terça-feira, 29 de setembro de 2026

Leonardo Attuch: O eleitor brasileiro está a menos de uma semana da escolha mais fácil de sua vida

O eleitor brasileiro está a menos de uma semana de uma escolha que, talvez como poucas vezes em nossa história recente, permite comparar não apenas dois candidatos, mas duas biografias, duas experiências políticas e duas concepções de Brasil. De um lado está Luiz Inácio Lula da Silva, um personagem que atravessou praticamente meio século da história brasileira. Líder sindical, fundador do maior partido de esquerda da América Latina, deputado constituinte e presidente da República por três mandatos, Lula chega a esta eleição depois de ter comandado novamente o país durante quatro anos e, portanto, com uma obra concreta que pode ser julgada pelos brasileiros.

Do outro está Flávio Bolsonaro, cuja principal credencial política deriva de seu sobrenome e de sua ligação com o movimento político criado pelo pai, Jair Bolsonaro. Sua trajetória parlamentar e política está disponível para o escrutínio público, assim como suas posições, seus votos, suas controvérsias e o legado do campo político que representa. É legítimo que cada brasileiro faça sua própria comparação, mas essa comparação não pode prescindir dos resultados concretos produzidos pelos diferentes projetos que disputam o comando do país.

No terceiro mandato de Lula, o Brasil alcançou os menores índices de desemprego de sua série histórica, enquanto a economia cresceu acima de diversas previsões pessimistas feitas no início do governo. O combate à pobreza e à insegurança alimentar voltou ao centro das políticas públicas, o Brasil saiu novamente do Mapa da Fome, o BNDES recuperou protagonismo no financiamento do desenvolvimento e a Petrobras voltou a ocupar posição central na estratégia brasileira de energia, investimentos e industrialização. São resultados que podem e devem ser confrontados com as dificuldades ainda existentes, mas que formam um balanço concreto do período.

Na política externa, o Brasil voltou a participar ativamente das grandes discussões internacionais. Reconstruiu relações com seus vizinhos, aprofundou sua participação no BRICS, retomou protagonismo nas discussões ambientais e procurou manter relações simultaneamente construtivas com Estados Unidos, China, União Europeia, Rússia e o conjunto do Sul Global. Mais importante ainda, Lula recolocou a soberania nacional no centro do debate político brasileiro, justamente num momento em que o mundo se torna mais instável e a competição entre as grandes potências se intensifica.

Em um cenário marcado pela volta das guerras comerciais, pela disputa tecnológica e pela crescente utilização de tarifas, sanções e instrumentos financeiros como mecanismos de pressão política, o presidente brasileiro passou a defender uma ideia elementar: o Brasil deve cooperar com todos, mas subordinar-se a ninguém. É provavelmente nesse terreno que aparece uma das características mais marcantes do Lula que chega a esta eleição. Aos 80 anos, ele demonstra uma compreensão do sistema internacional que resulta não apenas da experiência política, mas de décadas de convivência com chefes de Estado, empresários, sindicalistas, intelectuais e movimentos sociais de praticamente todas as regiões do planeta.

Pode-se concordar ou discordar de Lula, de suas escolhas econômicas ou de suas posições internacionais, mas é difícil ignorar a dimensão histórica de sua trajetória e a experiência acumulada ao longo dela. Lula chega ao fim do terceiro mandato no auge de sua maturidade política e intelectual, depois de ter participado diretamente das grandes transformações brasileiras das últimas cinco décadas e de ter construído relações pessoais com algumas das principais lideranças mundiais de diferentes gerações.

Naturalmente, o terceiro mandato também deixa problemas importantes, e talvez o principal deles seja a trajetória da dívida pública. O crescimento do endividamento brasileiro exige responsabilidade fiscal, crescimento econômico e uma estratégia capaz de reduzir progressivamente a relação entre dívida e PIB sem sacrificar investimentos públicos nem destruir políticas sociais. Não é um problema pequeno, mas tampouco é um desafio desconhecido por Lula e por uma equipe econômica que terá de enfrentá-lo nos próximos anos.

