A
pauta lésbica pede passagem a política 2026
A
linguagem política costuma acomodar a diversidade em siglas convenientes, como
já apresentei algumas vezes, mas a realidade concreta das vidas que essas
letras representam exige muito mais do que uma ordem alfabética. O “L”, que
abre a sigla LGBTI+, carrega também uma contradição histórica no Brasil, embora
as mulheres lésbicas estejam há décadas na linha de frente das lutas por
direitos, suas demandas específicas ainda encontram dificuldades para se
converter em políticas públicas, orçamento e compromissos institucionais
permanentes.
Essa
questão esteve no centro da 5ª edição do Encontro Estadual de Lésbicas do Rio
de Janeiro, articulado pelo Instituto Brasileiro de Lésbicas (IBL). Em conversa
com Michelle Seixas, fundadora e diretora-geral da instituição, aparece uma
leitura importante sobre o deslocamento estratégico do encontro,
tradicionalmente realizado em agosto, mês da Visibilidade Lésbica, para
setembro. A mudança não foi apenas de calendário: trata-se de aproximar a
mobilização social do espaço parlamentar e tensionar a institucionalidade em um
período politicamente decisivo.
Quando
uma pauta vira apêndice
A
questão não é disputar espaço dentro de uma sigla. É reconhecer que diferentes
populações experimentam desigualdades específicas e, portanto, precisam também
de políticas capazes de nomeá-las.
Michelle
Seixas sintetiza essa experiência ao apontar que as mulheres lésbicas
frequentemente aparecem como “apêndice” de outras políticas públicas — e que,
mesmo quando incluídas, nem sempre são efetivamente atendidas.
Essa
condição produz um paradoxo: a pauta lésbica está formalmente presente no
discurso da diversidade, mas permanece, muitas vezes, materialmente ausente das
prioridades do Estado.
As
demandas apresentadas pelo movimento organizado mantêm um núcleo concreto de
sobrevivência, autonomia e dignidade.
Saúde
integral. O acesso das mulheres lésbicas à saúde ainda exige enfrentamento da
invisibilização de suas especificidades, do despreparo de profissionais e da
necessidade de qualificar o atendimento ginecológico, preventivo e integral no
Sistema Único de Saúde.
Trabalho
e renda. A autonomia econômica permanece atravessada pelas diversas formas de
discriminação que atingem mulheres lésbicas no mercado de trabalho e restringem
suas possibilidades de independência.
Educação.
O enfrentamento da lesbofobia nas escolas e a construção de ambientes
educacionais seguros são fundamentais para que jovens lésbicas possam existir
sem que a experiência escolar seja marcada pela violência, pelo silenciamento
ou pela expulsão simbólica.
Essas
demandas não são complementares. São políticas de cidadania.
A
fabricação de uma rivalidade que não precisa existir
Há
outro aspecto que merece atenção: a tentativa recorrente de produzir uma
oposição entre mulheres lésbicas, mulheres trans e pessoas intersexo.
Essa
disputa não nasce necessariamente das experiências concretas dos movimentos
organizados. Muitas vezes, ela é produzida e instrumentalizada por discursos
que procuram transformar diferenças políticas e históricas em
incompatibilidades absolutas.
A
posição apresentada por Michelle Seixas é explícita ao rejeitar essa lógica.
Segundo ela, o movimento organizado de lésbicas no Brasil se posiciona contra
as correntes transexcludentes identificadas como Radfem e reconhece a aliança
com mulheres trans.
Essa
afirmação é politicamente relevante porque desloca a discussão: em vez de
aceitar uma suposta guerra entre grupos historicamente submetidos a diferentes
formas de violência, trata-se de perguntar quem se beneficia quando movimentos
sociais são colocados uns contra os outros.
A
existência de especificidades não exige isolamento. Uma agenda lésbica própria
pode, simultaneamente, construir alianças com mulheres bissexuais, travestis,
mulheres trans e pessoas intersexo. Reconhecer diferenças não significa
produzir separações; significa produzir políticas capazes de enxergá-las.
Quando
a ausência também comunica
O
episódio mais incômodo talvez esteja na relação entre discurso político e
presença institucional.
Dos 21
convites dirigidos a representantes do campo progressista para participação no
encontro, segundo o relato apresentado pelo IBL, apenas cinco estiveram
presentes: Indianara Siqueira, Professor Josemar, Dani Balbi, Enfermeira
Regiane e Mônica Cunha.
A
ausência, por si só, não permite concluir sobre as razões individuais de cada
mandato ou parlamentar. Mas ela produz uma pergunta política legítima: qual
lugar ocupa a pauta lésbica na agenda concreta daqueles que afirmam defender
direitos humanos, diversidade e justiça social?
Em
períodos eleitorais, a presença em eventos de movimentos sociais pode adquirir
visibilidade. O desafio está em transformar essa presença episódica em
compromisso continuado: participação na formulação de políticas, defesa de
orçamento, acompanhamento legislativo e responsabilidade pública diante das
demandas apresentadas pelos movimentos.
É nesse
ponto que o discurso precisa encontrar a institucionalidade.
Luana
Barbosa e a disputa pela memória transformada em política
A
história de Luana Barbosa dos Reis, mulher negra, lésbica e periférica
assassinada em 2016 após uma abordagem policial em Ribeirão Preto (SP),
permanece como uma ferida na memória política brasileira.
Uma das
reivindicações associadas a essa memória é a criação do Dia Nacional de
Enfrentamento ao Lesbocídio — Lei Luana Barbosa. O tema está previsto no PL
3.389/2024, apresentado pela deputada Carla Ayres (PT-SC), que propõe
estabelecer 13 de abril como a data nacional de enfrentamento ao lesbocídio. A
proposição recebeu parecer pela aprovação, na forma de substitutivo, na
Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial em outubro de 2025 e
permanece em tramitação na Câmara dos Deputados.
É
importante, portanto, falar corretamente: a Lei Luana Barbosa ainda é uma
proposta legislativa, não uma lei nacional em vigor.
A
diferença entre uma homenagem e uma política pública está justamente aí.
Memória não pode ser apenas cerimônia. Precisa produzir instituições, proteção,
orçamento, prevenção e transformação das condições que permitiram que
determinada violência acontecesse.
O “L”
não pode ser apenas uma letra
Há uma
diferença fundamental entre estar incluída em uma sigla e estar incluída em uma
política pública.
A
primeira pode ser resolvida pela linguagem. A segunda exige disputa
institucional.
Por
isso, a urgência de uma agenda lésbica não deve ser compreendida como
fragmentação das lutas LGBTI+. Ao contrário, quanto mais capazes somos de
reconhecer as especificidades de cada grupo, mais consistente pode ser uma
política de alianças.
O que
está em jogo não é retirar o “L” da sigla, mas impedir que ele permaneça apenas
como uma letra.
Porque
uma política que nomeia mulheres lésbicas, mas não conhece suas necessidades;
que celebra sua existência, mas não garante orçamento; que reconhece sua
violência, mas não constrói mecanismos de proteção; ou que as convoca em
períodos eleitorais, mas desaparece depois das urnas, produz inclusão apenas no
plano discursivo.
O “L”
pode até abrir a sigla, mas não pode continuar fechando a fila das prioridades
políticas.
A
agenda lésbica não pede privilégio, mas especificidade, presença institucional
e compromisso público.
Acredito
que seja a política progressista que precise olhar para si mesma e não apenas
para aquilo que diz defender, mas para as vidas que efetivamente consegue
transformar.
Fonte:
Por Sara York, em Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário