Faz um século, constava que o
presidente Washington Luís teria dito que a questão social é um caso de
polícia: greves e manifestações de trabalhadores deveriam ser lidadas com
repressão policial, com o cassetete. É duvidoso que ele tenha dito isso, mas a
frase expressa uma mentalidade que foi forte no Brasil, culminando na ditadura
militar.
Pois
bem: questão social não é caso de polícia; é caso de justiça. Precisa ser
tratada de modo que todas as pessoas, a começar pelos mais pobres, tenham as
mesmas oportunidades. A consistência das políticas de Lula vai nessa direção.
Então o
que temos? Temos a proposta de uma educação que melhore em duas pontas: por um
lado, uma educação básica que adquira qualidade, com distribuição de livros
didáticos, formação melhor de professores, remuneração justa de quem está na
sala de aula; por outro lado, uma educação superior que dê aos mais pobres
talentosos a oportunidade de porem seu talento a serviço do país, ao mesmo
tempo que possam subir na vida.
Some-se
uma saúde pública que continue reduzindo a mortalidade infantil, que pela
vacinação elimine uma série de doenças que já não são inevitáveis e que, pelo
acompanhamento constante das pessoas numa rede pública de saúde, garanta não só
uma expectativa de vida mais longa, mas também uma qualidade de vida superior,
com menos doenças, com mais aproveitamento da vida, tanto no trabalho quanto no
lazer.
Acrescente-se
uma política de valorização do PIB, ou seja, da produção de bens e serviços,
que, com apoio em alguns pontos fundamentais – destacando a ciência, tecnologia
e inovação, que são talvez hoje os fatores principais na produção –, faça a
convergência com saúde e educação públicas para tornarmos o Brasil um país mais
próspero e mais socialmente justo.
É esta
política que Lula propõe. Por isso é tão importante explicar às pessoas a
consistência dessa política, mostrar quais efeitos pode produzir positivamente
para a sociedade. Assim, a reabilitação da política com a qual comecei este
artigo vem junto com a defesa de uma democracia consistente e de forte perfil
social.
Fonte:
Brasil 247

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