Em seu segundo mandato, o Brasil combinou crescimento, redução da relação entre dívida líquida e PIB, acumulação de reservas internacionais e conquista do grau de investimento pelas principais agências internacionais de classificação de risco. Isso evidentemente não significa que a história vá se repetir automaticamente, porque as circunstâncias nacionais e internacionais são diferentes, mas demonstra que equilíbrio fiscal, crescimento econômico e inclusão social não precisam ser objetivos incompatíveis.

É exatamente por isso que esta eleição deveria ser discutida menos como uma guerra de identidades políticas e mais como uma comparação de trajetórias. De um lado, está um presidente cuja biografia inclui a reconstrução democrática do movimento sindical, a Constituinte, três mandatos presidenciais, políticas sociais que transformaram o país e uma projeção internacional que poucos líderes brasileiros alcançaram. Do outro, Flávio Bolsonaro, senador pelo Rio de Janeiro e herdeiro político do movimento de extrema-direita criado por seu pai, marcado por violência, negacionismo e isolamento internacional do Brasil.

Há ainda outras candidaturas, que cumprem um papel legítimo numa democracia e representam segmentos reais da sociedade brasileira. Entretanto, as pesquisas disponíveis nesta reta final mostram uma disputa fortemente concentrada nos dois principais candidatos, ainda que haja diferenças entre institutos e cenários e que somente as urnas possam determinar o resultado. A chamada terceira via, pelo menos até aqui, não conseguiu romper essa polarização nem construir uma alternativa com dimensão eleitoral semelhante à dos dois campos predominantes.

A eleição coloca, portanto, diante dos brasileiros uma comparação excepcionalmente concreta. Não se trata de escolher entre duas promessas abstratas de futuro: um dos candidatos governou o Brasil por doze anos e pode ser avaliado por aquilo que efetivamente realizou, enquanto o outro representa a continuidade de uma experiência política igualmente conhecida pelos brasileiros. O eleitor dispõe de informações abundantes sobre ambos, conhece suas histórias, seus aliados, seus adversários, suas realizações e suas controvérsias e conhece também o Brasil produzido por cada projeto político.

Daqui a uma semana, cada cidadão entrará sozinho na cabine de votação para tomar sua decisão. Depois de uma campanha marcada por enorme polarização e por uma quantidade quase sufocante de informações, talvez a melhor maneira de encarar esse momento seja justamente voltar ao essencial: comparar biografias, resultados, projetos de país e a capacidade demonstrada por cada candidato para exercer a Presidência da República. Poucas vezes o eleitor brasileiro encontrou diante de si uma escolha tão simples, que consiste em conferir ao presidente Lula a oportunidade de seguir trabalhando pelo povo brasileiro e por uma ordem internacional mais justa.

•        Renato Janine Ribeiro: O eleitor desencantado

Penso que o grande problema da política brasileira é que estamos há tanto tempo vivendo um ambiente de denúncias ininterruptas que boa parte da população perdeu toda e qualquer esperança nela. Cresce assim a figura do eleitor desencantado, que já não acredita que o voto possa melhorar coisa alguma.

Esse ambiente de denuncismo começa com a Lava Jato e depois se prolonga a tal ponto que hoje a maior parte da cobertura jornalística das campanhas é para saber quem se relacionou, e de que modo, com o banqueiro Daniel Vorcaro, que atualmente encarna todo desvio de dinheiro público que possa haver. Quando Flávio Bolsonaro disse que o dinheiro que pretendia sacar do banqueiro era público e não privado, ninguém acreditou. Mas o problema não está aí.

O problema é que, quando todos os atores da política passam a ser vistos como de alguma forma corruptos, o voto é desprezado. Wanderley Guilherme dos Santos chamou a atenção para o fato de que a Operação Lava Jato criminalizava a atuação política. É verdade: a questão, por exemplo, de trocar votos por verbas para tal ou qual cidade do interior – que faz absolutamente parte da ação política – passou a ser tão obscena quanto sacar dinheiro para vantagem pessoal, o que realmente é errado ética e legalmente.

Disso resulta que hoje, quando o ministro Flávio Dino cobra as justificativas para as despesas incorridas por alguma verba parlamentar, isso não causa grande diferença. O que ele procura não é criminalizar toda emenda parlamentar; quer simplesmente distinguir o joio do trigo, distinguir as emendas que efetivamente vão beneficiar alguma coisa, que fazem sentido, e aquelas que não fazem.

Vamos a um exemplo: cidades pequenas e pobres têm pago cachês na ordem de R$ 1 milhão para cantores sertanejos, quase sempre de extrema-direita, quando lhes falta o básico na área de educação e saúde. Isso faz diferença na cabeça de uma parte da população? Talvez não faça.

Como elas já esperam o pior do político, são capazes de considerar melhor um show que as divertiu por algumas horas e lhes deu conversa por alguns dias, que colocou sua cidade no horizonte por um tempo, do que a falta de remédios na farmácia pública, que talvez já achem inevitável.

Parte disso começou com “vote em Tiririca, pior que está não fica”: eleger um palhaço, que nos seus mandatos não realizou absolutamente nada. Isso é absurdo, mas não é tão diferente de eleger um Flávio Bolsonaro, que ao longo de seus mandatos não fez aprovar nenhum projeto de lei seu que beneficiasse a sociedade, enquanto, nos comícios, dança.

Assim, a grande questão hoje não é simplesmente escolher direita ou esquerda. É saber se vamos retomar a crença no voto e na política. Boa parte do eleitorado se desencantou do voto; acredita que qualquer voto vai resultar simplesmente na mudança do ladrão na política.

Neste contexto, defender o voto em Lula não é só defender o voto num candidato progressista; é defender o voto em alguém que ainda propõe a política como via de solução para a sociedade brasileira. Mas alguém pode perguntar: por que Lula e não Ronaldo Caiado, e não Romeu Zema, e não algum nome de uma direita radical, que talvez beire o extremismo, mas pelo menos não é bolsonarista?

Pela simples razão de que Lula é o mais consistente na defesa da ideia de que o voto, de que a política, constitui meio para conseguir duas grandes finalidades importantes.

A primeira finalidade é nacional: a defesa da soberania dentro de um quadro democrático, o que significa não apenas nos defender contra Donald Trump, que quer roubar nossos minerais, mas também defender o direito da maior parte da população de escolher seu destino. É, portanto, a defesa da própria democracia.

A segunda grande finalidade é a questão social. Faz um século, constava que o presidente Washington Luís teria dito que a questão social é um caso de polícia: greves e manifestações de trabalhadores deveriam ser lidadas com repressão policial, com o cassetete. É duvidoso que ele tenha dito isso, mas a frase expressa uma mentalidade que foi forte no Brasil, culminando na ditadura militar.

Pois bem: questão social não é caso de polícia; é caso de justiça. Precisa ser tratada de modo que todas as pessoas, a começar pelos mais pobres, tenham as mesmas oportunidades. A consistência das políticas de Lula vai nessa direção.

Então o que temos? Temos a proposta de uma educação que melhore em duas pontas: por um lado, uma educação básica que adquira qualidade, com distribuição de livros didáticos, formação melhor de professores, remuneração justa de quem está na sala de aula; por outro lado, uma educação superior que dê aos mais pobres talentosos a oportunidade de porem seu talento a serviço do país, ao mesmo tempo que possam subir na vida.

Some-se uma saúde pública que continue reduzindo a mortalidade infantil, que pela vacinação elimine uma série de doenças que já não são inevitáveis e que, pelo acompanhamento constante das pessoas numa rede pública de saúde, garanta não só uma expectativa de vida mais longa, mas também uma qualidade de vida superior, com menos doenças, com mais aproveitamento da vida, tanto no trabalho quanto no lazer.

Acrescente-se uma política de valorização do PIB, ou seja, da produção de bens e serviços, que, com apoio em alguns pontos fundamentais – destacando a ciência, tecnologia e inovação, que são talvez hoje os fatores principais na produção –, faça a convergência com saúde e educação públicas para tornarmos o Brasil um país mais próspero e mais socialmente justo.

É esta política que Lula propõe. Por isso é tão importante explicar às pessoas a consistência dessa política, mostrar quais efeitos pode produzir positivamente para a sociedade. Assim, a reabilitação da política com a qual comecei este artigo vem junto com a defesa de uma democracia consistente e de forte perfil social.

 

Fonte: Brasil 247

 

Nenhum comentário: